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Duas semanas na Califórnia, três concertos de Guns N’ Roses: como um fã português viveu a concretização de um sonho

“Tudo começou com um telefonema”, escreve Diogo Barroso, “fã eterno dos Guns N' Roses”. O resto da história, que é também sobre um reencontro, conta-se aqui na primeira pessoa

Tudo começou com um telefonema. Um amigo meu de longa data, fã incondicional de Guns N’ Roses, liga-me a meio da tarde a dizer que dentro de poucas horas iriam ser postos à venda bilhetes para dois concertos de Guns em Las Vegas, dias 8 e 9 de Abril, faltava ainda mês e meio, e pergunta-me simplesmente, “queres ir?”

Há oportunidades que por vezes surgem assim... e depois há as decisões que, na altura em que as tomamos, nem temos bem noção do quão acertadas ou erradas poderão vir a ser. A questão aqui não seria o querer - sou fã absoluto de Guns N’ Roses - a questão seria o poder. A rotina do dia a dia leva-nos a achar que esta coisa de ir ver um concerto de Guns a Las Vegas, no outro lado do mundo, é uma ideia longínqua, um devaneio, um “ai que fixe que deve ser, mas não sei se posso...”.

Com o tempo esquecemos as paixões, e Guns foi das paixões musicais mais intensas da minha adolescência, ultrapassando em muito a questão musical, tratando-se de uma questão de identidade, de geração, de uma época de sonhos e promessas, mas tudo isso foi ficando dormente. Eles não tocavam juntos há 23 anos, o que implica ter envelhecido esses aninhos e esse processo por vezes é estranho. O que ficou para trás parece um eco – algo que fica assim a reverberar mas já não existe. De qualquer forma, o eco destes senhores, por mais ténue que fosse, ainda foi suficiente para me fazer ter a lucidez de dizer “compra e depois logo vejo se posso ou não.”

Quando ele depois me ligou a dizer que tinha conseguido comprá-los (havia alguma expectativa porque já se sabia que a procura ia ser intensa e que iriam esgotar em poucas horas) percebi que o processo já era irreversível na minha cabeça. Comecei a desenvolver a ideia de que isto era uma daquelas pérolas do destino que vêm ter connosco, a tal prendinha que é de propósito para mim, a tal musa que me aparece à frente e no meu íntimo, penso, “eu já sabia...”.

Para que se entenda melhor esta relevância pessoal, Guns N’ Roses, na minha opinião, é um ás de espadas entre todas as bandas de rock que já existiram. Quando afirmo isto, não falo em termos de legado ou vanguardismo, com a relevância de uns Black Sabbath ou Led Zeppelin, mas falo em termos de execução, de encarnação pura e dura do que é tocar e viver rock n’ roll, falo de destreza técnica, fluidez total e desafio de limites. No seu breve período criativo e performativo, os Guns revelaram-se como uma autêntica força da natureza e, olhando agora em retrospectiva, a intensidade que demonstravam no seu acto parecia de facto anunciar simultaneamente a sua efemeridade. O estilo de música reflectia o estilo de vida da banda.

Pode-se sempre teorizar sob vários pontos de vista em relação às peculiaridades do som e estilo de determinadas bandas, nomeadamente quando o resultado é elaborado e complexo. O caso dos Guns não é diferente de muitas outras bandas, na medida em que é um grupo de elementos unidos por uma causa comum de rejeição do sistema que os rodeia e que encontram na música uma forma de o exprimir e de lhe sobreviver. O que os distinguiu, a meu ver, foi o nível de excelência a que levaram a sua interpretação do que é rock n’ roll, transportando o género a níveis que, até então e desde então, quando estavam nos seus melhores dias, dificilmente foram igualados.

A tenacidade com que desafiam os limites de uma vida de perdição e excessos no cenário da selva urbana de Los Angeles é simultaneamente o que potencia a seriedade frenética que aplicam na sua entrega musical; essa é a forma de sobrevivência da banda, é a forma como ela dança na cara do sistema caótico que a sustenta. As qualidades criativas de Axl e Slash, que poderiam ser infinitamente dissecadas, a forma como todos os elementos se complementam e entendem, de forma intuitiva, a riqueza de influências extremamente diversas de todos os precursores do género (como Aerosmith, Led Zeppelin ou Black Sabbath), associadas a nuances que vão até às raízes primordiais de blues e folk, conferiu-lhes uma sonoridade, e isto - não me canso de referir - com um balanço que é único e absolutamente contagiante. Foi por isso mesmo que foram um fenómeno fulminante à escala mundial.

