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Hercules & Love Affair

Hercules & Love Affair com novo álbum a caminho. “Hoje, na música pop, já ninguém assusta ninguém”

Andy Butler, líder do projeto norte-americano que atua no Lisboa Dance Festival no sábado, falou à BLITZ sobre as várias colaborações do novo disco, sobre a possibilidade de voltar a trabalhar com Anohni e sobre 'Controller', tema que gravou com Faris Badwan, dos Horrors

Os Hercules & Love Affair do norte-americano Andy Butler regressam a Portugal este sábado para atuar no Lisboa Dance Festival, que se realiza na Lx Factory, em Lisboa, e trazem consigo nova música para apresentar. Em conversa telefónica com a BLITZ, o líder do projeto, que trocou Nova Iorque pela cidade de Gante, na Bélgica, falou sobre os muitos convidados que tem no novo álbum, sobre o passado de quase uma década e o futuro do projeto, a possibilidade de voltar a trabalhar com Anohni e a recente colaboração com Faris Badwan, dos Horrors, no novo single "Controller".

O que nos pode dizer sobre o novo álbum? Quando sai?
Penso que será editado em maio. Tem uma série de colaborações e foi gravado principalmente na Bélgica, mas algumas sessões decorreram em cidades diferentes um pouco por todo o mundo. Eu e o Faris [Badwan] trabalhámos em Londres, algumas gravações foram feitas na Islândia, outras no Líbano, outras em Nova Iorque. Foi interessante, porque tenho bastantes vocalistas no álbum… Os dois recorrentes, que são o meu núcleo principal neste momento, são Rouge Mary de Paris e Gustaph da Bélgica e o resto dos participantes são de todo o mundo.

Conhecia o Faris Badwan antes de trabalhar com ele?
Não, não o conhecia antes. Sabia da existência dos Horrors, claro, mas nunca tinha prestado muita atenção. Andei a explorar uma era da música dos anos 80 em que personagens mais sombrias, vocalistas que trouxeram consigo o perigo, eram mais comuns… E não consegui identificar nenhuma na música pop de hoje, para ser sincero. Nenhum destes miúdos assusta ninguém. Já ninguém é intimidador ou assustador. Estava num desfile de moda e alguém passou uma versão fantástica da ‘Your Love’ do Frankie Knuckles feita pelos Horrors, com o Faris a cantar, e pensei “isto é uma versão tão autêntica e bonita de um tema de música house por uma banda rock. Estes gajos são muito fixes!”. Uma amiga minha sabia que eu andava à procura de uma voz masculina mais negra com quem pudesse trabalhar no novo álbum de Hercules e disse-me: “o Faris é a pessoa perfeita”. Colocaram-nos em contacto um com o outro e assim foi. Fez todo o sentido.

Em 2008, disse-nos que já não tinha uma ideia muito romântica de Nova Iorque. Agora que mora na Europa há alguns anos, que relação mantém com a cidade?
Nova Iorque para mim, neste momento, de certa forma, é como se fosse uma estranha. Volto lá de forma bastante regular… Tive umas experiências tremendas a passar música recentemente, dei alguns espetáculos e passei tempos muito divertidos, mas sinto que sou apenas um visitante. Mais do que alguma vez senti. Tendo dito isso, se lá vou e vejo um amigo com quem não estava há 13 anos ou alguém que conheci na adolescência e andamos quatro ou cinco quarteirões na baixa, as coisas voltam, sinto-me em casa, de forma fugaz. Mas já não é esse lugar para mim. Eu cheguei a Nova Iorque a pensar que ia para a cidade onde o Andy Warhol tinha vivido… E não encontrei essa cidade, encontrei a cidade que o Rudy Giuliani tentou desmantelar e limpar. Tenho uma relação estranha com Nova Iorque, mas ainda gosto dela.

Anohni editou um dos álbuns mais elogiados do ano passado. Mantêm-se em contacto? Consideraria trabalhar com ela novamente?
Sim. Passei uns dias com ela há duas semanas e falamos regularmente. O nosso caminho como amigos é bastante interessante e estamos muito próximos neste momento. Claro que colaboraria com ela novamente. Adoraria trabalhar com a minha melhor amiga e ela é a minha melhor amiga, portanto seria muito divertido. Nestes dez anos, construímos os nossos próprios caminhos e espero que encontremos pontos de contacto, novamente, a dado momento, em termos criativos... Penso que nunca haverá um momento na minha vida em que olhe para outro artista como modelo, um que me ensine como ela a expressar-me e a criar de forma tão pura. Tem sido a minha maior inspiração, nesse sentido, e continua a ser. Hopelessness foi, para mim, o melhor álbum de 2016 e é uma das melhores afirmações artísticas que ela alguma vez fez.

Regressa a "Blind" nos seus DJ sets e os seus fãs, certamente, quererão ouvi-la sempre. Tocá-la em remisturas diferentes é a sua forma de mantê-la interessante e evitar cansar-se?
Sim, sem dúvida. Tem de ser assim. Temos sorte, na música de dança, porque podemos reanimar, remisturar, recontextualizar a música. Quando passas qualquer canção no contexto de um set, ela pode ganhar uma luz diferente, tendo por base as canções que passaste antes e passarás depois, mas tem muito a ver também com a remistura… É importante injetar uma nova vida nas canções. Tenho tocado uma nova versão da canção e é muito divertido... mas tenho de dizer que não estou cansado dela. Adoro essa canção… Claro que pode ser desafiante quando repetes muitas vezes a mesma coisa. Há momentos em que pensas “lá estou eu a fazer isto novamente”.

Aquilo que quer da música hoje continua a ser o mesmo que queria quando começou este projeto ou as coisas evoluíram? Como imagina os próximos dez anos dos Hercules & Love Affair?
Os meus objetivos não mudaram assim tanto, porque quando chega ao momento de escrever uma canção aquilo que continuo a procurar é uma expressão autêntica daquilo que se passa naquele momento. É sempre uma experiência extremamente pessoal, portanto isso faz com que eu seja um artista pop merdoso. Provavelmente, nunca vou vender milhões de discos porque não sou calculista, não planeio as coisas. Continuo a sentir-me muito feliz sentado a escrever melodias para instrumentos, menos feliz a fazê-lo para vozes. Nos próximos cinco a dez anos provavelmente vou concentrar-me em escrever música mais artística, que não exista no mundo da música popular. Talvez estude um pouco mais música clássica. E também vou ter muitos projetos paralelos que me permitirão explorar coisas diferentes. Portanto, vejo-me a ter aventuras musicais muito extremas e diversas nos próximos anos.

Quando atua como DJ, de que sente mais falta dos concertos da banda e vice-versa?
Sinto falta de poder observar os outros participantes, porque às vezes eles deixam-me maravilhado. Ao tocar ao vivo com outras pessoas, fico muitas vezes maravilhado com os músicos em palco e gosto muito de os ver a excederem-se e a fazerem o que fazem melhor. Há momentos em que, em palco, me torno espectador e fico ali a observar os meus cantores a cantar. Adoro quando a Rouge Mary faz algo que nunca tinha feito antes. E também é impossível não me sentir eletrizado quando um público reage a uma certa canção que escrevi ou canta a letra. São momentos muito especiais. Quanto ao que sinto falta de quando atuo como DJ... Não sei… Às vezes, quero explorar sonoridades diferentes daquela que faço com Hercules, portanto enquanto DJ posso tocar uma música muito forte e ver a audiência reagir a ela, coisa que não acontece quando estou a dar um concerto. A banda está confinada às canções que escrevemos. Há música fabulosa por aí, feita por outras pessoas, e também quero tocar essas coisas.