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Kurt Cobain faria hoje 50 anos: era uma vez um rapaz

Nasceu pobre, mas cresceu feliz até ao divórcio dos pais. Passeou durante anos entre casas de familiares e amigos até conseguir o primeiro sítio a que chamou casa. No dia em que o líder dos Nirvana faria 50 anos, regressamos ao período de anonimato de um homem que confessava aos amigos querer chegar a estrela de rock e morrer como Jimi Hendrix

Um adolescente descontrolado pode ser ameaçador para outros, assustador para quem o tenta educar e apaixonante para quem o acompanha. Aos 17 anos, Kurt Cobain cumpria todos os requisitos. Celebrava a primeira namorada, especializava-se em fazer disparates e em casa levava mãe e padrasto ao desespero. Durante a primavera de 1984, uma noite haveria de mudar a sua vida. Depois de uma festa entre amigos, bem acompanhada por charros e LSD, regressou a casa da mãe, na companhia da namorada Jackie e de uma amiga, à beira de desmaiar pelo excesso de álcool consumido. Sem fazer barulho, subiram os três ao segundo andar da pequena casa, mas para o quarto só dois entraram. A amiga, desmaiada, ficou à porta. Kurt Cobain tinha uma missão: perder a virgindade. No entanto, depois de se despirem, mas antes de consumarem o ato, a mãe haveria de a interromper. Com estrondo. Estava farta da indisciplina do filho mais velho e com uma adolescente inconsciente no corredor e outra nua, de luzes apagadas num quarto, optou pela solução mais radical: expulsou-os a todos de casa. Cobain não voltaria a casa da mãe. Nessa noite encontraram abrigo na casa da amiga, que entretanto recuperara a lucidez, e Cobain cumpriu a missão.

A velocidade com que os Nirvana apareceram e escalaram ao topo do panteão do rock pode ser enganadora. Na vida de Kurt Cobain pouco foi conquistado sem sofrimento. Perder a virgindade, valeu-lhe quatro meses a viver pelas ruas de Aberdeen, os mesmos que, anos mais tarde fantasiava na letra de «Something in the Way», a música que fecha Nevermind, o disco que o elevou a estrela de rock. A letra traça o cenário: «Debaixo da ponte / A lona tem uma fuga / Todos os animais que apanhei tornaram-se de estimação / Estou a viver de relva / A água que cai do teto / Não faz mal comer peixe porque [os peixes] não têm sentimentos». Ainda assim, falsa. Krist Novoselic garantiu a Charles R. Cross, autor da biografia Heavier than Heaven, que Cobain «nunca viveu debaixo da ponte. Parávamos lá, mas ninguém ali conseguiria ficar, na lama, com as marés a subir». Franzino, com poucos amigos e ainda menos aptidões sociais, Cobain apurou a capacidade de sobrevivência. Encontrou abrigo nos prédios abandonados no centro da cidade, especializou-se a ocupar os corredores dos prédios habitados e com aquecedor central desenroscava a lâmpada do teto para dormir descansado e acordava ao nascer do sol para não ser visto e em caso de urgência última socorria-se da sala de espera do Grey Harbour Community, o hospital onde nascera 17 anos antes. Mas se ao longo dos anos foi o próprio que alimentou a lenda de ter vivido debaixo da ponte, nunca contou quem o resgatou das ruas o pai, que o encontrou a viver numa velha garagem. Nessa altura, Cobain voltou à casa que o pai partilhava com a namorada, mas a estadia também seria temporária e a felicidade, uma vez mais, nada mais que uma miragem.

