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Rita Carmo

Valete lança forte ataque aos “pirosos”, “vendidos” e “azeiteiros” do hip-hop em Portugal. E o alvo não é Piruka

Canção recém lançada rompe silêncio de 11 anos mas, contrariamente ao que foi dito nas redes sociais, não tem Piruka como alvo

Valete marca o regresso em nome próprio em 2017 - depois de integrar o coletivo Língua Franca com Capicua e os brasileiros Rael e Emicida - com dois novos temas, "Poder" e "Rap Consciente", disponibilizados no final da semana passada no YouTube. Destas duas novidades, "Rap Consciente" é a que tem concentrado atenções devido à sua letra forte em que Valete aponta o dedo a alguém que descreve como "piroso do c******, prodigioso para eles, para nós mais um paspalho".

Por causa de frases como "10 milhões de views, mas quem é que visualiza" muitos interpretaram as farpas de Valete como sendo dirigidas a Piruka, mas é o próprio Valete, em declarações à BLITZ, que põe tudo em pratos limpos: "Não faria sentido nenhum porque para mim o Piruka representa tudo o que queremos desta cultura". O rapper acrescenta: "o facto de o hip-hop poder salvar alguém que tem vida difícil, proporcionar-lhe uma vida digna é algo de inatacável. O Piruka", continua Valete, "fala em altruísmo, em usar o dinheiro que faz para ajudar a família, fala sempre na sua vida antiga de crime como algo de que não se orgulha, não glorifica nada disso. Nada disso é atacável. Precisamos é de mais Pirukas", remata Valete.

Quando questionado se existe então algum alvo específico para as duras rimas de "Rap Consciente", Valete explica que "dificilmente iria alguma vez individualizar estes ataques". "A música", prossegue, "aborda um problema geral: sinto que estamos a perder o hip-hop como ferramenta transformadora. O hip-hop está a ser usado por um movimento de materialismo. É algo que começa nos Estados Unidos onde eu acredito que se está a passar a mais estéril era de sempre na cultura, algo que influencia o que jovens pensam em todo o mundo, incluindo em Portugal. E isso torna difícil encontrar vestígios da matriz original do hip-hop". Valete faz questão ainda de frisar que "não se trata de purismo": "Não digo que a cultura não possa evoluir, claro que sim, mas a essência parece estar a perder-se".

Contactado pela Blitz, o management de Piruka escusou-se a grandes comentários: "Não achamos que haja aí matéria digna de comentário", explicou-nos o manager Pedro Ribeiro, "até porque sabemos que o Valete tem uma boa opinião do Piruka e o próprio Piruka fez um Insta Story a partilhar o vídeo no dia em que saiu. Ele não se sentiu atingido".

Valete conclui explicando à BLITZ que a sua longa pausa se deve ao facto de ter procurado evoluir como artista - "quis ler muito, estudar música, composição, produção" - e assegura que tem estado todos os dias em estúdio a preparar novo material: "Pretendo ainda este ano lançar mais dois ou três temas novos, coisas que eu sinto que precisam de uma abordagem mais urgente".

Morte do meu pai afundou-me no alcoolismo,
Tu sucumbias se vivesses o meu transtorno,
Querem que eu faça música no meio do cataclismo,
Eu estive perto do abismo sem retorno,
Xeg, viu a minha aura dissolvida,
Não vou dizer aqui, aquilo que fizeste por mim X
Viste a minha paz absorvida pelo desgaste,
X, salvaste-me a vida, tu sabes.
Estava em silêncio a viver a minha miséria,
Decadência funérea como dezembros na Sibéria,
Eu vi a vossa caminhada para o universo Pop,
E vi como emporcalharam o Hip Hop,
Bué sons de brisas e primaveras,
Até curto sons de amor mas bro tu exageras,
Com jeitinho faz beicinho, exibe autoestima,
E acaba esse videoclipe com um beijinho na menina.

Piroso do caralho,
Prodigioso para eles, para nos mais um paspalho.
Crónica ânsia para ser a estrela propalada,
Queres ser a estrela mais falada, com a música mais badalada,
Queres ir da calada, até à ascensão supersónica,
Com essa salada sinfónica de baladas radiofónicas.
Piroso do caralho,
És mesmo o tipo de MC excrementoso que eu estraçalho.
Como se a cultura tivesse sido subornada,
Estamos sem voz há muito tempo, nação desgovernada.
Letras eram granadas agora são gangrenadas,
Rap burro, não temos opinião sobre nada.
Manos em Angola perseguidos por ativismo,
Geração Snapchat ancorada no narcisismo,
3ª Guerra Mundial entre Ocidente e Jihadismo,
E nós com rimas de ostentação e materialismo.

Hip Hop em chamas, tenho de ser o MC bombeiro,
Dizer que somos azeiteiros, vendidos, é lisonjeiro,
Antes sentias o frisson do nosso rap guerrilheiro,
Agora já fazemos alianças com kizombeiros.
Observo as sinalizações,
E o teu estilo de prostituta nessas ritualizações,
Nós só queríamos saber de rimas e inovações,
Agora só preocupados com visualizações.
Tu viralizas, enquanto vigarizas,
10 milhões de views mas quem é visualiza,
Essas mesmas pitas atadas na alienação,
Desesperadas por atenção, descascadas no Instagram.
Nunca conquistas a fama, tu és só cobaia,
Capas de revista, deixa isso para a Maia,
Deixa a passadeira vermelha e essa azáfama,
Globos de Ouro, deixa isso para a Ágata.

Falo sem superioridade moral,
No passado em momentos também fui paradoxal,
Faltou-me essência, para manter a dissidência,
Faltou-me cadência, firmeza, coerência.
Mas estou de volta, para dar a reviravolta
De volta ao rap de revolta, pronto para qualquer embate,
Não há empates, de volta ao rap com tomates,
Não há derrotas, de volta ao rap de combate.
De volta à nudez, ye de volta à rudez,
Outra vez de volta para acabar com tanta mudez,
Outra vez de volta com o feeling do rap português,
Sem porquês, morte ao rap burguês.
Como um bruxo, com o capucho na cabeça,
Rimávamos pobreza hoje rimamos roupas de luxo,
Muito rap meigo, muito rap murcho,
Não se poupa cartuchos estou de volta ao rap sujo!