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O regresso ao passado dos U2, de olhos bem abertos na América

30 anos depois, regressam à América com a música que os transformou na consciência do planeta. Bono quer falar para Trump e quer fazê-lo de cima de um palco com as canções de The Joshua Tree, o seminal álbum de 1987 – e para ouvi-las de viva voz vamos ter, desta vez, que saltar a fronteira. Fazemos a ponte entre o passado brilhante e o futuro de uma banda que insiste em permanecer grande

A maior parte das bandas, quando chega a hora de tomar decisões em relação aos próximos passos criativos, procurará inspiração na espuma dos seus dias, nos tumultos do coração, nas pequenas coisas da vida que por vezes são mais do que suficientes para preencherem grandes canções. Os U2, no entanto, parecem funcionar noutra dimensão e reagir diretamente aos grandes desígnios que marcam gerações e alteram o rumo da história global.

Depois de Songs of Innocence, o álbum de 2014 com que Bono, The Edge, Larry Mullen, Jr. e Adam Clayton procuraram revisitar emocionalmente o seu próprio passado, o grupo irlandês, seguindo a diretriz dos «estados contrários» de William Blake (o artista inglês que em finais do século XVIII editou o livro de poemas ilustrados Songs of Innocence and Experience), atirou-se às gravações de Songs of Experience. Mas o mundo, essa ostra em que habitam os homens que em 1980 se estrearam com Boy, perturbou as intenções dos U2 que perante a declaração do Reino Unido de uma vontade popular de abandonar a União Europeia e, sobretudo, testemunhando na América a inexorável escalada ao poder de Donald Trump, percebeu que as canções que praticamente terminaram de gravar talvez não refletissem esses tortuosos golpes de rins da história. «Percebemos que precisávamos de meter o álbum no gelo por um minuto», explicou The Edge à Rolling Stone, «para pensar sobre tudo. O mundo é agora um lugar diferente e nós precisávamos de uma oportunidade para reconsiderar tudo».

Os U2, como qualquer super-herói, têm consciência de que com grande poder vem também uma enorme responsabilidade. E uma banda que num repente viu a sua música chegar a 500 milhões de utilizadores do iTunes no que o patrão da Apple, Tim Cook, descreveu como «o maior lançamento de álbum de todos os tempos» e que, antes, na digressão 360º, tocou para mais de 7 milhões de pessoas em 110 megaconcertos (incluindo duas datas no Estádio de Coimbra a 2 e 3 de outubro de 2010) sabe bem que quando fala é escutada em todo o planeta. Os U2 sentem que neste momento precisam de falar e que o mundo precisa de os ouvir. É, por isso mesmo, tempo de regressar ao momento em que os U2 descobriram a América e em que o mundo descobriu os U2, tempo de regressar a The Joshua Tree: «foram dias difíceis e negros», explicou The Edge, uma vez mais à revista norte-americana, referindo-se a um período em que Ronald Reagan estava na Casa Branca, com ações militares ilegais a serem levadas a cabo na América Central e ditaduras sangrentas como a que sancionou assassinatos em massa no Chile. «Até parece que voltámos atrás», prossegue o guitarrista. «Nunca demos a nós mesmos a possibilidade de celebrar o nosso passado porque sempre olhámos em frente. Mas sentimos que este é um momento especial e que este é um álbum especial».

