Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Bon Iver no NOS Primavera Sound: intimismo para as massas

Justin Vernon e a sua banda (que proibiram a captação profissional de imagens no seu espetáculo) mostraram empenho num concerto que teria funcionado melhor numa escala mais pequena, ou numa sala fechada

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No primeiro concerto de Bon Iver em Portugal desde 2012, Justin Vernon é o centro - algo espectral, mas o centro - das operações. Frente ao sintetizador ou de guitarra nos braços, o norte-americano (que proibiu a captação de imagens durante o espetáculo) tem à sua frente uma plateia gigantesca. Tal como os passes gerais, os bilhetes diários para esta sexta-feira esgotaram, o que oferece ao homem do Wisconsin uma animadora moldura humana. Por outro lado, a música que Bon Iver continua a fazer (o último álbum, 22, A Million, saiu no ano passado) é de um intimismo que não se coaduna com a energia de milhares de pessoas em ambiente festivaleiro.

Atrás de Bon Iver e da sua banda desfilam imagens de tempestade, símbolos esotéricos, palavras avulso. Depois de ter cancelado boa parte da digressão europeia sem oferecer uma razão, poderíamos pensar que Vernon estava num momento mais recluso da sua carreira. Contudo, o concerto que ofereceu esta noite foi expansivo, até generoso. "O único problema é mesmo não vivermos aqui", disse a certa altura, grato pela receção que tem tido no Porto e elogiando as "vibes" da Invicta. "E o Primavera é o melhor festival, o festival com mais classe do mundo", quis ainda acrescentar.

Não estão em causa as virtudes da capital do norte, nem as desta instituição dos festivais, nascida em Barcelona e transplantada com sucesso para Portugal. Mas quando frente a um palco se reúnem não menos de 20 mil pessoas, de ânimos exaltados pelo convívio, pela alegria de viver ou pela lua cheia, é complicado encontrar disponibilidade mental para ouvir com pormenor o jogo de quente-frio que Bon Iver pratica com alguma mestria.

Depois dos dois primeiros álbuns, Vernon podia ter-se satisfeito com o estatuto de músico que faz Brad Pitt (ou Salvador Sobral) chorar (ambos afirmaram, em entrevista, que usavam a sua música para carpir mágoas). Ao invés disso, procurou novas dimensões (eletrónicas, experimentais, mais crípticas) que, longe de se mostrarem sempre apelativas, pelo menos mostram a ambição daquele que, a espaços, nos faz pensar em Peter Gabriel.

Esta noite, a sede da plateia pelos "êxitos" ("Holocene", "Minnesota, WI" ou "Calgary", do ótimo segundo álbum) foi sendo satisfeita, entre passagens empenhadas pelos temas não tão emblemáticos do álbum mais recente. O jogo de luzes e a vontade que Vernon sempre demonstrou em - com a voz coberta de filtros e vocoder ou "limpa" e, a nosso ver, mais eficaz - partilhar as suas canções deviam ter sido suficientes para o sucesso do espetáculo.

Mas, quando o encore chegou, e com ele a esperada versão acústica de "Skinny Love", o tema que deu a conhecer Bon Iver ao mundo, já nos encontrávamos longe do palco. Perto dele, as conversas eram mais do que muitas; longe, tornava-se ainda mais evidente que um concerto desta natureza funcionaria melhor numa escala menor ou numa sala fechada. Fica para a próxima.