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Da Weasel: os primeiros passos da Doninha

Em 1993 nascia uma das bandas mais significativas da nova «música moderna» dos últimos vinte e cinco anos portugueses. Fundados pelos irmãos Nobre nascidos em Angola, filhos de pais cabo-verdianos, os Da Weasel cresceram com a década de 1990, “explodiram” no novo milénio e chegaram ao Pavilhão Atlântico, em 2007, antes da rutura em 2010. Regressamos aos primeiros dias, em Almada, e contamos como tudo começou

Foi durante o ano de 1993, na cidade de Almada, que os irmãos Carlos e João Nobre, filhos de pais cabo-verdianos, mas ambos nascidos em Angola e a viver em Portugal desde tenra idade, decidiram fundar os Da Weasel.

Porém, antes do nascimento do projeto que viria a acompanhar os dois irmãos durante dezassete longos e auspiciosos anos, já eram alguns os precedentes musicais no seio da família Nobre. Carlos, o mais novo, chegou a tocar baixo em várias bandas da Margem Sul, como por exemplo O Incesto.

João era guitarrista nos Braindead e preparava-se para lançar Room Landscapes.

Juntos, os dois irmãos ainda tiveram os Esborr, um projeto que se movimentou nos campos do hardcore.

No quarto que partilharam juntos em casa dos pais, João Nobre lançou o repto ao irmão. «Na altura andava deslumbrado com bandas como os Public Enemy e Disposable Heroes Of Hiphoprisy e tentei levar essas influências para os Braindead, mas a matriz era rock metal e não havia espaço para isso», revela João. «Como me apetecia fazer uma coisa mais orientada para o mundo do hip-hop, sobretudo para o álbum Hypocrisy Is The Greatest Luxury [dos Disposable Heroes...], fixei-me na ideia. Só que não tinha mais apoiantes nesta nova aventura, por isso desafiei o meu irmão a cantar. Ele fartou-se de rir; disse que eu era maluco, que o que tocava era baixo e que não seria capaz de cantar. Mas como eu sou um tipo muito teimoso, lá o convenci».

O nome da banda deriva de uma canção dos 3rd Bass [trio norte-americano de hiphop] intitulada «Pop Goes The Weasel».

João adorou o nome «The Weasel», fez uma ligeira mutação no artigo definido e batizou assim o projeto. «Foi simples, nem demorei muito tempo a pensar nisso. Nestas coisas uma pessoa tem de ser prática. Não valia a pena pensar em nomes que quisessem dizer alguma coisa». O passo que se seguiu passou por criar um conteúdo concreto para apresentar às rádios e editoras. «Peguei em quinze contos que tinha juntado durante algum tempo e fomos a estúdio para gravar a primeira maquete. Foi assim que tudo começou», recorda João Nobre.

UMA APOSTA GANHA

A primeira maquete dos Da Weasel foi para o ar ainda em 1993, na recentemente inaugurada XFM. Nuno Galopim, um dos fundadores da rádio e jornalista do Diário de Notícias, recorda o «advento»: «fiz vários painéis durante a semana e foi num horário de sábado que estreei a maquete dos Da Weasel». No entanto, o primeiro contacto do radialista com os dois irmãos acontece nos projetos pré-doninha. «Eu conheço o João Nobre através dos N. Meets Michael, quando ele concorre com a banda no primeiro, e único, concurso de música moderna da Câmara Municipal de Lisboa, em 1991, que dá a vitória aos Plopoplot Pot do Nuno Rebelo. Foi um concurso que teve a participação de nomes que acabariam por marcar parte do panorama da música nacional dos anos 1990. A banda do João Nobre participa logo na primeira ou na segunda eliminatória. Gostei da ideia e do som deles. Como eu já conhecia o João Nobre, os Braindead acabaram por não me ser totalmente estranhos, até porque acompanhei a edição do primeiro álbum deles, o Blend. Conheço o Carlos por essa altura, aliás, nem o conhecia por Carlão, simplesmente como Carlos o "irmão do João". Era um miúdo calado, mas com boa conversa».

