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David Bowie, “Low”

“Ich Bin Ein Berliner”: a história da trilogia de Berlim de David Bowie, iniciada há 40 anos

“Low” reinventou o artista inglês na segunda metade dos anos 70 e dava início a um período inventivo da carreira daquele que já havia sido Ziggy Stardust e Thin White Duke. O álbum que marcou o início da fase berlinense da obra de Bowie foi lançado a 14 de janeiro de 1977 e o período é aqui recordado ao detalhe

Decidido a cortar com o passado, Bowie deixou o manager Tony Defries em 1975, separou-se de Angela em 1977 e trocou Los Angeles pela Suíça, primeiro, e por Berlim, mais tarde. Na cidade dividida pelo muro, Bowie começou a tentar afastar-se das drogas, trabalhou com Brian Eno e Tony Visconti e dividiu um apartamento com Iggy Pop, ajudando o ex-Stooges a gravar a sua estreia a solo, The Idiot. A passagem de Bowie por Berlim, onde o cantor explorou o legado do krautrock numa trilogia que ainda hoje é celebrada – os álbuns Low e “Heroes” (ambos de 1977) e ainda Lodger (de 1979) – rendeu algum do seu trabalho mais profundo e experimental, mas afastou-o dos lugares cimeiros dos tops.

Em 1976, a Europa continental oferecia a David Bowie não apenas uma rota de escape, mas também a promessa de um mundo novo, sobretudo essa outra Europa que se estendia para lá do Muro de Berlim e que poderia avistar do estúdio Hansa onde completaria as gravações de Low e faria as de “Heroes”. Em abril de 1976, durante uma pausa na digressão que então se encontrava a fazer, de apoio a Station to Station, Bowie decidiu viajar de comboio com Iggy Pop até Moscovo. No regresso a Londres, uma foto tirada à chegada a Victoria Station parecia indicar que Bowie saudava as pessoas com o braço esticado, à maneira nazi, facto que prontamente desmentiu garantindo não ser fascista. Por esta altura, a vida de Bowie estava a atravessar uma fase extremamente complicada, com o seu casamento a desmoronar-se, apesar de uma última tentativa de encontrar com a primeira mulher, Angie, uma casa para viver na Suíça, e os seus recursos financeiros nas ruas da amargura, havendo disputas com o management e uma grande incógnita sobre o seu contrato discográfico. Talvez para se distrair de tudo isto, Bowie investiu na produção de The Idiot, álbum de Iggy Pop gravado em França no famoso Château d’Hérouville e terminado já em Berlim, com a ajuda de Tony Visconti.

Em Starman: David Bowie – The Definitive Biography, Paul Trynka relata o episódio da chegada do produtor a Berlim: «foi por volta de 20 de agosto de 1976 que Tony Visconti chegou ao número 155 da Hauptstrasse, um «altbau», ou apartamento de época, situado numa rua de sentido duplo ladeada por árvores em Schöneberg, um bairro anónimo no sudoeste de Berlim. Bowie tinha-lhe dito que Iggy estava a viver com ele; Visconti bateu à porta, abraçou o seu velho amigo, disse olá à Coco [Schwab, assistente de Bowie], que conhecia do período «esquelético» de Young Americans. «Depois o David disse “este é o Jimmy!”. Por isso apertei-lhe a mão, olhei em volta e atirei: “Boa – e onde está o Iggy?” Toda a gente se riu, aquilo quebrou o gelo”».

Durante algum tempo, Bowie, Jimmy (James) «Iggy Pop» Osterberg, Jr e Tony Visconti trabalhavam de tarde no Hansa Studio 1 e à noite frequentavam alguns cabarés onde David se ia inteirando do clima de vanguarda que se respirava nos círculos artísticos mais subterrâneos daquela cidade. Trynka dá conta das contradições de David Bowie neste período, que já tinha gerado alguma controversa com o alegado gesto nazi na chegada a Londres, que tinha visto livros sobre o período fascista da Alemanha serem apreendidos pelas autoridades fronteiriças na sua viagem a Moscovo, e que continuava, em Berlim, a vaguear pelas lojas de antiguidades à procura de velhos panfletos adornados com suásticas, então tapadas com autocolantes. Esse fascínio por esse período da história não o impedia, porém, de frequentar os bairros gay que tinham sido martirizados pelas hordas nazis ou visitar o Brücke Museum onde estudava obras de Heckel e Ernst Ludwig Kirchner, pintores que o regime de Hitler havia perseguido por serem «degenerados».

