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Placebo em Portugal: recorde a extensa entrevista de Brian Molko à BLITZ, em 2010

Em novembro de 2010, antes de cancelar a vinda a Portugal, Brian Molko transformou uma entrevista de 15 minutos numa conversa de mais de uma hora. Um dia depois de Gondomar, os Placebo regressam hoje a Lisboa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Dias antes de, por motivos de saúde, cancelar todos os concertos dos Placebo até ao final do ano, incluindo um no Coliseu de Lisboa, Brian Molko aceitou falar com a BLITZ, naquilo que devia ter sido uma conversa de 15 minutos. Por insistência do vocalista, a entrevista estendeu-se por mais de uma hora, passando por considerações pessoais, conselhos à jornalista e toda uma nova mundividência, desencadeada - segundo o próprio - pelo facto de, agora, ser pai de um menino de cinco anos. O hedonismo já é coisa do passado, garante Brian Molko.

Os Placebo acabam de lançar o single "Tripper Happy Hands". É justo dizer que é uma das músicas mais políticas de sempre da banda? É mesmo "a" canção mais política que os Placebo alguma vez gravaram! É uma canção de protesto. Eu cresci a ouvir música de protesto, Bob Dylan. O meu primeiro amor foi a música dos anos 60. Quando era adolescente, aquela rebelião foi muito importante para mim. E agrada-me a ideia de os Placebo terem ultrapassado toda a sexualidade, a maquilhagem e isso tudo, para agora fazerem uma canção de protesto. É uma canção anti-autoritária, anti-governo. A sua grande mensagem é de tolerância e compreensão. É contra a guerra. Nós, que somos de uma geração de teste, não acreditamos necessariamente que escrever uma canção possa mudar o mundo, mas pode mudar a maneira de alguém pensar, e isso é importante.

Disse que é uma canção anti-governo. Refere-se ao governo britânico ou... Sem dúvida! Sim! Neste momento enoja-me ver os media promoverem a autobiografia do Tony Blair; para mim, é a autobiografia de um criminoso de guerra. Eu manifestei-me contra a Guerra do Iraque, juntamente com 150 mil pessoas, e ninguém nos ouviu. Isto aconteceu em Londres, e internacionalmente. A democracia já não existe. O que temos é uma falsa democracia, apaixonada pelos grandes negócios e corporações. E hoje em dia, é isso que faz o mundo girar. Neste momento estou na Grécia, o berço da democracia - se Sócrates e Hipócrates fossem vivos, estariam a protestar como nós. O que é feito em nome da religião e do comércio neste planeta é vergonhoso. E nós agora somos uma banda zangada.

Não estarão as pessoas a começar a revoltar-se? Tony Blair foi recebido violentamente na Irlanda, por exemplo, quando apresentava o livro... Sim, foi fantástico! E teve de cancelar a festa de lançamento do livro porque sabia que iam lá estar manifestantes. Como é que ele se atreve a ganhar dinheiro com aquilo que fez? Mas o Tony é apenas um aspeto de toda esta questão; há tanta coisa de que não nos apercebemos, que não tem tanto glamour. Há o Mugabe, tanta coisa a acontecer em África que está completamente errada. E há tanta escravidão neste mundo: pessoas a vender pessoas, uma coisa inacreditável. Todos aprendemos na escola que Abraham Lincoln aboliu a escravatura, mas é um comércio, hoje. No começo da nossa carreira, lutávamos pela igualdade sexual, e o facto de nos vestirmos de mulher era uma afirmação política. Julgo que já satisfizemos essa missão, e agora tentamos fazer uma diferença no mundo. Bandas com uma motivação política são hoje mais importantes do que nunca; estamos a caminhar para um apocalipse ambiental, como é que sobrevivemos, enquanto espécie? Só se aprendermos a deixar de nos tratarmos uns aos outros como animais. Eu não sou comunista: tenho inclinações socialistas, mas não acredito que o comunismo funcione, numa versão puramente marxista, porque baseia-se na ideia de que todas as pessoas são boas, e eu não acredito que assim seja. O culto da celebridade e a ideia de que temos de fazer tanto dinheiro quanto possível está a matar-nos, como espécie. Isto vai ser o nosso fim. Já aconteceu aos dinossauros e eles eram muito maiores que nós. E mais perigosos (risos).

