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Há 30 anos, os Xutos & Pontapés lançavam “Circo de Feras”. Zé Pedro conta-nos como foi

Foi o disco do “tudo ou nada” para a banda rock portuguesa. Uma prova de vida. E, num repente, Portugal não pôde passar sem os Xutos de “Contentores” e “Não Sou o Único”. A 2 de fevereiro de 1987, o rock português ganhava uma das suas obras maiores

Em 1986, os Xutos & Pontapés eram um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir de popularidade. Com oito anos de estrada em cima e um historial ferozmente independente que os tinha levado a inscrever edições em selos como a Rotação, Fundação Atlântica e Dansa do Som, os Xutos & Pontapés estavam prontos para voos mais altos. Havia vontade da Valentim de Carvalho que tangencialmente tinha lidado com o grupo de «Remar Remar» através da Fundação Atlântica, de Pedro Ayres Magalhães, e Miguel Esteves Cardoso. Mas após tanto tempo na estrada e várias soluções de compromisso em estúdios que não conseguiam traduzir com a fidelidade desejada a força que sabiam ser capazes de conjurar em palco, os Xutos tinham pressa, tinham urgência em dar o salto.

«A dada altura», explica Zé Pedro, «chegámos a pensar na Valentim de Carvalho, mas como não se chegou a nenhuma conclusão avançámos para o Cerco [álbum de 1985] de forma independente e depois assumimos mesmo que precisávamos de uma multinacional para o passo seguinte, que foi o Circo de Feras».

Essa multinacional foi a PolyGram. «Até ao Circo de Feras», admite Tozé Brito, à época responsável pela área de reportório nacional nessa companhia, «os Xutos tinham uma certa reputação de banda alternativa e maldita, mas toda a gente tinha consciência do potencial da banda, sobretudo se os visse a tocar ao vivo no Rock Rendez Vous, sempre com grandes enchentes e perante plateias cheias de gente que cantava as canções do princípio ao fim, mesmo temas mais polémicos como o "Sémen" ou o "Avé Maria" que se calhar assustavam a malta das editoras».

Ultrapassadas as reservas, os Xutos acabaram mesmo por ver o interesse da PolyGram ser concretizado e a assinatura aconteceu num contexto de grande entusiasmo pela música portuguesa: «no mesmo dia», recorda Tozé Brito, «assinei os Xutos & Pontapés, os Mler Ife Dada, os Radar Kadafi e os Afonsinhos do Condado». Hoje, o executivo elogia o profissionalismo da banda e reconhece que o potencial que já então exibia era singular. «Restava apenas escolher o reportório, mas quem percebia a reação das pessoas ao vivo a material inédito sabia que podia confiar».

«Nós tínhamos muitos temas que poderiam ter entrado no Circo de Feras e muito do material do 88 ainda veio dessa altura», conta Zé Pedro, dando conta do «capital acumulado» nos primeiros anos de vida dos Xutos. «Como tínhamos os temas todos muito rodados, qualquer um poderia ter entrado, mas a escolha acabou por ser muito direcionada pelo [produtor] Carlos Maria [Trindade], sempre com a nossa concordância, claro. Ele vinha de fora e tinha outro distanciamento a ouvir os temas. E a escolha foi bem feita porque a maior parte dos temas tinha estofo de single e tornaram-se clássicos do nosso reportório que ainda hoje tocamos ao vivo».

«O disco foi gravado muito rapidamente, o trabalho de préprodução com o Carlos Maria Trindade na sala de ensaios também foi rápido», revela Zé Pedro, reforçando a ideia de que o grupo não queria mesmo perder tempo. «Lembro-me que a escolha dos temas a gravar foi muito consensual e o Carlos Maria foi dando algumas ideias de produção que respeitámos sempre, tal como ele ia ouvindo as nossas». As palavras de Zé Pedro deixam claro que o grupo sabia estar à beira de uma viragem na carreira. «O clima no estúdio foi ótimo. Nunca tínhamos estado num estúdio mais a sério, tínhamos gravado o "Sémen" com o António Sérgio no Angel I, e depois o Cerco foi gravado entre o Rock Rendez Vous e um estúdio caseiro do Manuel Cardoso. Portanto, esta foi a primeira vez que tivemos boas condições para gravar um disco, com um bom assistente, o Rui Flores, penso eu, que entretanto já morreu. O [técnico de som] Zé Fortes também passou lá pelo Angel II para nos dar um empurrão. Havia um ótimo ambiente entre nós e o Carlos Maria. Estávamos cheios de pica para gravar o disco e acreditávamos que ia ser um sucesso».

A puxar todo esse sucesso, uma verdadeira locomotiva rock cuja inspiração, no entanto, vinha de um daqueles êxitos pop que definem os «one hit wonders». Zé Pedro conta a história: «a génese do tema "Contentores" remonta ainda à fase final do [guitarrista] Francis nos Xutos & Pontapés. Ele saiu, ainda fizemos alguns concertos em trio e depois o João Cabeleira entrou na banda e o tema foi finalizado já com ele. Teve uma forte inspiração do "I Ran" dos A Flock of Seagulls, que foi um tema que ouvimos algum tempo antes de ter batido por cá, numa cassete que um amigo me enviou dos Estados Unidos. E o Tim, que está sempre a experimentar coisas novas, surgiu com a ideia que haveria de dar origem ao tema».

Zé Pedro não tem dúvidas sobre a importância de Circo de Feras, mas desloca para o álbum seguinte o seu «voto» particular: «é um grande álbum dos Xutos e foi muito importante na nossa carreira, mas devo dizer que o 88 me deu mais gozo a gravar e para mim talvez seja o álbum mais completo em termos de produção. Talvez o Circo de Feras seja o nosso álbum com mais hits. Mas depois tem um som de bateria muito datado, que era o som de que o Carlos Maria gostava, com aquela tarola meio eletrónica como os Heróis do Mar também usavam».

O músico sabe que Circo de Feras foi, para os Xutos, o disco do tudo ou nada, do vai ou racha: «para os Xutos», concorda, «foi um disco crucial que vendeu muito e que nos projetou para outra divisão. E estávamos tão entusiasmados que fizemos o single com "A Casinha" e quisemos logo avançar para o 88 quando a editora queria ainda trabalhar mais o Circo de Feras». Quando se tem sede de futuro, como os Xutos & Pontapés tinham neste tempo, não há mesmo um segundo a perder.

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2013

"Circo de Feras", dos Xutos & Pontapés, lançado a 2 de fevereiro de 1987

"Circo de Feras", dos Xutos & Pontapés, lançado a 2 de fevereiro de 1987

Circo de Feras
Data: 2 de fevereiro de 1987
Editora: Polygram
Produção: Carlos Maria Trindade

Formação: Zé Pedro (guitarra), Tim (baixo e voz), João Cabeleira (guitarra solo), Kalú (bateria), Gui saxofone

Alinhamento:
1 Contentores
2 Sai P'rá Rua
3 Pensão
4 Desemprego
5 Esta Cidade
6 Não Sou o Único
7 N'América
8 Vida Malvada
9 Circo de Feras