Foi neste período que David apresentou Brian Eno a Tony Visconti e lhe revelou que estava a começar a preparar-se para gravar um novo álbum, perguntando se o produtor teria algumas ideias para apresentar. Obrigado a pensar rápido, Tony terá mencionado ao duo a sua descoberta de uma unidade de delay digital, o Eventide Harmonizer, capaz de «f***r o tecido do próprio tempo».

David Bowie, “Heroes”

David Bowie, “Heroes”

David Sheppard, biógrafo que assina On Some Faraway Beach – The Life and Times of Brian Eno revela que o ex-Roxy Music se encontrava em estúdio com os Ultravox – o seu primeiro crédito a sério como produtor – quando recebeu o telefonema de Bowie a desafiá-lo para um novo trabalho, prestes a iniciar-se em França. Tratava-se, muito simplesmente, de um encontro de cabeças sintonizadas no mesmo cumprimento de onda. Bowie tinha algum material composto para a banda sonora de The Man Who Fell to Earth mas que Nicholas Roeg havia recusado e tinha, tal como Eno, um assumido fascínio pela sonoridade explorada pela guarda avançada da música pop alemã, o som de bandas como os Kraftwerk, Neu! ou Harmonia, exercícios com uma propulsão rítmica muito particular habitados por imensas paisagens de gelo eletrónico.

Trynka descreve as sessões de Low como «muito relaxadas», apesar de Bowie continuar imerso em problemas. Alguns deles inspiraram mesmo certos temas, com Bowie a aproveitar a vida que se desenrolava fora das salas de gravação para conseguir conteúdo para o álbum. Um desses casos aconteceu quando Angie apareceu em Berlim com o seu namorado Roy Martin, algo que não era incomum tendo em conta o «casamento aberto» que os dois pareciam ter. A dada altura, uma luta violenta rebentou numa sala adjacente ao estúdio, tendo sido possível ouvir o som de vidros a partirem-se. Terão sido Iggy e Visconti a separar Bowie e Martin. David, que de acordo com Trynka gostava de uma boa dose de drama, pegou no acontecimento e transformou-o em «Breaking Glass», uma das canções do álbum. «Always Crashing in the Same Car» era, por seu lado, uma referência a um acidente tido na Suíça com o Mercedes, quando David procurava vender o carro para angariar algum dinheiro para enfrentar a falta de liquidez. A vida transformada em canções, estratégia que Bowie nunca abandonou, percebe-se agora.

O plano de Bowie nesta época era claro: aproveitar as lições aprendidas na América e usar o R&B como bússola para a base rítmica enquanto se socorria da inspiração do clima musical de vanguarda da Alemanha para adornar as canções com eletrónica e texturas incomuns. Além de discos de gente como Kraftwerk ou Tangerine Dream, seria o álbum Neu 75 que haveria de inspirar Bowie e Eno: esse álbum do grupo de Michael Rother (que Bowie tentou recrutar para as sessões de Low) e Klaus Dinger (ex-Kraftwerk, futuro LA Dusseldorf) estava dividido claramente em duas partes, atribuindo-se a cada um dos lados do vinil uma personalidade musical distinta. A mesma ideia foi usada por Bowie e Eno em Low, que concentrava as canções e peças mais curtas no primeiro lado enquanto aproveitava o segundo lado para temas mais longos, sobretudo instrumentais. Apesar de experimental, o álbum revelou-se um sucesso graças à força de «Sound and Vision» e tornou-se influente numa era em que as novas bandas praticamente recusavam olhar para os heróis musicais do passado: os futuros Joy Division, por exemplo, recorreram a um dos temas do álbum, «Warszawa (song)», para escolherem a sua designação original, Warsaw.