Disse que no início da carreira lutavam pela igualdade sexual. Hoje já não é uma questão que vos apoquente? Não é que já não queira saber, mas o que fizemos nos anos 90 foi tornarmo-nos na linguagem da música alternativa de hoje. Abrimos o caminho para pessoas como o Brandon Flowers e a Beth Ditto, tal como o David Bowie, o Iggy Pop e o Lou Reed abriram o caminho para nós. Está tudo interligado. Hoje até o gajo dos Papa Roach pinta as unhas! Tornou-se parte da linguagem da música, e quando se torna a norma tens de andar para a frente.

Soube que em Portugal foi aprovado o casamento homossexual? Soube, pois. Portugal é mesmo progressivo. Primeiro, fizeram uma coisa muito importante, que foi decidir não prender ninguém por posse de droga. As prisões na América estão cheias de pessoas presas por posse de droga, e isso não faz nada pela sociedade. Quando o Barack Obama foi eleito, no dia a seguir a Califórnia votou contra o casamento gay. Socialmente, penso que Portugal é muito progressivo. Também tem a ver com recursos - se não tens muitos, o que vais fazer? Prender uma pessoa por fumar um charro ou prender os violadores?

Se lesse os comentários nos sites dos jornais não ficaria com uma ideia tão progressiva de Portugal... Mas esse é o problema da internet. Dantes, se querias que alguém lesse o que tinhas escrito, tinhas de mostrá-lo a alguém numa posição editorial, que teria a sua opinião. O problema da internet é que abriu uma plataforma para todas as pessoas do universo terem uma opinião. Sempre que alguém escreve alguma coisa na internet, que pode ser uma completa mentira, é considerado verdade. Isso é muito perigoso. As pessoas vêm entrevistar-me e têm 10 perguntas: quando vão embora deixam o papel e eu vejo que, no verso, tem a ficha da Wikipédia impressa. A Wikipédia não é pesquisa, é um conteúdo feito por utilizadores, cheio de conjeturas e disparates. Eu às vezes vou à minha página da Wikipédia e apago coisas. E elas voltam a aparecer! Na Wikipédia já disseram que eu chamei Cody ao meu filho por causa de um amigo meu que morreu num acidente de carro. Uma mentira completa. Não tenho nenhum amigo que tenha morrido num acidente de carro.

Sendo o líder carismático dos Placebo, nunca lhe ocorreu tentar uma carreira a solo? Eu não sou o líder carismático dos Placebo. Os Placebo são uma colaboração: as canções são escritas por mim e pelo Stefan Olsdal. Nós somos mais do que a soma das partes e os Placebo não existem sem a música do Stefan e as minhas letras. Eu não sou a parte principal, nós os dois juntos é que somos, o que é compreensível tendo em conta a quantidade de bateristas que já tivemos (risos).

Além do verniz das unhas, sente que os Placebo também influenciaram a música de outras bandas? Oh sim, de que maneira! Por exemplo, nós adoramos os XX, mas já os ouvia antes de lançarem o primeiro disco. Já não tenho muito interesse na música rock. Tive a bênção de poder ver os Queens of the Stone Age a tocar ao vivo, e a maior banda rock do mundo são eles. Quando vês uma coisa assim, percebes que a forma já está gasta. Então, o que nos resta? O desejo de criar algo novo. Temos o império do mal do Simon Cowell do American Idol, aquela treta do karaoke criada para dar dinheiro às companhias de telefone, ao canal de televisão e ao Simon Cowell. É um uso tão cínico e horrível daquilo que é uma forma bela de arte, que acho que de momento temos muita coisa contra o que nos revoltarmos. Mas talvez o rock não seja a solução. Gostava que fosse criado um novo género; obviamente que todos os novos géneros são influenciados pelo que veio antes... penso que esta é uma boa altura para se ser artista, porque há muitas razões para as pessoas estarem zangadas. Em dezembro vou fazer 38 anos mas ainda sou um jovem zangado, o que é muito importante.

Ter sido pai [tem um filho de cinco anos] mudou radicalmente a sua forma de ver as coisas? Sem dúvida! Quando és pai pela primeira vez, tudo muda. Quando se é tão egotista e egocêntrico como eu, a melhor coisa que te pode acontecer é criares outro ser humano (gargalhada). Comecei a preocupar-me com o mundo que lhe vou deixar. Antes era tudo hedonismo e autodestruição, só pela diversão. E não há mal nenhum nisso, porque não tens responsabilidades, mas a partir do momento em que tens uma responsabilidade, percebes que pertences à sociedade e ao bem maior, ou ao mal maior. A escolha é tua.

