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Rita Carmo

“Ao Vivo em Coimbra”, de Frankie Chavez, grátis com a BLITZ deste mês: “Este foi um concerto especial”

É o primeiro disco ao vivo do músico português, distribuído gratuitamente com esta edição da BLITZ. Conheça-o “por dentro” e leia aqui a entrevista

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Liga-nos numa manhã soalheira de janeiro, cheio de energia para falar sobre Ao Vivo em Coimbra, o seu primeiro disco ao vivo, mas não só. Em 2017, Frankie Chavez vai lançar o seu terceiro álbum, por enquanto sem título. Sobre o sucessor de Heart & Spine, as limitações do formato one man band e as viagens de sonho de um autêntico homem de família falámos ao longo de uma aprazível meia hora.

Ao Vivo em Coimbra, distribuído gratuitamente com a BLITZ, é o seu primeiro disco ao vivo?
Sim, é a primeira edição, apesar de já ter gravado alguns concertos.

Tem por hábito fazer gravações dos espetáculos que vai dando?
Por hábito não, mas houve uma altura em que o técnico de som com quem trabalhávamos facilmente gravava os gigs. E gravou uns tantos, inclusive como referência, quando tinha de haver uma substituição [na banda] e vinha alguém [de fora] tocar connosco. Até temos algumas coisas gravadas, que talvez venham a ser editadas como lado B.

Este concerto aconteceu no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. É uma das boas salas de espetáculos de Portugal?
Sempre que lá vou, divirto-me à grande! O público é super recetivo.

A certa altura do disco, agradece ao público, dizendo: «cada vez é mais difícil, mas vocês mantêm a chama viva». Consegue viver da música?
Atualmente, sim. As coisas têm estado a correr bem e tenho-me orientado. (risos)

E já está a pensar no próximo disco de originais?
Sim, desde abril do ano passado que tenho estado a trabalhar naquele que vai ser o meu próximo disco. Aos poucos, tenho vindo a fazer cenas e a gravar. Estamos agora na fase final das gravações; vou começar a fazer as misturas e é também por isso que a edição deste disco ao vivo acontece agora. Este concerto foi um dos primeiros concertos de apresentação do Heart & Spine: dei um na Casa da Música, no Porto, e este, no Teatro Académico Gil Vicente. Ficámos com o espetáculo gravado e até já tínhamos pensado fazer alguma coisa com a gravação, porque tinha corrido bem. Esta é a melhor altura para lançá-lo, até para marcar o final do ciclo do Heart & Spine e o começo do que será o disco novo. Ainda não posso adiantar o nome, porque ainda não o tenho, mas sairá este ano.

Já pode adiantar alguma coisa sobre a sonoridade do novo disco? Vai ser muito diferente do Heart & Spine?
Vai ser um pouco diferente. Continua a ser à volta do rock e dos blues – não fugi muito ao meu estilo, às minhas bases e às minhas fundações, mas está mais maturo, talvez. O Heart & Spine foi muito imediato – andava a tocar em duo e era aquilo que fazíamos ao vivo. Eu comecei sozinho – fazia os temas sozinho e gravava-os. Depois, ao vivo, passei a apresentá-los com o João Correia [na bateria]. Então as coisas evoluíram para um formato de duo: às vezes usava a loop station, outras vezes apresentava os temas em duo, como está em disco. Desta feita, é diferente. Há praticamente um ano que ando a tocar em trio: sou eu, o João Correia e o Donovan Bettencourt no baixo. O concerto da festa da BLITZ [em 2015] foi em quarteto, mas só fizemos dois ou três assim, para experimentar. Aí, a banda era com o Nuno Lucas [no baixo] e o Daniel Lima, nas teclas. Voltei ao duo, com o Joca, e ultimamente temos tocado com o Donovan Bettencourt. E os temas já surgiram no formato trio. Neste disco, quisemos obedecer a isso, apesar de termos gravado em duas fases: primeiro em estúdio, no verão, em live take, com os devidos overdubs a seguir, e depois em novembro, já com um bocadinho de tudo: live takes com os três a tocar mas também coisas que eu começava e às quais íamos acrescentando [outros elementos] – músicas mais calmas que se iam construindo à medida de que o tema precisava de algo. O disco foi gravado de outra maneira e vai soar a outra coisa. Mas o fundamental, os géneros que gosto de explorar, estão lá: o rock, a folk, os blues.