Low marcou o início de um período extremamente criativo na carreira de David Bowie, talvez mesmo o período-chave da sua carreira, em que se revelou mais ambicioso e desafiante, facto que não pode ser dissociado da própria atmosfera da cidade naquele tempo de guerra fria. Apenas dez meses depois de Low, Bowie haveria de lançar “Heroes”, respondendo assim aos executivos da RCA que ao ouvirem a primeira parte da chamada trilogia de Berlim terão dito a Bowie: «se fizeres antes um Young Americans Two compramos-te uma mansão em Filadélfia».

Para “Heroes”, as sessões foram muito mais concisas, tendo-se em estúdio a sensação de que agora se explorava o que se tinha construído durante as gravações de Low. As referências à vida que se desenrolava fora do estúdio continuavam, como no tema título «“Heroes”», inspirado supostamente por um jovem e anónimo casal que se beijava perto do Muro, observável da janela do estúdio Hansa, mas que mais tarde se veio a saber ser afinal o próprio Tony Visconti com Antonia Maass, uma corista com quem o produtor mantinha uma relação extraconjugal. «Hero», um tema dos Neu!, é outra inspiração para a canção que melhor define o segundo momento da trilogia de Berlim. Na verdade, “Heroes” é dos três álbuns deste período o único a ter sido realizado inteiramente na então dividida cidade alemã. «V-2 Schneider» referenciava não apenas as armas da Alemanha Nazi, mas também Florian Schneider dos Kraftwerk. Os músicos alemães retribuíram o gesto em Trans Europe Express, álbum editado em 1977, citando Station to Station no tema-título em que referiam ainda um encontro com Iggy Pop e David Bowie. O amor de Bowie por Berlim era assim retribuído. Mais entusiasmada com “Heroes”, a RCA haveria de promover o álbum na imprensa musical mundial com anúncios onde se destacava a frase «There’s New Wave, There’s Old Wave, and there’s David Bowie». Um mês antes da edição de “Heroes”, Bowie soube da notícia da morte de Marc Bolan, com quem tinha estado algum tempo antes para gravar um especial de televisão: ficou arrasado e foi uma das estrelas presentes no funeral do amigo e rival.

Bowie entrou em 1978 reconhecendo que os dois anos anteriores tinham sido plenos de trabalho: além dos dois álbuns que gravou em seu próprio nome, produziu ainda The Idiot e Lust For Life de Iggy Pop, efetivamente transformando essa fase numa das mais criativas da sua carreira. Sabendo isso, Bowie empenhou-se na promoção dessa fase, entrando em 1978 cheio de vontade de trabalhar, lançando o tema «“Heroes”» em três línguas diferentes, viajando para fazer entrevistas e concertos, e libertando-se finalmente de Angie num divórcio público e azedo. Pelo meio ainda houve um filme, Just a Gigolo, da autoria do mesmo David Hemmings que protagonizara Blow-up, de Antonioni. E com uma aparição de Marlene Dietrich.

O artista ainda teve tempo de lançar Stage em setembro de 1978, um álbum que documentava a digressão Isolar II em que tinha embarcado durante boa parte desse ano. Nas pausas da digressão, Bowie começou a imaginar o sucessor de “Heroes”, o álbum que marcaria o adeus a Berlim. Gravado entre Montreux e Nova Iorque, Lodger ainda continha boas doses de experimentação – as «estratégias oblíquas» de Eno, cartões com instruções invulgares usados, por exemplo, em «Boys Keep Swinging», um tema em que os músicos foram obrigados a trocar de instrumentos – mas concentrava-se numa sonoridade mais nitidamente rock e não continha instrumentais.

Publicado originalmente na BLITZ Extra dedicada a David Bowie, em janeiro de 2016