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A história secreta de António Variações

A sua vida e a sua música persistem, ainda hoje, um mistério que ajuda a manter vivo o mito. Viajámos ao passado em busca do artista e do homem e lançamos luz sobre os primeiros passos da vida pública do inventor da pop nacional. O seu nome era António e faria hoje 72 anos se fosse vivo

O inventor da pop portuguesa foi um português. António Joaquim Rodrigues Ribeiro, natural do Lugar de Pilar, Fiscal, freguesia do concelho de Amares, que chegou a Lisboa com apenas 12 anos, em 1956. No mesmo ano, a partir da Feira Popular a então recém-criada RTP dava início às primeiras emissões experimentais de televisão. António seguia o fluxo natural dos filhos do Portugal rural desse tempo. Era um de doze irmãos, filhos de Deolinda de Jesus e Jaime Ribeiro, e tal como o resto da prole cedo se fez à vida. Se no caso dos seus irmãos e irmãs, sair da terra não foi propriamente uma opção, antes uma necessidade forçada pelas deficientes condições de vida, para António, a vinda para Lisboa nasceu de uma funda determinação pessoal, como acredita Manuela Gonzaga, a biógrafa que assinou António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (Âncora Editora, 2006): «o António fez a escolaridade obrigatória, até à quarta classe. Chegou a levar uma sova do pai, trabalhou desde cedo, mas sempre com a firme ideia de um dia vir para Lisboa. E esse dia chegou, tinha cá a irmã Lurdes, talvez a que mais privou com ele, e começou a trabalhar como marçano. Ao mesmo tempo estudava à noite, fez o curso comercial na Voz do Operário. Era culto e estudou muito. Gostava de arte popular e comprava coisas que muita gente considerava lixo, em sítios como a Feira da Ladra. Foi amigo do Carlos Barroco, da Galeria Novo Século, com quem gastava horas a falar de arte popular. Também ia ao teatro, ao D. Maria II, ver peças clássicas. O António fez-se a si próprio, em termos culturais».

«A minha vida em Braga consistia em ir à escola, à catequese, e auxiliar em pequenos trabalhos na quinta», recordava em 1983 António Variações, em entrevista citada nas páginas da biografia de Manuela Gonzaga. «Lembro-me que detestava arranjar a erva para os nossos coelhos. Gostava era de ir às romarias, ver o folclore. Nessa altura comecei a despertar para a música. O meu pai, embora agricultor, tocava muito bem acordeão e cavaquinho». Tudo no passado de António concorreu para fazer o artista que haveria de marcar a cena musical portuguesa dos anos 80 (e mais além.) com uma forte e original identidade. Em «Olhei Para Trás», tema escondido a meio do lado B do álbum Dar & Receber, faz o filme do abandono da aldeia, da chegada à cidade, dos sonhos e anseios que o moviam: «e assim saí daí / de olhar para trás / pensamento em frente / em frente não havia mais nada não / do que um comboio, a cidade / um navio e um avião».

Tímido e extravagante

Em Lisboa, começou por viver num quarto alugado na Rua do Vale de Santo António, entre a Graça e Santa Apolónia, e começou a imiscuir-se na cidade, a beber nas suas fontes de cultura, nos teatros e cinemas, desenvolvendo paixões como a que o ligava a Marilyn Monroe. Luís Carlos Amaro, músico que tocou com António Variações ainda antes de qualquer disco ter sido registado e que mais tarde haveria de formar os Jovem Guarda, uma das bandas que marcou presença na compilação Divergências, lançada pela Ama Romanta de João Peste, recorda que a única «zanga» que teve com o cantor aconteceu a propósito da «bombshell» americana: «sempre nos demos muito bem, partilhávamos muitos gostos no que à música dizia respeito e só me recordo de um pequeno desaguisado quando um dia cometi o erro de lhe dizer que não achava que Marilyn Monroe fosse assim tão boa atriz».

