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Há futuro para a música pop? Lorde tem a resposta

Num momento em que as fórmulas parecem esgotadas e os produtores são sempre os mesmos, a marcha que mais interessa é a dos desalinhados

Os caminhos de David Bowie e Lorde cruzaram-se em 2013, na festa de aniversário da atriz Tilda Swinton no MoMA, em Nova Iorque, poucos meses depois de a neozelandesa, então com 17 anos, ter editado Pure Heroine, o seu muito bem-sucedido álbum de estreia. "Ao escutar-te, senti que estava a ouvir o amanhã", terá dito o músico britânico à jovem cantora, que agora, quatro anos volvidos, um depois do desaparecimento de Bowie, prepara o seu regresso à música.

Saber que um dos maiores ícones da história da música olhava para ela com os olhos de quem espera um futuro mais desafiante, mais "risonho", para a pop será certamente um grande peso nos ombros, mas as duas canções que Lorde já revelou de Melodrama, álbum que chegará às lojas a 16 de junho, não acusam a pressão. "Naquela noite, algo mudou em mim - senti uma calma, uma segurança a crescer", escreveu a artista num extenso post que partilhou no Facebook aquando da morte do seu herói, "ele apresentou-me à minha próxima nova vida (...) percebi que tudo o que tinha feito, ou faria a partir daquele momento, seria feito como se ele estivesse a observar. Senti-me orgulhosa da minha estranheza espinhosa porque ele tinha tido orgulho da dele".

É nesta "natureza" desalinhada, estranha, dirão alguns, pouco dada a convencionalismos e concentrada em desbravar os seus próprios caminhos que reside a resposta para a pergunta que fazemos (e muita gente fará, neste momento): há futuro para a música pop? Passará por Lorde, hoje com 20 anos, esse futuro, até porque a indústria foi inteligente o suficiente para recebê-la nos seus braços, mas a partir do momento em que o próprio público parece começar a cansar-se de ouvir sempre a mesma cantiga, sempre os mesmos produtores e vozes que querem mostrar-se diferentes mas partilham um mesmo discurso, o caminho para o sucesso de outras vozes parece estar garantido.

Não é por acaso que a artista neozelandesa admira Robyn, provavelmente das primeiras artistas pop do novo milénio a tentar fugir às fórmulas para descobrir o seu próprio caminho (ouça-se o registo homónimo de 2005 ou os incandescentes EPs de 2010). Também não será por acaso que artistas de primeira linha, como Beyoncé, Rihanna, Lady GaGa ou mesmo, até certo ponto, Adele, começam a olhar para o lado, fugindo para caminhos menos seguros, mais arrojados, experimentando trabalhar com pessoas diferentes e apostando em canções com mais conteúdo e menos trá-lá-lá. E se o contexto não fosse este, agora, nunca veríamos indústria e público a aplaudir em uníssono um álbum tão pertinente e disruptivo quanto "Hopelessness", de Anohni.

Mas Lorde não é a única. Felizmente, neste momento, há muito quem aponte para um futuro menos monocromático, menos monótono, que sabe que não basta ter uma boa voz e uma boa imagem para vingar. É preciso ter canções inteligentes, experimentar novos sons, dar tudo nas prestações ao vivo, puxar o público para o seu lado nas redes sociais e fora delas (e aqui vemos o futuro a fugir de Justin Bieber), lutar para que os serviços de streaming não tomem forma de bicho papão. De uma forma ou de outra, vemos esse futuro assegurado em artistas como Grimes, Sampha, Frank Ocean, FKA Twigs, Weeknd (se mantiver a chama do início), Janelle Monáe, Troye Sivan, Arca, Charli XCX (se voltar a concentrar-se naquilo que nos levou até ela), Kehlani... mas também com projetos de outras latitudes que não renegam a sua veia pop, como os Chvrches, Tame Impala, Future Islands, London Grammar ou Austra.

"We live in cities you'll never see onscreen / Not very pretty, but we sure know how to run things", cantava Lorde em "Team". Parece estar a chegar o momento de essas pessoas, que vivem fora dos grandes centros, que não procuram validação em programas de talentos ou não se querem deixar moldar por grandes editoras desesperadamente à procura da "next big thing", saírem da sua toca e fazerem ouvir a sua voz. Porque, no fim de contas, infelizmente, o futuro depois de Bowie já é presente.