The Joshua Tree é, de facto, um álbum especial: lançado há precisamente 30 anos – foi formalmente editado a 9 de março de 1987 –, o trabalho de «Where The Streets Have no Name» e «I Still Haven’t Found What I’m Looking For» acumulou vendas globais superiores a 25 milhões de cópias e é, por isso mesmo, o mais popular dos registos da discografia dos U2. Foi esse o disco que catapultou a banda irlandesa para a escala global, oferecendo-lhes uma voz que ultrapassou em muito o mero plano musical, transformando-os num símbolo recorrente do humanismo e do ativismo em prol das causas certas. O grupo nunca mais abandonaria esse púlpito: estas três décadas viram Bono e os U2 abraçarem causas humanitárias, declararem o apoio a líderes mundiais como Nelson Mandela ou Barack Obama e a alinharem esforços com organizações como a Greenpeace, a War Child ou a Amnistia Internacional; os U2 celebraram em palco com líderes políticos o acordo de paz alcançado na Irlanda do Norte, suportaram organizações protetoras das crianças em Chernobyl e ONGs que combatem a fome e a doença em África, colocaram-se ao lado de defensores da democracia na antiga Birmânia e junto de músicos que perderam tudo com o furacão Katrina em Nova Orleães. Os U2, basicamente, têm corrido o mundo a tentar salvá-lo de si mesmo. E sentem que, uma vez mais, precisam de agir. O aniversário de The Joshua Tree oferece a moldura certa para o que o grupo quer agora dizer. O facto de em apenas 24 horas terem vendido um milhão de bilhetes para as primeiras datas anunciadas para uma digressão em torno do aniversário de The Joshua Tree parece também querer dizer que o mundo está interessado em ouvi-los.

Não é só rock and roll…

«Sobre as eleições americanas...», elaborou Bono recentemente numa reveladora entrevista ao site oficial dos U2, «enquanto banda irlandesa, claro que não tínhamos um voto, mas tínhamos uma voz e quisemos usá-la para denunciar o que nos pareceu ser uma retórica de fuga, coisas perigosas... Mas numa democracia a última palavra é das pessoas – exatamente como deve ser. Eu opus-me a Trump enquanto, ao mesmo tempo, compreendia que muitas das pessoas que o apoiaram são o tipo de pessoas com quem cresci e em que me revejo até hoje. E na minha cabeça, no mínimo, o resultado da eleição exigiu que me colocasse algumas questões: “O que é que não estou a ver aqui?”, “Estarei desencontrado com valores americanos?”, “Estarei desencontrado com o povo americano?”». As questões com que Bono se debate são a inspiração para uma digressão que o grupo faz questão de esclarecer que não se encaixa facilmente na categoria da nostalgia – «enquanto banda», adverte Bono, «não somos conhecidos pelo espelho retrovisor». E portanto, prossegue o cantor, «no que diz respeito à digressão de The Joshua Tree, a minha esperança é, em primeiro lugar, que seja uma transcendente noite de rock and roll; em segundo lugar, se me forem permitidas ainda maiores ambições para este concerto de rock, adoraria que se tornasse uma oportunidade para que tanto o nosso público como nós próprios pudéssemos colocar a questão: “o que significa hoje ser americano ou europeu?”. Há 30 anos, The Joshua Tree encontrou um terreno comum por apelar a um terreno mais elevado. Esta será uma digressão para os vermelhos e azuis [republicanos e democratas], para a costa e para o interior... porque a música consegue unir as pessoas tanto quanto a política as consegue separar. É uma ótima tela e seria fantástico se conseguisse também ser uma meditação de alta voltagem sobre o que se passa hoje em dia».

Para já, a The Joshua Tree Tour tem 33 datas anunciadas, 21 das quais na América do Norte (com os Mumford & Sons, One Republic e Lumineers a assegurarem as primeiras partes) e as restantes na Europa (com os High Flying Birds de Noel Gallagher a garantirem o arranque da noite) com concertos já anunciados para Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, Irlanda, França, Holanda e Bélgica. O arranque desta viagem ao passado está marcado para 12 de maio, em Vancouver, no Canadá, e, para já pelo menos, estende-se até ao 1º dia de agosto, data em que o grupo tocará em Bruxelas, na Bélgica. Há uma novidade importante nesta digressão que poderá ditar parte do futuro da carreira de palco dos U2: a 9 de junho, o grupo assinará a sua primeira aparição num festival americano de primeira grandeza, o Bonnaroo, que tem lugar no Tennessee e que no cartaz conta também com artistas como The Weeknd ou Chance The Rapper. The Edge parece ansioso por essa experiência, dando a entender que se poderá repetir: «fizemos muitos festivais no início e recordo-os sempre com grande carinho», explica o guitarrista de um grupo que, no arranque de carreira, chegou a passar pelo Minho para a segunda edição do Festival de Vilar de Mouros. «Num festival, há um aspeto combativo que nos obriga a mantermo-nos em topo de forma, de uma maneira positiva».

