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Volta, Phil Collins. Estás perdoado

Estrela improvável nos anos 80, o artista que o mundo conheceu como baterista dos Genesis chegou ao cume da montanha, mas o mundo fartou-se dele e empurrou-o daí abaixo. No ano em que relançou todos os discos, uma recolha de singles e a sua autobiografia, descobrimos um homem sensível, ainda desconfiado dos seus feitos. De saco de pancada a figura incontornável: tudo é possível para Phil Collins. A BLITZ falou com ele

«As pessoas interpelam-me na rua para me dizer "adoro o seu trabalho" e eu riposto "ok, então diga-me três canções de que goste". "Err... 'In The Air Tonight', 'Groovy Kind of Love' e 'You Can't Hurry Love'?" [enfado] Eu sou o tipo que faz baladas ensopadas em melaço. O conhecimento que as pessoas têm de mim baseia-se em meia dúzia de canções». Quem fala assim, neste caso à revista Mojo de dezembro do ano passado, não é uma estrela pop/rock normal. Phil Collins, assumidamente sensível às opiniões que se formaram sobre ele, reconhece o quão penosa foi a ressaca do seu sucesso nos anos 80, década em que paralelamente à função de vocalista principal dos Genesis chegou aos lugares cimeiros dos topes num inesperadamente bem-sucedido percurso a solo que o conduziu ao Olimpo da pop.

Desde o início dos anos 90 que Phil Collins não é cool; a reconhecida sobre-exposição (nesta entrevista à BLITZ, ele lamenta a omnipresença do fucking Phil Collins), um divórcio que o deixou mal na fotografia (e na imprensa do seu país, principalmente), os queixumes fiscais de um homem rico (hoje, afirma não ser politicamente conservador) e a ideia enraizada e reproduzida amiúde de que representa um lado yuppie e vazio em suma, errado da música amarguraram uma figura que nos gloriosos «eighties» aspirava a incorporar a «realeza» inglesa onde já pontificavam Bowie, Elton ou McCartney.

Aos 65 anos, Phil Collins é como um gato que, apesar de maltratado (três divórcios, se formos pelo lado mais íntimo) e desconfiado das suas próprias capacidades, acaba por dar mais um salto sobre o muro para dali sair revigorado e pronto para gastar mais uma vida (em 2017 estará de volta à estrada). Agradece ao período de pousio decretado em 2011 (mas que começou realmente a ser posto em prática após a digressão do seu regresso aos Genesis, em 2007) a disponibilidade para ser reavaliado - ausência em parte forçada, já que uma doença o impede de tocar bateria como antes. Nos últimos anos, tem sido apenas Phil, pai de dois filhos menores e relutante músico na reforma.

Confia que foi o tempo suficiente para que seja possível passar uma esponja sobre o lado anedótico que se colou a si. Assume-se culpado, provavelmente mais do que deveria, especialmente quando confessa ter chegado a simpatizar com quem o vilipendiou. Ao mesmo tempo que, desassombradamente, expia os seus pecados, mostra confiança numa justiça poética. Uma reavaliação (termo que usa mais do que uma vez nesta entrevista, mostrando uma gritante necessidade de revalidação) que já terá começado com o relançamento faseado de todos os seus álbuns a solo (e devida profusão de extras), ao longo de um ano que culmina com o lançamento de The Singles, compêndio de 3 CDs que acopla todos os singles lançados desde, precisamente, «In The Air Tonight», e da aguardada autobiografia, Not Dead Yet (sobre a qual não podia, ainda, falar muito). É por aí que começa a conversa.

