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Chuck Berry (1926-2017): a grande vida do pai do rock and roll

Aos 90 anos, era um dos últimos resistentes da primeira vaga do rock n' roll. Chuck Berry morreu este sábado, em sua casa, deixando para trás um legado incomensurável na história da música

Dos homens que ajudaram a inventar e popularizar o rock n' roll, Chuck Berry era um dos últimos sobreviventes. O guitarrista norte-americano morreu este sábado, na sua própria casa, em St. Charles, no Missouri.

Nascido Charles Edward Anderson Berry, a 18 de outubro de 1926, "Chuck" começou a descobrir a música ainda na adolescência, dando o seu primeiro concerto enquanto aluno da escola secundária de Sumner, em 1941.

Antes do rock n' roll, no entanto, havia os problemas com a justiça. Em 1944, é condenado por assalto à mão armada, passando três anos num reformatório para jovens, por ainda ser menor de idade. Ao sair, casou com Themetta Suggs, de quem teve uma filha, Darlin Berry, obrigando-o a procurar trabalho noutros campos: foi operário numa fábrica de automóveis e homem das limpezas no apartamento onde morava, no início dos anos 50.

A música, no entanto, nunca o abandonaria, nem a vontade de a criar. Foi tocando com diversos artistas em vários clubes de St. Louis, criando alguma reputação, até entre audiências brancas - isto nuns Estados Unidos que, nesta década, ainda vivia sob o jugo da segregação. Na altura, era sobretudo influenciado pelos blues, como muitos outros que se lhe seguiriam, especialmente por um dos músicos que ajudou a cimentar a sua carreira: Muddy Waters.

Foi este quem lhe sugeriu que contactasse Leonard Chess, um dos fundadores da mítica Chess Records, no sentido de editar um single. O que acabaria por acontecer, em 1955, com "Maybellene", versão de um tema country tradicional que é hoje visto por muitos como uma das primeiras canções rock de sempre.

Seguir-se-iam temas que marcaram, de forma indelével, não só o rock n' roll como toda a história da música pop: "Sweet Little Sixteen", "Rock and Roll Music", "Roll Over Beethoven" e, evidentemente, a imprescindível "Johnny B. Goode", um dos temas escolhidos pela Voyager para figurar no seu famoso "disco dourado", enviado para o espaço numa sonda como representativo da população da Terra.

Após o sucesso, a queda: em 1959, foi acusado de ter tido relações sexuais com uma menor de 14 anos, tendo sido condenado a três anos de prisão. Cumpriu apenas metade, após vários recursos em tribunais, mas a sua carreira ficaria manchada pelo incidente. Quando saiu da cadeia, já outros tinham tomado o seu lugar no rock, em especial os "invasores" britânicos - os Beatles e os Rolling Stones - e os americanos da costa oeste, como os Beach Boys.

Três bandas que, no entanto, muito devem a Chuck Berry, que as influenciou fortemente. Os Beach Boys, por exemplo, pegariam em "Sweet Little Sixteen" e criariam a sua própria "Surfin' U.S.A.". Keith Richards, guitarrista dos Stones, tornou-se amigo de Mick Jagger através de um amor em comum pelos singles de Berry na Chess. E não foi só a década de 60 a ser influenciada por Berry; os Sex Pistols, estertores do punk, chegaram mesmo a fazer uma versão de "Johnny B. Goode".

Nos anos 80, Berry foi sobretudo um artista "ao vivo", chegando a dar entre 70 a 100 concertos por ano, amiúde novas controvérsias: uma condenação por evasão fiscal, em 1979, e um processo na década de 90, da parte de várias mulheres, que o acusaram de ter colocado uma câmara de filmar na casa de banho de um restaurante que adquiriu. Na ressaca do caso, foi encontrado um pequeno saco com marijuana em sua casa, o que lhe valeu uma pena suspensa de seis meses.

Em 2008, andou em digressão pela Europa, atuando na Escandinávia, Reino Unido, França ou Países Baixos, entre outros. O seu estado de saúde, nos últimos anos, não era o melhor; em 2011, desmaiou em palco, devido a exaustão, durante um concerto em Chicago.

No ano passado, Berry regressou aos holofotes com o anúncio de um novo álbum, Chuck, que dava a entender ser o seu último de sempre. Ainda sem data de edição marcada, mas prevendo-se que seja lançado este ano, pouco se sabe sobre o disco - tirando o facto de ser dedicado à mulher, Themetta, falecida o ano passado. A morte de Berry já foi lamentada por músicos de todos os quadrantes, mas poucos o explicarão tão bem como John Lennon, há algumas décadas: "se o rock mudasse de nome, chamar-se-ia Chuck Berry", afirmou, em entrevista.