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Green Day: quando o punk fez pop, aconteceu “Dookie”

Em 1991, os Metallica enterravam o glam metal com o “álbum preto” e os Nirvana lançavam Nevermind, à frente de uma revolução a partir de Seattle. Três anos depois, quando Cobain se despedia do mundo e James Hetfield pensava em cortar o cabelo, o caminho estava aberto para os Green Day (que têm agora disco novo) e o ressuscitar do nervo punk. Dookie foi o detonador

A casa de banho das senhoras de um obscuro clube californiano de punk pode ser um local surpreendente. Não será, no entanto, o mais provável dos sítios para se encontrar declarações de ódio. «Billie Joe tem de morrer», lia-se na casa-de-banho do número 924 da Gilman Street de Berkeley. Na boa tradição do punk, a casa tinha regras bem definidas. Não havia álcool ou drogas, não eram aceitáveis comportamentos sexistas, referências a grandes empresas e as editoras discográficas eram vistas como o demónio. Desde os 15 anos que Billie Joe Armstrong conhecia o código de conduta, mas os Sweet Children tinham-se transformado em Green Day e de Kerplunk o salto para Dookie seria maior que o antecipado. «O meu amigo tinha a chave e entrámos para ir buscar bebidas. Não estava ninguém e fui à casa de banho. Estava escrito na parede. É chato deixar de poder ir onde passava a vida, foi um período muito complicado», recordou o vocalista no programa que o canal VH1 dedicou à banda. Na rua, já se tinham tornado habituais as ofensas «estrela de rock», a mais frequente e no clube sabia que as ameaças não deviam ser encaradas com ligeireza. Por ali, uma noite havia ficado célebre. Jello Biafra, ainda nem tinha conseguido editora para os seus Dead Kennedys, mas já tinha demasiado sucesso para escapar ileso a um mosh no 924 depois de uns encontrões, acabou ofendido, agredido por seis e hospitalizado. «Os agressores costumavam ocupar uma casa a uns quarteirões da casa onde eu vivia e nem eram frequentadores do clube. Foram corridos da cidade, nunca mais ninguém os viu», contaria, pouco depois do incidente, Armstrong em entrevista ao site AXS.

Para os fãs de música pesada foi feliz a entrada nos anos 90. Em 1991, o álbum preto dos Metallica enterrava definitivamente os metaleiros «glam» e de Seattle arrancava uma revolução com os Nirvana e o seu Nevermind na frente. Estava fechada a década que, segundo Elvis Costello, «a música e o bom gosto esqueceram». Milhões de discos e dois anos depois, chegava In Utero, o último grande disco de grunge, mas poucos meses depois Cobain suicidava-se e as editoras lançavamse em busca do próximo grande êxito. Agora, as regras eram diferentes, estava provado que o rock pesado podia chegar ao topo das tabelas mainstream e o assédio a Armstrong, Tré Cool e Mike Dirnt subiu de tom. O EP 39/Smooth (90) e o disco de estreia Kerplunk (92) tinham-lhes valido o estatuto de estrelas underground e o potencial para mudar de divisão tornara-se evidente. «Nunca fomos totalmente aceites pela comunidade punk, sempre tocámos canções de amor», recordaria Mike Dirnt ao VH1 destacando que desde o primeiro dia os Green Day haviam sido vistos como «demasiado melódicos e leves para a cena hardcore». Uma heresia que há 21 anos salvou o punk.

Depois de Sex Pistols, Clash e Elvis Costello, desde 1977 que o punk não era notícia nos Estados Unidos. «Tinha sido um movimento rock underground que de repente ficou enorme, mas que nunca vendeu muitos discos. As pessoas dizem que 1977 foi o ano do punk. A verdade é que 1977 foi o ano dos Bee Gees», conta Costello. Agora tudo seria diferente. Rob Cavallo recorda-se da primeira vez que escutou Dookie, em cassete. «Tinha estado todo o dia no estúdio e já passava das onze da noite quando ouvi a cassete. Acabei por ouvi-la dez vezes», contou o produtor que haveria de chegar a presidente da Warner sobre o momento em que se enamorou por «Longview». «Pensei que poderia ser um single. Tinha aquele loopzinho de bateria e depois passava para um assalto de guitarra punk», conta quem convenceu os Green Day a ceder à corte das editoras, ansiosas por descobrir os sucessores dos Nirvana no topo das tabelas de vendas mais barulhentas. Houve quem os levasse à Disneylândia, quem aparecesse com o nome do primeiro disco tatuado no rabo e quem se limitasse a oferecer almoços aos músicos. Dirnt recordou a decisão: «foi como entrar numa piscina gelada. O melhor é ser rápido. Decidiste ir nadar, estás de calções o que vais fazer? Ficar na borda da piscina?».

