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Leonard Cohen, o senhor do tempo

Com a sua famosa gabardina azul, atravessou o tempo com palavras que hoje se sabem eternas, espalhadas por uma discografia contida mas plena de génio. “Vou viver para sempre”, garantiu o poeta pouco depois de lançar o seu último álbum, You Want It Darker. Vai mesmo

Na última entrevista que concedeu, Leonard Cohen teve a oportunidade de falar no tempo que lhe restava, no que queria fazer com ele, e deixou claro que esta reta final de discos e concertos-maratona não foi feita sem sacrifício: «tinha uma família para sustentar, por isso não há nenhuma sensação de virtude associada (ao que fiz). Nunca vendi o suficiente para poder relaxar com o dinheiro. Tinha dois filhos e a mãe deles para sustentar, além da minha própria vida. Por isso, nunca tive a opção de ir embora. E agora é um hábito. Há o elemento do tempo, que é poderoso, com o seu incentivo para que terminemos. Eu ainda não consegui terminar. Concluí algumas coisas. E não sei de quantas outras conseguirei dar conta, porque nesta altura já sofro de fadiga profunda... Há alturas em que tenho mesmo que me deitar. Já não consigo tocar mais e as minhas costas rapidamente dão de si. As coisas espirituais, baruch Hashem (graças a Deus), acabaram por se encaixar e sinto-me profundamente grato por isso».

Arrumar a casa

A conversa com David Remnick, na revista The New Yorker, resultou na última entrevista de fôlego que o cantor deu antes de falecer no passado dia 7 de novembro, em casa e de forma pacífica foi o filho, Adam, a comunicá-lo ao mundo alguns dias depois. A paz interior, algo que Cohen buscou não sem períodos de profundo tumulto pessoal, parece ter sido alcançada no final da vida e a Remnick o cantorpoeta confessou estar pronto para morrer: «num determinado momento, se ainda tens discernimento e não és obrigado a enfrentar sérios desafios financeiros, é-te dada a possibilidade de arrumar a casa. É um cliché, mas subestimado como analgésico a todos os níveis. Arrumar a casa, quando tal é possível, é uma das atividades mais reconfortantes e os benefícios disso são incalculáveis».

Leonard Cohen foi obrigado a arrumar a casa quando, já no início deste milénio, se apercebeu que Kelley Lynch, a sua manager de longa data, tinha depauperado contas onde o cantor guardava as suas reservas financeiras e alienado sem a sua autorização direitos de publishing. Cohen viu-se, de repente, sem dinheiro no banco, tendo perdido cerca de cinco milhões de dólares de poupanças, facto que o forçou a regressar aos palcos e aos discos lançou Old Ideas, Popular Problems e You Want It Darker entre 2012 e 2016 com uma regularidade só equivalente ao seu arranque de carreira discográfica, em 1967. Nessa altura, ao clássico Songs of Leonard Cohen seguiram-se, em 1969 e 1971, respetivamente, mais dois celebrados cancioneiros, Songs From a Room e Songs of Love and Hate. Tal como no início de carreira, quando as suas canções se distinguiram pela singular profundidade poética, também os últimos trabalhos de Cohen foram tocados pelo seu intemporal génio.

Quando assinou um concerto de quase quatro horas no ainda denominado Pavilhão Atlântico, em 2012, Leonard Cohen procurava, certamente, oferecer a quem ainda acreditava nas suas velhas ideias a maior das recompensas: uma entrega absoluta, mesmo quando as forças já certamente lhe fugiam. «O concerto desenrola-se e não se percebe a passagem do tempo, como se aquelas canções conseguissem travar os ponteiros do relógio com a sua magnificência», escreveu-se então na BLITZ. «Save The Last Dance for Me», mesmo que tal não se pudesse adivinhar, foi a última canção que interpretou em solo português, mas Cohen não pararia de compor. O seu filho Adam, no comunicado oficial após a sua morte, revelou que o pai «escreveu até ao fim com a sua marca singular de humor». Até ao último momento, procurando decerto contrariar a inevitabilidade do tempo, Leonard Cohen não deixou de procurar arrumar a casa. A que deixou à família, claro, mas a sua também, a sua cabeça, que preencheu de pensamentos, de palavras e de canções ao longo de quase 50 anos de carreira.

