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Fleetwood Mac em 1977

“Rumours”, a obra-prima dos Fleetwood Mac, faz hoje 40 anos. Vamos voltar aos anos 70?

É o álbum de “Dreams”, “Don't Stop”, “Go Your Own Way” e “You Make Loving Fun”, uma coleção impoluta e inspirada do rock adulto dos anos 70. Em 2014, Jorge Lopes voltava ao período dourado da banda e explicava por que é esta uma das novelas rock mais influentes de sempre

Em janeiro deste ano [2014] anunciou-se o retorno de Christine McVie aos Fleetwood Mac. Christine atravessou 30 anos de banda e múltiplas formações, mas em 1998 fartou-se. Agora, após derrotar a fobia de entrar em aviões, retoma o seu lugar na família, podendo ser vista a partir de setembro quando arrancar a digressão On With the Show, com datas por enquanto circunscritas aos Estados Unidos.

E aqui não se usa a palavra família como floreado linguístico. Quem estava a bordo dos Fleetwood Mac em janeiro de 1975 (e não só) nunca desaparece de cena de forma irrevogável. Mas havia algo mais a ligá-los. Nesse instante em que se fixou a encarnação mais criativa e afamada do grupo, John e Christine McVie eram casados e Stevie Nicks e Lindsey Buckingham mantinham uma relação vinda da adolescência. Dois anos depois, os primeiros divorciavam-se, os segundos rompiam a ligação e Mick Fleetwood descobria que a mulher o traía com um amigo. Daqui brotou assunto para as canções amarguradas ou recriminatórias ou catárticas que deram corpo a Rumours, uma novela genial adquirida por 45 milhões de pessoas em todo o mundo e escutada por bastantes mais. Passa-se por «Dreams» (de Stevie para Lindsey), «Go Your Own Way» (de Lindsey para Stevie) ou «You Make Loving Fun» (de Christine para um técnico de iluminação do grupo) e não há como não admirar as décadas subsequentes e as largas centenas de vezes em que todos os cinco repetiram e repetem em palco estes recados internos transformados em diamantes da música popular. Um enredo a que se deve juntar a breve relação de Mick Fleetwood com Stevie Nicks, por alturas da conceção de Tusk, o sucessor de Rumours, lançado em 79. Relação terminada quando Stevie foi trocada por uma amiga, Sara matéria que inspirou «Sara», a canção mais conhecida de Tusk).

O ar da década de 1970 seria propício a psicoterapias de grupo deste calibre. Os ABBA passaram por um desmoronamento conjugal semelhante e quase em simultâneo, mas o quarteto sueco pouco tempo sobreviveu aos divórcios, evitando assim repisar os traumas à frente de milhares de espetadores, noite após noite. E sempre há uma vasta diferença de crueldade entre escrever e dar voz ao seu próprio desgosto, e compor uma «The Winner Takes It All» para ser cantada pelo alvo dos versos. Curiosamente, são também duas bandas que sempre mantiveram um elevado reconhecimento, mas que ainda necessitaram de esperar algum tempo até serem levados a sério por analistas da música popular e revelarem-se fontes de inspiração assumidas de outros artistas.

Processo evolucionário em curso
Com o retorno de Christine McVie ativase de novo o quinteto em que mais se pensa quando se pensa em Fleetwood Mac. O mesmo quinteto que chegou a um patamar de imaginação e fluidez sónica admiráveis logo ao primeiro encontro com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham em Fleetwood Mac (1975). Que verteu vícios e talento numa montanha russa emocional de apelo universal em Rumours (1977). Que entregou um tratado sinuoso, denso, ambicioso, longo e atento ao presente em Tusk (1979). Que entrou numa nova década equilibrando classicismo e novas formas de moldar a música popular com Mirage (1982). E que injetou uma ousadia envolta na ilusão da simplicidade, a partir dos desenvolvimentos tecnológicos dos anos 1980, num tratado de modernidade chamado Tango in the Night (1987).