Da felicidade à ruína
Cobain foi feliz até à última semana dos seus oito anos, momento em que os seus pais, Donald e Wendy, se separaram. Até esse momento, mesmo que com poucas posses e sempre na luta para cumprir todos os pagamentos, pouco lhe faltou. Primogénito de um casal que anos antes tinha casado numa viagem secreta ao estado vizinho de Idaho, passou os primeiros anos no centro das atenções de uma família numerosa. «Era um miúdo feliz, estava sempre a fazer qualquer coisa, fosse a tocar bateria em tachos e panelas, fosse a desenhar», lembrou o avô Leland Cobain no documentário Kurt Cobain, The Early Life of a Legend.

No entanto, para que ao miúdo nada faltasse, a vida dos pais estava longe de ser fácil. Como mecânico, o pai, de apenas 21 anos à altura do nascimento do filho, ganhava cinco dólares por hora, enquanto a mãe, dois anos mais nova, se dedicava exclusivamente a cuidar do pequeno Kurt Donald Cobain. A esforço, antes que completasse dois anos de idade os pais mudaram-se da pequena casa prefabricada para um apartamento de pleno direito e com uma renda cinco dólares mais cara um rombo no orçamento de uma família que vivia com pouco mais de seis mil dólares por ano. Mas nunca foi da falta de dinheiro, ou luxos, de que Cobain se queixou. E aos 15 meses até já sobravam brinquedos. A bola de futebol americano era deixada para segundo plano quando comparada com a harmónica e a bateria, devidamente enfeitada com o Rato Mickey, e nem faltaram dólares para alugar uma câmara Super 8 para registar os primeiros feitos do mais novo dos Cobain.

Com os primeiros passos, também surgiram as primeiras demonstrações de talento. E se aos quatro anos já improvisava, numa miniatura de piano de brincar, uma canção original sobre uma ida ao jardim, nos primeiros anos foi no desenho que se destacou. «Nunca pensei que ele fosse pela música. Sempre achei que faria vida na arte [visual]. Era mesmo muito talentoso no desenho», conta Leland Cobain. Se desenhava Mickey e o Pluto, também desenhava lobisomens e já demonstrava talento para a música aos dois anos, garante o avô, já tentava cantar «Hey Jude», dos Beatles, e aos quatro reproduzia ao piano as melodias que ouvia. No entanto, tudo ameaçava ruir.

Com a chegada da irmã Kim, três anos mais nova, a atenção passou a ser dividida e surgiram os primeiros problemas: Kurt foi considerado hiperativo e viu-lhe receitada Ritalina, um medicamento que muitos defendem potenciar a apetência para drogas em adulto. Para a biografia de Cobain, Charles R. Cross falou com Courtney Love sobre o medicamento que a cantora também tomou. «Se quando és criança recebes uma droga que te dá aquela sensação, para onde vais fugir quando chegas a adulto? Era uma euforia e a memória fica», contou a viúva de Cobain.

«Lembro-me de me sentir envergonhado. Por alguma razão senti-me envergonhado pelos meus pais. Deixei de poder ver alguns amigos na escola porque queria, desesperadamente, uma família clássica, queria essa segurança. Fiquei sentido durante uns anos», reconheceu Cobain à revista Mojo numa das suas últimas entrevistas. A «vergonha» pelos pais tem explicação: em fevereiro de 76, Wendy pediu o divórcio, saiu de casa, deixando a Don a responsabilidade de explicar o que acontecera aos filhos e lançando-se num penoso processo de separação de bens. Kurt mudou e a parede do quarto que dividia com a irmã foi redecorada. «Odeio a mãe, odeio o pai.

A mãe odeia o pai. Só te faz querer ficar triste», escreveu. Também por essa altura, surgiram os primeiros problemas de saúde, tendo Kurt chegado a ser internado com problemas no estômago. Até hoje, não é claro se o motivo seria a doença de que em adulto se queixava ou se era sinal de falta de alimento. Só em julho o processo de divórcio seria dado como concluído e os poucos bens divididos entre os pais: Wendy ficou com a casa e o automóvel da família, um Camaro com dez anos, enquanto Don manteve o Ford e ganhava direito a 6500 dólares no caso de a casa ser vendida e a receber 150 dólares por cada filho Wendy dispensou a custódia. Passariam a viver numa rulote, partilhada com os avós Leland e Wendy.