Not Dead Yet, a autobiografia, é o Phil Collins a dizer-nos «este sou eu e estou orgulhoso do que fiz, afinal de contas» ou teme que se reabram feridas antigas?
Não quero reabrir feridas antigas isso não, obrigado. Não quero levar com tudo outra vez! (risos) É um livro de entretenimento. Tive uma bela vida cheia de sorte, trabalhei com a maior parte dos meus heróis, vivi o período mais maravilhoso para a música os anos 60 em que tudo estava a acontecer pela primeira vez. Eu estava no Marquee quando Jeff Beck se juntou aos Yardbirds, estava lá quando os [Led] Zeppelin começaram e quando o Jimi Hendrix se estreou em Inglaterra. Toquei com o George Harrison quando tinha 19 anos. Foi um período fantástico na música e eu estive lá metido. Neste livro, tive a oportunidade de contar todas as histórias de que me consigo recordar. É um livro animado, mas com alguns momentos negros. Haverá, certamente, algumas coisas que as pessoas vão achar embaraçosas, mas faz parte tinha de ser honesto. Isto é algo que sempre desejei fazer, especialmente porque senti que tinha de ser eu próprio a fazê-lo, não outro. Não poderia ser uma biografia, teria mesmo de ser uma autobiografia.

Escreveu diários ou apontamentos ao longo dos anos?
Não, tenho boa memória. Depois, a internet ajuda porque me lembra de tudo o que me esqueci (risos). Trabalhei com outra pessoa, falámos durante meses, gravámos tudo e depois pusemos os assuntos por ordem. Mas por cima disso há muito trabalho. Já tinha escrito um livro sobre a Batalha do Álamo [The Alamo and Beyond: A Collector's Journey, de 2012], que é a minha paixão, e percebi que não se trata apenas de escrever palavras. Há a verificação de estilo e a ortográfica, a edição, a revisão. Nunca se lê um livro da mesma maneira duas vezes.

Em paralelo edita também uma recolha de singles, num ano em que olhou para trás com as reedições «aumentadas» de todos os discos a solo. Sente que precisava de se reapresentar?
Sinto-me muito bem, para falar a verdade. As reedições foram recebidas com bastante entusiasmo, creio. Não tinha a ilusão de chegar outra vez ao número 1 do top, nem me parece que a intenção fosse essa. A proposta foi da editora, mas eu recebi-a de braços abertos. Há um público novo, uma reavaliação, uma hipótese de redescoberta, de reparar em coisas que passaram despercebidas ou de descobrir pela primeira vez. Esta coleção de singles é uma espécie de fim da linha e não tem só os êxitos [hits]; tem também os falhanços [misses]. Há um plano para o próximo ano que é fazer uma antologia com canções de toda a gente com quem já trabalhei. Vai ser muito interessante, mas está a ser complicado lidar com o pântano legal porque são faixas muito dispersas.

A última canção da coleção de singles é a sua versão de «Going Back» (popularizada por Dusty Springfield em 1966 e pelos Byrds no ano seguinte). «Thinking young and growing older is no sin / And I can play the game of life to win». Era algo que já lhe dizia muito na sua juventude?
É uma canção fantástica. Tive a sorte de conhecer o autor da letra, Gerry Goffin, poucas semanas antes de ele morrer. Era também uma das suas favoritas. A canção sempre me tocou e lembro-me de que o meu irmão [Clive, cartoonista], que é nove anos mais velho [tem hoje 74 anos] e não perdia tempo com modernices, veio ter comigo para me dizer «que grande canção, essa!». Ele sentiu o mesmo que eu ao mesmo tempo.

Há aqui canções como «Thru These Walls» que são bastante mais «difíceis» do que os maiores sucessos do início dos anos 80 - não apenas os seus. Lamenta que o outro lado da sua produção, mais arrojado, não seja devidamente reconhecido?
Estou habituado (risos). Foi para incluir o outro lado, como lhe chama, que não quis fazer um «greatest hits», mas antes uma coleção de tudo o que se fez sair como single. Tem lá «Thru These Walls», «If Leaving Me Is Easy», «Can't Turn Back The Years» [na verdade, este single promocional de 1993 está ausente do alinhamento], «Wake Up Call», que foram editadas em single e que considero boas canções, mas que não se tornaram sucessos por várias razões, inclusive o gosto das pessoas na altura. Tenho a sorte de poder relançá-las e dar-lhes uma segunda oportunidade.