Mas esta encarnação dos Fleetwood Mac não é uma unidade nascida de geração espontânea. O modo desigual como o tempo trata o legado do grupo pode gerar um mito sem grande sentido: o mito de que algo de radicalmente diferente surgiu com a entrada da dupla Buckingham/ Nicks. É um mito que dá jeito para quem organiza a história em blocos narrativos hermeticamente selados e facilmente hierarquizáveis, e dessa forma criar dicotomias e batalhas estéticas onde elas dificilmente existem.

Cedo a banda formada em Londres em 1967 em redor das guitarras e da escrita de Peter Green e Jeremy Spencer (a que em breve se juntaria Danny Kirwan) e do eixo rítmico Mick Fleetwood-John McVie começou a ver para lá da mera digestão enciclopédica do blues-rock americano para inventar algo facilmente reconhecível: um território onírico, onde vestígios de psicadelismo e multiculturalismo polvilhavam um espaço amplo e despojado. Ouve-se «Albatross» (1968), o primeiro êxito da banda, e não é difícil vislumbrar um caminho místico a ligar este som líquido, cristalino e luxuriante, a várias composições da era do cantor e guitarrista Bob Welch (com maior intensidade a partir de Bare Trees, de 1972, e apogeu dois anos mais tarde, na sua derradeira aparição com os Fleetwood Mac, no álbum Heroes Are Hard to Find) e daí até à voz, aos versos e à presença de Stevie Nicks.

Nascido numa família que picava o ponto em Hollywood (o pai era produtor e argumentista, a mãe atriz e cantora), Welch fartou-se de se sentir como um corpo estranho à banda em dezembro de 1974, mas os quatro anos como compositor principal a par de Christine McVie são cruciais não apenas na mutação do eixo sonoro dos Fleetwood Mac em direção ao soft-rock (um termo redutor) pelo qual se tornaram mais famosos, como também na mudança física dos restantes membros do grupo, do Reino Unido para a Califórnia. Até ao suicídio em 2012, e independentemente da amargura da separação, Bob Welch continuaria a colaborar com os ex-colegas, confirmando assim a existência de uma espécie de lei fleetwoodiana do eterno retorno Peter Green já o havia feito, e nem Lindsey Buckingham nem Christine McVie deixaram de realizar aparições pontuais em discos da sagrada família durante os respetivos períodos de afastamento.

Fleetwood Mac em 1977

Fleetwood Mac em 1977

Renascidos na Califórnia
A chegada de Stevie Nicks e Lindsey Buckingham no dealbar de 75 significou um alargamento apreciável do contínuo sonoro e o momento em que o grupo se torna, de vez, uma entidade californiana.

O acordo com o casal foi selado num restaurante mexicano e sem necessidade de qualquer ensaio prévio para testar as águas. O álbum homónimo de Nicks e Buckingham (um objeto raro ver caixa) publicado em 1973 terá bastado para convencer Mick Fleetwood, Christine e John McVie.

O que trouxe de singular a música desta encarnação para que a sombra que exerce sobre a música popular, nunca tendo deixado de ser ampla, pareça crescer com o passar das décadas? Trouxe uma sofisticação formal à pop-rock que se tornou o paradigma de um tempo. E trouxe mais e melhores estilhaços culturais da América, versão Costa Oeste. Há mais folk, quase exclusivamente graças a Lindsey e ao dedilhar frenético e de aparência intrincada da guitarra. Há ecos dos arranjos orquestrais dos Beach Boys e do romantismo dos primeiros uivos do rock (sobretudo de Buddy Holly). E há muito country dissimulado na urdidura de canções e na interpretação de Stevie Nicks; é uma dívida que pode ter levado o seu tempo a vir à superfície mas que exerce a maior influência nestes dias. Exemplo disso é o concerto de Stevie Nicks com os Lady Antebellum em setembro do ano passado para a série CMT Crossroads, do canal americano de cabo Country Music Television. Vê-se e percebese de imediato o que une «Rhiannon» a «Golden», ou «Need You Now» a «Landslide».