Tanto Luís Carlos Amaro como Manuela Gonzaga ou Teresa Couto Pinto, que fotografou António e com ele trabalhou na qualidade de agente, recordam a sua casa como o centro de uma identidade visual muito particular. «Quando entrei na casa dele tive uma epifania», recorda a biógrafa, que por mais de uma ocasião entrevistou o cantor ao serviço da revista Música & Som, primeiro, e do Diário de Notícias, mais tarde. «Ele elevou o patamar do kitsch a uma forma de cultura a que nós não estávamos ainda habituados. As paredes de casa estavam pintadas de verde, tinha coleções de arte das Caldas da Rainha, numa altura em que a louça das Caldas não estava na moda como está hoje». Variações encontrou-se visualmente muito antes de perceber qual a direção musical que haveria de seguir. Teresa Couto Pinto faz questão de frisar que a sua «excentricidade» visual já se encontrava bem apurada antes de a música o levar até palcos de elevada exposição como o do programa televisivo Passeio dos Alegres, de Júlio Isidro. «Quando ele ainda trabalhava no [cabeleireiro] Baeta, em Alvalade, já era vistoso e chamava a atenção das pessoas ficava tudo de olhos arregalados a olhar para ele», acrescenta. «Quando descia a Avenida da Liberdade vestido de branco, com chapéu colonial e um papagaio de madeira no ombro», recorda, em perfeita sintonia, Manuela Gonzaga, «ele parava o trânsito».

Apesar de vincar a diferença todos os dias pela forma como se vestia e comportava, quem conheceu António Variações explica sempre que a sua verdadeira natureza era a de um homem reservado, com um agudo sentido de privacidade, tímido até. «Era meigo, mas não era homem de andar aos beijinhos», conta Teresa Couto Pinto. «Mantinha as suas diferentes esferas, pessoais e profissionais, muito bem delimitadas», reforça a sua biógrafa. O que levanta a questão da identidade sexual de Variações. Ou de António Joaquim Ribeiro. «O António era muito amigo do cabeleireiro Fernando Ataíde, que era homossexual, e viria a apaixonar-se e a casar mais tarde com a Rosa Maria, mantendo sempre a amizade com António. As relações dele andavam muito à volta deste grupo de cabeleireiros de alto nível, pessoas com muito acesso à cultura, à moda», conta Manuela Gonzaga, a quem Rosa Maria, fundadora do famoso bar Trumps, confirmou mesmo a relação que o marido, entretanto já falecido, manteve com António. «Essa dimensão da identidade sexual de António foi sempre encarada por ele mesmo com enorme dignidade. Só quem o conheceu de perto é que tomou conhecimento da sua homossexualidade, que nunca foi apregoada», explica Manuela Gonzaga.

O cabeleireiro canta

António Ribeiro ligou-se à Valentim de Carvalho em 1978, num gesto premeditado que representava o culminar de um percurso pelas noites de Lisboa, onde essa vontade, essa vocação musical já era óbvia. «Em miúdo, era surpreendido várias vezes a cantar em frente ao espelho. Era ali que atuava. Tenho sido um cantor de casa de banho e não foi nada fácil chegar até ao palco. Tive de atravessar um corredor muito longo. Dá-me ideia que nasci demasiado cedo. É que se tudo tivesse corrido como devia ser, já teria aparecido há dez anos. Mas nessa altura ninguém entendia o meu trabalho, a minha conceção estética», confessava o cantor a Belino Costa, em 1982, citado na biografia de Gonzaga. Em Luanda, onde esteve estacionado a cumprir serviço militar, em finais dos anos 60, foi vocalista de uma banda; depois, já nos anos 70, serviço militar cumprido, conheceu Fernando Heitor, fundador da Companhia de Teatro Os Cómicos, com ligações à Comuna de João Mota, que para ele escreveu letras e o levou a apresentar-se em festivais amadores, incluindo um na Igreja Nossa Senhora de Fátima, na Avenida de Berna, que ganhou; com os ares de liberdade do pós 25 de Abril, espaços noturnos como o Scarlaty e, mais tarde, logo nos alvores da década de 80, o Trumps, foram igualmente etapas na afirmação musical de António, em espetáculos mais ou menos amadores que não o contiveram.