Ao longo dos últimos 15 anos muito se escreveu sobre o Brian Molko. Qual a coisa mais injusta que leu sobre si? Não quero saber - continuo a fazer o mesmo, porque não sei fazer mais nada. Queimei todas as minhas pontes; ninguém me daria um emprego, não sei guiar, não sou lá muito bom com computadores, não tenho mais do que isto. Não me interessa o que dizem as pessoas frustradas com dois dentes (risos). Sei que o meu objetivo é a verdade e isso é o que me importa.

E até agora tem-lhe corrido bem a vida... Sim, mas também sofri muito, o que também conta. Penso que quando as pessoas são independentes financeiramente e decidem criar uma banda, para elas a música não é uma questão de vida ou de morte. E acho pessoas como o Pete Doherty muito frustrantes, porque para eles a música é só uma forma de chegar a um certo fim. A meu ver, se és artista, a arte deve ser uma questão de vida ou de morte, e não uma forma de andares com pessoas fixes.

A sua família tinha de lutar por essa independência financeira? Não. Eu era da classe média e muito jovem me revoltei contra isso. Fui a primeira pessoa da minha família a ter uma licenciatura, contudo o curso que escolhi era inaceitável para os meus pais: representação. Quando fui para a universidade representei, dirigi peças e fiz pequenos filmes. A minha família não aceitou bem isto, porque descendo de uma longa linha de homens de negócios. Sou a ovelha negra da família. Mas estava tão determinado que comecei a tocar guitarra e pensei: este instrumento vai mudar a minha vida. Fui aceite na universidade aos 17 anos e aos 20 estava licenciado, o que é mais cedo do que a maior parte das pessoas. Foi muito importante poder dizer "está feito!". Quando deixei a universidade passei dois anos e meio no desemprego. Considero que isso foi o empréstimo para as artes que o governo me deu, e que desde então, através dos impostos, paguei 100 vezes.

Sente-se aliviado por não ser um alvo dos paparazzi, como o Pete Doherty? Completamente. Já tive paparazzi atrás de mim, e o meu filho também, e quando isso aconteceu levei essa publicação a tribunal e ganhei. Fotografarem-me a mim tudo bem, mas ele é inocente, deixem-no em paz! Percebo que essas pessoas também têm de ganhar a vida, e nós de certa forma pomo-nos a jeito, mas não tenho qualquer interesse em ser uma borboleta social no jogo da fama. Não é a minha cena. Já foi, e fico satisfeito, porque há 15 anos era importante para mim. Uma das coisas mais insanas que aconteceram à nossa cultura é o culto da celebridade - os jovens estão a crescer pensando que ser famoso é um emprego. Não é: é uma consequência de te esfalfares a trabalhar, de teres uma coisa especial a dizer ao mundo!

Esse culto da celebridade é hoje muito maior do que quando os Placebo apareceram... É algo de perfeitamente endémico e um sintoma daquilo que somos, como espécie, sem a moral. Os seres humanos fazem qualquer coisa por lucro, por isso é que a escravatura existe. Neste momento, 2,5 milhões de humanos estão a ser vendidos para escravatura sexual ou servidão. Na Índia há 10 milhões de crianças escravas. Porquê? Por causa do lucro. E isto há de ser a nossa desgraça. E sabes que mais? Eu acho que merecemos! A Mãe Natureza é uma força muito, muito poderosa. Os cristãos andam cheios de medo porque acham que chegámos ao fim dos tempos, por causa dos tornados e desastres naturais. Eu acredito que é a Mãe Natureza a dizer "vai-te foder, usaste o meu planeta como um pedaço de lixo e agora vou-te lixar". Infelizmente isso afeta as pessoas mais vulneráveis e o 1% de pessoas über ricas não. Olha o que se passa no Paquistão, 20 milhões de pessoas desalojadas. E são as consequências do nosso egoísmo; há uma dimensão espiritual no que fazemos, enquanto sociedade, e no fim a Mãe Natureza vai-nos enrabar, porque pode mais do que nós.

