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No Coliseu dos Recreios, em 1983

Rui Ochôa/Arquivo Gesco

José Afonso: os últimos passos do génio

Nos derradeiros anos de vida, viu o seu nome ser consagrado em concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto e gravou peças essenciais de uma discografia que permanece essencial. 30 anos depois da morte de José Afonso, José Mário Branco, Júlio Pereira e José Fortes abriram as suas memórias. E desvendamos uma aparição pouco celebrada: o adeus foi, afinal, em Coimbra.

No verão de 1983, em conversas mantidas com José A. Salvador, o autor de Livra-te do Medo (livro de 1984, reeditado e expandido em 2014 pela Porto Editora), José Afonso confessou não ter gostado muito do espetáculo do Coliseu dos Recreios, que teve lugar a 29 de janeiro do mesmo ano. «Vivi muitas situações daquelas, apenas com menos gente», justificou. O concerto – que foi fixado no duplo LP Ao Vivo no Coliseu lançado pela Sassetti alguns meses depois – contou com a participação de companheiros de percurso como Janita Salomé, Júlio Pereira, Rui Júnior ou Rui Pato e foi uma homenagem a um homem já em dificuldades, que desde 1982 sabia estar a ser consumido por uma doença neurológica que o venceria a 23 de fevereiro de 1987. A esta distância, e conhecendo-se como se conhece José Afonso, o seu pensamento e a sua obra, será legítimo pensar que o que pode não ter sido do seu inteiro agrado foi o tom de homenagem. «Valerá a pena?», perguntou bastas vezes José Afonso ao autor de Livra-te do Medo. «Se achares que o que eu digo não tem interesse, não faças o livro».

Hoje, Júlio Pereira sublinha que, na fase final da sua vida, José Afonso foi vítima de uma crescente falta de atenção por parte dos media que, na sua opinião, espelhava «uma derrota institucional do 25 de Abril». «Eh pá, estou farto desta merda», desabafou o cantor em junho de 1983. «Se queres que te diga, nem quero fazer o livro», confessou a José A. Salvador. «Precisava de criar um hiato. Precisava de desmemoriar-me por completo. E ser, depois, um personagem do teatro de Pirandello». José Mário Branco explica-nos que a doença não desmotivou José Afonso e que «só os aspetos físicos se iam degradando», mas talvez a desilusão viesse do que considerava ser o rumo do país. Desaparecer para dentro de uma peça de Luigi Pirandello seria fugir do que via como uma realidade absurda: «o Zeca preocupa-se muito com o que se passa e, sobretudo, com a demissão da esquerda, ou com o desaparecimento de uma certa militância», escrevia José A. Salvador, em 1983. Dois anos depois, numa das suas derradeiras entrevistas, concedida a Viriato Teles do semanário Sete e publicada a 27 de novembro de 1985, José Afonso esclarecia: «eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso, mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». Mesmo na fase final, José Afonso procurava ainda compreender-se e entender a sua música: «não sei se lhe chame música de texto», ponderava o cantor nas páginas do Sete, «música social, música de intenção política, música de intervenção».

Para lá dos rótulos designativos, a música de José Afonso continuou a evoluir até ao final. A parte de leão da sua discografia tem carimbo da editora Orfeu, de Arnaldo Trindade, que começou a editar José Afonso em 1968 com o álbum Cantares do Andarilho e dele só se despediu em 1981 com a edição de Fados de Coimbra e Outras Canções. Os dois últimos trabalhos de originais, Como se Fora Seu Filho (Sassetti, 1983) e Galinhas do Mato (Transmédia, 1985) mostram um José Afonso ainda em busca de coisas novas, criativamente inquieto, mesmo se já fisicamente debilitado. E, obviamente, «comprometido», para usar a sua expressão, com o momento histórico e político e com as pessoas que o rodeavam.

