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O último fôlego de David Bowie

O génio inglês despediu-se do mundo em janeiro, mas - como Lázaro - continua a erguer-se para nos surpreender. Donny McCaslin, o líder do ensemble que gravou “Blackstar” e os últimos inéditos a serem divulgados, falou com a BLITZ sobre o derradeiro esforço criativo de uma estrela cintilante.

A 19 de fevereiro de 2014, a indústria musical britânica distinguiu o cantor que um ano antes tinha inesperadamente lançado o álbum The Next Day atribuindo-lhe um Brit Award na categoria de Melhor Artista Masculino. Foi Kate Moss que subiu ao palco para receber o galardão e Bowie tornou-se o mais veterano dos agraciados: «estou completamente deliciado por ter um Brit de melhor homem mas sou mesmo, não sou, Kate?», questionou o cantor, em missiva lida pela modelo que nessa ocasião o representou.

Bowie, que ao longo dos anos usou a sua persona artística para questionar o peso do género e da orientação sexual fez-se fotografar de vestido para capas de discos, declarou-se gay em 1972, bissexual em 1976 e, finalmente, «um heterossexual de armário» em 1983 recebeu um prémio por ser o «Best British Male», mas mandou uma mulher recebê-lo; por outro lado, ser «british», mas escolher viver em Nova Iorque depois de umas décadas antes ter caído na Terra vindo sabe-se lá de onde nos confins do espaço, não deixa de ser uma requintada forma de continuar a forçar as amarras da identidade. Ainda assim, confessou Bowie através da voz de Kate Moss, tudo se compôs: «sim, penso que é uma bela maneira de terminar o dia». O dia, podemos especular agora, era a sua própria vida.

O mundo despediu-se de Bowie este ano, a 10 de janeiro, meros dois dias depois da edição no seu 69º aniversário de Blackstar. David Bowie há muito que pensava numa «bela maneira de terminar o dia» e tudo foi orquestrado até ao mais ínfimo pormenor. De permeio entre os seus dois últimos trabalhos, o cantor ainda teve tempo de montar a peça Lazarus em Nova Iorque, uma adaptação para o palco do mesmo romance de Walter Tevis que Nicolas Roeg levou ao cinema a meio da década de 70 do século passado, com Bowie no papel principal: The Man Who Fell to Earth. Nas páginas da última edição da revista inglesa Mojo, está a confirmação daquilo que já todos suspeitávamos, quando se cita a «confissão» manuscrita que acompanhava uma cópia do romance de Tevis que, há cerca de 10 anos, chegou às mãos do produtor de teatro e cinema Robert Fox: «Robert, eu não sou mesmo um ser humano. Thomas Jerome Newton,... Shhh... David Bowie». Foi dessa forma que o músico deu início ao processo de transformar o romance e o filme que tão bem conhecia na peça que agora chegou a Londres, com o ator Michael C. Hall (que todos conhecemos como o simpático assassino que é o protagonista da série Dexter) a vestir a mesma pele do alien Thomas Jerome Newton que é bem capaz de ter valido a Bowie a sua mais icónica passagem pelo grande ecrã.

Donny McCaslin, o músico de jazz que dirigiu o ensemble que acompanhou Bowie nas suas últimas incursões pelos estúdios e que gravou todo o material de Blackstar, bem como os inéditos recentemente revelados com a edição da música de Lazarus, confirma à BLITZ que a malograda estrela tinha uma atitude muito positiva em tudo o que fazia: «posso dizer que ele era uma pessoa maravilhosa, com um enorme sentido de humor e um espírito generoso», garante o saxofonista. «O David estava num período de imensa produção criativa quando o conheci e a sua dedicação à realização da sua visão musical sem qualquer tipo de cedência será sempre uma inspiração para mim». Na verdade, parece ser uma inspiração para todos.

Lazarus subiu ao palco primeiramente no New York Theatre Workshop, tendo estreado a 7 de dezembro de 2015, ou seja pouco mais de um mês antes do desaparecimento de David Bowie. O músico acompanhou a montagem da produção de muito perto, tendo, um ano antes da estreia, revelado à equipa ao produtor Robert Fox, mas também ao encenador Ivo Van Hove e à dramaturga coautora do musical, Enda Walsh as notícias sobre o seu estado de saúde. Walsh também sublinhou na Mojo a tranquilidade de Bowie na reta final da sua vida: «o David é uma das pessoas mais agradáveis que conheci, por isso o que importava ali era o projeto não ele mesmo. Então, [saber que ele estava a morrer] esteve sempre algures na retaguarda do meu pensamento, mas havia muito a acontecer, ele estava a trabalhar em Blackstar e parecia ter ainda uma energia extraordinária». Essa energia traduziu-se também na música, com Bowie a gravar mais material do que o que coube em Blackstar e mais até do que agora se revela com Lazarus.

