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X-Acto

Carlos Didelet/Arquivo BLITZ

Punk. Hardcore. Straight edge. Grande Lisboa: de putos para putos

Concertos com miúdos em mosh e stage diving, uma frenética rede de fanzines e bandas, adolescentes antidroga a sonhar que podiam mudar o mundo. De meados dos anos 90 até ao início desta década, a cena hardcore de Lisboa e arredores onde pontificavam nomes como X-Acto, Renewal e Time X foi um caldeirão de experiências para muitos músicos do mais excitante rock português da atualidade, dos Paus aos Linda Martini. Mergulhámos nesta cena filha do punk e falámos com alguns dos seus protagonistas

No início dos anos 1990, um grupo de jovens da linha de Sintra descobre que há vida para além do punk e do metal. Os discos de hardcore chegam a conta-gotas, mas mudam vidas. Adolescentes, como Pedro Mateus, que formaria os X-Acto, tomam contacto com um estilo de vida livre de drogas (incluindo álcool e tabaco): o straight edge. O que se segue é a história do movimento contada por quem a viveu do lado de dentro – e em cima de um palco.

Pedro Mateus [X-Acto, Sannyasin]: Éramos capazes de ir ver Censurados ao Cais do Sodré, andávamos lá ao pontapé, mas não era aquilo que procurávamos. Fomos a um concerto na Voz do Operário – era Corrosão Caótica, não me lembro das outras bandas. À entrada, alguém me deu um flyer sobre straight edge. Eu e o Xico, de Subcaos, já andávamos de «X» na mão [símbolo clássico do straight edge], mas achávamos que tinha a ver com [a banda] Youth of Today: «Somos a juventude de hoje, marcada, estigmatizada pela sociedade porque não encaixamos». Quando íamos a entrar nesse concerto, cada um com uma mini na mão e um cigarro, um bacano ficou chocado e entregou-nos o flyer. Teve alto impacto. Falava de uma cena hardcore que tinha mulheres e um certo estilo de vida e de vestir. Começámos a fazer as [sessões de concertos] da Linha de Sintra Hardcore. Pensávamos que havia hardcore em Lisboa e linha de Sintra, mais nada. Abro o jornal e há uma cena Linda-a-Velha Hardcore.

Paulo «Sega» Segadães [X-Acto, Renewal, Sannyasin, Vicious Five, Men Eater, Sam Alone and the Gravediggers]: Fui ver um concerto de X-Acto na Semana da Juventude de Lisboa. Achei incrível uns miúdos da minha idade estarem a dar um concerto. Eu e o Rodrigo [Barradas], que seria vocalista de X-Acto, ficámos bué entusiasmados com a ideia de fazer uma banda. Nenhum de nós sabia tocar uma porcaria. Um pouco mais tarde comecei a dar-me muito bem com os manos de X-Ato [Pedro e Diogo Mateus]. Entrei [nos X-Acto] em 1994.

André Henriques [Bloqueio, One Must Hope, Shoal, Linda Martini]: Comecei a tocar naquela onda de escola, tinha 13, 14 anos. Um dos rapazes da banda era o Cláudio, o irmão do Rodrigo Barradas, de X-Acto. Vínhamos daquela onda meia do metal. Comecei a frequentar muito a casa do Cláudio e víamos lá o irmão. Para uns miúdos, ver um gajo que deve ter sido um dos primeiros punks de Queluz impressionava um bocado e dava vontade de descobrir um pouco mais aquilo. Os X-Acto ensaiavam em Queluz, muito perto da zona onde morávamos, e começámos a ir assistir aos ensaios. Era quase um míni concerto, juntavam-se sempre dez ou vinte pessoas ali. A primeira vez que tocámos mais a sério foi na garagem de X-Acto. Era uma cena brutal porque eles tinham uma diferença de cinco, seis anos face a nós. Tínhamos uma reverência aos gajos…

Hélio Morais [Shoal, As Good As Dead, If Lucy Fell, Linda Martini, PAUS]: Eu era do heavy metal. Tinha um amigo na escola, em 1996, que fazia capoeira com o Rodrigo [Barradas]. Convenceu-me a ir a um concerto de X-Acto. Eu não bebia, nem fumava, o que na cena metal era um bocado chato – gozavam um bocado contigo. De repente, estavas a ouvir música que também era pesada e ninguém te apontava o dedo por não fazeres nenhuma dessas coisas.

