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Hugo Ribeiro (1925-2016): Valentim de Carvalho, a casa da música

Em 1963 abria um dos templos da música portuguesa: no estúdio da Valentim de Carvalho de Paço de Arcos registaram-se algumas das maiores obras de produção nacional, muitas deles sob a “batuta” de Hugo Ribeiro, hoje falecido aos 91 anos

Ao longo da história da música houve estúdios que foram adquirindo uma aura quase mágica e um estatuto definitivamente mítico por causa dos grandes álbuns que aí se gravaram. Quando os Roots escolheram o Electric Lady de Nova Iorque para registar os seus mais recentes trabalhos fizeram-no, obviamente, porque esperavam encontrar impregnado nas suas paredes o espírito de Jimi Hendrix. A mesma coisa se pode pensar de Abbey Road, o estúdio que se reconhece universalmente como a "casa dos Beatles". Quando gente como Radiohead ou Blur decidiu gravar em Abbey Road esperava certamente encontrar a abertura técnica que ajudou a revolucionar a música quando John, Paul, George & Ringo aí trabalharam com George Martin, provavelmente o primeiro engenheiro de som do mundo a ser galardoado com o título de Sir.

Em Portugal, só um estúdio pode reclamar um lugar assim na História: o estúdio da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. A operar desde o início dos anos 60, o estúdio de Paço de Arcos foi o resultado da visão de uma família que desde muito cedo se entregou de corpo e alma ao negócio da música. O estúdio de gravação de música opera nas actuais instalações desde 1991 e foi estreado por Rui Veloso, que aí registou Auto da Pimenta. Nessa altura, as instalações originais foram reconvertidas em estúdio de televisão e ainda hoje opera nessa área - é o estúdio a partir do qual diariamente se emite o programa Curto Circuito da SIC Radical, por exemplo. E isso só acontece porque, quando se concebiam estúdios nos anos 50 e 60, pensava-se obrigatoriamente em espaço suficientemente amplo para gravar orquestras. E houve bastantes orquestras a gravar em Paço de Arcos, um estúdio que representa o culminar de um caminho no mundo da gravação e edição de música que começou na década de 30.

Da Rua Nova do Almada à Costa do Castelo

"Gravámos muito no Clube Estefânia", recorda Hugo Ribeiro, histórico engenheiro de som que há décadas está ligado à Valentim de Carvalho. "Mas nesse clube só podíamos gravar quando não estavam a jogar bilhar". A Valentim iniciou-se nas gravações no primeiro andar da histórica loja da Rua Nova do Almada, "numa máquina RCA que gravava directamente para um disco de 78 rotações, que depois tínhamos que enviar para Inglaterra". Amália Rodrigues, talvez a maior referência do catálogo da Valentim, começou a gravar na Rua Nova do Almada, depois de uma experiência no Brasil, ainda em 78 rotações. "O maior drama desse tempo", adianta Ribeiro, "residia no facto de não podermos ouvir o que gravávamos. Quando as gravações eram directas para o disco, o resultado seguia imediatamente para Inglaterra e as provas demoravam cerca de 15 dias a chegar - mas os discos mesmo demoravam mais tempo. Vinham de barco e às vezes os barcos eram afundados...". Afinal de contas, estes eram os dias da II Guerra Mundial e o conflito, apesar da neutralidade de Salazar, também afectava o nosso país. "Lembro-me de um dia o senhor Cunha, da loja da Rua Nova do Almada, ser preso", recorda Hugo Ribeiro. "Foram uns alemães lá à loja e compraram um disco chamado Der Fuhrer's Face - feito a partir de uma canção italiana muito conhecida na altura, "La Torre de Pisa", e a insultar o Hitler. O senhor alemão, que era da embaixada, exigiu levar os discos todos - e passado um bocado estava lá a PIDE".