A capa de "Dookie"

A capa de "Dookie"

DIARREIA?

«A música era muito pura, bem disposta e rápida. Tinha o seu toque de punk, o som com que eu tinha crescido. As nossas referências eram as mesmas e gostávamos das mesmas coisas na guitarra ou na bateria. Foi como se falássemos a mesma língua desde o primeiro dia», contou Cavallo então produtor da Reprise. Se Kerplunk tinha sido gravado com 700 dólares, para Dookie o orçamento disparou para os 200 mil e à disposição da banda, em Berkeley, estavam o Fantasy Studios e as portas para a divisão dos grandes estava aberta.

«Decidimos fazer um grande disco. Tínhamos todas as condições e um orçamento que dava para tudo, até para termos garantido a renda e burritos para os dois anos seguintes», contou Dirnt ao VH1. E durante dois meses, o trio punk sujeitouse a um rigoroso horário: das onze da manhã à meia-noite, todos os dias e sempre a serem confrontados com uma nova realidade, a das gravações profissionais. «Lembro-me de uma grande aprendizagem, todos os dias aprendia algo novo, como se fosse à universidade», contou o baixista. Armstrong estava ciente da responsabilidade. Sabia que a comunidade punk não iria gostar, que a oportunidade de jogar entre as majors se podia esfumar tão depressa quanto uma música de punk tradicional e que dele dependia grande parte do sucesso do disco. «Queríamos a energia que tínhamos ao vivo, um disco que mostrasse quem realmente éramos», assumiu. E o produtor nunca esqueceu a surpresa ao ver a performance de Armstrong em estúdio. «Começámos a uma terça-feira. Fez um, dois e, talvez numa canção, três takes de cada música e o álbum ficou gravado. Em dois dias tratámos de toda a voz do disco. Nunca mais vi ninguém que o conseguisse fazer».

Comercialmente, a missão não se avizinhava a mais fácil. Se as melodias prometiam facilitar a entrada da banda no mercado mainstream, a postura da banda continuava mais punk do que os puristas gostavam de aceitar. Para nome do disco, escolheram um termo calão para diarreia, Dookie, entre as letras não faltavam alusões a temas politicamente incorretos da masturbação em «Longview» à homossexualidade em «Coming Clean» ou aos distúrbios mentais em «Basket Case». Armstrong conta: «sofri de ansiedade toda a vida, mas não sabia o que era. Pensava que estava a enlouquecer. A única forma que encontrei de lidar com isso foi fazendo uma canção. Só anos mais tarde descobri que tinha ataques de pânico». A somar aos temas polémicos, ainda manifestavam pouca disponibilidade para ações de marketing o primeiro teledisco foi gravado na cave em que ensaiavam e recusaram produção na imagem para assumir o acne que ainda lhes marcava a cara.

Sem direito a distribuição comercial digna, dois anos antes Kerplunk tinha vendido 70 mil exemplares. Com Dookie, que aterrou nas lojas em fevereiro de 94, a escala já seria de milhões e tudo mudaria. Enquanto Armstrong se juntava à equipa dos casados e dos pais - o casamento foi realizado no quintal de casa - os Green Day saltavam para a Liga dos Campeões do rock. Na digressão pelos Estados Unidos, longe do estatuto de banda de abertura com que tinham viajado no ano anterior na digressão dos Bad Religion, estrearam-se no Lollapalooza, mas seria no Woodstock desse ano que conquistariam um novo público. A reedição do mítico festival de 69 seria polémica, mas perante 350 mil espetadores a prestação dos Green Day entraria na história. Se inicialmente se limitaram a alinhar na luta de lama com o público, acabaram por permitir uma invasão de palco e ser lesionados um segurança confundiu Dirnt com um dos invasores do palco, derrubou-o e partiu-lhe dois dentes. Se até agosto apenas tinham vendido um milhão de discos, no final do ano já as vendas de Dookie rondavam os três milhões e, no final do ano seguinte, embalados pela visita ao palco nos arredores de Nova Iorque, o número ultrapassaria os dez milhões. O mundo entrava numa era tão nova como improvável o punk tinha entrado no campo da pop.

