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Chris Cornell, a última entrevista à BLITZ: “Grunge não é, para nós, uma palavra tão má quanto o termo disco será para os Bee Gees”

Em 2012, falámos com o vocalista dos Soundgarden e com o baixista Ben Shepherd em Paris, antecipando a edição de King Animal, o álbum que marcou o regresso da banda depois de 16 anos de afastamento. Leia aqui na íntegra

A história dos Soundgarden não é fácil de contar. O caminho percorrido desde 1984, ano da formação, não teve um impacto tão gigantesco como o da música que saiu da cabeça de Kurt Cobain nem nele houve explosões imediatas como a que viveram os conterrâneos Peal Jam logo ao primeiro álbum. A banda liderada por Chris Cornell nasceu num período em que o fenómeno grunge estava ainda longe de infetar o mundo e o grupo, agora regressado das cinzas depois de 16 anos de silêncio, garante que nunca se sentiu integrado nesse «movimento». Numa entrevista exclusiva à BLITZ, realizada num luxuoso hotel de Paris, a reboque da edição de King Animal, elogiado novo álbum de estúdio, Cornell e o baixista Ben Shepherd assumiram não ter grandes saudades («estou demasiado ocupado a viver», diz o vocalista) da época áurea da música made in Seattle.

«Grunge não é, para nós, uma palavra tão má quanto o termo disco será para os Bee Gees», começa por dizer Cornell, «talvez tenha passado por um momento em que as pessoas gozavam com ela, mas não por um momento em que tenha sido unanimemente odiada». O baixista rapidamente acrescenta, «não pensamos muito nisso nos dias que correm e também não pensávamos muito na altura. Esse era o papel dos meios de comunicação». Quando o termo se generalizou e agrupou na mesma gaveta variadíssimas bandas além dos Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains, Mudhoney e, claro, os Soundgarden, aquilo que o vocalista diz ter visto não foi mais que «miúdos a fazerem bandas e a venderem discos que soavam, essencialmente, a uma combinação homogeneizada do som de duas ou três bandas de Seattle». O músico defende que, quanto a ele, não fazia qualquer sentido: «pegaram nelas, misturaram-nas e mandaram-nas dali para fora sem as referências que todos nós tínhamos. Vínhamos de uma cultura onde toda a gente tinha grandes coleções de discos e ouvia muitas coisas diferentes. E ouvíamos muita música que não vendia discos nem era popular». O termo em si, explica Shepherd, fora inicialmente usado por «publicitários nos seus anúncios de produtos de limpeza para banheiras». «Não era um termo de calão, ninguém o usava nesse sentido quando íamos a concertos», desenvolve, «depois apareceu um anúncio televisivo de produtos de limpeza que prometia tirar o "grunge" das paredes das casas de banho das pessoas. Era um termo publicitário».

