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George Harrison, o “místico” dos Beatles, morreu há 15 anos

Passou a vida a sentir ter chegado em último lugar: era o mais novo de quatro irmãos, e também o mais novo dos quatro Beatles. Foi o mais “global” dos “fab four”, tendo abraçado a música indiana, que cruzou com o psicadelismo. A solo, deixou obra de respeito. Morreu aos 58 anos, em 2001

George Harrison passou a vida a sentir ter chegado em último lugar: era o mais novo de quatro irmãos, e também o mais novo dos quatro Beatles. Foi a 25 de Fevereiro de 1943 que George nasceu, tendo passado a viver com dois irmãos, uma irmã e os pais, Harold e Louise, no modesto número 12 de Arnold Grove, em Liverpool. A primeira escola frequentada por George foi a Dovedale Primary School, muito próxima de Penny Lane, onde John Lennon, um par de anos mais velho, era também aluno.

Foi muito cedo que George demonstrou ter uma forte inclinação para a música e um sério desdém pelo rígido sistema escolar inglês. Ainda assim, aos 11 anos, foi aceite no Liverpool Institute For Boys, que frequentou entre 1954 e 1959, os anos de descoberta do nascente rock and roll. Nessa época, George passava as aulas a desenhar guitarras e a sonhar com a música, facto que levou a sua mãe a dar-lhe as 3 libras e 10 pence necessárias para adquirir uma velha guitarra acústica a um colega de escola. O seu amor pela música foi-se acentuando e terá servido de elemento de aproximação a Paul McCartney que, tal como ele, viajava diariamente no autocarro vivia a uma paragem de distância e também adorava música. A amizade entre os dois cresceu, embora Paul sempre tivesse subalternizado George pelo facto de frequentar um grau mais adiantado na escola e de ser ligeiramente mais velho. Mas ainda assim, os dois juntavam-se com frequência para tocarem guitarra e para falarem nos seus ídolos Carl Perkins, Duane Eddy ou os EverlyBrothers.

Foi em Julho de 1957 que Paul McCartney se deslocou a Woolton para uma festa na igreja de St Peter onde iriam tocar os Quarry Men de John Lennon. As sessões com George renderam efeitos pois uma interpretação rigorosa de «Twenty Flight Rock» valeu a Paul um convite para integrar os Quarry Men. Não tardou para que McCartney apresentasse George a John Lennon, que, num gesto de típica arrogância adolescente, não terá inicialmente ficado impressionado com os talentos do aspirante músico, dois anos e quatro meses mais novo. Mas George era um bom guitarrista e John acabou por ceder. Stuart Sutcliffe e Pete Best foram duas figuras que entraram na vida do trio por esta altura Stu era estudante de arte e amigo de John enquanto Pete orbitou para a vida de George através do seu envolvimento no grupo de skiffle The Les Stewart Quartet. Pouco tempo depois, todos se encontraram em Hamburgo, para uma série de concertos conseguidos à custa da reputação angariada em Liverpool.

Foi em Hamburgo que o ainda menor George perdeu a virgindade num quarto apertado cheio de beliches, enquanto os colegas o encorajavam: «Eles não conseguiram ver nada porque eu estava debaixo dos cobertores, mas depois de eu terminar todos aplaudiram», comentou, anos mais tarde. A era dos Beatles foi atribulada para George que teve sempre grandes problemas em impor as suas composições a Paul e a John, que funcionavam como uma unidade estanque que, de certa forma, desprezava os esforços de composição do mais jovem colega de grupo. Mas de Help! em diante o talento inegável de George garantiu-lhe algum espaço nos álbuns e canções como «Taxman», «Here Comes The Sun», «Something» ou «While My Guitar Gently Weeps» passaram a fazer parte de pleno direito do cancioneiro dos Beatles. George foi igualmente o primeiro a acusar o cansaço das digressões constantes e da agitação permanente gerada pela beatlemania. Por isso mesmo abraçou a filosofia e a música orientais, ajudando a introduzir a sonoridade de instrumentos indianos como a sitar. «Within You Without You», de Sgt Pepper's..., por exemplo, contava com a participação exclusiva de músicos indianos.

George conseguiu mostrar ter uma vida para lá dos Beatles. Casou duas vezes, teve um filho Dhani Harrison, contribuiu com somas assinaláveis para causas nobres (ajudou a organizar o mítico Concerto para o Bangladesh) e construiu uma irregular, mas aplaudida discografia a solo além de formar o supergrupo Travelling Wilburys com Jeff Lyne, Roy Orbison, Bob Dylan e Tom Petty, em 1988. George nunca ultrapassou o assassinato de Lennon, em 1980, apesar do reduzido contacto mantido com ele, muito graças aos problemas que tinha com Yoko Ono. Apesar do seu lado meditativo, George nunca deixou de ser um rapaz das ruas de Liverpool. Ele referia que isso era uma característica do seu signo Peixes: «O símbolo do Peixes tem dois peixes a nadar em direcções opostas e eu tenho esses dois lados».

George Harrison, membro da Ordem do Império Britânico, comenda que recebeu das mãos da rainha tal como os seus companheiros, era apaixonado por meditação transcendental e pela velocidade da Fórmula 1. Faleceu em Los Angeles de cancro nos pulmões a 29 de Novembro de 2001. Tinha 58 anos.

Publicado originalmente na BLITZ Extra dedicada aos Beatles, em setembro de 2009