No entanto, também não seria a falta de espaço a roubar a felicidade a quem aprendia a conviver só com o pai. Don, fervoroso praticante de desporto, fosse basquetebol ou basebol, levava o pequeno Kurt a ver jogos, à pesca e nem se esquecia dos mimos ocasionais. Depois do divórcio, Cobain recebeu uma mini-mota de crosse Yamaha, mas pouco depois chegava uma má notícia. O pai começara uma relação com Jenny Westboy, mãe de dois. Mesmo que representasse a mudança para uma casa maior, onde até teria, pela primeira vez, direito ao seu próprio quarto, agora a atenção voltaria a ser dividida.

Em março de 1982, e com a mãe envolvida com um namorado violento, Kurt pediu para trocar a casa do pai pela rulote dos avós paternos. Começava o périplo que o levaria a 10 casas diferentes, entre familiares e amigos, no espaço de quatro anos. A mágoa com o pai, haveria de chegar aos Nirvana e a uma das melhores músicas do derradeiro disco, «Serve the Servants», em forma de lamento pela relação com o pai: «O lendário divórcio é um grande aborrecimento / Os meus ossos envelheceram e doeram / doeram mesmo muito / tentei ter um pai, mas tive um papá». «Foi a primeira vez que lidei com os problemas com o meu pai. Raramente escrevi algo tão obviamente pessoal, para mim ou qualquer outra pessoa, nessa escala. Mas obviamente que o tema está presente», confessaria à Mojo.

A música, a erva e a mãe
No verão seguinte, procurou abrigo em casa do tio Jim, casado e com uma filha, em Aberdeen, e fez duas descobertas que acabariam por acompanhá-lo durante a vida as aparelhagens de som e o cheiro a erva. Mas Jim, além de um convicto fumador, também era fã de música e, pela primeira vez, Kurt teve à sua disposição uma aparelhagem digna desse nome e uma coleção de discos que variava entre os Led Zeppelin e os Beatles. Outro tio, Chuck, daria outro contributo especial para alimentar a crescente fixação com música do pequeno Cobain. Membro de uma banda local, Chuck não só o deixava assistir a concertos e ensaios como ainda lhe arranjou as primeiras aulas de guitarra com Warren Mason, guitarrista da banda e celebridade local. No entanto, se na guitarra Cobain viria a encontrar a sua melhor companhia, também seria com ela em riste que se tornaria mais desligado do mundo. A primeira que recebeu, e rapidamente partiu, nunca saía da sua alçada e quando, aos 15 anos, a mãe lhe ofereceu uma Ibanez de pouco mais de cem dólares, o vício da música só subiu de tom.

No Aberdeen Weatherwax, liceu em que os pais se tinham conhecido, Cobain começava a passar por novos problemas. Onde até então tinha sido um miúdo bem integrado e sempre rodeado por amigos, agora num liceu três vezes maior as dificuldades de integração tornaram-se fatais. Abandonou o desporto, na incapacidade de encontrar novos amigos; nas aulas, só em arte se destacava.

Na memória dos colegas ficaram dois desenhos: uma réplica de Michael Jackson, com a célebre luva branca, e um polémico espermatozoide com cara de bebé. Se Kurt demonstrava uma aptidão acima da média para as artes, também o seu lado mais negro cedo se começou a manifestar e o comportamento a fugir ao controlo de pais e professores. Por essa altura, estava instalado em casa da mãe que, com 35 anos, a dividia com o namorado de 22 anos. Para aumentar o desconforto de Kurt, a «simpática» forma física de Wendy tinha-se tornado assunto. Os amigos não poupavam nas piadas, ofereciam-se frequentemente para dormir na sua casa e sempre que a mãe aproveitava o sol para se bronzear de biquíni no jardim, não deixavam de espreitar. Mesmo de fraca figura física, Kurt Cobain habituou-se a resolver ao soco os piropos que lançam à sua mãe.

