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“Se a minha carreira acabar com a imagem final do T2, morro feliz”. O novo “Trainspotting” estreia hoje e quem fala assim é Danny Boyle

É um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e marcou numa geração. Duas décadas depois de os vermos a alucinar nas ruas, nos bares e nos lares de Edimburgo, Renton, Spud, Sick Boy e Begbie voltam a encontrar-se num T2 que é assumido pelo realizador Danny Boyle, em entrevista, como “uma continuação”.

Vinte a um anos depois, Danny Boyle volta ao «local do crime» e leva os «suspeitos do costume». O realizador britânico tomou como base Porno, o sucessor de Trainspotting na bibliografia do compatriota Irvine Welsh, volta a acercar-se do guionista John Hodge e recrutou os atores do icónico filme de 1997. «Penso em T2 mais como uma continuação. Numa sequela, das duas uma: ou nos afastamos tão completamente do original que não chegamos a revisitar nenhum dos seus elementos, ou concentramo-nos em alguns pontos fulcrais do original. Não fizemos nenhuma destas coisas. No entanto, mantivemos o mantra «escolhe a vida». É uma parte importante da personalidade do Renton. Em muitos sentidos, T2 é sobre o Renton a encontrar novamente a sua voz», afirma o homem por trás de um dos mais aguardados filmes de 2017.

Tantos anos volvidos sobre o Trainspotting original, por onde é que começou?
Digamos que nos lançámos de cabeça com o primeiro filme. Tínhamos feito o Pequenos Crimes Entre Amigos, que foi bastante bem sucedido. Obviamente, por essa razão, as pessoas queriam que fizéssemos outro rapidamente. Cruzámo-nos com aquele livro extraordinário e o guionista John Hodge começou imediatamente a trabalhar nele. Houve toda a preparação habitual, mas, em comparação com o T2, não houve nada. Num determinado sentido, existe o perigo de se preparar demasiado e de se perder a inocência do processo. À medida que se vai fazendo alguns filmes, vai-se aprendendo pelo caminho. Estranhamente, isso [o excesso de preparação] nem sempre é uma vantagem. Considero que os filmes que são feitos num estado de bem-aventurada ignorância, descobrindo as coisas à medida que se vai andando, conduzem por vezes a algo bem mais interessante. Às vezes, o que as pessoas querem é a verdade, um momento de autenticidade em que possam rir, chorar ou sentir-se aterrorizadas. Alcançar essa inocência é muito difícil, dado o grau de sofisticação e complexidade de todo o processo, hoje em dia. Por isso, a principal diferença, com o T2, foi a tentativa de preservar alguma inocência.

Quais os maiores desafios com que se defrontaram?
Por onde é que começamos? O facto de ter havido outro há vinte anos, a dúvida de se conseguiríamos reunir novamente os atores, se o John seria capaz de escrever o argumento. O que nos fez hesitar inicialmente foi a grande interrogação: «seremos capazes de fazer um trabalho tão bom como com o primeiro?». Não queríamos desapontar as pessoas. Mas o fator decisivo foi saber que o John era capaz de o escrever. O argumento demorou algum tempo a ficar pronto, mas ele entregou-nos um esboço notável. Mal o li, soube que o podia enviar aos quatro atores. Eles, ainda assim, por uma variedade enorme de fatores – não sendo a questão do tempo o menos importante – poderiam ter recusado. Alguns deles têm empregos a tempo inteiro bastante sólidos. Mas nessa altura eu já estava confiante. Aliás, pensava que só se fossem doidos é que não aceitariam.