Quando, com Badmotorfinger, o terceiro álbum de estúdio, editado em 1991, saíram definitivamente do anonimato, os Soundgarden tinham já um percurso respeitável, tendo-se mesmo tornado a primeira banda com o selo grunge a assinar por uma grande editora. Para trás, ficavam muitos receios, que Cornell não se coíbe de recordar. «Sempre fui ansioso», confessa, «a primeira preocupação que me lembro de ter aconteceu quando pensei "merda, temos esta banda há três anos e ainda não editámos nada, apesar de termos material suficiente para fazer três álbuns". Não sabia o que era suposto fazermos. Continuar a escrever canções e nunca editar nada?». Os EPs Screaming Life, de 1987, e Fopp, do ano seguinte, ambos editados pela mítica Sub Pop, acalmaram essa fobia inicial, «mas não sabíamos quem ia editar o disco seguinte». O contrato discográfico «de longo termo» seria assinado em 1988 com a A&M e o primeiro resultado dessa parceria teria como nome Louder Than Love, o segundo longa-duração editado no ano seguinte. «Assim que conseguimos esse contrato, comecei a preocupar-me com o facto de não conseguirmos fazer dinheiro para aquela editora», continua Cornell, «achava que a qualquer momento iam entrar na sala e tentar dizer-nos o que devíamos fazer. Tínhamo-nos distanciado de toda a gente, não tínhamos uma pessoa para fazer promoção, não ouvíamos o que os produtores diziam e fazíamos exatamente o que queríamos. Lá no fundo sabia que se não começássemos a fazer dinheiro rapidamente tudo aquilo acabaria». Esse medo só começaria a desaparecer quando Badmotorfinger e, especialmente, Superunknown (que incluía aquele que é até hoje o single de maior sucesso da banda, «Black Hole Sun») os atiraram para as tabelas de vendas. Uma nova preocupação rapidamente surgiria: a longevidade. «Talvez as pessoas deixassem de gostar da nossa música dentro de cinco anos e nos tornássemos uma banda datada». Para o vocalista, o quarto álbum o mais bemsucedido da carreira da banda foi «um grande momento, também, porque provou definitivamente que nós merecíamos estar numa arena internacional. Até então, sentia que as pessoas só falavam de nós e iam aos nossos concertos porque fazíamos parte daquela coisa maior que, no fundo, se resumia a uma questão de geografia». Ben Shepherd acrescenta: «com Badmotorfinger, as pessoas já conheciam os Soundgarden fora de Seattle. Depois, o Superunknown explodiu e mostrou que não fazíamos apenas parte daquilo». «Mas também que não éramos apenas aquilo que as pessoas tinham ouvido nos discos anteriores», completa Cornell, «veio, de certa forma, acabar com os preconceitos que existiam relativamente a nós, mesmo para aqueles que eram apenas fãs dos Soundgarden».

Um regresso «ridiculamente simples»

Quando os problemas no seio da banda se adensaram, depois de uma intensa digressão de promoção a Down on the Upside, o quinto álbum, os Soundgarden anunciariam aquilo que os fãs mais temiam: iam separar-se. 16 anos volvidos, a banda continua sem grande vontade de falar dos motivos que os levaram a seguir por caminhos distintos. «Falar disso não é a parte pior deste regresso, mas é certamente a parte menos interessante», confessa Chris Cornell, entre risos. «Na verdade, é bem difícil responder a questões dessas, porque a minha atitude relativamente a essas razões pode ter mudado, as minhas memórias sobre a forma como me senti na altura sobre essas coisas provavelmente já não estão cá». O baixista assegura, também, que é difícil «falar por todos nós, porque todos tivemos razões diferentes». Aquilo que a dupla assegura não ter sido mesmo nada difícil foi voltar a pôr os motores dos Soundgarden a funcionar. «Surpreendentemente, foi muito fácil», exclama o vocalista. «O processo foi igual ao de sempre, muito simples. É ridiculamente simples para nós, porque se trata apenas de um de nós mostrar uma ideia para uma canção aos outros três que subitamente estamos todos a trabalhar nela. Com os quatro a termos ideias, rapidamente estávamos a trabalhar em metade do álbum». O vocalista diz que o rastilho se acendeu em poucos dias, sem «pesquisa envolvida nem meses perdidos em discussões sobre qual a direção a seguir». Cornell assume ter-se esquecido de muitas coisas que se passaram na primeira fase da vida da sua banda, mas não deixa de relembrar que aprendeu «a escrever canções nesta banda e aprendi a cantar com esta banda e aprendi a tocar guitarra nesta banda». Por essas razões, voltar a fazer música em grupo foi fácil. «Inventámos esta banda. É uma linguagem que todos falamos fluentemente, portanto foi fácil apanhar-lhe o jeito novamente». Mas quer Shepherd quer Cornell assumem que muito dificilmente o novo King Animal poderia ter sido gravado em 1997. «É difícil dizer o que teria saído, mas com certeza que poderíamos ter feito um álbum», diz o vocalista, «nunca com estas mesmas canções», completa o colega. «Foi bom termos feito um intervalo, baseando-me naquilo que sentimos ao criar este disco».

