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Há 30 anos, os U2 tornavam-se definitivamente grandes

A 9 de março de 1987, os irlandeses editavam o álbum de “Where The Streets Have no Name”, “With or Without You” ou “Still Haven’t Find What I’m Looking For”. Em dia de aniversário, recordamos “The Joshua Tree”, sobre o qual pode ler abundantemente na BLITZ deste mês

Estrearam-se com Boy, em 1980, mas foi sete anos mais tarde - a 9 de março de 1987 - que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. lançaram aquele que se tornaria o álbum mais ouvido dos U2 em vários cantos do mundo.

As gravações começaram na Irlanda em janeiro de 1986 e terminaram também no país natal do grupo sensivelmente um ano depois. Apesar de registado "em casa", o disco é assumidamente influenciado pela América, nomeadamente no campo social e político.

Com o deserto de Mojave (na Califórnia) como pano de fundo, o quinto disco dos irlandeses (produzido por Brian Eno e Daniel Lanois) deu início ao que o manager Paul McGuinness denominaria de "grande romance" da banda com os Estados Unidos. Leituras de Normal Mailer, Flannery O'Connor e Raymond Carver (sobre "as franjas do sonho americano") por parte de Bono, bem como uma visita humanitária à Etiópia ("onde testemunhei uma riqueza de espírito que não encontro [no mundo ocidental]", diria) com a muilsão as sementes de um disco que se reporta a mais do que um deserto físico e que abarca sobretudo questões de espiritualidade.

O regresso dos U2 ao seu álbum de 1987 materializa-se numa digressão anunciada para este ano que, além de celebrar o 30º aniversário do álbum, será também uma forma de protesto contra os acontecimentos políticos que recentemente marcaram a Inglaterra e os Estados Unidos da América (o Brexit e a eleição de Trump, respetivamente).

Entre maio e agosto, a The Joshua Tree Tour 2017 vai passar pela Europa e pela América do Norte com 33 concertos que prometem levar até aos fãs o álbum de 1987 e não só. Até agora, sabe-se que os espetáculos de abertura estarão a cargo de Mumford & Sons, The Lumineers, One Republic e Noel Gallagher com os High Flying Birds.

Recorde aqui todas as faixas do disco, às quais se acrescentarão, na atual transposição para palco, canções com as quais existam pontos de ligação com o mesmo imaginário - palavra de Bono.

1. "Where the Streets Have No Name"
2. "I Still Haven't Found What I'm Looking For"
3. "With or Without You"
4. "Bullet the Blue Sky"
5. "Running to Stand Still"
6. "Red Hill Mining Town"
7. "In God's Country"
8. "Trip Through Your Wires"
9. "One Tree Hill"
10. "Exit"
11. "Mothers of The Disappeared"

A capa de "The Joshua Tree"

A capa de "The Joshua Tree"

Leia um excerto do artigo que publicamos na BLITZ deste mês, assinado por Rui Miguel Abreu.

"The Joshua Tree é, de facto, um álbum especial: lançado há precisamente 30 anos – foi formalmente editado a 9 de março de 1987 –, o trabalho de «Where The Streets Have no Name» e «I Still Haven’t Found What I’m Looking For» acumulou vendas globais superiores a 25 milhões de cópias e é, por isso mesmo, o mais popular dos registos da discografia dos U2. Foi esse o disco que catapultou a banda irlandesa para a escala global, oferecendo-lhes uma voz que ultrapassou em muito o mero plano musical, transformando-os num símbolo recorrente do humanismo e do ativismo em prol das causas certas. O grupo nunca mais abandonaria esse púlpito: estas três décadas viram Bono e os U2 abraçarem causas humanitárias, declararem o apoio a líderes mundiais como Nelson Mandela ou Barack Obama e a alinharem esforços com organizações como a Greenpeace, a War Child ou a Amnistia Internacional; os U2 celebraram em palco com líderes políticos o acordo de paz alcançado na Irlanda do Norte, suportaram organizações protetoras das crianças em Chernobyl e ONGs que combatem a fome e a doença em África, colocaram-se ao lado de defensores da democracia na antiga Birmânia e junto de músicos que perderam tudo com o furacão Katrina em Nova Orleães. Os U2, basicamente, têm corrido o mundo a tentar salvá-lo de si mesmo. E sentem que, uma vez mais, precisam de agir. O aniversário de The Joshua Tree oferece a moldura certa para o que o grupo quer agora dizer. O facto de em apenas 24 horas terem vendido um milhão de bilhetes para as primeiras datas anunciadas para uma digressão em torno do aniversário de The Joshua Tree parece também querer dizer que o mundo está interessado em ouvi-los".

