Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Soundgarden em 1989

Charles Peterson/Sub Pop

Soundgarden, Nirvana, Mudhoney: o som e a fúria de Seattle

O sucesso planetário de algumas bandas na viragem dos anos 80 para os 90 fez com que Sub Pop, Seattle e grunge se tornassem sinónimos no dicionário melómano. Na semana em que o rock perde Chris Cornell, recuperamos um trabalho de 2011 que lembra os dias em que o rock de flanela dominava o mundo, com a ajuda de uma editora que só quis “mudar a vida das pessoas”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em 1993 os Nirvana estavam no topo do mundo. Tanto que, na ressaca do incrível sucesso de Nevermind, e para contrariar a cascata de gravações piratas que a todo o momento chegavam às lojas de discos, a editora lançou Insesticide, uma coletânea de raridades analisada à lupa nas páginas do jornal Se7e, a 14 de janeiro daquele ano.

«Este álbum poderá ser visto de duas maneiras», escrevia então Rui Miguel Abreu. «Documentando a evolução do som dos Nirvana para todos os fãs apanhados pela avalancha de Nevermind; e ainda funcionar como um aviso em relação ao próximo disco de originais do grupo (...): vai ser mais pesado, ainda mais sujo, mais rápido e mais apocalíptico». Falava-se de In Utero, o derradeiro documento de estúdio dos Nirvana, sobre o qual pouco se sabia então, à exceção da convocatória de Steve Albini para o cargo de produtor.

Mais do adivinhar o que viria a seguir, porém, o que o artigo do Se7e fazia era tomar o pulso à importância crescente, e de certa forma inesperada, que o grupo de Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl assumira nos últimos meses. «Não há dúvidas que 1992 foi o ano dos Nirvana e que, apesar da curta carreira, o "power trio" (...) se impôs como um farol para a atual produção musical», escreviase, adiantando até as possíveis razões do sucesso dos norte-americanos: «Os Nirvana, com a sua mistura apocalíptica de thrash-pop e impercetíveis ataques à sociedade, apelaram à revolta passiva das massas».

Perplexos e em parte desconfortáveis com a curiosidade em seu redor não só pela música de Bleach e Nevermind, mas também pela vida pessoal e pelos demónios de Kurt Cobain os Nirvana, que na altura haviam já abandonado a casa mãe da Sub Pop, foram vitais num papel: chamar a atenção do mundo para o rock que se fazia em Seattle, e para uma editora independente que viria a tornar-se uma marca incontornável da música americana.

Foi em meados dos anos 80 que Bruce Pavitt levou mais longe a fanzine fotocopiada que criara em 1979. Chamaralhe Subterranean Pop e, durante alguns anos, usou as suas páginas para partilhar com os melómanos mais atentos as novidades sobre o underground do rock americano. «Nos anos 80, conseguir que discos feitos em casa passassem na rádio não era coisa que acontecesse. A Rolling Stone não fazia crítica desses discos. Não conseguíamos pôr discos "do it yourself" [à venda na] Tower Records», explicou em 2008 Bruce Pavitt à revista Mojo. «Por isso, o desafio era muito grande. O sistema, as pessoas que estavam no poder, como os Eagles, não queriam que bandas como os Black Flag fossem populares. Havia grandes obstáculos e temos passado por um processo de 20 ou 30 anos, desde as raízes do punk até este ponto, em que a Sub Pop vende meio milhão de discos e tem artistas a tocar no [programa do David] Letterman».

Fazer face à indústria mainstream, que valorizava «o comércio em detrimento da inspiração», foi então o mote da criação da Sub Pop de fanzine que ocasionalmente oferecia, também, cassetes com compilações, o «bebé» de Bruce Pavitt transformou-se numa pequena editora independente. Inicialmente, o jovem empresário conduzia as operações da Sub Pop às escondidas, no escritório da Muzak, empresa de «música ambiente» para a qual trabalhava. Os discos eram guardados debaixo da secretária e, se os clientes que lhe ligavam eram atendidos pela receção, Pavitt garantia que «o» Muzak era um amigo seu. Este espírito de improviso manter-se-ia mesmo depois dos primeiros sucessos da Sub Pop, que a 1 de abril de 1988, já com o outro sócio, Jonathan Poneman, a bordo, ganhou instalações próprias. Foi num pequeno escritório de Seattle que a editora assentou arraiais; o poiso ficava no 11º andar mas o elevador só ia até ao 10º, conta a inglesa Mojo.

Nesta altura, a embrionária Sub Pop já tinha quatro discos no seu catálogo: uma compilação chamada Sub Pop 100 (1986), com artistas como Sonic Youth, Naked Raygun ou Wipers; o EP Dry as a Bone, dos Green River, banda seminal do grunge (1986), e o primeiro single e o primeiro EP de sempre dos Soundgarden. Foi para que pudessem ser editados estes discos «Hunted Down» (single) e Screaming Life (EP) que a Sub Pop, enquanto editora, nasceu de vez. Apresentado a Bruce Pavitt por Kim Thayl, guitarrista dos Soundgarden, Jonathan Poneman investiu $100,000 na fundação da Sub Pop, à qual os dois sócios se dedicariam por inteiro a partir de então. «Não tínhamos um plano propriamente dito. Todas as editoras [deste género] existem como reação à falta de acessibilidade e à rigidez das grandes editoras». Longe estavam os pais da pequena Sub Pop de imaginar que vários dos seus filhos pródigos os trocariam por essas mesmas grandes editoras, com resultados inimagináveis.