Mário Martins, funcionário da Valentim de Carvalho com um currículo ligado às carreiras de nomes como Frei Hermano da Câmara, Carlos Paião, José Cid e, sobretudo, Marco Paulo recorda como António Joaquim Ribeiro lhe chegou às mãos, em 1978: «a [então atriz de teatro, depois jornalista] Maria Elisa, que eu conhecia através da Maria Germano Dias, do Conservatório Nacional, apareceu-me lá um dia na Valentim de Carvalho com o António, que ainda não se chamava Variações, apresenta-mo e diz "aqui tens o meu cabeleireiro, ele canta". Ouvi-o, penso que ele me levou uma cassete, e eu disse "sim senhor, vamos trabalhar juntos", mas depois veio a dificuldade, que era recorrente, de lhe arranjar reportório», conta o antigo funcionário da Valentim de Carvalho. Mário Martins explica que António não revelou imediatamente que também escrevia canções «ele era muito reservado» e ficou a aguardar que o reportório aparecesse. «O tempo foi correndo, terá decorrido um ano, e o António voltou a aparecer-me nos escritórios pela mão do ator e cantor Carlos Quintas», recorda o editor. «Foi nessa altura que assinámos o contrato que já estava acordado desde o ano anterior».

É óbvio que António se movia em diferentes círculos, facto que por si só comprova a tal vontade de singrar no mundo da música. Tinha relações com os universos da moda e da arte, mas também do teatro e de diferentes esferas da música: nesta época, não só podia entrar nos escritórios da Valentim de Carvalho pelas mãos de Carlos Quintas como poderia embrenhar-se na então nascente cultura punk. Em janeiro de 1979, Carlos Barroco, da Galeria Novo Século, organizou um evento nos Alunos de Apolo para assinalar os 25 anos do rock'n'roll, noite mítica em que os Faíscas, de Pedro Ayres Magalhães, literalmente passaram o testemunho aos Xutos & Pontapés de Zé Pedro, que aí realizaram a sua primeira apresentação pública. António estava presente, a cortar cabelos, contribuindo para o curioso colorido da época que prenunciava a chegada de uma nova era à música portuguesa: os Faíscas transformavam-se em Corpo Diplomático, a antecâmara dos Heróis do Mar, banda que, a par de Variações, mais contribuiu para alterar os destinos pop do nosso país.

Sem que a Valentim de Carvalho desse passos para a concretização do contrato, António viu-se obrigado a recorrer à ajuda do irmão, Jaime Ribeiro, advogado, que dirigiu por escrito um ultimato à editora. Nas páginas da biografia, o advogado recorda essa intervenção a favor do irmão: «ainda tenho a cópia dessa carta que enviei, solicitando o cumprimento do contrato que a editora tinha assumido com o meu irmão. O facto é que passados uns meses chamam-no para ir para estúdio. E ele disseme: "Olha, afinal a tua carta deu resultado, já me chamaram: vou gravar!". Estava todo contente. Era a realização do seu sonho».

O disco abortado

«Não recusei a responsabilidade que me foi imputada nessa carta», confirma hoje Mário Martins, «e decidi tomar uma atitude extrema e avançar para a gravação». O antigo executivo admite que naquela altura não foi imediatamente óbvio o rumo que se deveria imprimir à carreira de António. «Achei que havia ali umas semelhanças de timbre com o Frei Hermano da Câmara, qualquer coisa que me remetia para o folclore e decidi assim trabalhar com o maestro Jorge Machado, com quem fazia muitos trabalhos na época, um homem competentíssimo».