Eu fui um desses adolescentes fulminados pelos riffs de Slash e pela voz de Axl, lembro-me perfeitamente de o riff inicial da “Sweet Child of Mine” ser a coisa mais viciante que já tinha ouvido na minha vida. Na altura, não queria, nem poderia, teorizar sobre a banda em termos musicais ou sobre aquilo que representavam... Hoje em dia, é fácil constatar que os Guns N’ Roses foram uma das marcas incontornáveis da minha geração e é possível entender a sua extensão. Eles assumiram o estrelato máximo de uma das eras mais ricas na história do rock, o princípio dos anos 90, e representam um lado mais exuberante dessa mesma época proveniente de LA, por oposição a um pólo mais obscuro e introvertido de Seattle, mas em nada menos intenso.

Foi a época das camisas de flanela, lenços na cabeça, all-star e outros ícones que agora têm um glamour associado ao saudosismo de que “já não se faz rock como dantes” – e é este espírito que alimenta o mito. A separação entre Axl Rose e Slash é dos temas mais famosos e exaustivamente explorados na história moderna do rock, por representar o fim de uma das melhores e mais mediáticas bandas de sempre no género e também, em última análise, o fim de uma era. Daí que esta tão antecipada e desacreditada reunião, independentemente dos seus motivos, tenha sido para muita gente a concretização de um mito.

Esta antecipação foi evidente no fim de semana dos concertos em Las Vegas – a aura, a solidariedade, os berros e os comentários entre fãs na rua e nos casinos. Já se sabe que os portugueses têm fama merecida de serem um público entusiasta, e eu estava inserido num núcleo duro de sete ou oito fãs a celebrar o seu mito em Vegas, ou seja, a receita perfeita para o desastre épico.

Diogo Barroso é o segundo a contar da esquerda

Diogo Barroso é o segundo a contar da esquerda

Choveu no primeiro dia de concerto, o que acabou por criar um cenário preliminar bastante animado. A hora de início estava marcada para as 21h30, com Alice in Chains a abrir (como se não bastasse), de maneira que chegámos ao recinto exterior da Arena T-Mobile cerca de uma hora antes para nos ambientarmos. Uma das particularidades desta cidade é ser o único local nos EUA em que se pode beber 24 horas o quer que seja, onde quer que seja – mas onde também convém, mesmo, manter o civismo... Instalámo-nos numa mesa debaixo de um toldo enorme, atraindo todo o tipo de personagens, de todas as nacionalidades, e rolavam todo o tipo de assuntos - foi das fases mais divertidas da noite.

O concerto atrasou-se bastante (por culpa da organização, segundo disseram) e acabámos por entrar pouco antes da meia-noite. Este atraso acabou por potenciar a antecipação do momento, porque entrámos já bem atestados e recordo-me de estar a cantar e a simular a bateria no balcão do bar ao som de Alice in Chains, que me pareceu um concerto muito breve, ou se calhar até não foi. A verdade é que se fosse com Layne Staley eu estaria junto às grades, mas se fosse com Layne Staley eles também nunca estariam ali.

Depois houve o compasso de espera entre bandas, que serviu para retomar alguma lucidez, enquanto um néon gigante no palco acendia progressivamente as peças de um logo de Guns n’ Roses, e por fim a arena escureceu. Com isto, iniciou a histeria geral, os telemóveis no ar, ouve-se a introdução dos desenhos animados “Looney Tunes”, depois a voz inconfundível de Axl a dizer “good evening”, a histeria atinge o auge e, de repente... o som do baixo de Duff McKagan a iniciar com “It’s So Easy”.

Praw praw praw... I see your sister in her Sunday dress...

Não há muitas palavras que possam ilustrar o tipo de êxtase geral que se vive na abertura de um concerto destes, mas quem já viu e sentiu, sabe do que se trata. Neste caso, sentia-se uma cumplicidade clara entre toda a gente que ali estava de se estar a viver a tal concretização do mito, que oscilava entre a ideia típica do “não acredito” e a percepção de que está mesmo a acontecer; uma espécie de esquizofrenia ligeira enquanto se canta, salta, comenta e abraça amigos e pessoas desconhecidas.

O primeiro dia de concerto foi uma experiência intensa e algo nebulosa para mim, mas deu para constatar um alinhamento de sonho, com algumas verdadeiras pérolas e factos interessantes pelo meio. Antes de mais, houve a condicionante de Axl estar sujeito a cantar num trono com a perna no ar, devido a uma fractura no pé, o que impediu de avaliar a sua movimentação e química em palco com o resto da banda, nomeadamente com Slash. Por outro lado, havia uma enfermeira num estilo playboy/gótico muito apelativo que o foi assistindo durante o espectáculo e, acima de tudo, houve a surpresa agradável de que o registo vocal de Axl está em bem melhor forma do que se esperava e capaz de atacar todos os momentos cruciais.

