Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Getty Images

A canção de protesto na era Trump

A cada dia que passa surgem canções e declarações de músicos que fazem das suas vozes um coro que se une na crítica à ação do atual presidente norte-americano. Aqui estão os primeiros capítulos de uma história que terá ainda muito que nos cantar

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

«Dou-te o poder, mas posso tirar-to». A mensagem é concisa, simples e muito clara. Na véspera da tomada de posse do 45º Presidente dos EUA, os canadianos Arcade Fire apresentavam uma canção para os tempos de incerteza que vinham pela frente, usando estas mesmas palavras como refrão, sugerindo, com a sua repetição, um mantra de alerta para a era Trump. Sob o título «I Give You Power», e chamando a estúdio a voz da veterana Mavis Staples, uma das primeiras canções de protesto em tempo de chegada de uma nova administração à Casa Branca sublinhava a crença do eleitor num sistema democrático que, se por um lado concede a alguém o poder através do voto, por outro pode usar a mesma arma para, depois, dizer que basta.

No tweet através do qual apresentavam oficialmente a nova canção, os Arcade Fire sublinhavam: «nunca foi tão importante que nos mantivéssemos juntos e que cuidemos uns dos outros». E logo ali ficava claro que os fundos recolhidos por este tema inédito reverterão em favor da American Civil Liberties Union, uma ONG que tem a sua sede em Nova Iorque e cuja missão é a de «defender e preservar os direitos e liberdades individuais garantidos a cada pessoa» nos EUA ao abrigo da sua constituição. A ACLU age em situações em que as liberdades individuais estejam postas em questão e participa em processos judiciais relacionados com a defesa da liberdade e dos direitos constitucionais dos cidadãos. Foi, de resto, chamada a agir logo no dia em que foi assinada a ordem executiva que barrou a entrada nos EUA a cidadãos de sete países de maioria muçulmana.

Também na véspera de 20 de janeiro, mas do outro lado do Atlântico, os Gorillaz colocavam um ponto final ao silêncio em que viviam há já algum tempo, apresentando uma nova canção para a qual chamaram a colaboração vocal de Benjamin Clementine. Em «Hallelujah Money», num clima musical que lembra os dias de glória do trip hop, os recados não são tão panfletários como no tema dos Arcade Fire. Através de imagens e metáforas a canção alude mesmo assim a muros e à sede pelo poder. O teledisco acrescenta iconografia mais explícita, desde uma marcha do Ku Klux Klan a um hall dourado com elevadores que pode representar uma alusão à imagem da Trump Tower que surgiu em diversas notícias de encontros do presidente eleito nas semanas que precederam a tomada de posse.

Mas a voz mais contundente que então se levantava já se ouvia a cantar há dois dias. «We don’t want your tiny hands anywhere near our underpants»... Que é como quem diz, «não queremos as tuas mãos pequeninas perto das nossas cuecas»... Este é o bem incisivo refrão de uma canção de Fiona Apple que, um dia antes das canções novas dos Arcade Fire e dos Gorillaz, juntava a sua às vozes de protesto que já vinham a levantar-se deste os dias da campanha eleitoral. Curta e afiada, a canção «Tiny Hands», composta em parceria com Michael Whalen, começa com um sample da voz de Donald Trump extraído do vídeo do programa «Acess Hollywood» no qual o agora presidente se ouvia a dizer «grab them by the pussy», que gerou, de resto, um dos casos mais inflamados da campanha. O tema surgiu para chamar a atenção para a marcha das mulheres, um protesto que, no dia que se seguiu à tomada de posse, juntou multidões em várias cidades, não apenas nos EUA mas pelo mundo fora.

Oito anos depois da tomada de posse de Barack Obama (que durante os seus dois mandatos levou inúmeras grandes figuras da pop, rock, jazz e clássica à Casa Branca), a chegada de Donald Trump a Washington DC foi literalmente assinalada por uma banda sonora completamente diferente. De resto, ao atual presidente foi-lhe difícil encontrar quem quisesse cantar nas cerimónias de «inauguration», tendo recebido até reações corrosivas, como por exemplo aconteceu com Moby, que chegou a gracejar publicamente com o convite que lhe fora feito antes de revelar que o ia recusar. Mas Moby não foi o único a tornar público o declinar do convite. Elton John deixou clara essa mesma recusa. Tal como o músico country Garth Brooks, que chegou a considerar a oferta mas depois optou por deixar passar esta oportunidade... Vale aqui a pena recordar que em 2013, para cantar nas escadas do Capitólio o hino nacional no momento da tomada de posse para um segundo mandato de Barack Obama, a cerimónia contara com uma figura da dimensão de Beyoncé.