António gravou «quatro números», de acordo com Mário Martins, incluindo duas canções da sua própria lavra: o que viria a ser «Voz Amália de Nós» e «Deolinda de Jesus», duas canções que, curiosamente, fechariam mais tarde os alinhamentos dos dois álbuns de António Variações. O disco, no entanto, não chegou a sair. O departamento de A&R da Valentim de Carvalho foi reestruturado, com Nuno Rodrigues, da Banda do Casaco, a assumir o lado mais moderno do catálogo e Mário Martins a ficar, por outro lado, com os nomes mais «conservadores» da casa.

Nuno Rodrigues haveria então de reclamar o artista que se estrearia em 1982 com o single que incluía os temas «Estou Além» e a versão de «Povo Que Lavas No Rio», mas António, ansioso por gravar e imprimir a sua visão em disco, ainda teve outra experiência antes disso. «Foi o meu primo, Pedro Lata, estilista durante um determinado período, que me falou do António, no Trumps», conta Luís Carlos Amaro. «Lembro-me de ele me falar da barbearia que o António tinha na Rua de São José, à Avenida da Liberdade. Depois, um dia, no Meia de Rock da Renascença os programas de rádio eram muito importantes nesta altura para nos ligarmos às coisas ouvimos dizer que o António procurava músicos para tocar». Luís Carlos Amaro e o irmão Vasco baixista e guitarrista, respetivamente decidiram ir à Rua de São José oferecer os seus serviços a António.

«Estávamos em 1980 e ainda não tinha saído nenhum disco dele», reforça o músico, hoje designer gráfico. «Percebemos que tínhamos pontos de contacto na música gostávamos todos dos Roxy Music e dos Velvet Underground, dos Joy Division... Estávamos em sintonia e por isso combinámos um ensaio». O primeiro ensaio, de acordo com as memórias de Luís Carlos Amaro, aconteceu num espaço em Santos, «de um músico mais velho», mas não correu bem. «Tenho ideia que esse músico terá dito ao António que a coisa não funcionava connosco, porque éramos mais "verdes", mas ele sentia que falávamos a mesma língua musical e decidiu continuar a trabalhar connosco. Passámos então a ensaiar na casa dele, que era na Rua Bernardim Ribeiro».

Vasco e Luís Carlos Amaro foram os músicos que secundaram António numa primeira gravação que o Meia de Rock da Rádio Renascença efetuou em casa de António: «tenho ideia que gravámos o "É P'rá Amanhã", que tocávamos num registo de caixa de ritmos e órgão, num balanço assim meio reggae, o "Perdi a Memória" e talvez o "Já Não Sou Quem Era"». No livro de Manuel Gonzaga, as memórias de Rui Pego, que hoje dirige as rádios do Estado apontam para outro reportório, mencionando «Toma o Comprimido» e «O Corpo É que Paga», o que talvez possa indicar que foram várias as músicas ali registadas. Munido dessas gravações, o Meia de Rock começa a tocar António & Variações [o nome adotado pelo conjunto] numa base quase diária, forçando a Valentim pressionada pela carta de Jaime Ribeiro a avançar. Pelo meio, entretanto, a prova definitiva de que António poderia funcionar num outro patamar: a primeira exposição pública no Passeio dos Alegres de Júlio Isidro, precisamente com «Toma o Comprimido», que parece ter sido a cura para o impasse editorial em que o cantor estava envolvido.

