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A cantiga é uma arma: breve história da canção de protesto

Protestar enquanto se canta é algo que vem de longe, de muito longe, e que tanto passou para chegar aqui. Da “estranha fruta” de Billie Holiday ao “Fight the Power“ dos Public Enemy, da cantiga como arma de José Mário Branco ao rap dos dias de hoje. Em tempo de convulsão político-social, recuperamos um breviário da canção de protesto publicado na BLITZ em 2011

As canções foram sempre um modo privilegiado de comunicação, uma forma eficaz de fazer certas mensagens chegarem até aos ouvidos das pessoas. Tanto nas vozes dos trovadores nas cortes ou dos menestréis nas praças medievais como, já no século XX, através do democrático meio da rádio, quando canções de trabalho, apelos de justiça e igualdade, ou crónicas da luta pelos direitos coletivos laborais, civis, de identidade sexual se socorreram de melodias e cadências ritmadas para propagarem os seus conteúdos.

A história da América, país ainda em construção no século XIX, deu matéria de sobra para canções que ajudaram a definir a identidade de um povo, canções que versavam sobre a guerra que opôs os estados do norte aos do sul, que reclamavam pela igualdade de direitos entre os homens e as mulheres e que apelavam à abolição da escravatura. Até ao aparecimento do rock'n'roll na década de 50, os grandes combates travados na canção derivaram nos Estados Unidos dos movimentos sindicalistas e também da fortíssima discriminação racial que se impôs após a abolição da escravatura. Dorian Lynksey publicou um excerto de 33 revolutions Per Minute A History of Protest Songs (2011, Faber & Faber), no jornal britânico Guardian, onde defende que «Strange Fruit», um poema de finais dos anos 30 escrito por um judeu comunista, Abel Meeropol, e eternizado em canção por BILLIE HOLIDAY , é uma das primeiras grandes canções de protesto da história: «"Strange Fruit" não foi de maneira nenhuma a primeira canção de protesto, mas foi a primeira a impor uma mensagem política explícita na arena do entretenimento». As «frutas estranhas» a que a canção se referia eram, afinal, os corpos de negros linchados impunemente nos estados do sul, os mesmos que se tinham oposto à extinção da escravatura.

Em There's a Riot Going On, livro de Peter Doggett publicado em (2007, Canongate), abordam-se «revolucionários, estrelas rock e a ascensão e queda da contracultura dos anos 60». Doggett defende que «no decurso de uma década, a música popular transformou-se, de uma forma de entretenimento para a linguagem exclusiva de uma geração e para uma contracultura». O autor acrescenta ainda: «Em meados dos anos 50, o espírito selvagem do rock'n'roll já tinha dividido os jovens e os seus pais. Quando esse sentido impreciso de rebelião chegou aos estudantes descontentes dos anos 60, o rock serviu para levar uma mensagem mais concentrada de revolta e eventualmente de revolução a todo o mundo». A ideia de rock'n'roll como um veículo perfeito para ideais de rutura apoiava-se na profunda cisão cultural dos anos 50, quando jovens brancos começaram a dançar ao som eletrificado, cadenciado e amplificado dos blues que durante muito tempo eram encarados pela própria indústria discográfica americana como «música de raça».

Bob Dylan

Bob Dylan

DYLAN E OS ANOS 60
O auge da canção de protesto ocorreu nos anos 60, quando o mundo acordou para uma nova realidade construída em cima de profundas transformações sociais, políticas, mas também tecnológicas. Foi nessa década que BOB DYLAN pegou nos blues, nas canções da tradição sindicalista, nas recolhas antológicas do folclore americano conduzidas por Harry Smith, na poesia beat, na música de Woody Guthrie e Pete Seeger, e nos ideais da Nova Esquerda, e afinou a pontaria das palavras em temas como «Blowin' in The Wind», «Masters of War» ou «The Times They Are a-Changin'». E tudo isto antes de 1965. Nesse mesmo ano, Dylan e Phil Ochs, outra voz importante na geração de «protest singers» que apontava as rimas sobretudo ao Vietname, chocaram em termos ideológicos e o cantor de «Like a Rolling Stone» terá mesmo acusado Ochs de não ser mais do que um «jornalista», referindo-se ao facto de as suas canções estarem mais interessadas em reportarem factos do que em serem apenas canções. E aí Dylan levantou uma questão importante a que os anos seguintes tratariam de responder, com a geração hippie alimentada pelos ideais da New Left a sucumbir perante a influência dos Beatles. Conteúdo era importante, mas a forma também não devia ser descurada e até um corte de cabelo poderia ser revolucionário.