Foi difícil calendarizar as filmagens em função dos vários compromissos dos atores?
Muito. Os horários são sempre complicados, e as coisas tornam-se ainda mais difíceis quando se tem quatro protagonistas. E o T2 é realmente sobre os quatro. O público tem uma relação com eles – as pessoas vêm ter connosco na rua e falam sobre o Sick Boy, o Renton, o Begbie ou o Spud de forma muito familiar. Por isso, sempre soubemos que tínhamos de preparar um argumento que realmente os colocasse a todos no centro do filme. Mas isto tornou tudo ainda mais complicado, porque os quatro tinham horários altamente restritivos. O John [Jonny Lee Miller] e o Bobby [Robert Carlyle] têm ambos programas permanentes nos Estados Unidos da América [Elementar e Era Uma Vez, respetivamente], de forma que, basicamente, tiveram de fazer a sua parte durante as férias de verão. O Ewan estava a terminar o seu próprio filme. Por esta razão, tivemos de os alternar uns com os outros como pentes num tear. Felizmente, como já tinham desempenhado aqueles papéis, chegaram logo com um grau de confiança que por vezes leva o seu tempo a atingir. A experiência também ficou marcada pela sua própria reação a vinte anos de envelhecimento individual. Existia este manancial maravilhoso de pesquisa pessoal e interior que podiam acrescentar ao material. Estiveram imparáveis desde o primeiro dia.

Estavam entusiasmados por desempenhar novamente aqueles papéis?
Penso que inicialmente estavam apreensivos… ansiosos por não dececionar. É curioso, mas há uma responsabilidade extra quando o público gostou assim tanto do primeiro filme. No entanto, assim que nos convencemos todos de que não ia ser um fiasco, engataram uma mudança emocional muito forte. O Trainspotting encerra em si uma carga emocional inesperada, que nos assalta de surpresa. Mas o T2 é inevitavelmente mais emocional, na medida em que lida com a passagem do tempo. O primeiro filme é, de certa forma, sobre a juventude – é uma tremenda celebração do que significa ser-se jovem. Este filme é acerca do que é ser um homem adulto, e sobre quão mal lidamos com isso. O T2 é sobre o fardo que representam os filhos, e a ausência de filhos, ou sobre o desapontamento das crianças relativamente aos seus progenitores masculinos.

As personagens mudaram muito?
Os filmes são precisamente sobre o quanto elas mudaram… ou quanto, na verdade, permanecem as mesmoas. Há um ADN que perpassa o T2 e que transporta uma sombra do outro filme e das personagens, sem que o torne uma fotocópia do primeiro. Assim, o filme começa com o Begbie agora na cadeia – e, como pode imaginar, ele não é o recluso mais dócil. O Sick Boy agora gosta de ser conhecido como Simon, embora continue nos esquemas. O Spud debate-se com uma toxicodependência prolongada. E, nessa altura, o Renton regressa a casa, provando o velho ditado que diz «no fim, não há outro sítio para onde voltar senão o sítio de onde se veio». Temos a sorte de poder contar com personagens e um impacto cultural, digamos assim, que perduraram. Mas é ótimo poder depois entrar lá dentro e virar tudo ao contrário. Porque o T2 vai mexer com as pessoas em termos das suas expectativas e do que elas pensam que poderá ter acontecido a cada personagem individual. O nosso objetivo foi correr riscos e desferir golpes da mesma forma que, creio, a vida real também faz.