Um dos raros nomes com expressão mediática com presença na posse de Trump foram os 3 Doors Down, a quem não faltaram depois mensagens de sarcasmo, como sucedeu no programa indie friendly de Jimmy Fallon na semana em que o 45º presidente chegou à Sala Oval. Não é, contudo, nova nem inesperada a má relação de grande parte da comunidade musical com Trump. Assim como basta recordarmos memórias de campanhas anteriores para reconhecer que grande parte das celebridades pop/rock costumam alinhar mais pelo lado dos democratas do que dos republicanos. E durante a campanha tivemos suficientes exemplos disso mesmo.

Há alguns meses, num comício da candidatura de Trump em Lexington (na Carolina do Sul), a chegada ao palco do candidato fazia-se ao som de «Rolling in the Deep», de Adele. E, quando a cantora soube do uso da sua música naquela ocasião, reagiu. E não só proibiu Trump como qualquer outra candidatura de usar as suas canções. Antes de Adele já Steven Tyler, dos Aerosmith, tinha recusado à mesma candidatura a utilização da canção «Dream On» em eventos públicos. E os R.E.M. fizeram um pedido semelhante para que o seu clássico «It’s the End of the World as We Know It» deixasse de ser utilizado em iguais circunstâncias. De resto, este tema foi intensamente partilhado nas redes sociais em finais de janeiro por alturas da mudança de administração.

The Edge, dos U2, entre Brad Wilk (Rage Against the Machine) e a atriz e cantora Juliette Lewis, na Women's March de Los Angeles, em janeiro.

The Edge, dos U2, entre Brad Wilk (Rage Against the Machine) e a atriz e cantora Juliette Lewis, na Women's March de Los Angeles, em janeiro.

Entre pregões e declarações

As canções dos Arcade Fire, Gorillaz ou Fiona Apple traduzem primeiros sinais de como a comunidade musical será, tal como está a acontecer entre os profissionais do humor, uma das vozes críticas mais atentas durante a administração Trump. Ainda antes daquele dia em que Washington DC não conheceu as mesmas enchentes que assistiram às duas tomadas de posse de Obama (apesar da tentativa de nos dizer o contrário por parte tanto do presidente como do seu porta-voz para a imprensa) já as movimentações de protesto se faziam escutar na forma de música. Revelado no quadro da série «30 Dias 30 Canções», que criou temas de protesto ainda antes da eleição, o tema «Million Dollar Loan», dos Death Cab for Cutie, foi um dos primeiros hinos anti-Trump, com uma letra na qual, entre outras frases, se refere que pedir desculpa é um sinal de fraqueza, apontando ali a crítica à pose triunfante habitual no então candidato. Toda a letra fala de um milionário que olha «lá de cima» (da sua torre) para a cidade, revelando o teledisco uma silhueta que não deixa dúvidas sobre aquele a quem se refere.

A mesma campanha de 30 canções tinha já revelado «Locker Room Talk», dos Cold War Kids, que incitava ao voto em Hillary Clinton e falava do candidato republicano como aquele que quer levantar novamente muros que levaram anos a derrubar. Ainda em outubro, Eminem comentava a campanha de Trump em «Campaign Speech». E em «Trump Is On Your Side» Moby comentava o facto de estar a favor de quem trabalha quem «nunca trabalhou um único dia da sua vida». Os protestos anteriores à eleição não surgiram apenas em solo americano. Os escoceses Franz Ferdinand apresentaram, ainda em 2016, o tema «Demagogue», que apresentaram num lyric video que deixava bem evidente a sugestão de um rosto de Donald Trump, cantando-nos a voz de Alex Kapranos sobre «pequenos dedos vulgares sobre a bomba nuclear». Mais tarde as Cocorosie apresentaram «Smoke ‘em Out», tema no qual colabora Anohni, que, em finais de março, edita um novo EP seu que acrescentará novas canções ao coro de protesto, tendo a autora de «Hoplessness» sublinhado já que a política ambiental da nova administração é um dos alvos da sua postura ativista através da música.