A canção que serviu de cartão-de-visita a este novo King Animal não poderia ter título mais apropriado: «Been Away Too Long» será, com certeza, alvo de coro generalizado entre os fãs da banda norte-americana. Voltaram em 2012 por sentirem que era este o momento certo? «Quando olho para os álbuns rock que se têm feito, vejo que nós estávamos ausentes», começa por explicar Cornell, «sempre tivemos algo a dizer sobre a música rock, de uma forma que só nós conseguimos dizer. Apesar de se terem passado 15 anos, ainda há uma necessidade e um lugar para isso. É bom sentir isso». Uma constante entre este novo álbum e o seu longínquo antecessor dá pelo nome de Adam Kasper, produtor de Seattle que também deixou marca em álbuns dos Mudhoney, Nirvana, Pearl Jam ou R.E.M.. «Ele é um dos melhores produtores com quem alguma vez trabalhámos», defende Cornell, «não se atravessa no nosso caminho, entende-nos e não tem medo de nos ver esticar a corda, particularmente no que diz respeito aos arranjos das canções e aos tons que tentamos atingir quando gravamos. Nunca tenta "limpar-nos"». Um dos fatores mais importantes para Shepherd foi o facto de o produtor os apoiar incondicionalmente, «mesmo quando decidimos entregar a mistura do álbum ao Joe [Barresi], apesar de termos pensado nele primeiro. Disse: "desde que ele faça um bom trabalho". O objetivo com este álbum era elevar ou chegar ao mesmo nível do nosso catálogo anterior. Não queríamos fazer coisas menores e o Adam esteve sempre completamente do nosso lado».

Depois de os Soundgarden se separarem, o baterista Matt Cameron encontrou um novo desafio nos Pearl Jam, banda que integra até hoje. Isso não o impediu de querer voltar a tocar com o seu projeto anterior e é com o acumular de tarefas deste super-baterista que ficamos a saber que as duas bandas funcionam hoje como uma grande família. «Tem sido fácil [partilhá-lo]», assegura Cornell. «Desde que começámos a trabalhar novamente que temos ensaiado na sala de ensaios dos Pearl Jam, portanto até é conveniente (risos). Eles têm sido muito generosos com os seus recursos e mesmo muitos dos homens da nossa equipa de estrada foram-nos emprestados por eles».

Para uma nova geração

Apesar de ter continuado a gravar álbuns a solo, Chris Cornell regressa com os Soundgarden num momento em que as regras da indústria musical estão radicalmente diferentes das que vigoravam quando a banda resolveu afastar-se da ribalta. «Já não existe, como antes existia, aquela coisa de ficar concentrado a ouvir um álbum do início ao fim», diz o músico, «portanto, para nós, claramente para mim, sendo uma banda orientada para os álbuns, isso preocupa-me um bocado. Se tirares uma canção fora do contexto de um álbum dos Soundgarden, não ficas a saber quem somos. E por muito que uma pessoa goste dessa canção, nada se compara à experiência de ouvir um álbum do início ao fim». Essa não é, no entanto, a única nova preocupação do vocalista, «há também o assunto do gatekeeper: quem tem de gostar de ti? Quem tem de falar de ti, escrever sobre ti ou tocar a tua canção e passar o teu vídeo? Tudo isso está diferente, agora. A rádio mudou e as rádios que passam rock encolheram para o tamanho de uma ervilha. E depois há esta oportunidade viral que é ambígua. Como consegues uma resposta viral a alguma coisa? Ninguém sabe! Ninguém consegue provocar isso sempre que quer». A qualidade do som digital, por outro lado, é algo que também apoquenta os Soundgarden, «comecei a ver posts no YouTube de álbuns inteiros, mas a qualidade é má e se ouvires num iPad, então, com aqueles altifalantes minúsculos.», reclama o vocalista, «nós tivemos sorte, na nossa era. Era um tempo ótimo para equipamentos estéreo e era tudo em vinil». O baixista completa a ideia, defendendo que «o timing deste nosso regresso faz todo o sentido», já que a banda promete contrariar o facto de os fãs de música estarem neste momento a «consumir música fast-food». «Se olhares para a música como parte da tua dieta psicológica, é muito importante a forma como ouves os sons e teres acesso ao som verdadeiro. A tecnologia foi além da evolução humana e o que acontece é que, depois de 15 minutos a ouvir som digital, o ouvido humano assume que aquilo é ruído branco, indistinto. Não há onda sonora, não há nenhuma falha para o teu cérebro preencher».