«Era uma cidade muito pequena e não conseguia encontrar amigos de quem gostasse, que fossem compatíveis comigo, com as coisas de que gostava», recordou Cobain à Mojo sobre os seus anos de isolamento no liceu onde, apesar de tudo, não era provocado. «Eu era tão reservado, tão antissocial que era visto como quase louco e toda a gente me deixava em paz. Acho que votariam em mim para "Melhor candidato a matar toda a gente no baile da escola"», contou na mesma entrevista em que reconhecia ter tido os pensamentos mais negros. «Cheguei a fantasiar com isso, mas iria sempre preferir matar-me antes. Sempre gostei de filmes sobre isso, filmes sobre vinganças em bailes de escola. O Carrie, por exemplo». Mas enquanto lhe faltavam amigos na escola, ganhavam força os dilemas interiores e Kurt chegou a pensar ser gay. «Pensava que podia ser a solução para os meus problemas. Embora nunca tenha feito experiências, no liceu tive um amigo gay e foi a primeira vez que vi verdadeiramente as pessoas a confrontarem-me. Durante anos tinham simplesmente medo de mim.

Quando comecei a conviver com esse amigo comecei a passar por muito do que ele passava pessoas que me tentavam bater e a minha mãe, homofóbica, que não me deixava andar com ele», contou. Com o amigo, completou um puzzle e no final, anos depois, acabaria por voltar à história em «All Apologies». «Que mais posso ser? / Tudo desculpas / O que mais posso dizer? / Toda a gente é gay / O que mais posso escrever? / Eu não tenho o direito / O que mais posso ser? / Tudo desculpas», canta na última música de In Utero. Quando perguntamos a Charles R. Cross se estes tempos convulsos terão influenciado a obra de Cobain, o biógrafo sublinha que «Kurt foi muito moldado por Aberdeen porque lá viveu a maior parte da vida». Curiosamente, «também moldou Aberdeen porque a sua fama é agora parte do legado da cidade», acrescenta. Para Cross, «a infância e a vida familiar transpareceram muito na arte de Cobain. As melhores canções de Kurt são sobre ele mesmo. A sua vida tornou-se parte da música».

Um rasto de morte
Se o isolamento social se agravou com a instabilidade familiar, a ideia de suicídio chegou a Cobain ainda antes que ele tivesse, sequer, idade para o perceber. O bisavô materno tinha-se tentado suicidar, com um golpe na barriga, em frente à família e, dois meses depois, já internado haveria de o conseguir arrancou os pontos que lhe seguravam a ferida. Do lado paterno, a história era ainda mais negra. Dos três irmãos do avô Leland, dois tinham-se suicidado, com disparos na cabeça, e o terceiro morrido alcoólico.

Kurt cedo aprendeu a brincar com o assunto. Aos amigos, dizia que o tio-avô se havia suicidado por desgosto com a morte de Jim Morrison e quando lhe perguntavam o que sonhava ser quando crescesse a resposta era sistematicamente a mesma: «quero ser estrela de rock e depois matar-me, como o Jimi Hendrix». O facto de ter sido uma overdose a matar Hendrix não impedia o assustadoramente premonitório sonho do jovem Cobain. Mesmo que não o soubesse, tal como Morrison ou Hendrix, também Cobain se preparava para uma corrida até ao sucesso mundial e para uma carreira tão rápida, como marcante. Dos três, Cobain seria o único a suicidar-se, mas todos se despediram aos 27 anos.