Dá por si a olhar para o passado ou pensa mais no futuro? Geralmente olho para o futuro. Quando olho para o passado, gostava de dizer que não me arrependo de nada, o que não é verdade. Penso que o que fizemos no começo criou uma histeria e uma versão cartoonesca daquilo que somos. Passámos a ser os maricas que andavam de vestido, quando o que tentámos fazer foi reagir contra a britpop, a música do futebol, os Oasis. Queríamos que nos ouvissem e queríamos ser a banda de toda a gente que, tal como nós, não se sentia confortável. E acho que, por termos sido tão extremos, sofremos com isso. Às vezes penso: se só tivéssemos falado da música em vez da sexualidade e de usarmos vestidos, teria sido mais fácil. Mas será que o mais fácil é o melhor? Não creio. Isso tudo fez de nós quem somos hoje e estou muito feliz por uma banda como nós, que representa a tolerância, a liberdade pessoal e a compreensão pelos outros, ser considerada válida no mundo de hoje, a par de tantas bandas muito duvidosas, política e moralmente.

É esse o seu maior motivo de orgulho? Falas espanhol, conheces a palavra "cojones" [tomates]? Tenho muito orgulho nos "cojones" que tivemos. Quando nos ligaram a convidar para irmos ao Top of the Pops, o programa do "establishment", na BBC, pensámos: vamos os dois de vestido, nunca mais vamos ter uma oportunidade destas! Tenho orgulho de, no início da nossa carreira, termos tido a coragem de nos afastarmos da música do futebol, dos Oasis. E olha só: ainda cá estamos e os Oasis já não.

Fica satisfeito quando vê que os miúdos de 14 ou 15 anos continuam a descobrir os Placebo e a ir aos concertos? Li um artigo na imprensa britânica que achei muito inteligente, sobre o Michael Jackson e a ideia da celebridade. A teoria era que, quando te tornas famoso, o teu desenvolvimento emocional para. No caso do Michael Jackson ele deixou de crescer emocionalmente aos 12 anos, porque foi nessa altura que se tornou super-famoso e isso teve um gigantesco efeito de dominó na sua vida. Eu tornei-me famoso aos 22 anos. Agora tenho quase 38, mas a razão pela qual, sempre que lanço um álbum, os miúdos da primeira fila têm 15 anos, é porque sou emocionalmente imaturo e eles identificam-se comigo. E estou bem assim: não quero ser um adulto que acha que tem de aceitar tudo o que a sociedade lhe impõe. A ideia de teres uma banda é criares a tua própria realidade, uma sociedade alternativa. Estamos a viver a nossa cena do Peter Pan e vamos continuar, porque ainda conservamos alguma inocência.

Os Placebo sempre tiveram fãs dedicados. Como lida com os mais obcecados? Respeito-os. A escolha é deles e, se travar contacto com eles, tento ao máximo tratá-los com respeito. Contudo, mesmo sendo um enorme fã de música, nunca tive posters na parede. Interessava-me aquilo que as pessoas faziam com a sua arte, mais do que as personagens ou figuras mediáticas. O que há que perceber é que as escolhas que os fãs fazem não significam que sejam donos da banda. Às vezes também fico "starstruck": nunca me aconteceu com o David Bowie, mas sempre que vejo a Polly Harvey - é minha amiga, mas não a vejo muitas vezes - ainda fico alvoroçado. Desculpa lá, David! (risos) Mas se estiver num restaurante e estiver lá outra pessoa famosa, que direito tenho eu de lhes interromper o jantar? Acredito no respeito e na distância. Se realmente respeitas uma pessoa, deixa-la estar.

Não responde a perguntas sobre o seu filho mas ele está presente em toda a conversa. Ser pai mudou a sua vida? Tudo muda quando tens filhos. Os meus princípios mudaram. Odeio anúncios, não consigo ver televisão porque acho que a publicidade é o mal. Contudo, sou um hipócrita, porque permito que certas empresas usem a minha música. Se não tivesse um filho, não deixava, mas tenho um filho que tenho de pôr na universidade. A economia está na sarjeta, já ninguém compra discos, o que é que eu hei de fazer quando uma marca de carros me telefona a perguntar: podemos usar a tua música? E eu: é um híbrido? E eles: não temos híbridos. Os teus princípios mudam; até certo ponto, eles são voláteis. O meu filho fez cinco anos há dois dias. Por causa dele, preocupo-me menos comigo e mais com o mundo. E vejo injustiça em todo o lado, quando dantes a injustiça estava em mim. É uma influência muito positiva em mim.

Publicado originalmente na BLITZ de novembro de 2010