Pedro Geraldes [Onion Basement, Shuffled, Linda Martini]: Começou com o concerto dos Opposition [banda pré-Bloqueio, de André Henriques] num concurso de bandas da Preparatória. Tinha uma banda, tocávamos viola. Nesse mesmo concurso tocaram os Opposition e eu fiquei bué de maravilhado com aquele impacto de guitarras. Onion Basement foi a primeira banda que tive influenciada pela cena hardcore e punk.

André: O meu primeiro concerto de estádio foi o dos Metallica, em 1993. Tinha 13 anos, adorava aquilo, mas havia uma grande limitação: o metal é solos por todo o lado e cenas muito técnicas. O apelo, quando começámos a entrar no punk e no hardcore, foi aquela facilidade: tens quatro acordes, aprendes aquela cadência de bateria e no próximo fim de semana podes ser tu a tocar.

Joaquim Albergaria [Liberation, Renewal, Vicious Five, PAUS]: [Entrei] para aí em 1994, Sacavém. Acho que como toda a gente: graças a amigos com os mesmos interesses, com aquela sede brutal de pertencer, paralela àquela sede de ser diferente dos teus irmãos mais velhos e dos teus pais. Depois, as bandas sonoras dos filmes de skate. Na escola secundária mostraram-me outras coisas: cassetes dos X-Acto, o split [dos X-Acto] com Inkisição, as primeiras cassetes com Sick Of It All, Madball... Muito rapidamente, fui cair num dos primeiros concertos da SELF, uma comunidade de miúdos straight edge onde estavam os manos de X-Acto. Eram putos a fazer coisas acontecerem, era um movimento centrípeto: miúdos que viviam nos subúrbios, mas encontravam-se em Lisboa, na Jukebox, no Ritz Clube ou na casa ocupada. Em pouco tempo, tinha a primeira banda, aos 13, 14 anos: os Liberation.

Ricardo Guerreiro [New Winds, Renewal]: Tinha interesse pelo vegetarianismo. Ouvi o disco de X-Acto, Harmony As One, que saiu em 1995, e eles falavam de vegetarianismo. Trocámos cartas, conhecemo-nos. Entrei em 1997 para os New Winds, uma banda que já tinha tido um nome em português: Força Interior.

Ricardo «Congas» Dias [Seize The Day, Time X, For The Glory]: Loures sempre teve uma realidade bastante diferente. Aqui straight edge não existia, basicamente. Eu era o único gajo straight edge de Loures. Em 1997 e 98, comecei a ter contacto com outras pessoas. As nossas vidas cruzaram-se todas naquele ponto em que o pessoal da linha de Cascais, da linha de Sintra e de Sacavém e Loures se juntava todos nos concertos.

Nuno Sota [Liberation, Time X, Mad Rats, ZxExDx, The Youths]: Tive uma banda chamada Mind Change, por volta de 1997. Já era vegetariano e straight edge. Depois, tive Liberation. Por volta de 1999, aparecem os Time X. Foi uma banda grande dentro da cena hardcore europeia.

X-Acto ao vivo na Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia

X-Acto ao vivo na Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia

Todos ao Ritz

Em meados dos anos 1990, os concertos hardcore sucedem-se na Jukebox, um lugar onde havia festas de crianças que virava local de concertos de vez em quando, no Johnny Guitar e noutros sítios mais ou menos precários. Mas a cena hardcore lisboeta atinge os seus anos dourados quando encontra uma «sede»: o Ritz Clube, na Rua da Glória.

Sega: Cada concerto que dávamos tinha mais gente e percebemos que podíamos ser nós a organizar as coisas.

Pedro Mateus. Houve um ou outro concerto que nos deu esse baque. Por exemplo, X-Acto e Human Beans no Johnny Guitar. Batemos o recorde do Johnny Guitar, com 320 pessoas. No fim, o Zé Pedro [dos Xutos & Pontapés, fundador daquele espaço de concertos lisboeta] veio falar connosco: «de onde é que vocês são, o que é que se passou aqui?». Quando o Zé Pedro nos disse aquilo («Vocês têm uma dimensão que eu não imaginava»), ficámos a pensar: se vamos a um sítio que mete 300 pessoas e fica a abarrotar, conseguimos ter um sítio de 500 pessoas em que as pessoas estão mais à vontade. E foi aí que surgiu o Ritz. Conheço o Kadafi, do Ritz, que me diz que tem os domingos parados.

