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A entrada dos Pearl Jam no Rock and Roll Hall Of Fame 2017 por quem a viveu de perto

Barclays Center, Brooklyn (Nova Iorque), 7 de abril de 2017. Pearl Jam ascendem ao Passeio da Fama do Rock, bem como a veterana Joan Baez. Tupac Shakur, falecido há mais de 20 anos, também. Prince e Chuck Berry são homenageados. Ricardo Rego, português, esteve lá e conta como foi

Barclays Center, Brooklyn, 7 de abril de 2017. O dress code para os VIPs era smoking para os homens e vestido para as mulheres. Talvez não tenha prestado a devida atenção, mas aparentemente para o restante público o dress code era T-shirt dos Pearl Jam.

É incrível ver como uma banda com os Pearl Jam significa tanto para tanta gente. Numa festa pré-cerimónia onde estive conheci pessoas que vieram para Brooklyn dos mais distintos lugares, México, Noruega, Suécia, Brasil, etc., propositadamente para assistira à cerimónia. Eu próprio vim de Portugal para aproveitar esta que é provavelmente a última oportunidade de ver entrar no Rock and Roll Hall of Fame uma banda tão relevante para mim, nascido nos 80, mas musicalmente um filho dos 90.

Organização americana no seu expoente máximo, exceção feita ao controlo das escadas de emergência, facto esse que me permitiu descer da antepenúltima fila da arena, para um sector que será o equivalente ao Balcão 1 da Meo Arena.

18:40: fecham os balcões dos comes e bebes para assegurar que toda a gente está no seu lugar aquando do início da cerimónia.

19:02: dá-se início a esta espécie de Globos de Ouro do Rock sob efeito de muitos, muitos esteroides. A plateia é composta por VIPs e pessoas cuja carteira permite gastar 8.000USD num bilhete, enquanto que as bancadas são compostas por verdadeiros fãs de música.

Após uma breve apresentação da ordem do dia - da noite no caso - surge a merecidíssima homenagem a Chuck Berry que, como dizem e muito bem, é a razão pela qual todos estão ali, naquele lugar, naquele momento. A homenagem é concretizada pelos Electric Light Orchestra através da música “Roll Over Beethoven”.

De seguida, Jeff Lynne e companhia tocam “Evil Woman” e “Mr. Blue Sky”, dois bons exemplos da criatividade e musicalidade dos ELO. Dhani Harrison, filho do Beatle George Harrison, faz as honras e abre à porta aos ELO no Hall of Fame. Dhani relembra, inclusive, a história da primeira vez que o pai o levou a um concerto. Tinha 7 anos e meio e foi ver os ELO. Pelo que parece, a meio do concerto, George Harrison juntou-se aos ELO em palco para tocarem “Johnny B. Good”, tal e qual no filme Regresso ao Futuro. E por falar em Regresso ao Futuro, eis que aparece nos ecrãs gigantes um close up do Michael J. Fox na plateia.

Chega a vez de Joan Baez ser apresentada por Jackson Browne, altura em que 10% da sala aproveita para voltar aos comes e bebes, que, entretanto, reabriram. Joan lutava há mais de 50 anos atrás por direitos sociais que ainda hoje escasseiam. Mudam-se os tempos, mas infelizmente mantêm-se as vontades. Em palco, acompanhada pelas Indigo Girls, Joam Baez reforça a ideia de que é preciso continuar mudar, resistir, lutar.

Duas horas depois da cerimónia começar, Yes são os senhores que se seguem. Da apresentação em si e do discurso de aceitação apanhei muito pouco, isto porque chegou o dono do lugar onde estava e tive de voltar lá para cima para o meu lugar original. Enquanto que no lugar lá de baixo se sentiam aromas do vinho e da comida do serviço de catering dos VIPs, lá em cima sentiam-se os aromas dos “cigarros com sabor” que os fãs dos Yes estavam a fumar. Versões exímias de “Roundabaout” e “Owner of a Lonely Heart” e estava feita a festa.

Entra em palco Snoop Dog para fazer as honras de trazer ao Rock and Roll Hall of Fame Tupac Shakur. Segundo Snoop Dog, Tupac é o maior rapper de todos os tempos. Destacou a obra, mas sobretudo o homem. O Tupac que conseguia ser muitas coisas ao mesmo tempo. Forte e vulnerável, casmurro e intelectual, corajoso e com medo, compreensivo e vingativo. Falou sobre a forma como Tupac influenciou tanta gente sobre como, apesar de ter sido assassinado quando tinha apenas 25 anos, viverá para sempre através da sua música. Das várias histórias que partilhou, a mais caricata foi talvez a do seu primeiro encontro com Tupac em 1993. Aparentemente foi Tupac que deu o primeiro charro a fumar ao Snoop Dog na festa onde se conheceram.

Após o discurso de Snoop Dog, a homenagem prosseguiu com Alicia Keys a fazer um medley com "I Ain't Mad at Cha", "Ambitionz As a Ridah" e "Changes". Snoop Dog e YG interpretaram “Gangsta Party”, Treach interpretou “Hail Mary” e a homenagem terminou com uma interpretação sentida da música “Keep Ya Head Up” por T.I.

Próximos na lista, Journey. Espero que a pessoa que vá ler este artigo além da minha mãe não seja fã dos Journey. Honestamente, não percebi muito bem o que se passou ali. O público vibrou imenso com cada discurso de aceitação, mais do que havia vibrado até agora. Muitos agradecimentos, muitas palmas, muito barulho e depois os Journey aparecem em palco a tocar com um vocalista que parecia saído diretamente do The Voice Thailand. No final da atuação fiquei a achar que a minha mulher ia gostar que eu ouvisse mais Journey - não que ela seja fã, mas porque aparentemente não sou romântico que chegue.

Antes da última entrada no Rock and Roll Hall of Fame, dois grandes momentos da noite. O primeiro, a atribuição do prémio de “Musical Excellence” a Nile Rodgers entregue pelas mães de Pharrell Williams. Nile Rodgers tem um percurso enormíssimo, tanto como músico, mas também como produtor e compositor. O seu portefólio é incrível, tal como destaca Pharrell e o próprio Nile Rodgers. Madonna, INXS, David Bowie, Daft Punk, Bryan Ferry, Duran Duran, a lista é interminável. Estima-se que as músicas compostas/produzidas por Nile Rodgers tenham gerado uma receita de 3 mil milhões de dólares e foi essa capacidade de trabalho, criação e produção que o fizeram ser homenageado pelo Hall of Fame. O segundo grande momento foi o tributo de Lenny Kravitz a Prince com uma atuação magistral de “When Doves cry” e “The Cross”, com direito a coro de gospel e tudo. Estas actuações vão ter milhões de visualizações assim que chegarem ao YouTube.

Eis que chega o momento de levar para o Hall of Fame os Pearl Jam. Para fazer as honras, David Letterman, que substituiu Neil Young à última hora. David Letterman, com uma longa barba ao melhor estilo Lumber Jack, começa por agradecer a oportunidade que lhe deram de sair de casa. Num discurso de quase 10 minutos houve espaço para humor, mas também muito coração. Destacou a capacidade que os Pearl Jam tiveram de fazerem as coisas como sempre quiseram e de darem sempre a cara por aquilo que defendem, reforçando que o seu impacto transcende a sua música.

Para aceitar a honra, subiram ao palco Stone Gossard, Mike McCready, Eddie Vedder, Jeff Ament, Matt Cameron e Dave Krusen. Dos restantes bateristas da banda, Jack Irons estava na audiência, Matt Chamberlain não pode vir por questões de agenda, e relativamente a Dave Abbruzzese não se sabe, de facto, o que aconteceu. No entanto, nenhum ficou esquecido nos discursos de agradecimento da banda.

Seguiu-se a atuação da “Alive”, com Krusen na bateria, a primeira vez que este tocava com os Pearl Jam em 26 anos, e depois “Given to Fly”, dedicada por Eddie Vedder a Michael J. Fox, e “Better Man”. Para encerrar a noite em glória, e já com 5 horas de festa em cima, “Keep On Rockin' in the Free World”, do ausente Neil Young, na All-Star Jam.

Foi uma grande noite. Uma noite que passou pelo Folk, Rock Melódico, Rock Progressivo, Hip-Hop, Funk, etc.. Música de verdade, tocados por músicos de verdade, influenciadores e criativos. Uma noite que celebrou a música pela música, mas também pelo estado de espírito e pelo estilo de vida. Uma noite cheia de homenagens e agradecimentos. E por falar em agradecimentos, obrigado ao meu pai por me ter passado a paixão pela música e à minha mulher por ter ficado em casa a tomar conta das meninas e me permitir ter estado lá a viver uma pequena passagem da história da música ao vivo e a cores.

Texto: Ricardo Rego