Como se sabe, tem havido múltiplas digressões em torno de álbuns históricos, de Screamadelica, dos Primal Scream, a The River, de Bruce Springsteen. Mas os U2 pretendem fazê-lo à sua maneira, obrigando-se a resolver alguns problemas, como o facto de no alinhamento original as três primeiras canções serem «Where The Streets Have no Name», «I Still Haven’t Found What I’m Looking For» e «With or Without You», três singles que foram número 1 em 1987 e que qualquer banda mataria para poder amealhar ao longo de toda uma carreira, resguardando-os, certamente, para o final apoteótico de qualquer concerto: «talvez não venhamos a começar com a primeira faixa», admitiu The Edge. «Deveremos precisar de preparar um crescendo até esse momento. Adam Clayton também levantou um pouco do véu em declarações à imprensa americana: «talvez juntemos algumas das canções com outras de outros álbuns que possam ter temas similares. Vamos fazer experiências até nos sentirmos satisfeitos».

De acordo com as entrevistas até agora publicadas – e só Larry Mullen, Jr. parece ainda não ter sido ouvido... – a ideia de que esta The Joshua Tree Tour nasceu de um impulso de fazer face ao momento histórico que o planeta atravessa parece ser a correta e tudo o resto está a ser pensado em contrarrelógio, da estrutura musical do concerto – que deverá acomodar alinhamentos em torno das duas horas e meia, de acordo com declarações de Adam Clayton – até ao lado visual e técnico do espetáculo.

No que ao alinhamento diz respeito, há já uma certeza: a de que os U2 vão tocar temas que há 30 anos não são interpretados ao vivo, como «Exit» ou «Trip Through Your Wires», e até, no caso de «Red Hill Mining Town», um que nunca chegou a ser transportado para o palco. Na «America first» de Donald Trump, será curioso perceber como funcionará uma canção escrita a propósito de uma greve de mineiros em Inglaterra e em que se cantam palavras como «We're wounded by fear / Injured in doubt». Bono, Larry, The Edge e Adam têm razão ao reconhecer que em The Joshua Tree há material que pode servir como um comentário da atualidade.

A capa de "The Joshua Treee", álbum de 1987 dos U2

A capa de "The Joshua Treee", álbum de 1987 dos U2

Regresso ao passado

«Recentemente», declarou Bono ao site oficial, «voltei a ouvir The Joshua Tree pela primeira vez em quase 30 anos. É quase uma ópera. Com muitas emoções que estranhamente parecem atuais – amor, perda, sonhos estilhaçados, a procura do esquecimento, polarização... tudo o que importa. Cantei muito algumas destas canções, mas nunca as cantei todas. E estou disposto a isso se o nosso público estiver tão entusiasmado como nós. Vai ser uma grande noite, especialmente quando tocarmos em casa, Croke Park. Foi onde o álbum nasceu, há 30 anos», recordou o vocalista, antecipando assim o concerto na Irlanda, em Dublin, de 22 de julho próximo.

Entretanto, Willie Williams, o diretor técnico que tem desenhado os palcos dos U2 nos últimos 35 anos, também já avançou algumas ideias em relação ao que as pessoas vão encontrar nesta digressão. Se na última aventura de estádios, a tour 360º, os U2 quiseram reinventar a roda e perceber como poderiam encaixar audiências ainda mais dilatadas nas lotações de estádios, aqui, explicou Williams, a ideia será voltar atrás no tempo: «de certa maneira, depois de 360º é como se me tivessem dado um livre-trânsito. Aquele foi o concerto de estádio para acabar com todos os concertos de estádio”. E agora, como os U2 explicaram à Rolling Stone, a ideia será recuar aos tempos de The Joshua Tree, ter um palco inspirado no formato da icónica árvore do deserto, e, claro, voltar a surpreender. «As expectativas estão estratosfericamente mais altas do que estavam há 30 anos», admite Williams, «mas haverá certamente referências a como as coisas aconteciam naquele tempo».