O fator Júlio

«Conheci o António na Isabel Queiroz do Vale, no [Centro Comercial] Imaviz, onde ele me cortou o cabelo», revela Júlio Isidro. «Ele tinha aquele ar exótico, estava a cortarme o cabelo e dizia "sabe, eu também faço umas canções"». Perante esta abordagem, Júlio Isidro pediu uma gravação a António Variações e deu-lhe o número de telefone. «Uns dias depois veio ter comigo a um restaurante, bem perto dali, de cajado e com samarra, e deu-me uma cassete: "olhe, fui gravar isto, chama-se "O Comprimido", ouça e se achar que vale a pena diga-me qualquer coisa". Nessa mesma noite, depois de ouvir essa cassete, telefonei-lhe». A cassete que Variações entregou a Júlio Isidro continha, muito provavelmente, a mesma gravação que também chegou às mãos de Rui Pego e António Duarte, e que convenceu a equipa de Meia de Rock a avançar para uma sessão mais profissional. Terá sido numa dessas primeiras passagens na rádio de «Toma o Comprimido» que Luís Carlos Amaro ouviu dizer que António procurava músicos para trabalhar, porque, de facto, essa primeira gravação era ainda muito primitiva.

«Quando foi a reunião de produção, para a qual convidei o António, toda a gente ficou espantadíssima porque vinha vestido com um traje inspirado no dos toureiros. Depois, no dia da transmissão, fez playback total sobre aquela gravação pré-histórica que eu soube que ele tinha feito num estúdio de Campo de Ourique. Na altura, o Mário Martins disse-me que não se sabia bem como se haveria de apresentar um artista como o António, mas a aparição dele na TV acabou por ser importante para os convencer», reforça Júlio Isidro. «O público aderiu imediatamente, sem reservas», garante hoje o apresentador. «Vestia umas calças aos quadrados pretos e amarelos e uma blusa enorme, tudo muito colorido e exótico. Levava os bolsos cheios de smarties que atirou no final da canção. As pessoas acharam muita graça, o que foi curioso porque as reações seguiram contrariamente ao tradicional conservadorismo português».

Quem também sempre fez questão de seguir em sentido contrário ao do tradicionalismo português foi Nuno Rodrigues, membro da Banda do Casaco, que em 1978 ingressou no gabinete de A&R da Valentim de Carvalho, encetando assim uma carreira paralela como editor. «Quando eu ganhei a minha independência e o departamento de Artistas & Reportório foi dividido entre mim e o Mário Martins, comecei a estudar os dossiês dos artistas que tínhamos na calha e um chamou-me a atenção "António Ribeiro, 30 e tal anos, profissão barbeiro"». «Nesta altura», prossegue Nuno Rodrigues, «o disco que o António fez com o maestro Jorge Machado já estava pronto, mas não me entusiasmou nada e eu pedi uma reunião com ele para falarmos de outras opções». Nuno Rodrigues, hoje em dia à frente da Companhia Nacional de Música e responsável pela edição recente das duas caixas antológicas da Banda do Casaco, faz questão de frisar que nada o movia contra Jorge Machado «com quem aliás trabalhei mais tarde» mas que sentiu que aquela não era a direção correta para aquele artista. «Não tinha nada a ver com o rock ou com a pop», esclarece.

«Quando o António apareceu na Rua Nova do Almada onde estava instalada a Valentim de Carvalho - para falar comigo», recorda Nuno Rodrigues, «percebi que o homem deveria ter feito parar o trânsito todo no Chiado. O que ainda me fez mais confusão: como é que um homem com aquele ar tinha preparado para sair um disco de música ligeira? Achei que não podia ser.». Nuno Rodrigues não tem problemas em afirmar que o trabalho que realizou com António Variações representa o apogeu do seu percurso como produtor: «o António não tocava nenhum instrumento, escrevia as canções a cantarolar e a bater com os dedos na mesa. Ele tinha muito potencial, mas era um problema, porque não se sabia exatamente como trabalhar um artista assim. Mas o Francisco Vasconcelos (diretor da editora Valentim de Carvalho) teve uma ideia e disponibilizou-se uma verba para se pagar a músicos para trabalharem com o António, situação pouco comum na época».

