Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Os Kraftwerk vêm cá este ano e nós fomos ver o que eles diziam em 1991 à imprensa portuguesa

“Robots humanizados ou humanos robotizados? Que interessa?”. Assim se abre a entrevista (provavelmente a primeira para Portugal) que, há 26 anos, Rui Miguel Abreu - hoje colaborador da BLITZ - fazia a Ralf Hütter para o exintinto semanário Se7e. Leia-a aqui na íntegra, no momento em que se sabe que o grupo alemão regressa a Portugal para um concerto no festival Neopop, em agosto

Dois contactos telefónicos – um para Londres e outro para Copenhaga – deram ao «Se7e» uma entrevista exclusiva com o líder dos Kraftwerk, Ralf Hutter. Inativo desde 1986, o grupo alemão quebrou este ano o silêncio com um novo álbum, «The Mix», que apresenta à década de 90 o som dos percursores do «techno pop».

Ralf Hutter nega a (para nós) evidente componente pop dos Kraftwerk e prefere falar em música popular da era industrial. Novas tecnologias, robots com alma, computadores, periféricos, interfaces e calculadoras são alguns dos artefatos a que Hutter se refere constantemente. Disco novo, história e digressão passados em revista. Boing Boom Tschack.

O mais estranho em relação a «The Mix» é que não soa como uma coletânea de faixas antigas. É um disco muito contemporâneo. Os Kraftwerk tentaram provar alguma coisa através das remisturas?
Não. «The Mix» é apenas um documento, um documento que atesta a nossa capacidade de trabalhar em estúdio e de transformar os velhos registos analógicos em memória digital.

Esse processo de remisturas levou muito tempo?
Desde 1986. Desde essa época, em que terminámos de transformar os Kling Klang studios num complexo exclusivamente digital e facilmente transportável, que nos temos ocupado a transferir todo o material que tínhamos em fita para as memórias dos computadores. O plano era permitir que o estúdio nos acompanhasse durante os espetáculos ao vivo. O que se ouve em «The Mix» é o que se ouve num espetáculo, por isso o disco é quase o retrato fiel de um concerto.

Diria que «The Mix» é um trabalho que prolonga «Electric Cafe», mesmo sabendo-se que não é um disco de originais?
Sim, através dos computadores as canções adquiriram uma nova identidade. As diferenças que os temas apresentam não são tanto derivadas de misturas como de soluções que tiveram que ser encontradas para a passagem de registo analógico a digital. Em «Electric Cafe» nós já tínhamos trabalhado com aparelhagem digital. Daí as semelhanças em termos de sonoridade entre os dois álbuns.

Como é que os Kraftwerk encaram os computadores em termos de trabalho?
Nós fizemos sempre todos os possíveis para reciclar os nossos conhecimentos à medida que as tecnologias iam evoluindo. Os computadores são hoje parte integrante da nossa vida.
Por isso não faria muito sentido ignorar os computadores. A música eletrónica baseia-se na rapidez de transmissão de informações e hoje os computadores são as máquinas que operam a maior velocidade. São-nos essenciais e nós não os encaramos como simples máquinas: são prolongamentos não do nosso corpo, mas da nossa mente. São aparelhos periféricos do nosso cérebro.

Os Kraftwerk tiveram sempre uma óbvia componente dançável, mas com «The Mix» essa componente é levada muito mais longe. Foram de alguma forma influenciados pelas novas correntes de música de dança?
Não. «The Robots», «The Model», «Trans Europe Express» ou «Pocket Calculator» são temas de dança. Sempre tivemos essa inclinação. «The Mix» não representa nenhuma tentativa de entrar na moda. É um simples desenvolvimento do nosso trabalho.

A faixa «Trans Europe Express», que referiu agora, tem um papel importante neste disco: além desse tema há ainda algumas variações como «Abzug» ou «Metal on Metal». Porquê? E o vosso trabalho mais representativo?
Não, nós escolhemos para este disco as faixas que precisavam de ser mais trabalhadas. Essas fariam provavelmente parte do lote. O «The Model» nunca entraria porque nós achamos que está bem assim, não podíamos criar nada de novo para essa canção.

Por falar em «The Model», ouviu a versão que o grupo americano Big Black fez dessa canção?
Sim, um amigo mostrou-ma. Achei interessante, prova que a música dos Kraftwerk se presta a muitas leituras. Na Tailândia e no Japão abundam versões de temas nossos. Achamos isso interessante porque a nossa música é universal. A linguagem que utilizamos toca várias culturas.

A entrevista dos Kraftwerk ao Se7e, em 1991

A entrevista dos Kraftwerk ao Se7e, em 1991

Mudando de assunto, quando no início da década de 70 você deixou os Organization para formar os Kraftwerk já tinha uma ideia definida do conceito que iria reger o grupo?
Penso que sim. O facto de o início do grupo ter ficado marcado com a montagem de um estúdio deve querer dizer alguma coisa. Nessa época funcionávamos com fitas, osciladores e sintetizadores primitivos. Depois fomos mergulhando cada vez mais fundo na tecnologia que ia evoluindo na nossa direção, quer dizer na direção do que queríamos fazer.

Mas os Kraftwerk no princípio não eram um grupo de música eletrónica. Eram antes um grupo que manipulava electronicamente instrumentos convencionais.
Em primeiro lugar isso ficou a dever-se às nossas limitações em termos de artefactos tecnológicos. Como cada um de nós conhecia outros instrumentos aproveitámos esses conhecimentos. Sempre nos interessou fazer música eletrónica, mas não música eletrónica como a que se fazia nos laboratórios de investigação. Essa era demasiado académica.