Ao rubro nesta década estavam também os direitos civis e as vozes negras não destoaram de uma longa linhagem de espírito combativo sublimado em canção. Além do já citado exemplo de Billie Holliday, muitos foram os cantores afro-americanos a usarem os blues, o gospel ou o jazz como veículos para o seu descontentamento Paul Robeson, Josh White ou NINA SIMONE são exemplos óbvios.

Nina Simone

Nina Simone

Nos terrenos da soul, as canções de protesto podiam soar disfarçadas: quando Aretha Franklin pede respeito ao seu «homem», está na verdade a exigir respeito para todas as suas irmãs e irmãos. Antes de a década de 60 se esgotar, James Brown ainda apelou aos afro-americanos que dissessem bem alto que eram negros e que tinham orgulho nisso, preparando o caminho para artistas como Marvin Gaye , Bobby Womack e Stevie Wonder que, nos anos 70, souberam equilibrar o protesto e a sedução.

O punk dos CLASH , o reggae de BOB MARLEY , o rock de Bruce Springsteen nos anos 80, o hip hop feito CNN do gueto nos anos 90, a revolta elétrica contra a máquina capitalista em funcionamento dos RAGE AGAINST THE MACHINE a verdade é que a música popular proporcionou uma plataforma para se travarem combates ideológicos: Rock Against Racism, Live Aid, o coletivo United Artists Against Apartheid de Little Steven... com o rock elevado à escala de evento global, a música deixou de ser apenas de protesto e passou a ser de real intervenção nos destinos do mundo.

Fausto e José Afonso

Fausto e José Afonso

A CANTIGA É UMA ARMA

A canção de intervenção em Portugal transformou-se quase numa instituição de moral inabalável para uma certa geração. Com a divisória fornecida pelo 25 de Abril, o «canto livre» parecia opor-se ao «faduncho» de que fala JOSÉ MÁRIO BRANCO na emblemática «A Cantiga é Uma Arma», a mesma canção onde adverte que «canto mole em letra dura nunca fez revoluções». E no entanto, Amália Rodrigues também cantou Camões para abalar o conservadorismo do fado, tal como José Mário, em 1971, quando expressava um desejo de rutura através das palavras do poeta que deram título à sua estreia em Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades. Na entrevista que concede à BLITZ e que pode ser lida adiante, José Mário Branco explica que no período quente de 1974/1975, a sua música tal como a de outros cantores da sua geração foi colocada ao serviço de uma sociedade em transformação e construção. A beleza era por vezes sacrificada em detrimento da eficácia. Mas Manuel Alegre na voz de Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e a sua escrita a um tempo transparente e oblíqua, Fausto e o seu rigor criativo e, sobretudo, ZECA AFONSO , que mesmo a contar histórias concretas, como em «Os Índios da Meia Praia», conseguia sempre iluminar as suas melodias com a luz do génio puro, são exemplos que se afastam da mera funcionalidade ideológica. Estes músicos, e recordando o episódio de Dylan e Ochs, eram bem mais do que jornalistas eram pintores de uma nova realidade, interventivos na mudança, pioneiros de um sentir que foi também reclamado pelos rappers nacionais, depois de meados da década de 90.

General D

General D

O hip hop não é nunca foi uma música unidimensional. Nem só de protesto, nem só de diversão. Mas soube dar eco às realidades locais onde foi florescendo desde que General D acusou «Portukkkal» de ser um erro: Chullage, Valete, os Micro ou os Mind Da Gap, Boss AC e Sam The Kid, todos eles souberam encarar a realidade de frente e denunciar em rimas aguçadas o que acreditavam não estar bem, funcionando, uma vez mais, como uma verdadeira CNN dos bairros, socorrendose de uma «rhyme shit» capaz de abalar as estruturas da música portuguesa.

Hoje, as plataformas são mais vastas do que nunca. E «Parva Que Sou» dos Deolinda arranca aplausos em Coliseus e amplifica efeitos no Youtube provavelmente acedido em smartphones topos de gama (o mesmo acontece com «A Luta É Alegria», dos Homens da Luta, eleita por voto popular a canção vencedora de um ironicamente «institucional» Festival RTP da Canção). Mas como já diziam os Da Weasel, «toda a gente critica o telemóvel do vizinho/mas no fundo toda a gente queria ter um igualzinho». Para assistir à revolução no YouTube ou no Facebook.

Publicado originalmente na BLITZ de abril de 2011