Por fim, Variações

Com os recursos económicos assegurados e o reportório eleito Nuno Rodrigues assistiu a alguns ensaios de António & Variações, assim se denominava então o projeto, em casa do próprio artista, contactando portanto com o trabalho dos irmãos Amaro decidiu-se então avançar para estúdio. Luís Carlos ainda esteve presente nas sessões de gravação de «Estou Além» e «Povo Que Lavas No Rio», que decorreram em Paço de Arcos, mas nem ele nem o irmão participaram no resultado final. «Percebemos que naquele momento ele tinha que trabalhar com profissionais e conseguimos ver que ele estava a realizar finalmente a sua visão», afirma.

«Os músicos que rodeavam o António», explica Nuno Rodrigues, indo de encontro às memórias de Luís Carlos Amaro, «não me davam garantias e por isso escolhi outros para trabalharem com ele. No primeiro single tocam o Tó Pinheiro da Silva e o Celso de Carvalho, ambos da Banda do Casaco, e também o Ricardo Camacho, ainda antes de começar a trabalhar com a Sétima Legião». A esta distância, Nuno Rodrigues confessa que a sua autonomia dentro da Valentim de Carvalho à época lhe permitiu avançar para o trabalho sem auscultar reações à escolha de reportório. Amália, voz original de «Povo Que Lavas no Rio», era um tesouro muito protegido dentro daquele catálogo, mas o produtor nem sequer hesitou quando o cantor lhe propôs gravar esse tema: «eu próprio respeitava imenso a Amália, mas nem sequer me passou pela cabeça que estivesse a mexer nalgum reportório sagrado».

A própria Amália terá aprovado António e Teresa Couto Pinto até recorda uma ocasião em que a diva conheceu o seu discípulo: «ele um dia visitou-a e ela pediu-lhe um anel que ele levava posto no dedo. Ele recusou, porque era apenas uma colher dobrada, mas tinha muito valor sentimental porque tinha sido um presente de um namorado. Sei que a Amália o respeitava, mas não tenho total certeza que ela o tenha percebido inteiramente».

Quem também não o percebeu terá sido o crítico Trindade Santos, citado nas páginas de António Variações, que não teve pejo em arrasar o homem que admitia ter «ascendido ao grau fundador do pop português com esta sua pérola», referência irónica à versão de Amália que o crítico acreditava ter sido «desfigurada» pelo «infernal uivar de António». O futuro, no entanto, reservou outras sentenças para este homem.Na hora de colocar o disco na rua, foi David Ferreira, que haveria de administrar a EMI-Valentim de Carvalho por muitos anos, que tomou a decisão de deixar cair o «&» que separava António do seu grupo Variações, tornando o artista não o frontman de um coletivo, mas uma figura absolutamente singular que haveria de iluminar a pop por muitos e bons anos, deixando nas suas lendárias cassetes reportório suficiente para alimentar o fenómeno em que se traduziu o disco do supergrupo Humanos que juntou gente dos Clã, David Fonseca e Camané. Hoje, há toda uma nova geração que dos Diabo na Cruz a B Fachada reclama inspiração na curta obra de um homem que viveu mais rápido do que o seu próprio tempo deixando no entanto um «cadáver» bonito: um portentoso single de estreia, dois álbuns de originais muito à frente do seu tempo e uma postura inédita que inventou uma colorida aura pop para a então ainda cinzenta cena musical nacional.

«O António, pela maneira como estava perante a vida, pela música que fez, nunca negou as suas origens», sublinha Teresa Couto Pinto. «Preferia imaginar-se entre Braga e Nova Iorque, entre dois mundos. E assim criou a sua própria realidade». Essa realidade continua a refletir-se: o mais pop de todos os festivais, o Rock In Rio, preparou-lhe uma homenagem. Que a vénia seja feita por artistas como Deolinda, Rui Pregal da Cunha, Gisela João ou Linda Martini já quase tudo diz da dimensão deste mito. Maior que a vida.

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