E em que medida os próprios atores mudaram?
Pô-los lado a lado com a sua aparência de então é muito impressionante. É curioso, pois esta foi uma das razões principais para termos feito o filme neste momento. Olhámos para eles aqui há 10 anos e não nos pareceram assim tão diferentes. Agora, as transformações trazidas pela vida estão bem patentes neles. Os rapazes lidaram com isso de forma realmente honesta. Não tiveram reservas em exibir com franqueza o ponto em se encontram. Está maravilhosamente expresso em todos eles – cada frame das suas caras conta uma história. Ewen Bremner é um ator extraordinário e uma pessoa extraordinária. Desempenhou o papel de Renton na adaptação original para teatro de Trainspotting. Tive de dizer-lhe que preferia que fizesse o papel de Spud e, para dizer a verdade, a sua graciosidade basicamente mudou a minha carreira. É estranho, mas a personagem mais desafortunada do primeiro filme revela-se algo diferente no T2. Há um sentimento de conclusão, o fechar de um círculo, com isto. E o Bremner dá-lhe vida com o seu desempenho subtil e minimal. Na verdade, ele conhece aquela personagem melhor do que qualquer de nós. O Simon é a personagem menos visível do argumento – simplesmente não aparecia nas páginas com a frequência das outras três. Mas, para Jonny Lee Miller, que a topou logo, não era enigmática. Assisti ao crescimento do Jonny como ator, ao longo dos anos, e fiz o Frankenstein no National [Theatre] com ele. Devo dizer que a sua atualização do Sick Boy é muito comovente e que a sua relação com o Renton é extremamente poderosa. São acusados de estarem apaixonados, no entanto também aparentam odiar-se. Os dois actores, juntos, captam maravilhosamente essa ambivalência. O que não surpreende – com o Ewan McGregor a afinação é sempre irrepreensível. Nem o próprio Renton não sabe bem qual a sua posição. Sempre que achamos que já o percebemos, ele escapa-se-nos por entre os dedos. Muitíssimo inteligente e sempre aquém no que faz – é uma combinação terrível. E o Ewan consegue trazer para o filme essas feridas. Se, neste momento, eu for atropelado por um autocarro, e a minha carreira acabar com a imagem final do T2 – o Renton a dançar no quarto da sua infância – , morro feliz! O Bobby Carlyle é, sem dúvida, uma das nossas forças mais poderosas. Aquilo é mais do que representar, na verdade. Através dele, o Begbie é assustador, e, no entanto, queremos estar na sua presença. Ele é de tal modo eletrizante, que só o queremos ver ao pontapé a tudo – e, ainda assim, há algo que nos impede de sentir repelidos por tudo aquilo. O Bobby está tão sintonizado com o tipo, que sabe instintivamente quão longe pode ir e em que momento exato deve recuar. Sim, é um ator muito especial.

Foi bom regressar a Edimburgo?
É engraçado, mas na verdade o Trainspotting foi rodado em Glasgow, à exceção de alguns exteriores. Adorei estar em Edimburgo, desta vez. Só a tínhamos visitado intermitentemente, no outro filme, e eu não tinha conseguido apreciar a cidade. Não nos passou despercebido, de forma alguma, o orgulho que as pessoas sentiram no primeiro filme. Na verdade, toda a Escócia tem orgulho do Trainspotting. Parece que a atual Primeira Ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, abandonou sorrateiramente uma conferência na Austrália, onde se encontrava, em 1996, para o ver! Se até o líder do país tem assim tanto orgulho do filme original, nós sentimos essa pressão. Ganhámos imenso com essa boa predisposição. Mas toda a gente que encontrávamos tinha as mesmas três perguntas: «todos os atores originais estão de volta?», «a Kelly Macdonald [a personagem Diane] vai voltar?». E a terceira era: «como vai ser a banda sonora?».

A música em Trainspotting era importantíssima…
Sem dúvida. Há imensas pessoas que com certeza não o teriam visto, se não fosse pela música. São gatilhos, na verdade – as faixas desencadeiam um certo tipo de reação química dentro de nós. E o T2 é muito consciente do primeiro filme, e não apenas no que respeita à narrativa. É consciente de que o Trainspotting, enquanto obra cultural, teve um determinado impacto nas pessoas. A música é uma forma brutal de relacionar sentimentos, e tentámos fazer uso disso, em ambos os filmes, para estimular as memórias.

Há algumas diferenças de monta entre os dois filmes?
Embora houvesse uma dose grande de voiceover no Trainspotting, não havia assim tantos diálogos. O T2 tem bastantes diálogos, embora não seja exatamente um filme literário. O diálogo é algo que se pode seguir – e é delicioso. A beleza do livro original é a linguagem. Demora um certo tempo a descodificar, mas se se tiver paciência, é maravilhoso. E, numa era de cinema homogeneizado, temos orgulho em que haja, nas vozes destes atores, uma cultura escocesa verdadeira que eles próprios saboreiam. (Tradução de Sara Fevereiro)

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2017