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The National (em 2008)

“Boxer”, dos norte-americanos The National, faz hoje dez anos: recorde a entrevista na Zambujeira do Mar

O álbum de “Slow Show” ou “Fake Empire” saiu a 22 de maio de 2007. Recorde aqui a entrevista de Matt Berninger à BLITZ, antes do concerto no Sudoeste, em agosto desse ano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

São uma banda americana, com certeza - tanto que escolheram o nome a pensar no mesmo tipo de identificação nacional, vaga e indizível, que terá levado Morrissey a baptizar os Smiths (ou Mark Eitzel os American Music Club - e há mais em comum entre estas bandas do que parece à primeira vista). Matt Berninger é o letrista e vocalista que acicata as hostes indie desde Alligator, o primeiro sucesso da banda, em 2005. Foi com ele que falámos na Zambujeira do Mar, horas antes de um concerto agendado para as duas da manhã. Ausentes da entrevista, mas omnipresentes no discurso de Berninger, estiveram os guitarristas (gémeos) Aaron e Bryce Dessner e os também irmãos Scott e Bryan Devendorf, «donos» do baixo e da bateria em 2007, tal como em 1999, ano em que se juntaram no Ohio, a amizade e coesão parecem prevalecer sobre qualquer tentação de vedetismo. Os National, garante Matt Berninger, nunca se habituarão a ter «pessoas que nunca vimos, em sítios onde nunca estivemos, a saber de cor as letras das nossas canções».

É bom que se habituem a avaliar pela reacção, também em Portugal, ao mais recente Boxer, o culto à banda sedeada em Brooklyn, Nova Iorque, veio para ficar.

A primeira vez que os National tocaram em Portugal foi em 2005, em Paredes de Coura. Alligator, o tal álbum--maravilha que quase fez tábua-rasa do que o antecedera (a estreia sem título, de 2001, e o delicado Sad Songs For Dirty Lovers, de 2003), acabava de chegar aos ouvidos dos melómanos, a tempo de garantir à banda modesta mas empenhada recepção. «Lembro-me que foi num festival, com o Nick Cave», recorda Matt Berninger, cujo timbre grave lhe rende, amiúde, comparações com o trovador australiano.

Tindersticks, não só pela voz como pelo intimismo do som, e a armada do pós-punk mais sombrio (ver Interpol ou Editors) são outros pontos de referência para definir a música que os National fazem. Pelos vistos, sem grandes preocupações mas alguma parcimónia: «foi muito excitante saber que, desta vez, ia haver pessoas que iam ouvir o disco mal saísse!», confessa Matt Berninger, quando perguntamos se a atenção angariada por Alligator complicou a tarefa de escrever o seu sucessor.

«Nunca tínhamos estado nessa situação quando fizemos Alligator não sabíamos se as pessoas o iam querer ouvir. Com Boxer, estávamos entusiasmados, porque sabíamos que tínhamos conseguido romper um bocadinho». Depois do impacto de canções como «Mr November», «Secret Meeting» ou «Abel», todas do disco que publicações como a Uncut ou o LA Times consideraram o melhor de 2005, não houve receio de falhar? «Houve momentos em que percebemos que este disco era muito diferente do Alligator, e pensámos: isto não tem berros. será que as pessoas vão ficar desiludidas? Pensámos nisso uns dez minutos e concluímos que sempre fizemos o tipo de canção que nos apaixona», explica Matt Berninger. «Nunca tentámos ser populares e na maior parte das vezes não fomos mesmo», ri. «Acabámos por fazer o disco da mesma maneira de sempre. Não foi fácil, demorou imenso tempo mas todos os nossos discos têm sido difíceis de fazer».

Aparentemente, um dos motivos desta demora crónica são as letras que Matt Berninger escreve, e que a muitos servem de porta de entrada nos discos dos National.

Pessoal mas ambígua, a prosa de Berninger entranha-se com improvável facilidade às primeiras audições mas, a acreditar no autor, não lhe surge do dia para a noite.