Na memória de Galopim reside ainda o episódio que levou Carlos Nobre a dirigirse às instalações da XFM para lhe entregar em mãos a maquete dos embrionários Da Weasel. «Lembro-me perfeitamente. A XFM ficava num edifício no meio do nada na Avenida de Ceuta, na altura ainda tinha o Casal Ventoso todo pela frente, era um ermo. Lembro-me nesse dia de sair do táxi, de entrar no átrio e de ver o Carlos sentado à minha espera. Naturalmente que o reconheci logo na altura. Ele explicoume, então, que tinha uma banda nova, que tinha gravado uma maquete e se havia a possibilidade de eu a ouvir. Convidei-o a subir, sentei-me a fazer a emissão e, à confiança, meti o DAT. Fiz play e saiu o "Monkey King". Ou seja, ouvi a canção no momento em que foi para o ar». A maquete acabou por entrar para a playlist da rádio, causando algum sucesso e criando visibilidade ao duo. Era chegada a altura de dar o próximo passo.

DE DUO A QUARTETO

A obsessão dos dois irmãos pela música feita lá fora, e principalmente pela faceta industrial e noise do álbum Hypocrisy is The Greatest Luxury, levou-os à procura de alguém que conseguisse imprimir tal vertente «samplada» e maquinada.

Armando Teixeira foi a pessoa escolhida para a missão. Antes de ingressar nos Da Weasel, Teixeira já se tinha aventurado no mundo da música com vários projetos que percorreram as mais diversas áreas estilísticas. «Eu antes tinha tido os Ik Mux, uma banda inclinada para a onda da pop eletrónica; depois tive os Boris Ex-Machina, um projeto que misturava tangos, valsas, um pouco de Tom Waits e Kurt Vile. E tinha também criado os Bizarra Locomotiva, um grupo de metal industrial, para participar num concurso de música».

João Nobre relembra como a sua persistência o levou até ao «homem da maquinaria». «Eu não conhecia o Armando, mas conhecia o trabalho dele já tinha visto uns concursos em que ele tinha participado com os Bizarra. Tentei arranjar o número telefone dele e lá o consegui contactar».

Armando Teixeira aceitou o convite para integrar a banda, participou na construção dos seis temas que compõem More Than 30 Motherf***s o EP de estreia, que teria edição em 1994 e conta como foi explorar uma área que até então se revelava uma novidade para ele. «Nós no início tínhamos uma ideia daquilo que queríamos, mas nenhum tinha feito aquele tipo de música».

Yen Sung foi o quarto e último elemento a juntar-se a esta fase inicial dos Da Weasel.

Yen começou a sua carreira como DJ no Frágil [emblemático bar do Bairro Alto, em Lisboa] por mero acaso. «Foi uma coisa de momento, uma oportunidade», explica a DJ. O convite para fazer parte dos Da Weasel surgiu no contexto das matinés do Trópico, espaço inteiramente dedicado ao hip-hop, localizado num armazém grande em Santos, à beira-rio, que servia de ponto de encontro para os integrantes do movimento e onde Yen Sung era DJ. «Inicialmente eram para ser umas noites de acid jazz, mas entretanto achei que esse estilo já estava a ser muito explorado em alguns bares do Bairro Alto e que faltavam noites somente direcionadas para o hip hop».

Carlos Nobre tinha por hábito frequentar essas mesmas matinés e recorda-as da melhor forma. «Eram matinés com muita gente [que veio a fazer parte do] Rapública: ouvia-se Family, Boss AC, Cupid, Black Company, Zona Dread e General D. Essa rapaziada tocava lá toda, a Yen passava discos e vendia-se cachupa, era uma cena fixe». E acrescenta: «o convite à Yen aparece também um pouco pela necessidade de fazer algo diferente. Houve ali algumas coisas que aconteceram quase como se metêssemos a intenção artística antes da competência, assim como os Velvet Underground foram buscar uma Nico por outras razões que não propriamente a música. A Yen representava isso tudo. Ela era, numa altura em que não havia DJs, a única mulher DJ em Lisboa com bom gosto.

Passava e conhecia muito hip hop, mas também vinha de uma tradição meio punk e pesada. Então não era uma "gaja" do hip hop, era muito mais que isso».

