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A história da primeira vez dos Guns N'Roses em Portugal: Estádio de Alvalade, 2 de julho de 1992

Os Guns N' Roses estarão de regresso a Portugal em 2017. Recorde aqui o dia em que Axl Rose pisou o palco do Estádio de Alvalade, em 1992 - com vídeo e reportagem do então jornal BLITZ

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em julho de 1992, os Guns N' Roses atuaram no Estádio de Alvalade, com Faith no More e Soundgarden na primeira parte.

O concerto terá ficado na memória dos fãs por várias razões, entre as quais a queda de Axl Rose num «cenário» previamente preparado por Mike Patton, dos Faith no More, que convidou o público a enviar garrafas para o palco, deixando-o escorregadio.

A reportagem de capa que o então jornal BLITZ então preparou causou celeuma; na semana em que o regresso de Axl Rose e Slash foi conformado, recordamos a polémica de 1992 e acrescentamos-lhe um vídeo integral, ainda que «caseiro», do concerto. Desfrute!

"Indiana Rose

Rosa pálido. Rosa, porque os Guns têm canções lindíssimas; pálido, porque Axl amuou. O herói caiu e cantou deitado. Fez birra. Levou com garrafas e deu-nos rosas. Foi magnífico e foi arrogante. Foi Axl Rose, de Indiana. No público houve rituais de dança e de estalo. E houve os Faith No More…

Os Guns N’Roses eram o concerto de rock 'n’ roll mais esperado do ano. Ameaçado por uma queda, um amuo e interregnos vários, se foi o cantor que quase o comprometeu, foi também a sua presença que mais impressionou, e as suas 12 toilettes, e os flashes de Slash, o solo de Matt, e o «Sweet Child O’Mine». O cantor estava na origem de toda a energia da banda – à exceção de Slash, que parecia ter um gerador próprio – e foi excelente enquanto pisou o palco, que nunca devia ter deixado. E houve os Faith No More… e os Faith No More, só por si, teriam valido a ida a Alvalade. Os Soundgarden foram insonsos, o público, rock e algum nirvanizado, e os seguranças simpáticos. Cancelado o concerto de Madrid, este foi, efectivamente, o encerramento da digressão europeia dos Guns N’ Roses.

Guns N' Roses capa BLITZ 1992

Guns N' Roses capa BLITZ 1992

A digressão visitou 20 cidades em 13 países do continente e ofertou cerca de 1 milhão de pessoas os acordes de «Knockin’On Heaven’s Door». A montagem de cada espetáculo – cujo palco levou 8 meses a planear – envolveu 96 pessoas, sendo precisos quatro dias e 60 pares de mãos para o efeito. Onze camiões transportavam 75 toneladas de material. Eram 900 luzes, 60 microfones em todo o palco, 7 toneladas de tambores Yamaha, pratos Zildjian, guitarras Fender e Gibson, um piano de cauda, metais e gaitas, um magnífico PA. A capacidade era de 250 mil watts. E pela primeira vez na história da banda havia seis guest-stars: Lisa Maxwell, Cece Worrall e Anne King, na secção de metais, Roberta Freeman e Tracey Amos, nas segundas vozes, e Ted Andreadis, na harmónica e «backing vocals». Iniciada no Alpine Valley, a 24 de Maio, a digressão regressa agora aos Estados Unidos.

Seis e vinte da tarde. Muito som e poucos floreados para Soundgarden, que se despediram com um prato de choque em cima do monitor do palco… o sol aqueceu um pouco mais. Pontual, a segunda banda do dia sobe ao palco. São cinco músicos inteiros, todos em palco. E acreditamos nos Faith No More, no seu som diferente, nos três pares de óculos do guitarrista e na rebelde doçura do miúdo de San Francisco que canta «Kindergarten». Mike (que já tinha estado em Portugal a fazer vozes com os Naked City de John Zorn) provoca o público, convida-o a atirar coisas para o palco; o público serve, Mike defende – vantagem de cá. Escorrega. Cai. Canta de joelhos, de gatas, deitado. Tocam «Land of Sunshine», «Be Agressive», «A Small Victory». A plateia exige um encore… não mais dúvidas sobre os Faith No More!