Apesar de ser possível encontrar semelhanças entre os Genesis do início dos anos 80 e o seu trabalho a solo, que foi mais intenso no mesmo período, Phil Collins fora dos Genesis será, porventura, mais variado estilisticamente. Como é que equilibrou as duas vertentes numa altura tão crucial?
Mais variado? Aceito a sua opinião todos os dias, muito obrigado! (risos) Havia duas maneiras separadas de trabalhar. Há quem progrida seguindo só uma linha; eu gosto de misturar as coisas. Com os Genesis tínhamos uma situação quer fôssemos três, quatro ou cinco pessoas, quando estava lá o Peter [Gabriel] em que escrevíamos sem nada preparado. Aparecíamos no estúdio ou no ensaio com absolutamente nada, uma folha em branco. Improvisávamos e eu gravava tudo. Ouvíamos algumas coisas e dizíamos «isto resulta», avançávamos um pouco e parávamos outra vez, «isto agora também serve». E depois víamos para onde estas opções nos levavam. Genesis era um animal diferente. Comigo, era eu a escrever para mim. E as minhas influências, o R&B/soul/Motown, combinadas com uma maneira mais simples de olhar para elas. Isto era muito diferente do que fazia nos Genesis.

Houve uma altura em que David Bowie estava em perda: a chegada aos anos 90, depois de alguns álbuns falhados e a experiência de banda nos Tin Machine. Pensa que o mesmo aconteceu consigo, com a diferença de se ter deixado abater mais do que ele?
Não me lembro de uma altura em que o Bowie fosse menos hip, mas posso estar esquecido (risos). Eu sou demasiado sensível, tenho esta «coisa». Com a idade estou a ficar menos; percebi que não se pode agradar a toda a gente ao mesmo tempo. Percebo o ceticismo que reina face a tudo o que fiz, contudo. A exposição, as vendas e por aí fora. Apareci em todo o lado, trabalhei com esta pessoa, depois com aquela. fiz o Live Aid não uma mas duas vezes! Eu era irritante. Estava sempre lá e era um chato. Nunca me ia embora, o sacana [fucking] do Phil Collins estava sempre lá. Compreendo esta visão das coisas. Infelizmente, o bolo da minha obra foi feito de «Sussudio», «One More Night», «Against All Odds», singles de sucesso que foram tocados tão incessantemente na rádio ao ponto de fazer com que as pessoas se fartassem de mim. Penso que agora, com alguma distância, talvez esse sentimento possa esmorecer, talvez seja possível uma reavaliação.

Como é que se chega a um ponto em que se sente vergonha das próprias conquistas? Não é a pior coisa que pode acontecer a um artista?
Eu sei. (pausa) É difícil quando se começa a simpatizar com as pessoas que não gostam de ti. Alturas houve em que se eu fosse guionista, tirava a minha personagem deste filme. Dava-lhe umas férias e matava-a num acidente de viação. O Phil Collins estava a atrapalhar-me a mim e à minha vida. Estou a tentar justificar algo que disse algumas vezes no passado, mas felizmente não sei se seria capaz de o dizer agora.

Acredita que fugir dos holofotes durante algum tempo foi essencial para que agora lhe seja feita justiça? Pensa que as pessoas precisavam de tempo para reaprender a lidar consigo?
Sim, o anúncio da minha retirada foi uma vantagem. Era a sério: tenho filhos com 11 e 15 anos, mas na altura eram mais novos e eu queria ser um pai para eles, um pai a sério. A reunião dos Genesis em 2007 não foi há assim tanto tempo, mas desde então gerou-se uma distância suficiente para que as pessoas, cuja memória agora é composta por sound bytes, pudessem refrescar a ideia que tinham de mim. Foi um intervalo suficiente para que algumas sentissem falta e outras vissem em mim alguém diferente. As reedições foram gratificantes: tudo o que eu queria era que o meu trabalho fosse redescoberto, reavaliado, ou enfrentado pela primeira vez. Alguns jornalistas em Inglaterra, que foi sempre um lugar muito delicado para mim, falaram-me do quão surpreendente foi ouvir de novo o Both Sides [de 1993]. O Danny Eccleston, da Mojo, disse-me que na altura estava a cobrir, provavelmente, os Nirvana e deixou escapar esse disco. Era só isso que eu queria ouvir.

Originalmente publicado na BLITZ de novembro de 2016