De relações cortadas com a mãe, cumprida a peregrinação ao mundo dos sem-abrigo e temporariamente instalado em casa do pai, aos 17 anos, Kurt Cobain teve de fazer a sua escolha. A escola tinha ficado definitivamente para trás, o desemprego na zona continuava a aumentar ao ritmo que a população ia diminuindo e em casa reclamavam por um plano. Como opção, o pai sugeriu que se alistasse na marinha mas, mesmo tendo chegado a ouvir um persuasivo militar, a vida no Exército nunca seria uma verdadeira opção. Procurou um caminho na religião. Tornou-se assíduo na Igreja Baptista da zona e largou as drogas. Sem álcool ou erva, passou a frequentar a missa e mudou-se para casa de um amigo, filho de um pastor. Em três meses, tempo suficiente para ter sido batizado, Kurt Cobain descobriu e despediu-se de Deus. E voltou a ser posto na rua.

Pela primeira vez a receber ajuda do Estado 40 dólares por mês em senhas de refeição e a trabalhar como auxiliar numa escola, aos 18 anos, Cobain conseguiu a sua casa. Dividido com um amigo e com uma renda de cem dólares, ficaria conhecido como o «Apartamento Rosa», em referência à cor com que as paredes estavam pintadas. E começaram os problemas com a polícia. Agora o talento para desenho passava a ser exibido de uma forma alternativa: as noites eram passadas a pintar paredes e em julho de 85, Kurt acabava condenado a uma multa de 180 dólares e 30 dias de pena suspensa. Um percalço que lhe viria a valer, um ano depois, oito dias de permanência numa cela. Apanhado a subir ao telhado de um prédio abandonado, Cobain não só não encontraria quem pagasse os 100 dólares da caução, muito menos os 180 da multa original. Simultaneamente, a opção de vida começava a tornar-se evidente.

«Levei-o ao primeiro concerto de punk rock, Black Flag, e lembro-me de o ver deslumbrado com tudo aquilo. Quando uma coisa dessas acontece, não há como voltar atrás», contou ao canal VH1 Buzz Osborne, vocalista dos Melvins. E Cobain nunca escondeu como a apresentação ao punk o mudou. «O Buzz era meu amigo desde os tempos em Montesanto e deu-me umas cassetes com as bandas de punk rock mais populares. Fiquei esmagado, tinha encontrado a minha vocação», confessou à Mojo. Se no rock, dos Aerosmith aos Led Zeppelin, era fã das melodias, no punk rock encontrou o caminho. Por devoção, fez-se roadie dos Melvins, por decisão formou a primeira banda. Com Dale Crover e Greg Hokanson, os Fecal Matter, uma banda de uma maqueta só. Pouco depois, Cobain começava a partilhar casa com Matt Lukin, entretanto dispensado dos Melvins, e a passar mais tempo com um amigo de liceu que voltara a encontrar na igreja, Krist Novoselic. De descendência croata, já era conhecido pela imponente figura física no liceu e agora, baixista, procurava uma banda. Com a naturalidade com que tinham nascido os Fecal Matter, mudava a composição da banda e, eventualmente pela infelicidade da primeira escolha, o nome ficava por escolher. Poo Poo Box, Designer Drugs, Gut Bomb e Egg Flog, eram as opções quando, em março de 87, deram o primeiro concerto.

Numa festa privada, nos arredores de Aberdeen, e consumidos ao ponto de mal se aguentarem em pé, Cobain assumiu pela primeira vez o papel de vocalista. O resultado esteve longe de ser o melhor, a plateia transformou-se em ringue e no final tiveram de sair apressados. Os donos da casa, não gostaram que Krist Novoselic tivesse escolhido os seus carros como casa de banho.