Constituída a equipa, e depois do sucesso da maquete ter feito os dois irmãos acreditar que seria possível alcançar algo mais, era chegada a hora de avançar para a gravação do primeiro EP. Porém, o vínculo contratual que João Nobre possuía com a EMI, enquanto membro dos Braindead, impossibilitava o artista de assinar outros trabalhos com o mesmo nome.

Jay Jay Neige, o pseudónimo pelo qual passou a ser conhecido durante os anos de existência dos Da Weasel, surge dessa necessidade de discrição. Para Carlos Nobre a história foi mais simples e desprovida de qualquer camuflagem, o rapper adotou o nome de um dos seus jogos de computador prediletos, Pacman, por ser um personagem com o qual se identificava.

MAIS DO QUE 30 PALAVRÕES

Em 1994 é lançado o primeiro trabalho discográfico dos Da Weasel, o EP More Than 30 Motherf***s, que viria a ser o responsável pela nomeação do quarteto da Margem Sul para os prémios BLITZ na categoria de «Banda Revelação», prémio que acabariam por perder para Pedro Abrunhosa com o aclamado Viagens. «Embora o nosso EP tivesse granjeado muito boas críticas da generalidade da opinião especializada, o álbum Viagens foi um autêntico tsunami», refere Jay Jay. Jogava a nosso favor o facto de o nosso EP ser um disco muito alternativo, o que encanta sempre a crítica em desprimor dos grandes sucessos de vendas. Mas sabíamos que não teríamos hipótese... Foi bom porque nos colocou no mapa e despoletou interesse do público, de editoras e agentes».

Amândio Bastos, diretor dos estúdios da Valentim de Carvalho, foi uma das pessoas vitais na construção do primeiro EP. «Depois de a maquete ter passado na XFM, há uma proposta do Amândio, que conhecia o meu irmão dos Braindead, para nos gravar o disco nos horários livres do estúdio», afirma Pacman. Quando não houvesse lá ninguém ele conseguia meternos mais ou menos de surra a pagar um valor simbólico».

More Than 30 Motherf***s foi o nome escolhido para o EP e representa uma vontade que os Da Weasel tinham de passar a ideia que havia muito mais para dizer do que trinta palavrões. «Na altura o hiphop estava impregnado com discursos ultra machistas, 'caralhadas' gratuitas e mensagens inócuas. Mas eu revia-me em toda a linha do discurso de artistas como os Disposable Heroes of Hiphoprisy ou Public Enemy, que promoviam a discussão sobre o estado social, político e humano». Num artigo publicado a 3 de agosto de 1994 no já extinto semanário Se7e, intitulado Rap Por Cá A Nova África, onde podemos encontrar também testemunhos de General D e Yen Sung, Pacman explicava a origem e a essência dos temas que compunham o EP. «Eles vêm da nossa experiência pessoal e da cena urbana: desde o problema da droga à cidade onde vivemos. Procuramos fazer intervenção social e criticar o que está mal neste país e não só. Depois há também experiências pessoais: "And Life Goes On" é uma canção sobre uma amiga nossa que morreu de sida».

De facto, podemos encontrar neste primeiro disco uma preocupação com a mensagem transmitida e um tom politizado que vai desde a capa até às rimas de Pacman. A nível do idioma aplicado na escrita e no canto, era impensável para o rapper expressar-se noutra língua que não o inglês. «Basicamente o que eu queria era ser igual aos gajos que ouvia, e para sê-lo tinha de o fazer em inglês, nem o imaginava de outra forma. Mas depois, quando fui pressionado por pessoal de fora a escrever e a cantar em português algo que só aconteceu no LP Dou-lhe Com a Alma -, percebi que só assim fazia sentido».

Mário Dimas, agente e manager de bandas da Margem Sul, foi outro dos principais intervenientes nesta primeira fase dos Da Weasel. É através dele e da sua editora Margem Esquerda que More Than 30 Motherf***s vê a luz do dia. A ligação do empresário com o quarteto vem da altura do management aos Braindead, porém foi no contexto dos Da Weasel que Mários Dimas se viu obrigado a criar o seu próprio selo discográfico. «Comecei a trabalhar com algumas bandas aqui de Almada, fui manager dos UHF. Ouvi os Da Weasel, achei o projeto muito bom e andei à procura de uma editora que tivesse interesse. Fui à Valentim, à Polygram e nenhuma delas mostrou vontade de os lançar. Sou, assim, forçado a criar uma própria editora. Assim nasce a Margem Esquerda, criada com esse único propósito».