Sub Pop: Bruce Pavitt e Jonathan Poneman

Sub Pop: Bruce Pavitt e Jonathan Poneman

Nevermind: bênção ou maldição?

Quando os Nirvana se tornaram a maior banda do mundo com Nevermind, em 1991 não faltou quem os acusasse, não só de se terem vendido ao capital (o álbum saiu pela Geffen, uma divisão da multinacional Universal) como de serem apenas a face mais visível, e de certa forma mais pop, de um movimento que há muito borbulhava na cidade de Seattle e os seus subúrbios. Para trás tinham já ficado discos marcantes de bandas como os Mudhoney cuja estreia, Superfuzz Bigmuff, de 1988, lhes valeu culto aguerrido , dos seus antecessores Green River (em cuja formação militaram Mark Arm, dos Mudhoney, mas também Jeff Ament e Stone Gossard, mais tarde dos Pearl Jam) e ainda da banda que precipitou o parto da Sub Pop, os Soundgarden.

O grupo de «Spoonman» foi, de resto, o primeiro a abandonar a ninhada; o seu primeiro álbum, Ultramega OK, de 1988, já saiu por outra editora, a também independente SST Records, e o segundo, Louder Than Love, lançado um ano mais tarde, marcou o início do «casamento» dos Soundgarden com a A&M, selo também pertencente à Universal. Caso singular da cena de Seattle, os Soundgarden, cuja carreira morreria até ver... em 1996, com Down on the Upside, venderam milhões de discos em todo o mundo e conseguiram, igualmente, reconhecimento crítico e numerosos troféus, incluindo distinções nos Grammys, o prémio mais importante da poderosa indústria americana. Contudo, o seu som não era o mais suave da coleção da Sub Pop (esse título talvez encaixe melhor aos Walkabouts, uma das cartas fora do baralho da editora). Inspirado pela força vulcânica de Led Zeppelin, mas também pela crueza de Stooges e MC5, a obra dos Soundgarden, exceção feita ao êxito «Black Hole Sun», nunca gozou do mesmo apelo pop e catártico dos Nirvana. Talvez por isso, e apesar do sucesso comercial, nunca tenham caído sobre Cornell, Thayl e companhia as mesmas acusações que torturaram a trupe de Cobain.

Também adeptos do riff pesado e da aplicação de uma camada psicadélica e melodiosa sobre canções de desânimo, os Alice in Chains foram outra das bandas mais populares da cena de Seattle e daquilo a que, contra a convicção estética de alguns, se foi chamando, ao longo dos anos 90, «grunge». Contudo, o grupo de Dirt nunca passou pelas fileiras da Sub Pop, conservando, ao longo da primeira encarnação, o vínculo a uma editora «major», a Columbia. Tal como a maioria das bandas com berço em Seattle, os Alice in Chains eclipsaram-se após a morte daquele que mais adeptos ganhou para a causa do grunge, Kurt Cobain. O líder dos Nirvana e herói de uma geração morreu em 1994 e em 1995 saía Alice in Chains, o último disco com Layne Staley. Pouco mais tarde, o grupo entrava em hibernação e, com a morte de Staley em 2002, vítima de overdose, desmoronaram-se as já ínfimas esperanças de uma reunião. Curiosamente, em 2005, os sobreviventes dos Alice in Chains voltaram a reunir-se para alguns concertos e, com um cantor novo o convincente William DuVall encetaram um regresso bem aventurado aos palcos e até aos discos, com Black Gives Way To Blue (2009).

É um dos raros casos com final feliz numa cena que, sorvendo do punk, heavy metal, hardcore e rock psicadélico, brotou no Noroeste americano nos anos 80, explodiu na década seguinte com o fenómeno Nirvana e, após o desaparecimento do cometa Kurt Cobain, acabou por implodir em meados dos anos 90. Além dos Alice in Chains, agora numa segunda vida, também os pioneiros Mudhoney continuam a percorrer, com outra modéstia, a estrada do rock. E do regresso dos Soundgarden aos grandes palcos e aos discos de originais fala-se há mais de um ano. Quanto à Sub Pop, a editora que um dia decidiu inaugurar o seu «clube de singles» com «Love Buzz», dos Nirvana, sobreviveu à bancarrota e encontrou no indie de Fleet Foxes, Beach House ou The Shins uma tábua de salvação.

Durante os anos de maior desnorte, o contrato assinado com os Nirvana, por insistência da própria banda, salvou a Sub Pop da falência, graças aos 2% a receber sobre todas as vendas após a mudança de editora. O espírito, esse, continua a ser o de missão e partilha. «Púnhamos discos cá fora!», exclamou Bruce Pavitt na entrevista com a Mojo. «E esses discos mudavam vidas. Sabem quantas pessoas vêm ter comigo? Até hoje, dizem-me assim: aquele disco mudou a minha vida. E eu penso: ótimo, então ainda bem que passei aqueles cheques carecas».

Publicado originalmente na BLITZ de maio de 2011