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Da formação que veio a Lisboa, apenas o vocalista, Sviatoslav Vakarchuk (na foto) e o baterista, Denis Glinin, integravam o quinteto original formado em 1994

Sem limites, sem medos e sem tradução: estivemos no concerto dos ucranianos Okean Elzy

Uma das mais carismáticas bandas ucranianas esteve este fim de semana em Lisboa e “voltou às origens”: ao contrário do que estão habituados, trouxeram o puro rock pós-URSS não a um estádio, mas a um espaço de concertos íntimo, para mil pessoas

O muro já tinha caído havia alguns anos, a União Soviética deixou de existir e sentiu-se um boom musical na Ucrânia como o país não sentia há muito tempo. Foi nessa energia resplandecente, em 1994, que um grupo de rapazes ouviu Sviatoslav Vakarhuck a cantar Beatles numa festa e ficou decidido: o mundo tinha de conhecer aquela voz grunge. Os Okean Elzy tinham acabado de nascer.

As pessoas, oprimidas durante décadas por um regime ditatorial, tinham sede da liberdade, da individualidade e da expressão artística sem limites. Os Okean Elzy entraram a matar nesse espírito e oferecem ao país música rock que se transformou num símbolo de união. Estiveram este sábado em Lisboa, no penúltimo concerto da sua digressão mundial, e a BLITZ esteve lá para ver estes rock stars de um país que continua a ser um mistério para a maior parte do mundo.

Cartaz de fãs dos ucranianos Okean Elzy, no concerto em Lisboa

Cartaz de fãs dos ucranianos Okean Elzy, no concerto em Lisboa

ANDRÉ ANTUNES

O espaço era pequeno, numa sala nova em Lisboa chamada Bolero onde não cabiam mais de mil pessoas, e todo ele estava ocupado por ucranianos com dezenas de bandeiras, cartazes, flores e sorrisos. Literalmente a rebentar pelas costuras… Houve quem nem sequer tenha vislumbrado o palco e muito menos a cara do tão esperado líder, Vakarchuk, mas mesmo assim todos cantaram em uníssono. Parecia que alguns dos fãs até se tinham esquecido de que estavam em Lisboa e regressaram, durante duas horas, à Ucrânia.

Mas voltemos à música. Os Okean Elzy têm nove álbuns de estúdio e esta digressão é a propósito do disco lançado no ano passado chamado Bez Mej ("Sem Limites"), um álbum de rock sobre o amor (como a maior parte dos álbuns da banda), mas que não deixa passar ao lado o conflito que se vive no leste do país.

A banda já partilhou palcos com artistas como os Deep Purple e um dos seus mais recentes trabalhos foi gravado nos ICO Studios, na Bélgica, com a produção do britânico Ken Nelson (Coldplay, The Gift, Kings Of Convenience). As influências passam muito pelo grunge dos Nirvana e Pearl Jam, mas também por Beatles, Led Zeppelin e até pela música clássica de Debussy e Chostakovitch. Se ouvir algumas das músicas, vai perceber que é possível encontrar todas estas influências unidas por uma voz grave e uma letra 100% em ucraniano.

No concerto em Lisboa, Vakarchuk dedicou uma música a um dos soldados que conheceu no hospital de guerra de Lviv, a sua terra natal. A canção chama-se “Myt” ("Momento") e Vakarchuk pede ao soldado para não ter pressa de morrer: “Olha à volta, está a amanhecer e a neve brilha incrivelmente. Não tenhas pressa, ela que espere mais um momento”. Em conversa com a BLITZ, o líder dos OE contou a génese desta música e é de arrepiar a espinha: “É a história de Vadim Dovhoruk, um rapaz que ficou ferido em Ilovaisk [uma das batalhas mais sangrentas da guerra na Ucrânia]. Vadim ficou com o braço decepado, caiu na neve, inconsciente, e ficou assim durante três dias. Quando foi encontrado, praticamente sem vida, além de já ter perdido o braço, os médicos tiveram que lhe amputar os dois pés”. A parte mais incrível desta história, conta o cantor, “é que passados dois anos Vadim já conduz sozinho e vai voltar para a zona de guerra para ensinar os soldados mais jovens”.

A música dos OE tem servido de aglutinador de milhares de ucranianos que passam momentos complicados com a guerra e com as dificuldades económicas. Aliás, ainda antes, durante a Revolução de Maidan, em 2013/14, a música deles servia de hino. Veja no vídeo em baixo o concerto dos OE no palco da Praça da Independência, em Kiev, em plena revolução, onde mais de uma centena de pessoas perdeu a vida:

Este foi um dos poucos concertos com os integrantes originais da banda e onde estiveram cerca de 200 mil pessoas. Da formação que veio a Lisboa, apenas o vocalista e o baterista (Denis Glinin) integravam o quinteto original, que se conheceu nos anos 90. E é precisamente desde os anos 90 que os OE não tocavam em locais tão pequenos quanto o Bolero (o plano original era um concerto no Coliseu dos Recreios mas, “por dificuldades técnicas” e a apenas uma semana da data, o local teve que ser alterado). Apesar das inúmeras queixas do público por causa da mudança de local, podemos dizer que as cerca de mil pessoas que estiveram este sábado no Bolero tiveram bastante sorte em estar tão próximos de uma das estrelas intocáveis da música ucraniana. “Foi como voltar às origens”, disse Vakarchuk à BLITZ.

O concerto foi muito íntimo, com os fãs a conseguirem tocar no vocalista e com este a conseguir tocar e ouvir os fãs (feito raro quando se toca sempre em estádios). Mas via-se que o rock star precisava de mais espaço. Normalmente, vemo-lo a correr de um lado para o outro do palco, a subir às colunas e a perder-se no espaço. Desta vez, Vakarchuk teve que controlar o corpo num espaço de cerca de três metros quadrados, mas não se saiu nada mal. Compensou a correria no palco com movimento de ancas.

Este foi o terceiro concerto dos Okean Elzy em Portugal. O primeiro foi em 2004, no Coliseu dos Recreios, e o segundo em 2015, na MEO Arena

Este foi o terceiro concerto dos Okean Elzy em Portugal. O primeiro foi em 2004, no Coliseu dos Recreios, e o segundo em 2015, na MEO Arena

ANDRÉ ANTUNES

Começou o concerto um pouco apreensivo, com músicas do álbum novo, mas rapidamente percebeu que os fãs em Lisboa não o iriam deixar ficar mal. A partir da terceira música não parou de sorrir e contagiou o público com a sua energia louca. Agarrava nas bandeiras que os fãs traziam, abraçava-as, punha-as às costas, recebia flores e, já perto do final, abria os braços e agradecia: “Obrigado família”. Parece que o nome do último álbum dos OE, Bez Mej, é o significado da sua música: sem fronteiras, sem medos e sem limites. Não é fácil ser-se imigrante, mas com música assim tudo se torna mais simples.