A MAIOR DAS TRAIÇÕES

«Fomos a bola demolidora que desfez a casa que o grunge tinha construído. Sempre vi [o grunge como uma cena de] bandas de estádio, mas era aborrecido e não dizia nada. Porque raio nunca lavavam o cabelo?», atacava na época Armstrong em entrevista à MTV. Mas se 94 seria o ano da morte do grunge e do nascimento dos punks pop, também seria o ano em que os Green Day perdiam definitivamente a sua base de fãs mais pura. À Time, por alturas do lançamento de American Idiot (2004), Armstrong explicou: «em todos os géneros há puristas e a certa altura dirão sempre que não és puro. Eu quero ser o melhor autor de canções que conseguir e os meus favoritos vão dos Sex Pistols ao Lennon e ao McCartney. Isso são os Green Day, sem regras». E não é o total desrespeito pelas regras a característica mais usual aos maiores nomes do punk? À VH1 Tré Cool recordou a forma como lidava com os fãs desconsolados: «perguntava-lhes se gostavam dos Ramones ou Clash e dizialhes que também eram de majors. Não era por estar numa editora grande que passava a ter CDs feitos por crianças no Cambodja». Elvis Costello defendia a mesma linha de pensamento. «Interessa-me o que está no disco, não o que o rotula. Seria como comprar uma caixa de cereais e comer a caixa». Armstrong não está tão convicto: «ainda é um assunto sensível e não sei se foi a melhor decisão. Parte de mim continua a desejar que nunca tivesse assinado por uma grande editora».

Com o que dizem ser «o pior nome do rock» «Green Day» era, originalmente, o título de uma música escrita sobre os efeitos da erva Armstrong, Cool e Dirnt ajudaram a definir a banda sonora com que a Geração X sobreviveu à segunda metade dos anos 90. E nunca deixaram de provocar. Nos primeiros anos como estrelas apoiaram a causa gay, tendo um concerto em Fairfax, no verão de 95, ficado para a história. Cabeças de cartaz, faziam-se acompanhar pelos Pansy Division, banda punk assumidamente gay e com letras demasiado explícitas para o gosto do promotor. Nessa noite, à exigência de outra banda de abertura, os Green Dayresponderam com intransigência e o concerto acabaria por se realizar. Irreverência punk? Por essa altura, Armstrong já se assumia bissexual a primeira vez que abordou o tema terá sido à revista Advocate e a banda não se coibia de brincar com o assunto. Em entrevista ao AXS, já assumiam «não ser capazes de ser machos». Armstrong esclarecia: «nunca tive tamanho para entrar na equipa de futebol».

Feridos no orgulho ou ansiosos por mostrar as suas origens mais punk, a Dookie os Green Day fizeram suceder, logo em 1995, Insomniac, o mais pesado e agressivo dos seus discos. Logo depois, voltaram a provocar os fãs. Em Nimrod (97) incluíram «Good Ridance (The Time of Your Life)», uma balada acústica, «música do baile de finalistas de toda a gente» (disse Dirnt), que acabaria por ser a escolhida como a banda sonora do último episódio da série Seinfeld. Seria a balada em horário nobre na televisão, num episódio que chegou aos 76 milhões de espetadores, a maior das suas heresias ou a tábua de salvação de um género que sempre fora o seu próprio maior inimigo? Se hoje ospunks podem continuar a dizer que não estão mortos, muito o devem aos Green Day, os punks menos punk que alguma vez foram ouvidos.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2015