"Como Se Fora Seu Filho", álbum de 1983

"Como Se Fora Seu Filho", álbum de 1983

Música avançada

«Começado a gravar ainda antes do espetáculo do Coliseu dos Recreios e terminado já em abril de 1983, Como Se Fora Seu Filho é por alguns entendido como o testamento de José Afonso, quiçá por ser o último trabalho onde canta todas as músicas ou também pelos textos que nele surgem – especialmente “Utopia”, “Canção da Paciência” ou “O País Vai de Carrinho”, onde oferece lúcidos retratos ora de esperança pura, ora de desencanto em relação ao Portugal de então, quase dez anos depois do 25 de Abril de 1974». As palavras do investigador João Carlos Callixto fazem parte das notas da edição de As Últimas Gravações, uma caixa lançada pela Companhia Nacional de Música que reúne o álbum gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios e os dois últimos registos de originais. Em Como Se Fora Seu Filho participam Fausto, Júlio Pereira e José Mário Branco: «foi-me muito difícil juntar os três no estúdio», dizia, em 1983, José Afonso. «Mas são os melhores e, sem eles, eu não teria conseguido realizar o disco».

«Participei apenas com três arranjos – “Canarinho”, “Eu Dizia” e “Altos Altentes”. Não participei na produção e organização do álbum», sublinha agora José Mário Branco. «As sessões de gravação foram normais: como sempre fiz com o Zeca, cheguei com as propostas de arranjos já pensadas e escritas; o Zeca concordou. Eram arranjos de estrutura (aparentemente) muito simples e o Zeca gostou», recorda o produtor, que depois especifica o que se passou em cada uma das canções em que trabalhou: «“Altos Altentes”: além do Zeca, só o Rui Júnior (percussões) e o Rui Cardoso (vários saxofones). “Canarinho”: além do Zeca, só o Rui Júnior (base de tumbadoras) e eu próprio tocando várias flautas de madeira, umas de bisel, outras rústicas; e ainda, na longa coda, um coro de mulheres (Toinas, Guida, Cristina, Lena – todas ex-GAC –, Isabel Campelo, Formiga e Maria do Amparo) e o Janita Salomé a cruzar-se com elas. “Eu Dizia”: além do Zeca, só eu (ao piano) e o Pedro Wallenstein (no contrabaixo). Apesar da pulsação na base, a estrutura é muito ad lib, por isso tivemos de gravar junto com o Zeca, ou seja, os três ao mesmo tempo. Acho que foi a última vez que o Zeca cantou em gravações; o Pedro e eu sabíamos que era assim, e por isso nos emocionámos muito».

A operar a mesa de mistura e o gravador estava José Fortes, à época o proprietário do estúdio Angel onde se registaram as sessões de Como Se Fora seu Filho e, mais tarde, de Galinhas do Mato. «Ele nunca estava satisfeito com aquilo que fazia», conta-nos José Fortes. «Presumo que na sua cabeça havia uma ideia sempre mais avançada do que aquela que depois conseguia realizar». O produtor que nas sessões de 1983 e 1985 foi «apenas» engenheiro de som não se coíbe de dar a sua opinião sobre os trabalhos que rodearam estes álbuns: «houve muita gente envolvida e acho que ele teve alguma dificuldade em transmitir as suas ideias. Ele não contradizia o que lhe diziam e nunca deixou de estar insatisfeito». Fortes assegura também que «Zeca foi sempre capaz de transmitir uma emoção ímpar». Sobre a dignidade de José Afonso, José Fortes recorda um episódio: «gravei o Zeca a primeira vez numa sessão para José Niza. E ele ao microfone disse algo como “Não sei se o senhor técnico sabe o que eu vou gravar, mas não o quero ofender. É que lá fora o senhor poderá contestar as minhas palavras, mas aqui tem que me gravar e eu não o quero ofender”. Ele era assim, tinha um enorme respeito pelo próximo».