A indústria discográfica neste tempo era ainda muito incipiente e um sucesso arrasador significava um par de milhares de cópias vendidas. Para isso, aliás, existia a fábrica de discos que a Valentim de Carvalho tinha no Campo Grande, dedicada unicamente à prensagem de 78 rotações. Com o crescimento das vendas, cresceu também a ambição. Naturalmente começou a pensar-se, dentro da Valentim, em expandir o negócio - e para isso era preciso gravar mais e melhor. "Foi o senhor Rui", explica Hugo Ribeiro referindo-se a Rui Valentim de Carvalho, "que a dada altura foi a Londres escolher as máquinas em que haveríamos de gravar por cá". Destino da viagem? Os estúdios de Abbey Road, pois claro. Com essas máquinas adquiridas em Londres - de marca EMI e Magnetophon - fizeram-se ainda gravações na Rua Nova do Almada e na tal sala do Clube da Estefânia, que tinha vários inconvenientes, além das mesas de bilhar. "Às vezes estava a gravação a correr muito bem e os pavões de um jardim lá ao lado começavam a fazer uma algazarra horrorosa - e lá tínhamos nós que começar de novo". Era imperativo arranjar um espaço com melhores condições e foi aí que nasceu o antepassado directo do Estúdio de Paço de Arcos - o estúdio da Costa do Castelo que funcionava onde hoje se encontra o Teatro Taborda. "A mudança para a Costa do Castelo aconteceu em 1950 ou 1951", relata Hugo Ribeiro, que já acompanhou essa mudança, ao lado de Rui Valentim de Carvalho. Autodidacta, a única ligação anterior de Hugo Ribeiro à música vinha da sua paixão pela ópera e pelo canto. Só muito mais tarde, no arranque dos anos 70, passou pelos estúdios de Abbey Road, em Londres, e da Pathé-Marconi, em Paris, para aperfeiçoar os seus conhecimentos.

Entre os discos que gravou no estúdio da Costa do Castelo estava, por exemplo, O Fabuloso Marceneiro, de Alfredo Marceneiro, que, de acordo com Hugo Ribeiro, "vendeu muito bem e foi muito falado". E a verdade é que já nesta altura os artistas tinham as suas manias e havia que improvisar para os contentar: "o Marceneiro não queria gravar com luz - só que na Costa do Castelo a luz entrava por todo o lado. E ele já estava para se ir embora quando eu tive uma inspiração do momento: ele usava um lencinho ao pescoço e eu tirei-lho e tapei-lhe os olhos e ele disse--me logo "ai Ribeirinho, assim sim, ainda é mais escuro do que numa casa de fados"". Nessa sessão, Marceneiro gravou 12 fados de seguida, que foram depois editados com aquele título num disco que tinha na capa uma fotografia de Calvet de Magalhães.

O estúdio de Paço de Arcos

Quando Rui Valentim de Carvalho convenceu o seu tio, patriarca da família, a comprar o terreno para um estúdio novo em Paço de Arcos, o desenvolvimento ainda não tinha transformado a face do que era, muito basicamente, uma pequena vila às portas de Lisboa. "Isto aqui era muito bonito", recorda Fernando Cortez, técnico que iniciou carreira em 1964 já no estúdio de Paço de Arcos, ao lado de Hugo Ribeiro. "É verdade... tínhamos ovelhas aqui à porta e tudo. Isto era um estúdio no meio do campo e tinha vantagens: nos dias em que as gravações se atrasavam íamos aos caracóis...". O projecto do edifício do estúdio da Valentim de Carvalho foi concebido, ainda nos anos 50, pelo arquitecto Calvet de Magalhães, "irmão do fotógrafo que fez a capa do Marceneiro", esclarece Hugo Ribeiro.

O estúdio ficou pronto em 1960, mas só em 1963 começou a laborar normalmente, depois de um longo processo de testes acústicos e de equipamento, liderado por engenheiros de Abbey Road. O estúdio da Valentim era aliás uma réplica de uma das salas de Abbey Road - facto que deve ter contribuído para o prestígio que conquistou e que atraiu a Portugal nomes como António Machin (de Cuba), Joan Manuel Serrat e Julio Iglesias (de Espanha) - "que gravou cá logo após ter abandonado o futebol", especifica Hugo Ribeiro -, Cliff Richard e os Shadows (de Inglaterra) ou Vinicius de Moraes e Sivuca (do Brasil), entre muitos outros (ver caixa). "Quando o Vinicius chegou cá para gravar, trazia um copo na mão", relembra Hugo Ribeiro. ""Tem aquilo que eu pedi", perguntou. E eu: "aquilo o quê? Os pastelinhos de bacalhau?" Ele nem me respondeu, virou costas e preparou-se para se ir embora. E eu tive que correr atrás dele e dizer-lhe que estava a brincar e que ele podia estar descansado - as garrafas de whisky que tinha pedido já estavam no estúdio".

Excerto de artigo originalmente publicado na BLITZ de abril de 2007

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