A ideia de one man band já não faz sentido?
É uma one man band dividida por três ou quatro. (risos) Acho que o conceito de one man band já me passou. Claro que há gigs que faço sozinho, não levo é a parafernália de instrumentos que levava: bombo, tarola, prato de choque… aquilo que considero um número de circo engraçado nalgumas situações. Mas das duas uma: ou o abraças como um estilo que queres mesmo assumir, com as devidas limitações, ou deixas a música pedir mais, e consentes que peça umas teclas, umas produções ou uns shakers… e assumes isso. E foi isso que fiz: deixei a música falar mais alto e não fiquei confinado à performance. O que também é engraçado: eu divertia-me imenso [nesse registo] e via que as pessoas achavam aquilo curioso. Mas chega uma altura em que been there, done that, let’s move on. (risos)

Ainda tem a cave em casa dos pais, onde guarda os instrumentos?
Ainda tenho essa cave, em casa dos meus pais, mas já não tenho lá os instrumentos. Entretanto arranjei outro espaço, que também é uma cave, que transformei num estúdio, onde até gravámos um dos temas do novo disco. Mas é mais uma sala de ensaios, um espaço isolado para poder fazer barulho à vontade, sem incomodar quem está à volta. O resto é armazém, onde guardo o material e as guitarras.

É um grande colecionador de guitarras?
Não sou um grande colecionador, mas já me considero um coleccionadorzinho. Já tenho algumas e não gosto de me desfazer delas. Há muitos anos, vendi a minha primeira guitarra elétrica, e hoje pergunto-me onde estará – e arrependo-me de a ter vendido. Desde então, penso: quando não puder comprar, não compro, mas quando estiver à rasca vou tentar nunca vender guitarras.

Não foi nessa guitarra que começou a aprender a tocar? Foi numa acústica, certo?
Comecei a aprender na acústica, com um professor na escola, pelos nove anos. Só mais tarde me ofereceram uma guitarra elétrica e foi aí que comecei a perceber o que era a distorção e que era completamente diferente de tocar numa acústica. A minha primeira guitarra elétrica nem era nada de especial, mas foi a primeira e tinha um significado engraçado.

Foi nessa primeira guitarra elétrica que começou a tirar as músicas dos AC/DC? [Para a BLITZ, Frankie Chavez escolheu Powerage, dos australianos, como disco da sua vida].
Sim, foi nessa que comecei a tocar AC/DC. (risos)

Sabemos que é grande fã de Jack White. Que outros músicos lhe têm chamado a atenção?
Gosto muito do último disco do Leon Bridges, Coming Home. É de 2015 mas soa a anos 60, o que é muito difícil de conseguir e muito fixe quando acontece. Também tenho ouvido imenso Frank Black, Michael Kiwanuka, Ray LaMontagne – gosto muito do Ourobouros. E ainda R.L. Burnside, o Rain Dogs do Tom Waits…

Há alguns anos deu um concerto especial, com o Tó Trips e o Filho da Mãe. Gostaria de repetir a experiência, eventualmente com outros guitarristas?
Foi muito giro e gostava de repetir. E possivelmente irei repetir, mas não vai ser com o Tó nem com o Filho da Mãe. É um formato de que gosto imenso e uma cena gira para se fazer entre discos, ou mesmo quando um disco sai. É uma outra abordagem e mais um caminho que pode ser mostrado. No meu caso, que antes de ser compositor sou guitarrista, o foco na guitarra, quando não há uma letra a acompanhar, é muito giro. Adoro e tenho muita vontade de repetir.

É um amante de viagens. Tem alguma planeada para este ano?
Gostava de ir aos Estados Unidos, a Nova Orleães e a Nashville, mas ainda não sei se vou conseguir. A vida às vezes tem umas alturas mais fáceis para umas coisas e menos fáceis para outras. Fui pai há pouco tempo, há oito meses, de duas gémeas… e não sei quando vou conseguir estar mais à vontade em termos de tempo. Mas era uma das viagens que mais gostava de fazer.