Sega: Tentávamos diversificar as coisas de maneira a trazer bandas de vários sítios dos subúrbios de Lisboa. No início, fazíamos muito duas bandas e X-Acto a finalizar, mas chegou a uma altura em que já não metíamos X-Acto. Chegámos a ter concertos com 600 pessoas no Ritz, o que é um bocado inacreditável.

André: Um concerto, com X-Acto, esgotou, foi um daqueles em que o chão abanava. Lembro-me de estar a falar com o Kadafi ou com o pessoal da organização e eles dizerem-me que na semana anterior tinham estado lá uns bacanos que eram os Silence 4 e tinham estado 50 pessoas. Foi antes de eles rebentarem.

Hélio: A primeira vez que eu e o André pisámos um palco juntos foi no Ritz, em 1998 ou 99. A primeira vez que toquei na cena hardcore.

Congas: Eram sensações brutais. Éramos tão ingénuos na altura que não tínhamos bem noção do que era aquilo que estava a acontecer. As paredes escorriam suor, tudo a cantar, gajos pendurados no candelabro, gajos a mandarem-se de um balcão… Na primeira vez que toquei no Ritz com Time X quase não dormi uma semana inteira. O Ritz era a Meca.

Hélio: Ias aos concertos e, de repente, estavas a falar com os teus ídolos. Essa ideia de que era possível, passado um mês, estares ali naquele palco estava assente.

Sega: Era uma comunidade bastante extensa. Ia a um concerto com 500 pessoas, mas conhecia aquelas 500 pessoas.

Cláudia Guerreiro [As Good As Dead, Linda Martini]: Eram só putos! Era feito por putos, visto por putos. Em 1996, que é o pico para mim, faziam-se as reuniões straight edge. Os gajos mais velhos teriam vinte anos.

Pedro Mateus: Tínhamos orgulho: não somos uns betos, somos pessoal ativo. Isso quer dizer que vais chegar a casa e vais responder a dez cartas, vais mandar uma cassete para não sei quem; no próximo sábado, vais ter uma ou duas reuniões; depois, vamos ver um sítio para um concerto; vamos andar de skate; vamos ensaiar. Era um estilo de vida completamente dentro do hardcore. Ficámos contentes quando a cena se alargou a outros.

Concertos no Ritz Club

Concertos no Ritz Club

Cassetes e fanzines

Há poucos discos dessa era. A música ficou, sobretudo, registada em cassetes – as «demo tapes». Algumas foram tão importantes que adquiram um estatuto equivalente a um disco «oficial». A comunidade hardcore dedicava-se também à produção de fanzines, revistas artesanais, feitas em casa com meios amadores, fotocopiadas e distribuídas nos concertos e por correio. Meios de comunicação do it yourself para uma cena do it yourself.

André: O mano Pedro tinha a maior zine da cena, a Out of Step. O gajo tinha mesmo graça. Lembro-me de um artigo sobre as várias modalidades em que podias fazer stage diving, com muito humor à mistura: fazer o morto [pôr as mãozinhas no peito], saltar descalço…

Hélio: A do mano Pedro era uma das que o pessoal lia mais. E havia uma do Ricardo Guerreiro, que tinha bué piada. Não me lembro dos nomes, só de uma: a De Mãos Dadas.

Cláudia: Era horrível. Tinhas o straight edge, o vegan e a amizade. «Vamos ser todos amigos», «paz e amor». Mas em hardcore.

Pedro Mateus: A Out of Step deve ter aparecido em 1996, mais ano, menos ano. Comecei a estudar design. E pensei: “Vou fazer uma fanzine como deve ser”. Tinha artigos, entrevistas.

Ricardo Guerreiro: A primeira que fiz foi a Força Suprema, em 1997. A segunda foi em 2000, a San Bao. Em vez de falar de straight edge, preferia dizer: com a saúde e a cabeça livre, o que é que eu ganho com isso, o que é que eu vou fazer? Ofereci a fanzine a professores do liceu e eles viam sentido naquilo.

