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Soundgarden: um clássico nas cinzas do grunge

Lançado em 1994, “Superunknown” mudou os Soundgarden. De banda estimada nos circuitos do grunge e metal alternativos, Chris Cornell, Kim Thayil, Ben Shepherd e Matt Cameron passaram a gigantes do rock. Regressamos aos anos 90 para explicar como se deu a metamorfose

Kim Thayil, guitarrista dos Soundgarden, lembra-se bem das gravações de Superunknown, quarto álbum da banda que estava prestes a chegar ao primeiro lugar do top norte-americano. Entre julho e setembro de 1993 o tempo estava quente, situação invulgar para Seattle, a cidade do nordeste dos Estados Unidos que, em plena década de 1990, servia de berço à explosão grunge. Nirvana e Pearl Jam eram, obviamente, os pontas-de-lança de um movimento mais heterogéneo do que o tentavam pintar: se Cobain, Novoselic e Grohl não renegavam as raízes punk e hardcore, os Pearl Jam inspiravam-se amplamente no rock clássico e, à volta destes dois «faróis», dezenas de outros grupos, de longevidade e originalidade variáveis, tentavam cavalgar a onda de notoriedade gerada pelo êxito de Nevermind ou Ten.

Formados em 1984, os Soundgarden acrescentavam ao caldeirão de influências do grunge os seus ingredientes: Led Zeppelin e Black Sabbath eram as referências mais óbvias de uma banda que tinha em Chris Cornell um vocalista imperial e no baixista Ben Shepherd, no grupo desde 1990, um amante da experimentação. Mas outros sons animavam os autores de Badmotorfinger, o primeiro grupo do movimento a conseguir contrato com uma grande editora (a A&M, com quem assinaram ao segundo álbum, Louder Than Love). «Quando nos juntámos, éramos uma banda pós-punk, bem estranha», disse Chris Cornell ao The Guardian, no ano passado. «Depois alguém encontrou aquele rock psicadélico neo-Black Sabbath que nos ficava bem». Beatles e Pink Floyd, com particular enfoque na fase Syd Barrett, são outros dos heróis de Cornell, vocalista que nunca tentou fugir ao que o excitava e que, apesar de nos anos 90 ter ganho estatuto de deus do rock, sempre demonstrou apetite por uma palete mais ampla de sonoridades. «A minha forma de cantar sempre teve mais a ver com David Bowie do que com AC/ DC», explicou, numa longa entrevista à Spin, a propósito do 20º aniversário de Superunknown. «Quando era criança, sentava-me a ouvir a obra toda dos Beatles, vezes sem conta. Isso influencioume porque eles tinham quatro cantores e eu nunca sabia quem estava a cantar. Era miúdo, nem queria saber. Achava que o rock era aquilo mesmo e que assim é que se fazia um álbum: cantar cada canção com o sentimento que ela pede. O Superunknown é um grande exemplo disto mesmo. [Eu pensava sempre]: quem é esta pessoa, sobre o que é que está a cantar, como é que deve soar?»

"Superunknown", dos Soundgarden, lançado a 8 de março de 1994

"Superunknown", dos Soundgarden, lançado a 8 de março de 1994

O negrume dos anos 90

Drogas, suicídio, depressão estes eram alguns dos temas que as 15 canções e respetivas «personagens» de Superunknown abordavam. À época, Chris Cornell, que escreveu boa parte das músicas e letras, encontrava-se fascinado pelos livros de Sylvia Plath, o que, à mistura com o negrume característico do rock dos anos 90, explicará títulos como «Fell on Black Days» (sobre «ser infeliz ao extremo»), «The Day I Tried To Live» ou «Like Suicide» (curiosamente, inspirada pelo pássaro que voou contra uma janela da casa de Cornell e que o cantor decidiu «eutanasiar», depois de ver o sofrimento do animal). Se em «Let Me Drown» se canta o desejo de regressar ao útero materno para morrer e «Mailman» é, segundo o próprio Cornell, uma letra sobre matar o chefe, nem todas as músicas de Superunknown eram tão literais e agressivas como uma leitura superficial poderia indicar. Olhemos para «Spoonman», por exemplo: dado o clima narcótico do rock de então, o mais natural seria interpretar este título como uma referência às colheres usadas pelos viciados em heroína. A inspiração do primeiro single de Superunknown, contudo, era outra. Também à Spin, Cornell contou que começou por fazer uma demo dessa canção, em casa, «na brincadeira». Nessa gravação inicial, a que o resto da banda achou graça e quis desenvolver, o vocalista brincava com tachos e panelas. A canção acabaria por ganhar o nome «Spoonman» em homenagem a Artis The Spoonman, um artista que tocava (e vivia) na rua, fazendo de talheres vários os seus instrumentos. «Ele era maluco e apareceu no estúdio», recorda Michael Beinhorn, produtor a quem os Soundgarden recorreram para gravar Superunknown. «Chegou cheio de colheres e outros objetos de metal, tira a t-shirt e diz: espero que alguém tenha uma câmara de vídeo. Começámos a gravar e ele pega naqueles instrumentos e começa a bater em si mesmo com eles. E não falo de golpes levezinhos: usava algumas peças bem grandes e pesadas. Em pouco tempo, estava tudo cheio de sangue. Mas era bonito de ver, porque parecia quase um bailarino: os seus movimentos eram fluidos e graciosos». Ouvido, também, pela Spin, o verdadeiro Spoonman mostrou ressentimento por não ter sido mencionado no discurso de agradecimento dos Soundgarden quando, em 1995, a banda recebeu um Grammy pela canção a que deu nome e, literalmente, corpo. «Ainda quero ver se lhe arranjo um Grammy. Era mais que justo», lamentou Ben Shepherd.

Bailarina de tutu

Escolhido apenas para terceiro single, seria contudo «Black Hole Sun» a catapultar os Soundgarden para fora da esfera do grunge e do metal alternativo. Escrita por Cornell no carro, e descrita pela Pitchfork como «"Lucy in The Sky With Diamonds" ao contrário», a canção emanava um charme que não passou despercebido ao produtor com quem os músicos amiúde se desentenderam. «Lembrome de receber a demo: parecia que me tinha caído uma casa em cima». Em relação à canção mais conhecida dos Soundgarden, que Cornell diz ter criado «com elementos de Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd do tempo de Syd Barrett», Thayl confessa ter tido alguns «problemas. Aquelas partes delicadas do começo... O que é aquilo? Uma bailarina de tutu?». Já Shepherd apercebeu-se logo do potencial do hit improvável: «lembrou-me o Stevie Wonder, que eu adoro. Pensei: já não somos uma bandita estúpida de grunge». Thayil viria a fazer as pazes com a estranheza da canção e tem a última palavra sobre o álbum que viria a vender quase dez milhões de cópias em todo o mundo. «É muito profundo e eclético», disse ao Seattle Times. «Quando o ouço com auscultadores, descubro sempre coisas de que já me tinha esquecido».

Publicado originalmente na BLITZ de agosto de 2014