More Than 30 Motherf***s contou com uma edição de 1500 exemplares e, segundo Mário Dimas, «vendeu a conta gotas». O EP é constituído por seis temas «Da Weasel», «Monkey King», «One More», «God Bless Johnny», «And Life Goes On» e «Mi Ma Moo» todos eles, ainda nas palavras do empresário da Margem Sul, «passíveis de virem a tornar-se hits da banda». Mas, deste conjunto de seis canções, houve uma que tomou balanço e se destacou das restantes, chegando a ser, despropositadamente, hasteada como bandeira de uma das salas de espetáculo mais emblemáticas da zona de Lisboa, o Johnny Guitar (sito na Calçada do Marquês de Abrantes, em Santos)

O HINO ACIDENTAL

Os primeiros anos da década de 1990 em Lisboa foram pautados pelo encerramento do mítico Rock Rendez Vous e pela abertura do Johnny Guitar, que acabaria por se tornar igualmente um lugar de culto, com o tema «God Bless Johnny» a afirmar-se como «hino» do espaço. «Foi fruto do acaso, uma coisa não tem rigorosamente nada a ver com outra. Não houve programação nenhuma, não fizemos de propósito», reforça Jay Jay. «Nalgumas entrevistas que demos na altura, as pessoas chegaram a pensar que a canção era uma homenagem ao Johnny Guitar. Como era um tema a abrir, com uma boa carga de guitarras e baixos pesados, entrava no perfil do espaço, por isso acabou por ser tornar a sua cara». E aí os Da Weasel tocaram muitas vezes.

A palavra a Mário Dimas: «o Johnny Guitar era palco daqueles espetáculos clássicos, cheios, em que já não dava para entrar nem mais uma pessoa. Ainda ficava muita malta cá fora. Não havia hipótese, lá dentro o pessoal chegava quase ao backline, quase que se sentavam em cima dos monitores. Foi um espaço emblemático para os Da Weasel». Pacman: «lembro-me de termos dado lá uns concertos muito fixes. Mesmo sendo um projeto claramente na área do hip-hop, a atitude da banda e das pessoas que lá estavam era muito punk, havia muito aquela cena quase de mosh e stage diving. O Johnny Guitar era o sítio ideal para este tipo de coisas».

A estreia ao vivo dos Da Weasel deu-se, contudo, na Gartejo [que depois ganharia o nome de Paradise Garage], na zona de Alcântara. No mesmo artigo do semanário Se7e podemos encontrar uma menção ao primeiro espetáculo, pelas palavras de Cristina Duarte: «os Da Weasel começaram há seis meses, e a banda inclui, para além de Pacman e Yen Sung, Armando Leite (samplings) [mais tarde viria a assinar como Armando Teixeira], Jay Jay (baixo) e João Fagulha (saxofone). No primeiro concerto da banda na Gartejo (a 15 de junho), contaram ainda com mais três convidados: Quaresma (guitarra) [que viria a entrar para os Da Weasel no álbum Dou-lhe Com a Alma], Lala e Carlos (trombone de varas e trompete, respetivamente)». Foi neste concerto que More Than 30 Motherf***s foi apresentado, e foi por isso «um concerto criado à medida para o local», como o explica Mário Dimas.

Sobre a incorporação de elementos extras para o espetáculo, Jay salienta que, «na altura, também havia o álbum dos Us3 que fundia o jazz com o hip-hop uma junção que adorávamos. Tentámos puxar um tema ou outro para esse imaginário, embora sem o mesmo talento e capacidade».

Seguiram-se a esta primeira experiência outros concertos de norte a sul do país, em bares e discotecas, com um sucesso «muito semelhante às atuações na capital» (palavras de Mário Dimas). A doninha estava encaminhada e com um caminho fulgurante pela frente.

Texto: Manuel Rodrigues

Publicado originalmente em setembro de 2013