Joaquim Albergaria: Cartas, encomendas, trocas de mixtapes, trocas de fanzines. Era normal tu dares, trocares e falares por cartas onde partilhavas com alguém uma demo tape de uma banda que tu conhecias. Comunicávamos por carta com pessoal de Castelo Branco, do Porto… Concertos eram marcados por carta ou por telefone fixo.

***

Durante os anos 90, o straight edge foi uma ideologia importante na cena hardcore. Os atuais membros dos Linda Martini foram todos straight edge. Este estilo de vida cruzava-se com o vegetarianismo e o veganismo.

Joaquim Albergaria: Foi um peer pressure positivo. Estamos a falar de 1996, ainda estamos a falar de uma geração inteira a morrer às mãos do «cavalo». E nos subúrbios era uma coisa que se via muito. Quando te aparece à frente um estilo de vida que vem com o pacote completo – música, maneira de vestir, lingo, piadas privadas – e, ao mesmo tempo, é uma afirmação de diferenciação radical («eu escolhi não beber, eu escolhi não fumar»)… Para mim, foi um bocadinho no-brainer. Obviamente que estava a construir a minha própria personalidade de acordo com um caderninho vermelho, mas, mesmo dentro desta «revolução cultural», havia muito espaço para individualidade – e era pedida.

Hélio: Eras tentado pelo pessoal que ia para trás do polivalente [da escola] fumar charutos. Quem não o fizesse, era olhado de lado. De repente, dizias: «Eu não faço isso porque sou straight edge». Era estranho, mas dava-nos algum conforto. Fui até aos 28 anos [agora tem 33]. Havia reuniões para falar sobre veganismo ou straight edge. Havia receitas vegetarianas que se partilhavam.

Cláudia: Concordava e sentia-me próxima daquilo. Não bebia, não fumava, achava uma estupidez beber e fumar. Aquilo adaptava-se a mim. Comecei [a beber] aos 22. Mas muito soft.

Nuno Sota: Dentro do punk, o straight edge acaba por ser uma escolha mais ativa e menos decadente. O pessoal das bandas punk considerava-se muito ativo, mas preferia estar com os copos do que fazer determinadas coisas. Uma rebelião muito adormecida. A casa da Praça de Espanha foi ocupada por pessoal punk, mas o pessoal straight edge teve uma enorme influência em muita coisa que ali se passou – e já estamos a falar em 2002. Pintou a cozinha, organizava jantares vegetarianos e a maioria dos concertos de bandas não portuguesas. Atualmente, para mim, ser vegetariano e straight edge é uma cena completamente banal ao fim destes anos todos.

Cassete dos Sannyasin

Cassete dos Sannyasin

Luta de «escolas»

A cena evoluiu e abriu-se aos cruzamentos do hardcore com o metal que se experimentavam, sobretudo do outro lado do Atlântico. Ao old school juntava-se um novo rebento na família hardcore: o new school, a que também chamam de metalcore, com bandas como os Renewal na liderança. A reação old school surgiria pela mão de grupos como os Time X, fundados no fim da década de 90: 100% old school, 200% straight edge.

Pedro Mateus: Houve pessoal que quis fazer uma cena straight edge completamente à parte. Compreendo: se uma pessoa olha para outro que tem um copo na mão e vê um demónio… Mesmo quando éramos straight edge, havia pessoas que não nos consideravam straight edge porque, nos anos de alguém, o meu irmão bebeu um copo de champanhe. O meu irmão, que nunca tocava em álcool, fez aquilo pela palhaçada. Nós somos punks, não vamos estar preocupados! Para os outros, que eram uns grandes betinhos, aquilo foi o diabo.

Nuno Sota: A ideia com Time X era fazer uma banda assumidamente straight edge. Havia pessoal straight edge, como os Renewal, que não queriam assumir-se como uma banda straight edge. Pensámos em fazer uma banda com muitas letras a falar de straight edge. E pensámos: «Isto vai abanar a cena».

Congas: Estamos a falar de uma banda que dizia «se fumas, quero que morras com um cancro na cabeça». Uma cena mesmo parva. Mas era para chatear os Renewal porque eles trouxeram o metalcore para a cena hardcore. E, ao fim ao cabo, éramos todos amigos e jogávamos à bola na Expo. Para muita gente, Time-X estragou completamente a cena hardcore da altura. Vinhas de uma cena superpositiva à X-Acto e, de repente, tens uma banda que diz «comes carne, és um monte de merda».