Slash demonstra estar igualmente em grande forma, sendo evidente logo no solo do segundo tema, “Mr. Brownstone”, que entrega com uma fluidez e precisão excelentes. Curiosamente, nos três temas que tocaram de Chinese Democracy, Slash interpretou-os de forma notável, fazendo com que soassem muito mais apelativos e naturais, sem que ficasse a sensação de serem corpos estranhos em relação ao resto do set – nomeadamente em “Better”. Quanto a Duff, é Duff, com a sua resiliência e segundas vozes inconfundíveis, tudo o que seria de esperar dele.

Em relação aos outros quatro elementos, Frank Ferrer tem um estilo pujante, mas muito pouco subtil, preenchendo os tempos por vezes em demasia e de forma algo aleatória, sem ser capaz de entregar o ritmo com a clareza de um Steven Adler, que seria um mínimo exigível, e muito menos com a classe metódica de Matt Sorum. Dizzy Reed cumpre discretamente nas teclas e Melissa Reese parece ser um elemento decorativo.

Tinha algum interesse em assistir à interacção de Richard Fortus com Slash, que não foi um sonho, mas foi eficaz. A qualidade técnica de Fortus é inquestionável mas, quando a exibe, dá quase a sensação de ser um número de circo. Apesar das guitarras se complementarem perfeitamente, não pareceu haver grande empatia entre os dois guitarristas e fiquei na dúvida se haveria algum mal-estar invisível, até pela forma como Axl, durante “Knockin’ on Heaven’s Door”, introduz Fortus e afirma que ele “está nos Guns N’ Roses há 15 anos”, o que parece realçar que é há mais tempo do que Slash. Mas isto é apenas uma impressão pessoal, que poderá estar distante da realidade. A verdade é que se torna difícil de avaliar a química existente, quando temos um mega vocalista imobilizado num trono e um mega guitarrista que não toma a iniciativa de se aproximar dele (o trono também não facilitava) após uma separação amarga de 21 anos!

Em relação a este primeiro dia de concerto, o ponto alto foi “Coma”, que já não tocavam desde 1993, por ter sido inesperado e ser um tema absolutamente épico. Pessoalmente, o meu ponto alto terá sido em “Nightrain”, em que fui “evacuado” da plateia pelo ar, como se fosse um boneco, por um "gorila" do staff na grade da frente, sem perceber porquê, e acabei por não assistir ao encore que se seguiu com “Patience” e “Paradise City”. Talvez a razão tenha algo a ver com o facto de os concertos, hoje em dia, estarem repletos de pessoas constantemente agarradas aos telemóveis no ar porque, mais do que viver o momento, o que importa é mostrar e dizer que se esteve lá nas redes sociais. Num concerto de rock, isso faz-me alguma confusão, parece-me que há algumas noções que estão desvirtuadas, e depois dou por mim, às vezes, a remar contra a corrente. Nada de novo, portanto.

O grupo português em Las Vegas

O grupo português em Las Vegas

O que houve de novo foi, no dia seguinte, com alguma dor de cabeça, ter tido o discernimento de adiar o voo para São Francisco com o objectivo de assistir em termos ao segundo concerto e, de preferência, até ao fim. Dez minutos de felicidade numa roleta no Bellagio e cinco minutos de blackjack foram suficientes para, no mínimo, dissipar qualquer dúvida que houvesse – o mundo estava a conspirar comigo. Manteve-se o mesmo grupo de irredutíveis, arranjámos os dois bilhetes que faltavam a preço de venda e fomos ao segundo dia de rock, mas desta vez mais experientes.

O segundo dia foi melhor em todos os aspectos, não só por ser mais nítido e não haver atrasos, mas essencialmente porque o desempenho de Guns foi mais sólido, confiante e atingiu um par de momentos verdadeiramente épicos. O alinhamento foi praticamente o mesmo, apenas com três trocas e mais dois temas incluídos, sendo os factos mais relevantes a troca de “Patience” por “Don’t Cry” no encore e terem tocado “My Michelle”, esse sim, um dos momentos épicos da noite com Sebastian Bach (ex-Skid Row) em palco.

Nunca tive grande impressão de Bach, apesar das suas qualidades vocais, mas a verdade é que teve uma prestação tremenda que incendiou a arena. Entrou em palco a louvar Guns N’ Roses aos berros, puxando insistentemente pelo público e perguntando se tínhamos mesmo noção do que estávamos a assistir. Depois de afirmar que não estava em palco com eles desde 1991, virou-se para a banda e berrou, “Thank you for making us so fucking happy, Guns n’ Roses!!” - o entusiasmo foi contagiante, sacando mesmo gargalhadas a Axl. Fizeram um dueto divinal em “My Michelle”, alternando a cada verso, sendo este o tema em que Axl realmente puxou dos seus galões para a sua melhor interpretação nesta tour, deixando a arena ao rubro. O outro ponto alto desta noite foi o solo de Slash em “Rocket Queen” a fazer lembrar velhos tempos, esticando a música para cima de dez minutos de pura qualidade e virtuosismo. Ao final do segundo dia, éramos um bando de criaturas radiantes e saciadas, tínhamos voltado a provar o elixir supremo dos anos 90.

