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Dia das lojas de discos! Quais lojas? E quais discos?

Amanhã celebra-se mais um Record Store Day em todo o mundo e Rui Miguel Abreu já sabe que não vai visitar nenhuma loja...

Não é por nada, acreditem: ontem comprei o LP da Solange em vinil na Carbono, comprei duas cópias do excelente álbum Vivificat do produtor português Sensei D. (em vinil também) e, uns dias antes, trouxe uma série LPs da Flur, incluindo o Skeleton Tree do Nick Cave e a compilação Outro Tempo - que reúne interessantes tropicalismos electrónicos produzidos no Brasil entre 1978 e 1992. Para mim, já se há-de ter percebido, o Dia das Lojas de Discos é sempre que a minha vontade ditar e a minha carteira permitir. Mas amanhã não me apetece sair de casa...

Ainda há dias, a minha camarada Lia Pereira falava aqui, a propósito de DAMN., de Kendrick Lamar, da rapidez com que os novos álbuns surgem, lançados digitalmente na internet sem aviso prévio, impondo um alucinante ritmo de audições. É bem verdade. Vários dos discos que tenho andado a comprar - como os já citados casos dos mais recentes trabalhos de Nick Cave ou de Solange - são materializações analógicas de obras que comecei por conhecer nas suas versões digitais. E sei bem que nem toda a gente é maluquinha como eu e dá o passo seguinte que é o de transformar os zeros e uns do Spotify nos zeros e nem mais uns da carteira, gastando os euros necessários para guardar na prateleira o que já se conhece bem das nossas playlists pessoais.

É por isso já ser raro que na última década se impôs esta celebração do Record Store Day, para tentar devolver às pessoas o hábito de irem às lojas de discos. Entretanto, aconteceu o tão falado e publicitado "renascimento" do vinil que obrigou as grandes editoras a entrarem no jogo reprensando em vinil tanta coisa que quem anda nesta vida bem sabe que existe aos pontapés nas lojas e feiras onde se vendem discos em segunda mão: não, o mundo não precisa de reedições em vinil de 180 gramas de "clássicos" dos Dire Straits ou dos ABBA! Essas coisas já venderam milhões, senhores!

A consequência dessa mal medida histeria é que o que era originalmente uma boa ideia passou a ser uma gigantesca operação comercial aproveitada pelas grandes editoras para relançarem picture discs de Madonna e Supertramp, facto que entope as fábricas de vinil com encomendas gigantes que depois não permitem aos pequenos editores conseguir prensar atempadamente os seus micro lançamentos de 300 exemplares de uma nova bomba cosmic disco ou fuzz kraut ou psych folk ou o que quer que seja. De tanto se quererem salvar as lojas de discos, parece que se está a matar as pequenas editoras que foram, precisamente, o balão de oxigénio dessas lojas durante tanto tempo, quando ninguém se lembrava que o vinil ainda existia e que ainda existiam também pessoas que o ouviam.

Amanhã é o Record Store Day mas é caso para perguntar: em que lojas e com que discos se vai celebrar?