Nuno Sota: A verdade é que os públicos de Time X e de Renewal se chateavam entre eles. Muitas vezes não entendiam que as cenas que dizíamos em Time X eram sarcásticas e muitas delas no gozo, para chocar a cena hardcore.

Hélio: Havia uma fação mais extremista, que tinha a ver com Time X, pessoal de Sacavém. Talvez quando os X-Acto «caem» [deixam de ser straight edge] eles tenham tomado uma atitude mais forte.

Pedro Mateus: Comecei a fumar ganzas aos 27. Estava bué aborrecido com o straight edge. Já estava mesmo numa de descolar.

Pedro Mateus e Sega, dos X-Acto, em 1995

Pedro Mateus e Sega, dos X-Acto, em 1995

Arquivo BLITZ

O fim da «instituição»

A viragem de milénio traz dois acontecimentos chave que ditam o fim dos anos dourados: os X-Acto terminam (e surgem renascidos, já sem a carga straight edge, enquanto Sannyasin, banda com vida curta), o Ritz fecha portas. Um novo sítio toma o seu lugar: a Kasa Enkantada, um edifício ocupado por punks na Praça de Espanha, também em Lisboa.

Cláudia: [Na casa ocupada], a eletricidade era puxada de um poste da rua.

Hélio: Tínhamos que esperar que houvesse luz na rua para se fazer a «puxada». Havia muita gente que não tinha coragem de comer o que lá se cozinhava.

Congas: Em 2000, quando X-Acto acaba, se tinhas 500 pessoas que iam a concertos, 50% ficaram. Acaba a banda referência, acaba a sala referência. E agora? O pessoal voltou a construir uma cena nova. Descobriu-se a casa ocupada, os punks deixavam lá fazer concertos.

Pedro Mateus: Sentimos a necessidade de matar X-Acto porque tínhamo-nos tornado em algo em que não acreditávamos: uma instituição. Como não andávamos atrás de uma carreira, chega a uma certa altura em que estás farto de tocar os hits e, se não os tocas, as pessoas começam a partir-te a cabeça, como se fosses uma estrela de rock. Os nossos ensaios eram quase como ir picar o ponto, já não tínhamos aquele fogo, não conseguíamos fazer músicas novas.

Hélio: X-Acto mantinha a cena straight edge bem viva. Quando eles próprios deixaram de pregar straight, a cena straight edge desvaneceu-se um bocado.

André: Quando o Ritz terminou, houve mais diversidade porque estava tudo muito fechado no punk dos quatro acordes e no punk rápido. Havia pessoal com outras abordagens a tentar trazer mais técnica. Foi na altura que eu, o Hélio, o Sérgio – que também foi de Linda Martini – e o Luís Branco, que depois fundou os Day of the Dead, e o JP, que tocou em For The Glory, fizemos os Shoal, que era muito mais new school, muito influenciado por Refused, já a apanhar a onda de At The Drive-In.

Sega: Já havia muitas bandas, pessoas com ideias muito diferentes umas das outras. Começou a haver separações. Em vez de teres um concerto com 500 pessoas com três bandas diferentes, tinhas um concerto com três bandas iguais umas às outras, que pregavam as mesmas ideias, e 100 pessoas iam ver.

Pedro Mateus: Começámos a ouvir música muito diferente. Ainda tentámos fazer um hardcore um bocado stoner [enquanto Sannyasin]. Se ainda poderia haver alguma hipótese de juntar a banda, com a morte do Rodrigo [vocalista] isso desapareceu das nossas cabeças.

***

Os putos deixaram de ser putos e começaram a querer ouvir e fazer outras músicas. Paulo Segadães e Joaquim Albergaria avançam para os Vicious Five (o primeiro toca com Sam Alone e é fotógrafo e realizador, o segundo está nos PAUS). Os manos Mateus e muitos outros partem para outras músicas. Outros mantêm-se na cena. Surgem as sementes de Linda Martini.

Joaquim Albergaria: Para muita gente, a ideia do straight edge e dos direitos dos animais começa a ser o que tu comes e o que tu fazes, já não é bandeira de afirmação. E o que começou a interessar foi outra música, outra maneira de fazer música.