Permaneci mais duas semanas na Califórnia e, embora não fosse essa a minha intenção inicial, acabei por ver Guns uma terceira vez em Coachella. O evento em si é apelativo, mas tinha pouca coisa que me interessasse no cartaz e já tinha visto Guns exactamente da forma que queria, num formato mais intimista, bem perto do palco e sem a confusão e dispersão de um festival.

Entre Vegas e Coachella, tive a oportunidade de me instalar em Los Angeles por uns dias, na zona de Sunset Strip, precisamente na famosa área onde os Guns começaram há cerca de 30 anos atrás, tocando em sítios como o Roxy, Whisky a Go-Go ou o Rainbow. Estes espaços são uma mistura atraente de glamour e decadência, frequentados por uma fauna totalmente conotada com rock, seja em estilo motard, punk ou meramente casual, onde há concertos diariamente. O Rainbow surge nos vídeos de “November Rain”, “Don’t Cry”, está intimamente associado à fase inicial da banda, é um pub labiríntico, com vários pisos, acolhedor, repleto de relíquias e fotos de velhas glórias do rock que fazem parte da sua história.

Diogo Barroso à porta do Roxy, em Los Angeles

Diogo Barroso à porta do Roxy, em Los Angeles

Foi interessante habitar estes espaços, perceber que existem e são autênticos mas, ao mesmo tempo, ter a sensação de que parece ser um cenário de mais uma produção em Hollywood, repleto de figurantes, representando uma época e um espírito que já não está lá, celebrando-se tudo em retrospectiva e ao som de boa música. Nesta zona de Sunset, há billboards enormes na rua com o logo de Guns N’ Roses a marcar território e a anunciar que os rapazes estão de volta.

A aura está lá, o cenário é real e alimentou o imaginário de muita gente mas, ao frequentar regularmente a zona de West Hollywood, fica-se com a sensação de que o imaginário seria de alguma forma mais real do que aquilo que vemos. O mito é sustentado por uma indústria promocional e de turismo, está representado em fachadas, Hard-Rock “Cafés”, estrelas no passeio, t-shirts e lojas de lembranças. Não se vive nem se sente o espírito selvagem e exuberante que chegou através das letras e riffs de bandas forjadas no pulsar intenso e irreverente desta zona de LA; falta a sarjeta, as musas e a força inspiradora que encarnou em grupos como Aerosmith, Red Hot Chilli Peppers, Jane’s Addiction ou Guns.

Foi por entre estes devaneios que surgiu a oportunidade para ver Guns N’ Roses pela terceira vez em duas semanas e que não deixei de aproveitar. Coachella foi a paragem seguinte. Após quatro horas de carro desde a urbe de Los Angeles em direcção ao deserto, o contraste não poderia ser mais belo ou espectacular. A localização é definitivamente o ponto forte e é aceitável que se diga que Coachella é o festival com o melhor cenário no mundo. Sem entrar em considerações de logística, porque a alguns níveis foi uma decepção e também cometi alguns erros de principiante, nem avaliando o cartaz (não foi por isso que fui lá), o concerto de Guns foi mais do mesmo em versão de festival e, valeu, acima de tudo, por um momento muito marcante. O momento em que Axl diz: “ladies and gentlemen, mr. Angus Young”.

Um fã satisfeito em Coachella

Um fã satisfeito em Coachella

O choque começou a ganhar forma quando vemos uma figurinha ágil a assumir o palco em uniforme colegial e tornou-se avassalador quando se ouve a introdução de “Whole Lotta Rosie”. Trinta segundos depois, estávamos na estratosfera. Recordo-me de ver um amigo meu, ao meu lado, de mãos na cabeça incrédulo enquanto repetia consecutivamente, “o que é isto?... o que é isto?”. “Isto” era um momento de história do rock e nós estávamos a assistir. Seguiu-se outro épico de AC/DC, “Riff Raff”, numa performance soberba com Axl, Angus e Slash no mesmo palco. “O que é iiiisto?”

“Isto” foi o que por si só justificou a ida a Coachella, foi a verdadeira cereja no topo do bolo, foi o corolário de uma odisseia pessoal inesquecível, foi a concretização e a revisitação de um dos mitos mais queridos dos anos 90.