U2 em 2017

U2 em 2017

Em 2007, os U2 assinalaram os 20 anos do disco com uma edição especial remasterizada, com direito ainda a 14 faixas adicionais e um DVD com imagens de concertos ao vivo, um documentário e outros vídeos, bem como fotografias e notas dos artistas. Agora, o contexto é diferente e, à celebração do aniversário daquele que é o álbum mais emblemático do percurso musical dos irlandeses (que, em todo o caso, será novamente reeditado), sobrepõe-se a necessidade de transpor para o mundo atual o caráter político e de intervenção patente em The Joshua Tree.

Ainda na BLITZ de março, Rui Miguel Abreu acrescenta:

"«Sobre as eleições americanas...», elaborou Bono recentemente numa reveladora entrevista ao site oficial dos U2, «enquanto banda irlandesa, claro que não tínhamos um voto, mas tínhamos uma voz e quisemos usá-la para denunciar o que nos pareceu ser uma retórica de fuga, coisas perigosas... Mas numa democracia a última palavra é das pessoas – exatamente como deve ser. Eu opus-me a Trump enquanto, ao mesmo tempo, compreendia que muitas das pessoas que o apoiaram são o tipo de pessoas com quem cresci e em que me revejo até hoje. E na minha cabeça, no mínimo, o resultado da eleição exigiu que me colocasse algumas questões: “O que é que não estou a ver aqui?”, “Estarei desencontrado com valores americanos?”, “Estarei desencontrado com o povo americano?”». As questões com que Bono se debate são a inspiração para uma digressão que o grupo faz questão de esclarecer que não se encaixa facilmente na categoria da nostalgia – «enquanto banda», adverte Bono, «não somos conhecidos pelo espelho retrovisor». E portanto, prossegue o cantor, «no que diz respeito à digressão de The Joshua Tree, a minha esperança é, em primeiro lugar, que seja uma transcendente noite de rock and roll; em segundo lugar, se me forem permitidas ainda maiores ambições para este concerto de rock, adoraria que se tornasse uma oportunidade para que tanto o nosso público como nós próprios pudéssemos colocar a questão: “o que significa hoje ser americano ou europeu?”. Há 30 anos, The Joshua Tree encontrou um terreno comum por apelar a um terreno mais elevado. Esta será uma digressão para os vermelhos e azuis [republicanos e democratas], para a costa e para o interior... porque a música consegue unir as pessoas tanto quanto a política as consegue separar. É uma ótima tela e seria fantástico se conseguisse também ser uma meditação de alta voltagem sobre o que se passa hoje em dia»".

Fãs dos U2 na última digressão

Fãs dos U2 na última digressão

Na digressão que se avizinha, "Where The Streets Have no Name", "I Still Haven't Found What I'm Looking For" e "With or Without You" poderão ser alguns dos temas mais aguardados, distribuídos por um alinhamento que, sabe-se, não seguirá a ordem original do álbum.

Para assinalar a efeméride, a banda irlandesa anunciou também uma reedição de "Red Hill Mining Town".

Portugal está fora da digressão - Barcelona, a 18 de julho, é a paragem mais próxima. A última presença dos irlandeses U2 em território nacional foi em outubro de 2010, no Estádio Cidade de Coimbra.

MD