André: Até aqui foi aquele maravilhamento de miúdos e de começares a aprender a tocar. O passo seguinte foi: «OK, agora tenho estas bases, vou tentar aprofundar um bocadinho mais».

Pedro Geraldes: Na altura, deixei de ter bandas. Foi a altura em que entrei para a faculdade. Mas Sannyasin marcou-me para caraças.

André: Shoal era uma banda fixe, mas não eram os reis da cena. Na primeira liga estavam os Sannyasin, os Renewal, do pessoal que já era mais «cota» quando comparado connosco. Nós éramos os putos que já tinham conseguido o seu espaço.

Hélio: Eu e o André ficámos em Shoal até ao fim. Entretanto, queríamos fazer uma coisa um bocado diferente sem um gajo aos berros. Em 2001, fizemos as primeiras músicas do que viria a ser Linda Martini. A Cláudia e o Geraldes entraram entretanto. Houve um concerto [de Shoal] a que o vocalista não pôde ir. Tocámos os quatro na mesma e tocámos o início da «Efémera» [de Linda Martini]. Percebemos que podíamos fazer um projeto paralelo. O Sérgio começou a ouvir aquele pós-rock maluco, Isis e não sei quê, e começámos a ficar mais «cavalosos». Aí foi mesmo a assunção: isto é radicalmente diferente.

Joaquim Albergaria: Já não era aquela coisa «nós somos isto», já era «quem é que eu sou?». É quando vais para a faculdade que fazes esta viragem. De isto tudo que era nosso, o que é realmente meu? Este movimento foi sincronizado para muita gente.

Hélio Morais, vocalista dos efémeros Killing the Girl

Hélio Morais, vocalista dos efémeros Killing the Girl

cedido por Congas

Pós-hardcore

Nos primeiros anos da década de 2000, boa parte dos agentes da cena hardcore tinham ido para outras paragens – como músicos ou pessoas. Mas a marca do it yourself ficou-lhes no ADN.

Joaquim Albergaria: Culpo e agradeço a essa piscina de encontros e experiências que foi a cena de hardcore. Deu experiência a muita gente do que é um bom concerto sem gimmicks – do que podes fazer com duas guitarras, um baixo, uma bateria e um vocalista. E, dos pontos de vista político, económico e logístico, as ferramentas que deu a muita gente para fazer essa música acontecer e chegar ao maior número de pessoas possível, da maneira mais autónoma possível.

Hélio: Deu-nos uma certa agilidade: marcas concertos, fazes o teu merchandising, os masters [gravações originais de onde saem as cópias dos discos] são nossos, controlas a tua música. És dono do teu destino.

Pedro Geraldes: Fui para a faculdade, acabei o curso e decidi ir para uma empresa em que tentei fugir um bocadinho àquilo que tinha estudado. Estive numa agência web. Ao ter Linda Martini, tinha ali uma fonte de rendimento que não dava para viver, mas que sempre me ajudou. Então, achei que podia estar em part-time. Agora estou como freelancer e estudo música interativa e design de som.

Sega:Descobre o que queres fazer e mexe-te para que as coisas aconteçam. Essa ética, desde o dia um até hoje, está dentro de mim e dificilmente vai morrer [hoje é, principalmente, fotógrafo].

Ricardo Guerreiro: Saí [da cena hardcore] em 2000. Estudei Física. Não acabei, fui trabalhar para os Açores, na observação de baleias, nunca mais voltei à faculdade. Depois comecei a fazer observação de aves. A partir daí, comecei a fotografar [a Natureza].

Pedro Mateus: O meu irmão toca com Guilherme da Luz nos Mahamudra – mais hippie e wild é impossível. Eu trabalho em design. Estou a criar uma marca ligada ao skate. Sou guia da Serra de Sintra, deixei o trabalho das agências de publicidade.

Nuno Sota: Aprendes a fazer as coisas por ti mesmo e isso tem um impacto brutal na tua vida. Saí do emprego onde estava e criei uma loja de bicicletas [a Roda Gira, em Lisboa]. Tenho um filho, que está a ser educado para ser vegetariano. Muito mais importante do que tudo o resto, é ter aprendido coisas que posso transmitir ao meu filho. Não quer dizer que ele não vá comer carne, mas será uma escolha dele.

Texto: Pedro Rios

Originalmente publicado na BLITZ de outubro de 2013