«As três canções que saíram com Lazarus foram gravadas nas sessões de Blackstar», confirma Donny McCaslin, referindo-se a «No Plan», «Killing a Little Time» e «When I Met You», agora incluídas na edição feita pelo elenco original da produção nova-iorquina. «De "No Plan" lembro-me de termos tentado gravá-la logo na primeira semana de estúdio, sendo que depois voltámos a ela já perto do final das sessões de março [de 2015]. A versão que agora se pode ouvir é uma das últimas. O mesmo aconteceu com "Killing a Little Time": foi feita seguindo o mesmo processo das outras canções, que consistiam em ouvir a maquete, discutir o arranjo, ensaiar e depois gravar. Aconteceu tudo muito rapidamente», garante o saxofonista que desempenhou o papel de diretor musical destas últimas gravações. «A disposição geral quando gravámos foi sempre positiva e a "Killing a Little Time" foi divertida de fazer, embora tenha uma atmosfera muito intensa e algo negra. Em termos da parte instrumental, limitámo-nos a mergulhar e a soltar tudo. Lembro-me de o David ficar muito agradado com as partes dos sopros que eu escrevi. Eu sabia que ele era fã da Maria Schneider e que gostava particularmente de uma canção dela de título "Dance You Monster to My Soft Song". Foi nisso que pensei ao incluir intervalos estridentes na harmonia dos sopros de madeira e na forma como a melodia se desenrola».

UM INTENSO ADEUS

David Bowie, mesmo sabendo que corria contra o tempo, não abdicou do seu reconhecido perfeccionismo e optou por voltar a parte do material mais tarde, para limar arestas: «trabalhou em torno da letra de "Killing a Little Time". Também tentou abordagem diferente ao som de sintetizador. Na "No Plan" tentámos orquestrações diferentes. O Tim Lefebvre tocou baixo acústico e foi isso que acabou por ficar na versão final. Eu acrescentei clarinete à secção de sopros de madeira. Fizemos quatro ou cinco takes seguidos. Penso que essa terá sido a última canção, ou uma das últimas, que gravámos». É curioso pensar que a eventual derradeira canção em que David Bowie trabalhou tem por título «No Plan»: se há coisa que Bowie parece ter seguido à risca nestes dias do fim foi um plano.

«O último dia com todos os músicos foi como todos os outros», explica Donny McCaslin, deixando claro que nunca houve espaço para despedidas. «Gravou-se grande música num ambiente altamente criativo. Quando terminámos, a sensação foi de que tudo continuava, já que o Ben Monder iria regressar no dia seguinte para fazer alguns overdubs de guitarra. Eu também fiz mais um dia de overdubs de sopros de madeira um mês mais tarde, no estúdio do Tony Visconti, com o Tony e o David presentes. Uma parte do que fizemos foi um segundo solo de saxofone em "Tis a Pity She Was a Whore". O David teve a ideia de abrir parcialmente a porta para a cabine onde eu estava a tocar e de colocar um microfone marado mesmo ao pé da porta aberta e isso deu um timbre totalmente diferente ao saxofone que se ouve nesse tema», revela o músico, sublinhando que David Bowie fez questão de testar novas ideias mesmo até ao final, nunca se conformando ou resignando. Donny confirma ainda que, além dos três temas incluídos em Lazarus, ainda há mais algumas coisas gravadas que poderão ver a luz do dia mais tarde: «ainda há mais canções, mas não sei se terão sido terminadas em termos de misturas, masterização e até no que diz respeito às vozes».

O primeiro ano do mundo sem Bowie está prestes a concluir-se. Para Donny McCaslin, como certamente para tantas pessoas que se cruzaram com o homem de Blackstar de alguma forma, foi um ano de transformações: «passei a ter mais atenção dos media, mais concertos, mais gente a vir aos concertos. E tem sido um privilégio conhecer alguns fãs de David ao longo deste ano e perceber o amor e o apreço que essas pessoas têm por ele e o quanto ele sempre significou para todas elas. Ser-lhe-ei sempre grato por isso».

Lazarus está em cena em Londres até ao próximo dia 22 de janeiro e continua a contar com Michael C. Hall no principal papel. O ator também falou à Mojo sobre a experiência, confessando ter sentido nervoso miudinho antes do primeiro encontro com Bowie e sublinhando o carácter especial do músico: «ele era mágico por diversas razões». Durante os ensaios, a estrela tentava ser discreta entrando por portas laterais, procurando que ninguém desse pela sua presença. Porém, como explica agora Michael C. Hall, isso era tarefa impossível: «as moléculas na sala alteravam-se». Se era assim quando Bowie já estava tão perto do fim, imaginem-se os tremendos abalos que o cosmos há de ter sentido, agora que uma brilhante estrela negra se impôs no firmamento.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2016