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Como nasceu um clássico: “OK Computer”, a obra-prima dos Radiohead

Uma visita guiada faixa a faixa ao disco que acrescentou a Thom Yorke e companhia o adjetivo “imprescindível”. No fim, pode ouvi-lo outra vez

1 Airbag

OK Computer começa com guitarras abrasivas, mas processadas, seguidas de um loop de bateria de Phil Selway a que, sem grande demora, se apõe a voz de Thom Yorke. «In the next world war / In a jackknifed juggernaut / I am born again» são as primeiras palavras cantadas do agora clássico. A eletrónica é colocada, subtilmente, ao serviço do rock, no que parece ser um tema de transição entre a veia mais elétrica de The Bends e a sede de exploração que, mais adiante no alinhamento, OK Computer irá assumir. Vistas bem as coisas, não está assim tão distante de «Planet Telex» (tema de abertura do álbum anterior) quanto isso.

2 Paranoid Android

Todo um tratado. É o primeiro «hino» dos Radiohead depois do algo renegado «Creep». Estreado, em formato mais económico, na Bélgica, em julho do ano anterior, atingiria uma duração ainda maior do que aquela que seria fixada em disco (6 minutos e 24 segundos) num concerto de primeira parte para Alanis Morissette (!), em Nova Iorque, nesse mesmo verão, com Jonny Greenwood a improvisar no órgão hammond. Partindo de «Happiness Is a Warm Gun», dos Beatles, a canção foi depois «desmontada» em secções, com cada uma das partes a ser trabalhada em separado. A ideia, diria depois o guitarrista Ed O'Brien, era fundir «Bohemian Rhapsody», dos Queen, com os Pixies. Em palco, Thom Yorke chegou a anunciá-la como «uma versão dos Pink Floyd».

3 Subterranean Homesick Alien

Acordes blues «subaquáticos» introduzem uma das canções mais recatadas de OK Computer, originalmente intitulada «Uptight». O título não disfarça uma referência a Bob Dylan, mas Thom Yorke remete a inspiração para o clássico Bitches Brew, de Miles Davis, que por esta altura ouvia incessantemente. A guitarra ondulante de Jonny Greenwood ouve-se por todo o lado.

4 Exit Music (For a Film)

Só uma banda muito segura de si não guarda esta canção, lenta e despida de artifícios, para o final de um disco (apesar de ter sido composta especificamente para o final de um filme, Romeu e Julieta, de Baz Luhrmann). A guitarra acústica e a voz de Thom Yorke caminham lado a lado até ao minuto e meio, em que um Mellotron emerge como um coro grego, a que se junta mais tarde uma percussão comprimida, num último minuto próximo do clímax.

5 Let Down

Não será das canções mais notórias de OK Computer e Thom Yorke já a descreveu como uma canção sobre o gosto que se pode desenvolver pela inércia. Gravada às 3 da manhã no salão de baile de St. Catherine's Court, uma casa de campo a norte de Bath, vive novamente do jogo de cumplicidades entre a guitarra minimal (mas límpida) de Greenwood e voz dobrada de Yorke.

6 Karma Police

Reconhecidamente um dos momentos altos do disco, esta balada propulsionada por piano sóbrio e guitarra acústica poupada deve o seu título a uma piada «interna». Explica Ed O'Brien que «quando alguém na banda se portava como um idiota, um dos outros dizia sempre "a polícia do karma" há de te apanhar». Com uma letra que Yorke reclama como sendo «contra os patrões», e pode ser vista como uma reação «não completamente séria» (diria Greenwood) ao capitalismo.

7 Fitter Happier

Soa a manual de autoajuda (e sim, as frases debitadas por um programa de síntese de voz do Macintosh foram lá «pescadas»), mas há aqui uma camada de verniz irónico que Yorke diz dever-se a um «bloqueio» de três meses, durante o qual se fez rodear de literatura duvidosa de «estímulo pessoal». É um interlúdio, a abrir caminho para uma fabulosa segunda metade do disco.

8 Electioneering

Provavelmente o tema mais rock do álbum (riffs insidiosos, muito «sixties», e esfuziantes), reflete o interesse de Thom Yorke pela política mundial, como refere a Q de abril de 2008. Há referências à «economia vudu», ao «negócio puro e duro» e ao hoje omnipresente FMI.

9 Climbing Up The Walls

O ambiente é negro e arrastado e há, inclusive, uma toada quase trip-hop a trespassar mais uma canção gravada em St. Catherine's Court, mansão a que Yorke chegou a considerar «assombrada». Estamos perante a canção mais «quebrada» de OK Computer, assente em «estacas» irregulares (bateria seca) e uma letra obsessiva, vocalizada a condizer.

10 No Surprises

Apresentada, conta a revista Q, por Thom Yorke aos seus companheiros nos bastidores de um concerto em Oslo (depois de terminada uma atuação na primeira parte dos R.E.M.), em agosto de 1995, «No Surprises» é outro dos porta-estandartes de OK Computer. Melodiosa e assente numa linha de glockenspiel enquadrada por guitarra acústica, versa sobre a psique particular de Thom Yorke: «é assim que lido com as coisas; enterroas », terá dito. A canção ganhou diversas roupagens desde o momento em que Yorke a partilhou com os colegas, mas o grupo voltou à ideia inicial. Também digno de registo, o teledisco mostra o rosto de Thom Yorke a imergir.

11 Lucky

Gravado em cinco horas para a compilação de beneficência War Child, em setembro de 1995, terá nascido de um acorde agudo que Ed O'Brien arrancou da sua guitarra num soundcheck de um concerto no Japão, no verão desse ano. A guitarra solo de Jonny Greenwood, épica no refrão, acrescentou a «alma» que faltava à primeira canção a ser gravada (mas penúltima no alinhamento) para o sucessor de The Bends.

12 The Tourist

Jonny Greenwood viu um grupo de turistas a passear-se numa cidade francesa e compôs uma canção, diz o próprio, sobre «a velocidade com que se vive a vida». Encontramos Greenwood com o Mellotron a seu cargo e Thom Yorke a responder com um «slow down» arrastado escrito em Praga. Os turistas, aqui, também são os Radiohead.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2012

OK Computer
Edição: 16 junho 1997
Gravação: entre julho de 1996 e março de 1997 nos estúdios Canned Aplause, em Oxfordshire, e St.Catherine Court, em Bath (Inglaterra)
Produção: Nigel Godrich e Radiohead

Ouça aqui o álbum: