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Ele é funk, ele é rock, ele é um romântico. Bruno Mars fê-la bonita em Lisboa

Músico norte-americano encheu a MEO Arena e deu o litro num concerto onde quase nada falhou. Nota: o artista não autorizou captação profissional de imagens, situação que atenta contra a liberdade de imprensa e que a BLITZ não pode deixar de lamentar.

Passa pouco das 22h20 e as cortinas que ladeiam e cobrem o palco da MEO Arena não deixam entrever o que quer que seja. Cumpre-se o ritual de expectativa habitual nestas circunstâncias solenes: o concerto está esgotado há meses, a maior sala da capital está repleta de gente, o povo inquieta-se depois de uma primeira parte a cargo de Anderson .Paak, rapper em franca ascensão.

De súbito, os ecrãs laterais começam a exibir palavras de ordem, como que num exercício de aquecimento. As cortinas sobem, por fim, e desvendam uma banda de rapazes empertigados, aos saltos, prontos para a luta. A liderá-los, Peter Gene Hernandez, 1 metro de 65 centímetros de gente (mais cinco centímetros que Prince, menos 18 que Elvis), boné branco da Gucci, calças de fato de treino, corrente de ouro sobre o peito. A quem veio vê-lo, responde por Bruno Mars.

Acompanha-o uma banda coesa, que parece família: secção de metais (que acumulam com dança e coro) de três elementos, guitarrista, baixista e baterista, dois homens atrás dos teclados. É uma banda em pulgas, uma pandilha frenética pronta para atacar um alinhamento de quase 1 hora e 45 minutos com todos os moves estudados ao milímetro, mas também uma aparente espontaneidade que distancia este espetáculo do lado mecânico da, por exemplo, "máquina" Bieber. Mais do que brilhar sozinho, Mars parece preferir fazer parte de uma banda. É certo que é ele o líder da "matilha", mas o protagonismo que recai sobre si não é do domínio da adulação (nem do ridículo). Tudo isso joga a seu favor.

Atrás de tudo, no arranque com "Finesse", há painéis coloridos que se transmutam ao longo do concerto. Aliás, o pano de fundo muda logo com "24K", ao longo da qual se veem e ouvem sonoras explosões. A coisa começa a aquecer com o funk cintilante de "Treasure" e, por esta altura, há uma radiografia que pode ser tirada: Mars e companhia trocam os pés sem tropeçar, deslizam sobre a lua, fazem estalar os tornozelos vezes sem conta mas conseguem-no à custa de micro-movimentos eficazes, não de flic flacs à retaguarda ou malabarismos extravagantes. A "turma" é tão compacta como o som que se ouve vindo do palco, onde os metais se misturam com os teclados, onde a voz de Mars é por vezes engolida pelos coros, onde - nas canções mais frenéticas - o efeito é almejado, sobretudo, pelo ritmo. Não é uma deficiência técnica, é estilo.

Em "Calling All My Lovelies", balada midtempo assente sobretudo nos coros e a remexer no baú do R&B adulto dos anos 80, a encenação é literal, com Mars de telefone na mão à espera que "ela" atenda. Sem sucesso. Se numas vezes Mars evoca Prince, noutras pede emprestado a Michael Jackson algum melaço nas baladas (nem sempre o encosto aos anos 80 e 90 do R&B romântico nos passa pelos ouvidos sem mácula). No segundo caso, Mars faz o seu melhor ar de miúdo fofinho e sensível e espeta para a frente o peito suado, abrindo os braços. Faz parte do jogo de sedução.

Há, à medida que o concerto avança, um suceder mais intenso de momentos de eficácia comprovada. "Marry Me", otimista e esfuziante canção do primeiro álbum, é apresentada em matizes rock, apesar de tão distante estar da ginga funk (ou disco-funk, assumidamente retro) onde Mars é mais certeiro e onde, na opinião de quem escreve, se movimenta melhor. Também vindo de Doo-Wops & Hooligans, o boogie de "Runaway Baby" encaixa, contudo, bem nesta fuga para terrenos elétricos. Era aqui, porventura, que Mars poderia fazer do Elvis que já quis ser, mas não... tirando um súbito menear pélvico, Presley não chegou a entrar no edifício.

Há, convenhamos, um problema à espera de ser resolvido. Bruno Mars tem um par de canções infalível (siga para o encore), uma mão cheia de boas segundas linhas (novamente, quando fervilha, quando se deixa de assolapadas cantigas românticas), mas ainda não esgotou completamente o stock de xarope. "Grenade", outra revisitação do primeiro álbum, é um fogo (mesmo) épico, com o artista a fazer um solo de guitarra de melaço tão denso que só um remate final de concerto bem aguçado pôde cortar.

Perdoa-se tudo a quem tem "Locked Out in Heaven", reggae-rock que teria sido o maior êxito dos Police em 1983 e, acima de tudo, "Uptown Funk", dádiva de Mark Ronson que transforma Bruno Mars num mestre da secura e da elasticidade. Neste momento, há uma banda que faz magia com os seus ténis Nike, um líder que gravita sobre um crepitante soalho de percussão enxuta, e uma multidão que, mesmo que não se aperceba, está a honrar uma tradição que vem de longe.

SETLIST

1. Finesse
2. 24K Magic
3. Treasure
4. Perm
5. Calling All My Lovelies
6. Chunky
7. That's What I Like
8. Straight Up & Down
9. Versace on the Floor
10. Marry You
11. Runaway Baby
12. When I Was Your Man
13. Grenade
14. Just the Way You Are

Encore:

15. Locked Out In Heaven
16. Uptown Funk