Os U2 chegaram a 1986, «aquele tempo», após uma jogada de risco estético que lhes escancarou as portas do futuro, resgatando-os ao limbo das arenas a que poderiam ter sido condenados caso tivessem seguido a fórmula de War, o álbum de 1983 que incluía temas como «Sunday Bloody Sunday» ou «New Year’s Day». Com The Unforgettable Fire e com a dupla formada por Brian Eno e Daniel Lanois encarregue da produção, os U2 souberam reinventar-se e dar um significativo passo em direção ao futuro. Em 1985, a banda irlandesa passou muitos meses na estrada e assinou a sua mais longa digressão até à data, com 113 concertos, quase metade dos quais na América do Norte. Dessa marcante experiência nasceu o EP Wide Awake in America, que incluía uma poderosa versão de palco de «Bad», um testemunho direto do poder que Bono e os rapazes eram já capazes de arregimentar em palco. The Unforgettable Fire e a digressão do mesmo nome ofereceram aos U2, na verdade, uma oportunidade de se instalarem definitivamente na mesma divisão habitada pelos maiores artistas do planeta, por gente como os Rolling Stones, Bob Dylan ou David Bowie. A oportunidade foi agarrada com unhas e dentes. E cuidadosamente ponderada.

«Passámos muito tempo a discutir o que iria ser este álbum», explicou The Edge nas páginas do livro U2 by U2. «Bono andava a ler Flannery O’Connor e Truman Capote. Eu andava a ler Norman Mailer e Raymond Carver. Estávamos todos enfeitiçados pela América, não a América real mostrada na TV, mas o sonho, a versão da América de que Martin Luther King falava. A linguagem dos escritores americanos atingiu Bono de forma particular, e aquele tipo de imaginário e a qualidade cinemática da paisagem americana tornou-se um ponto de partida».

Do mais panorâmico ponto de vista do presente, Adam Clayton parece vislumbrar uma paisagem idêntica quando estende o seu olhar até 1986: «penso que é interessante poder regressar a The Joshua Tree porque quando editámos esse álbum e quando nos encontrávamos a trabalhar nele, o mundo era um sítio sombrio, pelo menos no que ao Reino Unido e América dizia respeito. Havia um governo Thatcheriano no Reino Unido que tentava destruir o negócio do minério de carvão, procurando impor outro modelo económico no país. Na América havia as Reaganomics e uma espécie de poder imperial que se infiltrava na política da América central e algumas coisas muito más que tinham a ver com dinheiro do tráfico de droga a financiar armas para guerras nessa zona».

Bono, em U2 by U2, também ofereceu algumas coordenadas para este mapa emocional e lírico da América: «eu tinha andado a viajar bastante, por isso a viagem tornou-se um tema. Andava a ouvir blues e a mergulhar nos escritores americanos, desde a escrita da América nativa até aos autores negros, como James Baldwin, Ralph Ellison e poetas e dramaturgos como Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Sam Sheppard, Charles Bukowski». Todas essas palavras abriram para Bono o código genético de um país que lhes permitiu ler os acontecimentos correntes – nas ruas da America, mas também na Nicarágua ou em El Salvador – e perceberem como poderiam ter um papel ativo num necessário alerta às novas gerações. Como poderiam também entender-se como irlandeses no mundo.

Duas Américas

Por esta altura, a banda tinha estabelecido amizades com gigantes como Van Morrison, Bob Dylan ou Keith Richards, eminências pardas da cultura rock e pontes efetivas com uma longínqua memória que os U2 pretendiam explorar musicalmente no novo álbum. Os relatos da época apontam para um processo complexo, com The Edge a cozinhar maquetes em modo solitário e Bono a cruzar as autoestradas da América em busca de inspiração, enquanto Adam Clayton procurava processar o peso da experiência: «se passamos muito tempo aqui ficamos cansados da forma como tudo é agressivamente vendido e imposto. A primeira coisa que eu vou fazer quando chegar a casa é mandar vir uma caneca de Guiness, porque isso é real, e depois ouço alguma música tradicional», desabafava então o baixista. Já Brian Eno, em estúdio, parecia conduzido ao limite, consciente da pressão que se depositava sobre os seus ombros, resultante das expectativas e dos anseios da banda. A faixa de abertura, «Where the Streets Have No Name», por exemplo, parece ter tido uma gestação difícil e Eno só não apagou as gravações multipistas porque o técnico, Pat McCarthy, conseguiu convencê-lo a não o fazer: «penso até que poderá ter havido um impedimento mais físico», recordou The Edge na fotobiografia da banda. Terá sido outro produtor afamado, Steve Lillywhite, a conseguir terminar o tema.