Noutros discos tinha refletido já a experiência da paternidade. Quantos filhos tem?
Tenho quatro filhos: dois rapazes e agora as gémeas. É uma experiência muito gira, mas [desafiante]. São gémeas falsas, mas muito parecidas. Agora já se começa a notar umas diferenças – já não me engano! Mas durante muito tempo tinha de ir pela cor da chucha. (risos)

De volta ao disco Ao Vivo em Coimbra, o que torna um concerto especial? O público, a sua prestação?
Passa pela prestação, claro, mas também pela atitude com que se está a tocar – as notas podem ser muito bonitas mas, se não houver atitude, não passa. E também podem ser todas thrashy mas, se a atitude estiver lá, está tudo bem. Este concerto teve um bocadinho de tudo – de coisas bem tocadas, de coisas mal tocadas… Teve atitude e lembro-me que houve uma grande aceitação do pessoal, uma grande entrega. As pessoas estavam cheias de vontade de ver e ouvir e também foi isso que tornou o concerto especial. Lembro-me dele com carinho.

Ainda tem tocado guitarra portuguesa?
Por acaso menos. Há uns meses fiz umas coisas, umas experiências e umas gravações. Este disco vai ter uma malhazinha de guitarra portuguesa – não é um tema em que guitarra seja o foco central, mas a guitarra portuguesa quando aparece rouba, no bom sentido, o protagonismo. (risos)

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2017

"Ao Vivo em Coimbra", de Frankie Chavez, grátis com a BLITZ de fevereiro

"Ao Vivo em Coimbra", de Frankie Chavez, grátis com a BLITZ de fevereiro

Conheça o disco faixa-a-faixa, nas palavras de Frankie Chavez:

1. I Believe I’ll Dust My Broom
É dos meus temas favoritos do Robert Johnson, de quem há poucas gravações – e dessa música, tocada por ele, deve haver uma ou duas. A atitude com que toca esse tema, para mim, é especial. Quis prestar-lhe tributo, mas sem fazer igual – até porque é muito difícil tocar como ele.

2. Long Gone
Dá-me imenso gozo tocar ao vivo porque, em termos técnicos, ou funciona muito bem ou funciona pessimamente. Neste concerto estava com banda mas, quando toco em duo, uso um loop. Meto o loop a arrancar no segundo refrão e depois tem de bater certo, tenho de fazer um solo em cima do loop e, se não corre bem, o que acontece às vezes, é um desastre. (risos)

3. Nazaré
Quando a toco, principalmente fora de Portugal, noto uma entrega geral por parte das pessoas. O pessoal fica mesmo: o que é isto que eles estão a fazer? E eu gosto imenso dessa reação. Toda a história de como cheguei até ao tema – ligado ao mar e às ondas grandes da Nazaré – é muito fixe. Quando toco, penso nisso.

4. The Search
Foi o primeiro tema que tive a passar numa rádio, por causa do campeonato de surf, do primeiro evento do WTC que se fez cá, em 2009. Escrevi o tema para o evento, a pedido da organização. Tinha a malha e depois escrevi uma letra sobre o que seria a vida de um surfista, fazendo um paralelo com a vida de um músico, de andar sempre na estrada, de um lado para o outro. Foi a primeira música a abrir um espectro para aquilo que queria fazer neste projeto.

5. Her Love
É um tema pesadão – estive até à ultima a pensar se iria para o disco ou não. Mas é um género de que também gosto muito, uma coisa mais stoner, e que me dá imenso gozo tocar ao vivo, tanto em duo como em trio como em quarteto… como sozinho no quarto. (risos)

6. Dreams of a Rebel
Foi a primeira vez que tive um baterista a tocar comigo e logo o Kalú! A letra fala de bater com a porta e dizer: estou cá e quero fazer isto. Quis alguém que tivesse essa atitude e o Kalú pareceu-me o gajo indicado.

7. Fight
É um tema importante: o primeiro single do Heart & Spine, que resume a ideia do disco, que passa pela luta. Eu ando nisto há pouco tempo, comparando com o Legendary Tigerman ou o Tó Trips, por exemplo, que andam aqui há muitos anos a lutar por fazerem música e a tentar que o pessoal os ouça. Aqui mostro a minha admiração por esses guerreiros que andam cá há mais tempo do que eu.

8. Voodoo Mama
Começou como uma jam de uma série de coisas, desde Jimi Hendrix a John Lee Hooker. Fartei-me de a tocar ao vivo, quando ainda nem tinha letra, e quando fomos para estúdio gravar já tinha uma personalidade própria. É uma música sem cenas escondidas, bastante direta. E data da altura em que tive o primeiro filho – está relacionada com isso, com a vida.