Mas desde que Donald Trump assumiu o cargo, a 20 de janeiro, cantos de resistência e ativismo e discursos inflamados começam a surgir com cada vez maior frequência. Billy Bragg (conhecido por abraçar diversas causas de esquerda) reinventou «The Times They Are A’Changin», de Bob Dylan, com uma letra afinada em função da América de Trump. Madonna, que deu que falar pelo discurso cortante (e usando a chamada «f word») durante a marcha das mulheres de 21 de janeiro, foi depois descrita pelo próprio Trump como «nojenta». Lilly Allen usou entretanto imagens de uma das marchas (a de Londres) para acompanhar, num teledisco, uma versão sua de «Going to a Town», um original de Rufus Wainwright.

Roger Waters, que tem dedicado muito do seu discurso político ao combate aos muros que dividem comunidades lançou online, no dia da tomada de posse, um vídeo de um excerto de uma atuação na Cidade do México durante o qual, ao som do clássico «Pigs (Three Different Ones)», dos Pink Floyd, apresentou no grande ecrã colocado sobre o palco uma série de frases críticas e imagens com o rosto de Donald Trump. E acrescentava a mensagem: «a resistência começa hoje».

Em entrevistas, em concertos, em cerimónias, nas redes sociais não têm faltado comentários e frases que, entretanto, se tornaram virais. Sobretudo depois de assinada a ordem executiva acima já referida. John Legend afirmou que «a América tem de ser melhor do que isto» nos PGA Awards. Billie Joe Armstrong dos Green Day descreveu as ações do Presidente como «um ataque» às liberdades civis. Josh Homme, dos Queens of the Sone Age, chamou-lhe (no Instagram) «um fascista e um palhaço». Chuck D, dos Public Enemy, avisou, via Twitter, que se «espera que os artistas nos EUA estejam banidos e presos quando chegarmos a 2020». Michael Franti, dos Disposable Heroes of Hiphoprisy, lembrou que «não houve ataques letais aos EUA por emigrantes dos sete países barrados» pela ordem presidencial. Nancy Sinatra, considerando-se «envergonhada», disse, também pelo Twitter, que Trump «vai destruir os valores americanos». A filha de Frank Sintara tinha já manifestado a sua posição desfavorável face a Donald Trump quando este escolheu «My Way» para dançar num dos bailes de «inauguração», tendo ela mesma apontado para o primeiro verso da canção: «and now, the end is near»... Já Brian Eno, que sublinhara num texto o que de positivo havia em vitórias exteriores ao sistema partidário habitual, explicou depois que não estava com esta ideia a defender Trump, já que lhe chamou «um desastre completo».

Os U2 anunciaram, entretanto, que resolveram adiar a edição do seu novo disco, o muito aguardado Songs of Experience. O motivo deve-se aos efeitos da vitória de Trump nas eleições americanas, assim como o impacte do voto pelo Brexit no Reino Unido, que, segundo a banda, mudaram o mundo. O grupo irlandês quer assim esperar um pouco para ver como poderá depois agir em função da realidade com a qual estas suas novas canções terão de se confrontar.

Há muito que não havia uma tão ostensiva, focada e cerrada marcação de protesto de músicos contra a política da Casa Branca. Se Dylan fora uma das principais vozes de protesto na América dos sessentas, já John Lennon viveu momentos de claro confronto com a administração Nixon, havendo até um documentário (America vs. John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld, estreado em 2006) que recorda o caso. É cedo para sabermos ao certo o que será a presidência de Donald Trump. E as suas eventuais ações de cortes em fundos de apoios às artes (que se falam entre os meios artísticos) deverão gerar mais protestos. Uma coisa é, contudo, já certa. Desde Nixon que não havia na Casa Branca alguém que estimulasse tanto a voz crítica de quem canta. Música nesse tom não vai faltar.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2017