As gravações do álbum começaram em janeiro de 1986, estendendo-se até novembro do mesmo ano, entre os estúdios STS e Windmill Lane e ainda duas casas onde trabalho de composição, gravação e refinamento foi igualmente registado. Pelo meio, a banda ainda colecionou precioso lastro emocional na digressão A Conspiracy of Hope, – em que embarcou juntamente com artistas como Sting, Bryan Adams, Peter Gabriel ou Lou Reed –, no funeral do roadie Greg Carroll na Nova Zelândia e ainda na América Central, onde Bono se deslocou para se inteirar do ambiente político e social. Tudo isso acabou por surgir filtrado em canções como «Bullet The Blue Sky», «Mothers of the Disappeared» ou «One Tree Hill».

O álbum chegou a ter como título de trabalho The Two Americas porque Bono parecia, justamente, dividido entre uma visão da América mítica, dos grandes espaços naturais, terra de sonhos e liberdade, e uma visão mais sombria de uma América real, cujas políticas expansionistas causavam severos danos em países periféricos. Dessa visão mais benigna falam temas como «In God’s Country», com o grupo a ser esmagado literalmente pela escala geográfica de algumas partes do país que se tinham proposto descobrir. Adam Clayton, no livro de Niall Stokes U2: Into The Heart (que se dedica a descodificar as histórias escondidas nas canções), conta como o deserto marcou a banda: «foi muito inspirador para nós enquanto imagem mental para The Joshua Tree. A maior parte das pessoas poderia tomar o deserto pelo que é e pensar nele como um espaço desolado, o que também é verdade. Mas com a atitude mental certa também pode ser uma imagem muito positiva porque se pode fazer algo com uma tela em branco, que é o que o deserto é efetivamente».

Entre as dúvidas de Bono, que chegou a ponderar ligar para as fábricas para interromper o fabrico do disco, e as expectativas da editora, que investiu muitos milhares de dólares em expositores para as lojas que sublinhavam o facto de pela primeira vez na história um disco ser disponibilizado em simultâneo em todos os formatos – vinil, CD e cassete! –, o álbum foi lançado a 9 de março de 1987, com as lojas a abrirem na Irlanda e em Inglaterra à meia-noite para saciarem milhares de fãs ansiosos por adquirirem o novo trabalho dos U2. No Reino Unido apenas, The Joshua Tree registou vendas superiores a 300 mil cópias nos primeiros dois dias de retalho, dissipando quaisquer incertezas que pudessem ainda subsistir. O álbum estreou-se no primeiro lugar das tabelas e, no seu mercado de origem, haveria de registar uma longa carreira de 163 semanas no top. Quebrou recordes e tornou-se o fenómeno de vendas mais rápido da história da indústria discográfica britânica.

Na América, o desempenho foi ainda mais espetacular, com o disco a estrear-se no sétimo posto das tabelas pop e a escalar até ao primeiro lugar onde se manteria durante mais de dois meses, acumulando depois uma significativa carreira de mais de 100 semanas no top, incluindo mais de um terço desse período nos 10 primeiros lugares. O comportamento do álbum foi, como é óbvio, potenciado pelo impacto dos singles, a começar com «With or Without You». Mas apesar de entenderem os tempos e de tomarem extremo cuidado com os vídeos, a verdade é que a MTV demorou a render-se aos U2, mesmo com o grupo a debitar vídeos que ficariam para a história, sobretudo aquele em que surgiram num telhado na baixa de Los Angeles.