O truque com os Fleetwood Mac para lá da vida afetiva tumultuosa e da vida química muito ativa, o ingrediente essencial mas invisível para a sua importância neste tempo, encontra-se porventura na conceção da música como uma imensa planície. Uma tela que umas vezes maravilha e recompensa a atenção prestada quando tem a minúcia de um puzzle, e que noutras ocasiões faz sonhar (e inspira outros criadores a levantarem-se do sofá metafórico) quando a vastidão do espaço dentro das canções é um convite para projeções alheias.

A distensão cálida da Califórnia que inunda o som da banda, em especial entre 1975 e 1987, é descrita com precisão como «sunny angst» (angústia ensolarada) por Parke Puterbaugh na reedição de 2004 de Fleetwood Mac. «De certa forma, os seus sucessos e apertos espelharam os modos e costumes da 'década do eu': por um lado a impulsividade e divertimento, por outro os escombros físicos e emocionais de um estilo de vida sem restrições». Tudo em família.

"Rumours", lançado a 4 de fevereiro de 1977

"Rumours", lançado a 4 de fevereiro de 1977

Rumours, divórcios e milhões
O tempo não estava para impasses e nos primeiros meses de 1976, menos de um ano após a saída do álbum homónimo, os Fleetwood Mac regressavam a estúdio para fixar uma novela coletiva tostada ao sol da Costa Oeste americana. Uma novela chamada Rumours que acabou por fixar-se no imaginário popular como um clássico absoluto do rock (ou do soft-rock) dos anos 1970.

O disco de 1975, o primeiro em que Lindsey Buckingham e Stevie Nicks se juntaram a Mick Fleetwood, John e Christine McVie, provara que o som do grupo podia ser depurado, revisto e melhorado e, por essa via, chegar ao topo das listas de vendas. Mas dificilmente se prepara alguém para a possibilidade de um ciclo de uma dúzia de canções autobiográficas acerca de formas mais cordatas, magoadas, exultantes ou drogadas de terminar uma relação bater tão fundo em quem o escuta que o disco daí resultante Rumours venda mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo (estimativa recente) e passe 31 semanas no 1º lugar da tabela da Billboard.

Imagine-se o cenário: no instante em que as portas do mainstream americano se abrem à banda, e que um trio de compositores excecional (Buckingham, Nicks e Christine McVie) encontra forma de coexistir sob o mesmo teto criativo, tudo o resto desmorona-se. Quando o grupo e os produtores Ken Caillat e Richard Dashut se juntam nos Record Plant Studios em Sausalito, o casamento dos McVies terminou, o de Mick Fleetwood vai pelo mesmo caminho, e a relação de Lindsey e Stevie dá as últimas.

Muitos meses de gravações dispendiosas depois (interrompidas por constantes solicitações para voltarem aos palcos Fleetwood Mac chegaria ao cimo do top apenas em setembro de 1976), muitos acessos de perfeccionismo (a fita master, de tão gasta, necessitou de operação de salvamento) mais tarde, o incessante arremessar e colar de cacos gera uma obra-prima de pop-rock nervosa, doce, sedada, exultante, dignamente humana.

Rumours gerou quatro singles («Go Your Own Way», «Dreams», «Don't Stop», «You Make Loving Fun»). Forneceu, por via de «Don't Stop», o hino da campanha para a eleição de Bill Clinton como presidente dos Estados Unidos em 1992. Teve direito a reedições cuidadas e ampliadas em 2004 e 2013. Da década de 1990 em diante, passou a ser o álbum mais cool que qualquer filho encontra na coleção de vinis dos pais. A relativa brandura do som pode fomentar uma aura rósea em seu redor, mas Rumours continua a ser o disco onde os últimos versos, os de «Gold Dust Woman», não dão esperança: «Did she make you cry / Make you break down / Shatter your illusions of love / Is it over now do you know how / Pick up the pieces and go home».

Texto: Jorge Lopes

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2014