É curioso pensar que algumas das primeiras canções escritas por Leonard Cohen possam ter sido postas em papel enquanto o poeta aspirava o aroma de pão português, já que após sair de casa, ainda adolescente, foi no bairro Little Portugal, em Montreal, que se estabeleceu era aí, pelos cafés, que gostava de escrever. Frequentou a universidade pública de McGill, ainda na sua cidade natal, e aí publicou os primeiros poemas, quando contava 20 anos e Elvis Presley ainda não tinha mudado o mundo. O seu percurso académico algo sinuoso levou-o por breves instantes à Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde certamente terá ouvido alguns dos poetas beat que povoavam os cafés de Greenwich Village. Passou por Londres em 1960; mudou-se depois para Hydra, a ilha grega onde conheceu Marianne Ihlen, a musa da canção «So Long Marianne», falecida no passado verão, a quem Cohen dedicou uma tocante carta onde assegurava que se lhe seguiria «em breve». Antes de se estrear nos discos, Cohen editou livros de poemas como Flowers For Hitler (em 1964) e o romance The Favourite Game (1963).

Leonard Cohen morreu a 7 de novembro, aos 82 anos

Leonard Cohen morreu a 7 de novembro, aos 82 anos

Sozinho, entre as mulheres

Pode dizer-se que, aos 33 anos, Cohen entrou nos anos 60 de todas as revoluções musicais já velho. E já sábio. Não porque oferecesse ao mundo todas as respostas que a geração de Beatles e de Dylan procurava, mas exatamente porque parece nunca ter desistido de procurar as perguntas: Cohen viajou de Cuba à Grécia, do novo ao velho mundo, da sinagoga ao templo budista, da marijuana ao LSD, do sexo à contemplação, da cidade ao campo e de volta à cidade. E cruzou-se com Jimi Hendrix, Nico e Jim Morrison, tendo tido, certamente, a oportunidade de com todos trocar palavras importantes.

O «ladies man» pontuou o seu cancioneiro de figuras femininas: canções como «Suzanne», «So Long Marianne», «Winter Lady», «Bird on a Wire», «Seems So Long Ago, Nancy», «Lady Midnight» ou «Joan of Arc» marcaram os três primeiros álbuns em que oscilou entre o rigor e a solidão acústica proporcionada apenas pela sua guitarra e arranjos mais expansivos. Álbuns envolvidos em cordas e coros que transformavam em seda o amargo de boca que certamente sentia, como em «The Partisan» ou «Avalanche», esse bloco de granito feito de autocomiseração e depressão que nem os violoncelos conseguem tornar mais negro do que já era na realidade, antes de ser canção. Para escapar a todos esses abismos, Leonard «correu pelo dinheiro e pela carne» em cidades como Nova Iorque, detendo-se no Chelsea Hotel onde recebeu sexo oral em camas desfeitas «and that was called love for the workers in song».

No esparso New Skin for The Old Cerimony (1974) Cohen avisou: «a singer must die for the lie in his voice». Em Death of a Ladies Man (1977), enquanto o mundo ardia na fogueira punk, Leonard Cohen deixou as suas palavras serem embaladas nos excessos de Phil Spector num disco que para nascer teve que atravessar lagos de álcool e enfrentar armas e gritos. Já nos anos 80, Various Positions (1984), álbum em que Cohen introduziu a caixa de ritmos como auxiliar do seu próprio tempo, trouxe «Hallellujah», que se tornaria uma das suas canções mais celebradas (sobretudo nas vozes de outros, como Jeff Buckley), mais uma expressão das suas profundas dúvidas espirituais: «You say I took the name in vain / I don't even know the name» ou «I did my best, it wasn't much / I couldn't feel, so I tried to touch». No fundo, em cada canção, Cohen ofereceu ao mundo um espelho em que qualquer um se poderia rever. Os primeiros sons de I'm Your Man (1988) hão de ter desconcertado muitos fãs de longa data eletrónico, com caixa de ritmos, quase electro, mas a voz recolocou a verdade no centro das coisas: «They sentenced me to twenty years of boredom / for trying to change the system from within», canta Cohen no arranque de «First We Take Manhattan». Apenas um disco nos anos 90, mas o suficiente para Leonard garantir ter tido um vislumbre do futuro «it is morder» e um par deles na primeira década do milénio, gravações íntimas de um homem que já levava muito tempo nos ombros e que já aí lidava com a ideia do abandono das forças e com a doce tortura da saudade: ouça-se «You Loved Enough» de Ten New Songs (2001) ou «The Letters» de Dear Heather (2004).

Antes de desaparecer, Leonard parece ter-se resolvido nos três últimos álbuns que ofereceu ao mundo, ainda que o agudo sentido de autocrítica presente logo no arranque de Old Ideas (2012), no tema «Going Home», deixe claro que nem no fim este homem esteve para fingimentos apaziguadores: «I love to speak with Leonard / He's a sportsman and a shepherd / He's a lazy bastard / Living in a suit». Um senhor do tempo, na verdade: nunca nos deu previsões de sol quando as nuvens se erguiam no horizonte, nunca nos iludiu com baixas pressões ou anticiclones quando as tempestades lhe fustigavam a alma. Deu-nos sempre a verdade. Está lá toda, nas canções.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2016