«Where The Streets Have No Name» (o vídeo em causa), como de resto «With or Without You”, foi assinado por Meiert Avis, um realizador irlandês cuja carreira cresceu paralela à dos U2, grupo com que trabalhou desde o arranque dos anos 80, quando fez o vídeo promocional de «I Will Follow». Para a rodagem do clip – uma homenagem direta ao mítico concerto de despedida dos Beatles, no topo da Apple – os U2 escolheram o telhado de uma loja de bebidas – a Republic Liquor Store. As filmagens tiveram lugar em 27 de março de 1987. Para captar todas as imagens necessárias, o grupo preparou um mini concerto em que além de «Where The Streets Have no Name» interpretou também uma versão de «People Get Ready», «In God’s Country» e «Pride (In The Name of Love)». Claro que mesmo sem publicidade, a presença de Bono e dos restantes companheiros não passou despercebida aos transeuntes que rapidamente se acumularam na ordem das várias centenas. A polícia não demorou a intervir, como aliás as imagens escolhidas para o clip final demonstram. O produtor do vídeo, Michael Hamlyn, tentou impedir a polícia de interromper as filmagens e quase foi preso, mas a banda conseguiu o que queria: um vídeo icónico que representa na perfeição a experiência americana. «O que se vê naquele vídeo é mesmo o que aconteceu naquela manhã, quase em tempo real», explicou o realizador. «Sermos apanhados fazia parte do plano». Poucos dias depois, a 2 de abril de 1987, o grupo embarcava então naquela que seria a sua mais longa digressão até à data e que efetivamente os colocou no topo do mundo, testemunhando a ascensão do circuito de arenas para o de estádios.

30 anos depois

«Quando começámos a fazer os concertos de The Joshua Tree», explicou Adam Clayton recentemente à Rolling Stone, «aconteceram algumas coisas interessantes. Essa foi uma digressão que começou em arenas e no decurso de um processo de um ano em torno desse álbum. Aconteceu muito lá atrás, nos velhos tempos: quando se lançava um álbum, ele vendia e através do boca a boca ele ia crescendo, chegando ao número 1 das tabelas com toda a gente a conhecê-lo. Quando isso aconteceu fomos forçados a passar das arenas para os estádios e isso foi um passo enorme, enorme para um punhado de rapazes irlandeses com 25 ou 26 anos que tinham aceitado suportar o peso desta coisa chamada U2 e que andavam há uns cinco, seis ou sete anos nesta viagem, em peregrinação».

«Quando passámos para o exterior, nos estádios, não tínhamos truques», admitiu o baixista. «Não sabíamos o que fazer. Mantivemo-nos afastados do reforço de vídeo, que era algo que começava a ser uma realidade nesse tempo. Pensávamos que ia, de certa forma, diluir a música. Tínhamos uma fé inabalável na música que acreditávamos ser absolutamente adequada e grande o suficiente para encher um estádio – isso foi um enorme desafio para nós. Todas as noites, o Bono precisava de se expor e tentar ligar-se às pessoas. De certa maneira, era uma tarefa impossível – não se consegue vencer num estádio. Independentemente da qualidade das canções, continua-se a ser apenas um ponto minúsculo no palco e tudo depende do sistema de som. Isso era muito frustrante».

30 anos depois, tudo parece ter mudado: a tecnologia, certamente, mas também a experiência acumulada por uma banda que é a maior do planeta, uma banda que aprendeu a viver em frente de multidões maciças e globais e que reinventou a escala a que o rock and roll pode funcionar. 30 anos depois, faz sentido regressar ao deserto, à sombra da árvore de Joshua, à América mítica e à real, às canções que definiram um tempo e cujos ecos continuam a nortear um presente que andamos todos a tentar perceber. E todos a tentar transformar. Os U2 nunca enjeitaram esse papel messiânico e agora têm a vantagem de estarem de olhos bem abertos numa América a tentar encontrar um rumo. Há uma certeza absoluta: os U2 vão intervir na história, uma vez mais, quando no próximo dia 12 de maio subirem ao palco do BC Place em Vancouver, Canada, e Bono puder falar das diferentes atitudes em relação aos refugiados que os dois gigantes da América do Norte praticam. Trump há de reagir no Twitter. E o diálogo será curioso de seguir.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2017