Em Livra-te do Medo, José Afonso comenta a primeira audição de Como Se Fora Seu Filho, disco que lhe chegou às mãos num dia em que tinha sido visitado pelo escritor e jornalista José A. Salvador. «Já ouvi tantas vezes que não me suporto ouvir», começou por deixar escapar José Afonso. O autor do livro explica-lhe depois que gostou bastante do tema «Papuça», que descreve como «uma invulgar experiência musical e vocal com referências africanas e jazzísticas». O cantor responde que «quis que fosse o prato forte». Já sobre «O País Vai de Carrinho», uma das suas mais mordazes críticas ao Portugal pós-Abril, em que canta que «os falcões das avenidas / são os meninos nazis», José Afonso esclarece que é um tema «para a malta dançar!».

Ainda em 1983, José Afonso despede-se dos palcos com um concerto no Coliseu do Porto e uma fugaz passagem por um espetáculo de homenagem na cidade de Coimbra (ver caixa). A doença avança, levando o cantor a estados alternados de esperança – médicos, remédios, óleos trazidos por amigos como o padre Fanhais de países nórdicos – e de desalento. Ainda assim, há um último e importante álbum na sua discografia, em que José Afonso surge mais como eminência parda do que como cantor. Ao longo dos anos, José Afonso foi colecionando ideias em cassetes que gravava sempre que podia. E daí saíram algumas das diretrizes para Galinhas do Mato.

"Galinhas do Mato", derradeiro álbum de estúdio (1985), gravado com várias vozes convidadas

"Galinhas do Mato", derradeiro álbum de estúdio (1985), gravado com várias vozes convidadas

«Sabíamos que o Zeca não ia cantar»

«Ele levava o gravador para todo o lado. Lembro-me dele à porta de um hotel em Vigo me dizer que estava com vontade de fazer ali mesmo uma música. Eu fui a correr ao quarto buscar-lhe o gravador de cassetes e ele, ali de repente, fez do princípio ao fim o “Cantar Galego”. Foi a primeira vez que assisti a alguém a fazer uma música do princípio ao fim, assim a cru», conta-nos Júlio Pereira, que gravou o tema em causa no seu álbum Cavaquinho, de 1981. O músico que coproduziu, juntamente com José Mário Branco, o derradeiro registo discográfico de José Afonso recorda um homem profundamente criativo, que ia registando as ideias num pequeno gravador, sempre em busca de algo novo. «Ele não sabia música, mas tinha ideias para os arranjos, apesar de não me saber dizer se a seguir deveria aparecer um acorde menor ou maior, mas, por exemplo, no Galinhas do Mato, exemplificou com uma dança que ele tinha visto na Beira, em Moçambique, de umas mulheres que tinham uns guizos nos pés. E isso sugeriu o beat e a ambiência musical para o tema».

A Viriato Teles, em 1985, José Afonso falou sobre o seu envolvimento no que ele próprio sabia ser o seu registo de despedida. «Eu, a princípio, achei que não valia a pena, não estava a ver-me assim no papel de compositor. Por mim, punha uma pedra no assunto e ficaria o Como Se Fora Seu Filho o meu último disco», referiu então. «Mas a verdade é que tinha por aí algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar, era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais próximas de mim, até em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Zé Mário Branco e o Júlio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, de que seria necessário utilizar essas músicas para um novo disco».

«O Júlio e eu já sabíamos que o Zeca não ia cantar», informa-nos José Mário Branco. «As duas canções onde aparece a voz dele eram coisas já gravadas para o álbum anterior (“Escandinávia Bar” e os couplés da “Década de Salomé”). O Zeca participou em todo o trabalho preparatório, nas decisões sobre a escolha dos cantores, e esteve quase sempre presente a dirigir todo o trabalho de estúdio, no Angel 1. Como o estúdio era na cave e ele já não podia descer as escadas, o Zé Fortes instalou na entrada uns auscultadores e um microfone, para ele poder estar sempre a ouvir tudo e a dar indicações e opiniões. Na conceção dos arranjos, o Júlio e eu estivemos muito juntos, é difícil (e, acho eu, despropositado) estar aqui a distinguir o que foi criado por ele e o que o foi por mim», explica ainda o cantor, compositor e produtor. «Nas decisões sobre cantores, quase todas as indicações foram dadas pelo Zeca. Só houve testes para a canção “Benditos” em que se hesitou entre a Toinas (ex-GAC) e a Né Ladeiras – era preciso que fosse uma voz feminina grave. Acabou por ficar a Né, mas eu discordei», ressalva José Mário.