A chegada do avião de Rose estava prevista para as 19h00; a subida ao palco, para as 20h00… Uma hora mais tarde, os cabeças de cartaz atacam com «It’s So Easy». O público resolve dar-lhes as boas vindas com a oferta de ranhosas garrafinhas de plástico, que insiste em arremessar aos músicos… e começa a guerra dos Roses… Axl escorrega, escarrapacha-se no chão, e que aguente os cavalos, que o cantor se magoou numa perna e só volta 15 minutos mais tarde. E entre duas novas saídas, a espera por Axl, que não há meio de voltar – qual Maria Trapp – e o seu regresso definitivo ao palco, os músicos vão tocando uns instrumentais, Duff(y Duck) canta umas coisas e Slash anuncia a, oportuníssima, «Patience», que Axl entra a assobiar.


Entretanto, alguém ameaça que, se continuarem a chover garrafas, a banda abandona o palco. Ninguém liga. Nem o público… nem a banda… nem, que remédio, Axl Rose, que se encheu de brios e regressou retemperado. Depois da birra vem a prova de que nem tudo são rosas, nem espinhos. Se há a voz e a presença dominante e energética de Axl, em todo o palco, há também as frequentes saídas de cena para mudanças de «hábitos». Slash é o segundo homem da banda – o que seria dos Roses sem Axl ou Slash? – companheiro de corridas do cantor e culpado de solos hendrixianos. Decanta três temas deitado, numa atitude inesperada… O amuo vem depois, quando o cantor termina «Live and Let Die», atira o microfone e sai «em pontas». A banda pois há aquela gente toda em palco… e continuamos a preferir os Guns sem corantes nem conservantes. Por outro lado, há o hino dos «cyborgs», «You Could Be Mine», anunciado por uma poderosa batida de Sorum e cantado em uníssono por 60 mil vozes, mais afinadas do que as palmas eram a tempo. E em coro também, «Don’t Cry».
«November Rain» choveu ao piano. Primeiro suave, depois agitado; lindíssimo. Casacos vários vestiram «Civil War», ora com a bandeira americana, ora camuflados, ora mesclados, sobre o tronco nu de Axl Rose, a esconder-lhe as tatuagens e a condizer com a truce preta. A camisa aos quadrados ficava melhor, mais negligée. Se bem que o top 22 também não fosse de todo deselegante… e o que vestir a seguir? Só tem relações, aquele rapaz!...

E o concerto ganhara, pesem as trocas de roupa, um novo ritmo. Um massivo solo de Matt Sorum daria lugar a uma harmonicazinha, e degenerou em «Bad Obsession».

Slash enche mais uns chouriços e faz mais um solo, e temos uma aparição… Axl aparece à anjo-cowboy, todo de branco, de franjas e chapéu. A roupa é fabulosa; a versão do tema que intepreta também: «Knocking On Heaven’s Dorr»… mais bonito que em disco, muito mais bonito que a do seu autor. «Give me some fuckin’reggae»… e o tema acaba. Adeus Guns N’Roses? Ainda não.

Nos três écrans, ao lado do palco e sobre a regie aparece: Guns… N’… Roses… Guns… N’… Roses… que o público repete, na mesma cadência, até as luzes do palco se acenderem de novo. E… «Paradise City»… a banda faz vénias de agradecimento… e Rose volta para oferecer rosas àqueles que lhe haviam dado garrafas."

Maria João Gouveia
Artigo originalmente publicado no jornal BLITZ de 7 de julho de 1992

Veja aqui o vídeo do concerto (Axl cai por volta dos 2m50s):