Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Macy Gray

Macy Gray esta semana em Portugal: “Pressão? Só ao terceiro álbum. Tinha-me tornado muito mimada”

Há quase duas décadas entrou no dicionário dos amantes de música com “I Try”, canção que lhe garantiu milhões de discos vendidos em todo o mundo. Nunca conseguiu igualar o feito e viu-se a braços com vícios de drogas e jogo, mas agora parece ter calado os demónios de vez e vem a Portugal – Casa da Música, Porto, quarta; CCB, em Lisboa, quinta – apresentar Stripped, o seu primeiro álbum de jazz. A cantora norte-americana falou com a BLITZ

Partilhou recentemente um teaser de uma canção nova, intitulada «White Man». Há novo álbum a caminho?
Sim! Ainda não tem data, mas estamos a apontar para o próximo verão. É um álbum de estúdio, bastante louco, para ser sincera. Tem de ser ouvido, é difícil descrevê-lo, mas posso dizer que não é nada conformista, quer em termos musicais quer em termos líricos. É diferente e muito poderoso. Traz música que não ouves todos os dias e que nunca ouviste antes. Os produtores fizeram um trabalho fantástico. É um disco soul, pop, há dança ali também, é r&b… todas essas coisas juntas.

«White Man»… Passar de Barack Obama para Donald Trump: como está a lidar com a situação política do seu país, neste momento?
Ele deixa-nos preocupados, é definitivamente essa a sensação que provoca. Não tenho confiança absolutamente nenhuma nele. As decisões que tem tomado… As pessoas de quem se rodeia são ainda mais assustadoras do que ele. E as coisas estão a ficar piores a cada dia que passa. No início ainda pensei «OK, talvez não seja assim tão mau», mas ele claramente não faz ideia do que está a fazer. Se pensarmos bem, o nosso presidente é um amador. E o facto de não saber o que está a fazer é um problema. Estar alguém assim à frente de um país é completamente absurdo. As pessoas podem fingir que o apoiam, que estão entusiasmadas com a ideia de um muro, ou o que seja, mas não acredito que exista uma só pessoa no nosso país que não esteja com medo daquilo que ele pode fazer.

Stripped é um registo muito diferente. Com ele, saltou a pés juntos para território jazz. Como surgiu a ideia de fazer um álbum assim?
Na verdade, a ideia foi-me apresentada pela Chesky Records, uma editora de jazz que faz este tipo de discos. Escolhem quem querem que faça um disco com eles e colocam o artista numa sala com um microfone. Achei que era uma ideia original e foi uma oportunidade de fazer algo diferente. Entrei ali e só tinha uma oportunidade, não dava para voltar e gravar novamente para ficar melhor. Não houve ajustes. É aquilo e pronto. Dei por mim mais concentrada em atingir as notas e coisas do género. Normalmente, gravo alguns takes em estúdio e depois alguém pega naquilo e faz os ajustes necessários.

E a ideia de fazer uma versão de «Nothing Else Matters» como surgiu? É fã dos Metallica?
Gostava de todas aquelas hair bands nos anos 80, mas não era grande fã dos Metallica. Essa canção em específico, no entanto, sempre me disse muito porque é muito bonita.

Olhando, agora, para o momento em que «I Try» se tornou um enorme sucesso, sente que estava preparada emocionalmente e psicologicamente para lidar com toda aquela atenção e pressão?
Não senti pressão nenhuma, foi o oposto… E foi esse o meu problema (risos). Não percebi que era suposto sentir-me pressionada por tudo aquilo. Simplesmente aproveitei o que se estava a passar. Nunca tinha tido dinheiro e claro que nunca tinha sido famosa antes… Nem viajado pelo mundo. Portanto, a minha vida era uma festa. Divertia-me muito a experimentei muita coisa pela primeira vez. Nunca ninguém tinha querido ser meu amigo sem razão antes, portanto estava simplesmente a aproveitar. Acho que só comecei a sentir a pressão no terceiro álbum. Tinha-me tornado muito mimada.

Paralelamente à sua carreira como cantora, também participou em filmes e séries de televisão. O que retira da representação que cantar ao vivo não lhe dá?
Adoro representar e gostava de fazer mais filmes, mas nada se compara a quando canto ou estou em cima de um palco. É isso que eu faço, que adoro fazer, mal posso esperar por entrar em palco quando sei que o vou fazer. É tudo para mim. Depois dos meus filhos, da minha família e amigos, é aquilo que mais amo na vida.

Voz eterna

A rouquidão muito característica da sua voz sempre acompanhou Macy Gray. «As pessoas ainda me imitam hoje», confessa, «quando era nova incomodava-me, claro, mas agora já estou tão habituada que nem quero saber». Tem noção, no entanto, que o timbre único a ajudará a atingir os seus objetivos: «quero ser como o Bob Marley ou a Nina Simone. Já conquistei muita coisa e tive muito sucesso, sinto-me muito abençoada, mas chegar àquele nível é ir até ao topo enquanto artista. Estou a trabalhar para que daqui a 100 anos as pessoas ainda ouçam discos da Macy Gray».

Publicado originalmente na BLITZ de fevereiro de 2017