Galinhas do Mato é um registo atípico na discografia de José Afonso, não apenas por divergir formalmente de álbuns anteriores, já que a sua voz não é dominante, mas também por incluir muita eletrónica, trazida para as sessões por Júlio Pereira que, de forma inovadora, ia na sua própria discografia ensaiando pontes entre a tradição popular e as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias. «Devo ter sido por cá um dos primeiros a usar computador nas músicas e no tema Galinhas do Mato; lembro-me de usar um dos primeiros interfaces MIDI que apareceram por cá. Muita gente tinha uma ideia negativa do computador, mesmo na música, havia uma certa ideia de desumanização. Mas o Zeca foi o único que não mostrou medo do computador, antes pelo contrário”, assegura Júlio Pereira.

«“Galinhas do Mato” é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância, e pensei que não encontraríamos uma solução instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se», explicava em 1985 José Afonso a Viriato Teles. «Um computador, nas mãos do Júlio Pereira. Mete sons vários, desde o kissange, percussões e outros sons mais ou menos eletrificados ou plastificados, mas que são exatamente tipo som artesanal». Um homem, enfim, sempre na vanguarda do pensamento.

Fotografado no início dos anos 80, sentado ao fundo das escadarias da Assembleia da República

Fotografado no início dos anos 80, sentado ao fundo das escadarias da Assembleia da República

Um disco sofrido

Para acontecer, este derradeiro registo discográfico precisou ainda de ultrapassar alguns sérios obstáculos, como faz questão de frisar José Fortes. «O Galinhas do Mato esteve para não ser editado por causa da doença do Zeca. Quando ele adoeceu as gravações pararam. O estúdio, que era meu, tinha regras. A fita de multipistas era cara e o Galinhas do Mato ocupou onze fitas de duas polegadas e na altura cada bobine custava uns 35 contos. O estúdio tinha ali empatada uma boa maquia nas fitas do Zeca. Os clientes tinham duas hipóteses: ou compravam a fita ao estúdio ou alugavam a fita ao estúdio e o aluguer não podia ser eterno. Ao fim de seis meses reservávamo-nos o direito de apagar as fitas», conta o engenheiro de som. «Quando passaram seis meses sobre as gravações perguntei à editora se o trabalho era para continuar, uma vez que já se sabia do problema de saúde do Zeca, e se queriam manter as fitas. Disseram-me que não, que o trabalho não iria ser continuado. Eu alertei-os que, nesse caso, as fitas seriam apagadas. Claro que cerca de um ano depois vieram [da editora] ter comigo e eu disse-lhes: “bem, as fitas ou vocês as compraram ou estão apagadas”. A mulher do Zeca, a Zélia, ligou-me passados uns dias a lamentar-se: “Ah, Zé, então apagaste as fitas?”. Respondi que não, “quem apagou foi a editora”. A Zélia foi à editora, que admitiu que deveria, de facto, ter adquirido as multipistas, e depois falou comigo, lamentando-se. Eu convidei-a para um café e expliquei-lhe que não tinha apagado nada, disse-lhe que lhe ofereceria as fitas, mas que ela teria que lançá-las com outra editora. Foi assim que o Galinhas do Mato acabou por acontecer».