«Como não toco guitarra, as letras são o meu serviço», diz. «Para mim, as letras têm de ser boas e demoro muito tempo a consegui-lo. A maior parte do que escrevo não presta é por isso que os nossos discos demoram tanto tempo a ficar prontos». Como descobre Matt Berninger que uma letra está «no ponto»? «Têm de me afectar de alguma maneira. Tenho de senti-las honestas e verdadeiras. Quando as pessoas percebem isso, e gostam, sinto que estou a fazer um bom trabalho».

Não é complicado encontrar, em espaços da internet dedicados a várias bandas, pedaços de letras dos National no lugar reservado ao «manifesto pessoal» ou às citações favoritas. A sensibilidade quase literária, aplicada por Matt Berninger a textos onde real e surreal convivem com elegância, justifica a devoção. «Anoto pequenos pormenores que pareçam interessantes», revela. «Às vezes parecem benignos, vulgares, mas julgo que as canções também precisam disso, para se ancorarem na realidade. Na mesma canção, ponho pormenores muito específicos e mundanos, lado a lado com metáforas mais abstractas, e a combinação é que dá peso e honestidade à canção». Um exemplo é «Fake Empire», o magnífico tema de abertura de Boxer, nascido de uns esboços de Bryce Dessner à guitarra e da frase «we're half awake in a fake empire», rabiscada algures por Matt Berninger.

«Há quem a interprete como canção política, o que eu entendo -porque parte de uma observação algo política -, mas o resto da canção é mais sobre escapar, sobre a necessidade de permanecer meio adormecido ou meio acordado. Tornou-se numa canção sobre abandonar tudo e ficar num mundo de fantasia. É menos uma canção política e mais uma canção sobre embebedares-te um bocadinho e fingires que está tudo bem», elucida. «Surgiu muito rapidamente e tornou-se a canção perfeita para abrir o disco, porque cria ali um ambiente e o resto do disco também lida com esse tipo de coisa: desligares-te».

A música dos National é, regra geral, intimista, quase ensimesmada. Mas as plateias para as quais vêm tocando reagem de forma extremamente emocional e mesmo física. «É muito estranho escrever canções íntimas, quase privadas, no meu quarto e tocá-las ao vivo frente a mil estranhos». A banda agradece, porém, todos os gramas de carinho: «há sete anos que fazemos discos e chegar a um ponto em que tocamos em todo o mundo, e temos pessoas que viajam de longe para nos ver, [faz-nos crer] que há realmente um culto dedicado de pessoas apaixonadas pelos discos. É um sentimento que nos dá uma validação incrível», reconhece. «Porque nós estamos apaixonados pelos discos e somos obcecados por fazer canções. Ter estranhos a reagir aos discos dessa forma é tão bom, que nem consigo descrever como».

Ao vivo, a banda alimenta-se da energia do público e de um ou outro combustível.

«Acho que olhamos para dentro, para comunicarmos, para tentar entrar dentro da música», analisa Berninger. «Alguns concertos são mais reservados, outros mais atribulados depende do quanto bebermos antes», adianta. «Acho que não somos grandes "entertainers"; somos uma banda introvertida, mas as pessoas podem sentir--se tão tocadas por isso como pelos Mötley Crue. É uma energia diferente».

Comparados aos Arcade Fire, pela relação íntima que a sua música estabelece com os fãs, os National elogiam os «reis» do indie («Eles são a melhor banda do mundo, e graças a Deus que estão a crescer!») e riem-se daqueles que os criticam pelo facto de serem cada vez mais populares. «Nós queremos ser populares. Queremos que o máximo possível de pessoas ouça estas canções», diz Matt Berninger. «Fazemos os discos para nós mas quanto mais pessoas se apaixonarem e usufruírem deles, mais contentes ficamos».

Tensão, medo, adrenalina, paixão, ligação emocional todos os fenómenos escrutinados por Berninger ao longo da entrevista concretizam-se, eventualmente e tal como nas suas letras, numa imagem bastante concreta: «a ideia de, um dia, pessoas de todo o mundo estarem a ouvir as músicas que tu fizeste nos seus auscultadores é o melhor sentimento que pode haver».