O objetivo era, portanto, fazer uma espécie de pop eletrónico?
Pop? Não sei. Os Kraftwerk não são um grupo pop como os Depeche Mode. No princípio a música eletrónica era marginal, mesmo nos circuitos académicos. Só agora, com a normal aceitação deste tipo de música, é que nos poderiam intitular de grupo pop. Mas os nossos pressupostos são diferentes. Os Kraftwerk fazem música industrial, «Volk-musik», música popular. Há uma grande diferença.

Nesse sentido, qual será o vosso melhor álbum, ou o mais conseguido?
Todos os nossos álbuns são importantes. Para nós, claro. Cada um deles - «Autobahn», «Computer World», «Radioactivity» - tem urna personalidade específica. Cada um deles tem uma ideia por trás que lhe rege o sentido. Nós refetimos sobre diversos aspetos das sociedades industrializadas.

Os Kraftwerk fizeram sempre música que sugere movimento, viagem, («Trans Europe Express», «Musique Non Stop», «Autobahn»...). Podemos adivinhar aí alguma espécie de obsessão com o movimento?
Nós pensamos a música sempre em termos de movimento. O tempo, o espaço e a sua alteração quando se viaja são problemas que nos interessam. Depois, se tudo está em movimento na nossa sociedade - desde a eletricidade aos automóveis - porque é que a música não há-de refletir isso?

Vocês influenciaram toda uma geração de grupos: dos Depeche Mode aos Afrika Banbaataa. Que pensa desses grupos?
Eu gosto bastante. A música eletrónica é o passo seguinte. Quando estivémos na América falaram-nos da nossa responsabilidade no aparecimento da música techno de Detroit, no «hip hop» de Bambaataa. É natural, nós fazemos música «folk» industrial por isso grupos de outras sociedades industrializadas poderão sentir-se influenciados. A música eletrónica é muito comunicativa, como a «World Music». Os Kratwerk já tocaram na Índia e até aí obtivémos boas reações.

Há algum ideal político na base da vossa música? Lembro-me que «Man Machine» tinha o título inscrito na capa em diversas línguas.
Nós vivemos na Europa Central e estamos a meia hora da Holanda, a 4 horas - por estrada - de Paris e a uma muito curta distância de outras capitais. Isso faz-nos sentir bastante a mistura de culturas europeias. A música permite-nos expressar esse sentimento pan-europeu.

Os Kraftwerk tentam traduzir musicalmente alguma sociedade ideal em que a tecnologia não seja opressiva?
A nossa visão da tecnologia é oposta à de George Orwell. O nosso objetivo é estabelecer relações de complementariedade com as máquinas. Queremos cooperar com elas. Nós estamos a par das possibilidades de dominação que as máquinas oferecem. Com a nossa música ilustramos relações amistosas entre o homem e a máquina.

Pensa que as tecnologias de comunicação vão substituir as dos transportes?
Sim, sim. O transporte de ideias já substituiu o transporte de material. Nós estamos aqui a trocar ideias ao telefone. Ontem falou comigo para Londres, hoje está a falar comigo para Copenhaga. Isso é espantoso. Por vezes eu envio música computorizada para vários amigos meus espalhados pelo mundo através do «modem». Há uns anos tinha que utilizar os correios para enviar uma fita.

Porque é que chamam aos vossos estúdios um «jardim eletrónico»?
Nós definimos o estúdio Kling Klang como um misto de tecnologia orgânica e inorgânica. Nós plantamos ideias e tecnologias e ao longo dos anos as sementes vão dando fruto, multiplicando-se, ou, pelo contrário, apodrecem e caem em desuso.

Ao longo dos anos os Kraftwerk foram vistos como «robots» sem coração que faziam música sem coração e fria. Que pensam desta imagem?
Bem, nós temos «robots» que... que trabalham connosco. Algumas das coisas que eles fazem são puramente mecânicas. Mas também são capazes de fazer um ballet mecânico. Acontece que quando programamos os robots para eles executarem uma determinada função eles ficam com um pouco da nossa alma. E eu penso que as pessoas nos concertos compreendem isso quando vêm os «robots».

Os «showroom dummies»...
Ja, ja, sim...

Escreveu-se em Portugal que os vossos discos serão vistos no século XXI como exemplos de música «folk» dos finais dos século XX...
Música «wolk» , não «folk» com «f». Sim, é assim que entendemos a nossa música: «wolks-music» (como em «wolkswagen») da Alemanha industrializada. É música que reflecte a Alemanha do pós-guerra.

Descreva-me um concerto dos Kraftwerk.
Nós transportamos connosco o estúdio Kling Klang desde Dusseldorf. No palco, damos a partida aos computadores e utilizamos os sistemas de interface para interagirmos com o complexo montado. Em dado momento abandonamos o palco e somos substituídos por réplicas robotizadas nossas. Regressamos mais tarde com pequenas calculadoras de bolso que distribuímos pelo público. Já praticamente no final, vamos abandonando o palco e os computadores interpretam «Musique Non Stop». O espetáculo segue praticamente o alinhamento do álbum «The Mix».

E como reagem as pessoas?
De formas muito diferentes: algumas dançam, outras preferem sentar-se como se estivessem num cinema.

Os Kraftwerk contam agora com um teclista português.
É verdade.

Como é que isso aconteceu?
Da forma mais simples: nós precisávamos de um teclista de apoio para a digressão. O nosso engenheiro de som conhecia o Fernando Abrantes, ele prestou provas e como era muito bom foi aceite.

Para acabar. Os Kraftwerk vão ficar reduzidos a você e a Florian Schneider, os outros dois elementos vão formar um grupo logo depois da digressão chamado Electric.
Não sei nada disso.

Originalmente publicado no Se7e de 14 de agosto de 1991