No primeiro concerto que deram, depois de terminado o longo período de dormência da banda, Cornell diz ter visto «maioritariamente gente conhecida» entre a assistência, mas quando começaram a tocar em sítios maiores assume ter começado «a reparar em muita gente nova, mesmo à frente. E sabiam as canções e tudo». Esta nova geração de fãs dos Soundgarden, segundo Shepherd, «tende a respeitar as distâncias, não querem parecer fãs exagerados. Quando ando pelas ruas, o que me acontece é os pais virem ter comigo e dizer: "este é o Ben e toca nos Soundgarden". Depois vejo os miúdos com ar de "o que é que essa merda me interessa" e eu próprio fico tipo "quem é que quer saber dessa merda". E os pais continuam histéricos. Não vejo os miúdos por aí com t-shirts dos Soundgarden, pelo menos onde vivo». Muitos desses «putos» que hoje se assumem fãs da banda de Seattle estarão numa fase em que encaram a música como uma fuga, o mesmo que Cornell sentia quando em 1991 assumia que era esse o seu «escape de um trabalho normal». Ora, a música tornou-se, de facto, o seu «trabalho normal», ou não? «Não sei. Porque não penso normalmente na música como um trabalho. Sinto que não tenho um trabalho. E sinto que isso se mantém assim desde os meus 24 anos. Estou sempre ansioso por ensaiar com a banda ou sozinho em casa, ou por compor ou gravar, o que seja. É sempre divertido. Nunca dou por mim a pensar "mal posso esperar por isto estar pronto"». O músico diz ter-se apercebido que, caso tivesse escolhido outra forma de arte, as coisas não seriam bem iguais, «lembro-me que, quando gravei a canção ["You Know My Name"] para o filme do James Bond, fiz um dia de entrevistas. Estava eu a falar da canção, porque as canções são muito importantes para aqueles filmes, e vi, pela primeira vez, não-músicos a dar entrevistas sucessivas de 15 minutos. E só então me apercebi que era o único a falar sobre uma canção escrita por mim, sobre mim próprio e a minha carreira. Todos os outros estavam a falar da produção de outra pessoa com um argumento de outra pessoa baseado numa personagem que não eram eles. Senti-me, subitamente, um sortudo. Ser músico é muito melhor que ser ator. A representação é uma forma de arte que respeito totalmente, mas fazer imprensa para o produto de outra pessoa, que não é teu nem dos teus amigos, seria definitivamente trabalho árduo». Ben Shepherd não poderia concordar mais, «o único momento em que sinto isto como trabalho é quando estou confortável em casa e tenho de acordar cedo para apanhar um voo para algum lado», assume, «fico a pensar nas pessoas que passam por esse tipo de coisa todos os dias para fazerem algo de que não gostam tanto quanto nós gostamos daquilo que fazemos. Isso automaticamente apaga o aspeto do trabalho, porque percebo que posso fazer isto e divertir-me. Podemos falar de uma coisa que criámos e tê-lo aqui, a tirar do seu tempo para vir aqui falar connosco. Não é trabalho árduo. Sei o que isso é e estou prestes a ir para casa para fazê-lo».

O sentimento comum, entre os dois músicos, é que este regresso com King Animal serve como prova, «especialmente depois de 15 anos sem gravar um álbum, de que conseguimos gravar música que nos representa e àquilo que fazemos. Que aguenta a fasquia daquilo que é a nossa história musical». O álbum já está ao dispor de quem o quiser ouvir, mas o veredicto, claro, será dos fãs.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2012