Os milhões vêm a seguir
Meses depois, já na companhia da namorada Tracy Marander, mudava-se para Olympia, cidade universitária, mas pouco maior que Aberdeen. A depender exclusivamente do salário que Tracy recebia da cafetaria da fábrica em que trabalhava, na época o luxo de Cobain era comprar pizza num take away. Em casa, a decoração fazia-se de posters de bandas e de gaiolas para os animais de estimação, fossem gatos, hamsters, coelhos ou tartarugas. «Kurt gostava de Olympia porque tinha gente muito diferente, muita música e mesmo assim era mais pacata que Seattle», conta Tracy no documentário Early life of a Legend. «Foi a pessoa mais importante na transição, a sua primeira namorada a sério. Ao mesmo tempo fazia figura de mãe, pagava as contas e alimentava-os. Além disso era muito esperta, muito atenta à música», conta o biógrafo Charles R. Cross, que não tem dúvidas em considerá-la como «a melhor metade do casal». E a música tardava em dar resultados. «Gostava muito da música, queria que tivessem sucesso», assume Tracy.

Numa altura em que as metanfetaminas e a heroína já faziam parte da ementa semanal, Kurt Cobain não tinha perdido a meta. Ainda que em surdina, entre os amigos mais próximos, confessava que o objetivo era chegar ao topo. Sonhava superar o estatuto de U2 e R.E.M, mesmo quando ainda não recebera o primeiro cachê e a banda estava longe da fasquia dos 60 dólares que os Melvin recebiam por atuação. A primeira conquista seria chegar, apresentando-se como Bliss, às ondas da rádio universitária, a KAOS.

Pouco depois chegava a oportunidade para o primeiro concerto numa sala de espetáculos, o Community World Theater de Olympia. Em janeiro de 1988, a banda já entrava nos estúdios da Reciprocal, em Seattle. No final, correra em cinco horas de estúdio para gravar nove músicas e meia. A meio da gravação de «Pen Cap Chew», a fita acabou e ninguém tinha os trinta dólares extra pelos derradeiros minutos. Jack Endino, que viria a produzir Bleach, estava na cabine de som. «Disse-me que ainda não tinha um nome para a banda e que ainda procuravam um baterista fixo. Respondi que não me importava e que aparecesse no estúdio. Acabou por ser a primeira sessão de estúdio dos Nirvana», contou, recordando as gravações de 23 de janeiro de 1988. No final, a conta de pouco mais de cento e cinquenta dólares seria paga, em dinheiro, por Cobain. Nessa noite, a semanas de completar 21 anos, Cobain, Novoselic e Crover ainda dariam um concerto. Em troca, receberam o primeiro cachê, dez dólares diretos para o bolso do vocalista.

Para a bateria, a escolha não se revelava fácil. A Dale Crover, seguiu-se Dave Foster e, em maio, Chad Channing tornou-se o primeiro baterista com direito a aparecer numa ficha técnica. «Sempre gostei muito de ouvir cantar em sintonia com a linha da guitarra e a forma como ele o fazia fez-me perceber que ali havia talento. Algo especial», contou o baterista. Mas se o baterista ideal ainda tardaria em ser encontrado, o nome da banda ficaria decidido de imediato. Para se distanciar da agressividade dos habituais nomes das bandas punk, Cobain escolheu Nirvana, palavra budista para a busca da perfeição, explicava.

Quando «Floyd the Barber», chegou à KCRW, rádio que se fazia ouvir ao meio milhão de habitantes de Seattle, Cobain não se apercebeu do que se avizinhava. No final do ano, os Nirvana lançavam um EP com «Love Buzz» como single e começavam a gravar, na Sub Pop, Bleach. Mas o sucesso esteve longe de ser imediato e também aqui havia «something in the way». Dois anos depois, Cobain ainda vivia no carro quando Nevermind foi lançado pela DGC com as melhores expectativas a apontar para a venda de 250 mil exemplares. Esgotou e acabou a destronar Dangerous, de Michael Jackson, Achtung Baby, dos U2, Out of Time, dos R.E.M., e o álbum preto dos Metallica do top de vendas. Com mais de trinta milhões de exemplares de Nevermind vendidos, Cobain cumpriu o sonho de infância. Ou, pelo menos, uma parte dele.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2014