José Afonso viria a falecer a 23 de fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal. E tanto Júlio Pereira como José Mário Branco guardam, como seria de esperar, memórias duras desse acontecimento. «Essas são coisas que eu não gosto de recordar», explica-nos José Mário Branco. «Na medida do possível, tento esquecer porque foi um grande sofrimento e uma grande perda». O homem de Ser Solidário tem sido ao longo dos anos um dos mais fortes impulsionadores da memória e da obra de José Afonso e à BLITZ volta a sublinhar o génio do seu amigo, desaparecido há 30 anos: «o Zeca para mim está vivíssimo no esplendor da sua obra. Está lá TODO o Zeca: a voz, a criatividade, o carácter, o cidadão, o cantor, o amigo. Desde que ele morreu, nunca aceitei participar em nenhuma evocação ou homenagem feita a propósito da sua morte, ou referida à data da sua morte. É um costume salazarento que ainda vigora em Portugal: comemorar a morte do artista, quando há tantos aspetos positivos da vida dele que deveriam ser comemorados. Eu pratico a melhor de todas as comemorações: estudar a sua obra, deixar-me incentivar pelo seu génio».

"Zeca em Coimbra", um falso álbum ao vivo

"Zeca em Coimbra", um falso álbum ao vivo

O último espetáculo e o falso disco ao vivo

O desmontar de um mito: a última aparição pública de José Afonso não foi em Lisboa nem no Porto.

Apesar de se encarar muitas vezes a apresentação no Coliseu dos Recreios como a derradeira vez que José Afonso pisou um palco, a verdade é que há registos de mais duas aparições públicas. Nuno Corvacho, num texto disponibilizado no sítio oficial da Associação José Afonso, conta a história da passagem pelo Coliseu do Porto, a 25 de maio de 1983, para uma homenagem pensada por Avelino Tavares, da revista Mundo da Canção. Com bilhetes disponibilizados ao preço único de 500 escudos, o concerto do Porto seguiu a mesma linha do de Lisboa uns meses antes, «porventura com menos folclore, mas mais denso e sentido», de acordo com Avelino Tavares. E foi o organizador, nas suas declarações ao jornalista Nuno Corvacho, que sentenciou a aparição no Porto como o derradeiro concerto de José Afonso: «lembro-me até de, no dia seguinte ao concerto, ter ido levar o José Afonso e a Zélia [mulher dele] à estação de Campanhã porque ele ia a Coimbra receber a medalha de honra da cidade. E, na melhor das hipóteses, o que terá havido foi uma festa de estudantes em que se terão cantado uns fados».

Dessa «festa de estudantes» resultou, aliás, o disco Zeca Em Coimbra, uma edição da Foto Sonoro desaprovada pelo próprio José Afonso, em que o cantor surge apenas numa das faixas, «Saudades de Coimbra». Trata-se, no entanto, de uma falsa gravação ao vivo. Octávio Sérgio, guitarrista que participou na homenagem que teve lugar no Jardim da Sereia, citado no blogue Guitarra de Coimbra, explicava o que realmente consta nesse registo não autorizado: «A 26, foi a homenagem ao Zeca em Coimbra. Fizeram-no estar duas horas ao relento, na Sereia, o que lhe não fez nada bem, dado o adiantado da doença de que padece. Cantou apenas “Saudades de Coimbra”, mas não conseguiu chegar ao fim sem lhe falhar a voz. Foi um esforço demasiado que lhe impuseram. Depois das emoções do Coliseu do Porto, necessitaria de uns dias de descanso! Ainda por cima pretendem pôr em disco a sua atuação. Mas como, com as falhas de voz? Zeca Afonso não o vai permitir, assim penso! Resolvem a situação pondo a gravação que fez comigo, juntando-lhe outras guitarras como se ali tivesse sido? A ver vamos!».

De facto, e sem que tal tivesse sido autorizado, o disco incluiu a versão de «Saudades de Coimbra» que José Afonso fez para o álbum Fados de Coimbra e Outras Canções.

Publicado originalmente na BLITZ de fevereiro de 2017