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CD “30 Anos a Rockar!”, dos Peste & Sida, grátis com a BLITZ de dezembro: leia aqui a entrevista

Ao longo de três décadas, nas suas diversas mutações, afirmaram-se como uma das mais teimosas propostas rock nacionais – um verdadeiro caso de culto. 30 Anos a Rockar!, o CD que recebe este mês com a BLITZ, é o documento da celebração. João San Payo, João Alves e Sandro Oliveira abrem o jogo

É longa a história dos Peste & Sida. João San Payo (voz, baixo), atual líder e único «sobrevivente» da formação original que há 30 anos lançou Veneno, recorda aqui, na companhia dos atuais cúmplices João Alves (guitarra) e Sandro Oliveira (bateria), as estórias que sustentam estas décadas de estrada. O pretexto é 30 Anos a Rockar!, CD que recebe gratuitamente com a BLITZ deste mês e que contém quatro temas gravados ao vivo em novembro de 2015 (no RCA Club, em Lisboa), na comemoração das reedições dos primeiros álbuns, e três canções do último disco de originais da banda, Não Há Crise (2011). É, sobretudo, um presente para os fãs: os de sempre e os que agora os descobrem.

Qual é o primeiro capítulo importante na vida dos Peste e Sida?
João San Payo:
A primeira vez que pisámos um palco fica para todo o sempre como o momento mais marcante da história dos Peste & Sida. Eu, o Luís [Varatojo] e o [Fernando] Raposo tínhamos alguns ensaios quando, de repente, choveu um convite por telefone para concorrermos à eliminatória regional do concurso de bandas jovens da Festa do Avante!. Completamente apanhados de surpresa, sem vocalista ou sequer nome de banda decidimos alinhar. Eu conhecia o João Pedro Almendra do liceu e do bairro de Alvalade, sabia que ele tinha deixado os Ku de Judas e liguei-lhe porque havia este primeiro objetivo a cumprir. Estávamos a uma semana, ele alinhou, fizemos três ou quatro ensaios na Galeria Monumental e em quarteto – eu, o João Pedro Almendra, o Luís Varatojo e o Fernando Raposo –, fomos até Odivelas nesse dia 11 de julho de 1986 para tocar em público pela primeira vez – o Orlando [Cohen] só viria a juntar-se a nós no fim do ano. Ainda tenho um backstage pass desse dia onde por gozo escrevi «Peste del Pop» mas, na verdade, só após algumas semanas, depois da nossa segunda atuação (no coreto de Sacavém), é que decidimos ser os Peste & Sida.

O CD que oferecem com a BLITZ abre com «Uma História de Loucos» e termina com «Sem Rede»... Poderiam usar esses títulos para descrever a história do grupo, não?
JSP:
«Uma História de Loucos» pode bem refletir e resumir a forma feliz como os Peste & Sida nasceram e os muitos bons e piores momentos que já vivemos ao longo destes trinta anos: os três primeiros anos dourados do Veneno e do Portem-se Bem!, de 86 a 89, os anos de lenta degradação do Peste & Sida É Que É! e do Eles Andam Aí! com as saídas de elementos da formação inicial e as entradas de novos membros, de 90 a 92, e os anos de convulsão e conflito de interesses no seio da banda de 92 a 94 que culminaram numa paragem de oito anos. Quando, em 2003, avanço com a reativação dos Peste & Sida com o Orlando Cohen, o João Alves e o Marte Ciro, a incerteza da aceitação (ou não aceitação) depressa ficou esclarecida com uma lotação esgotada no Santiago Alquimista. Foi uma aposta «Sem Rede» que rapidamente se converteu em mais um capítulo feliz desta «História de Loucos» e que até agora veio acrescentar centenas de atuações ao vivo, mais três álbuns de originais, um livro biográfico (escrito pelo Renato Conteiro e pelo Augusto Figueira) com um CD tributo de mais de 20 bandas nacionais a interpretarem temas de Peste & Sida e as tão desejadas reedições em formato digital dos três primeiros álbuns da banda pela Rastilho.
João Alves: História de loucos é insistir em ter uma banda hoje em dia! Trabalhar nisto em Portugal é um trapézio sem rede. Sem lamentos, é assim mesmo.

Quais foram os principais modelos dos Peste & Sida no início?
JSP:
O punk britânico e a new wave foram, sem dúvida, as nossas maiores influências. Não gosto de falar pelos outros, preferia que fosse o próprio João Pedro Almendra a dizer-vos o quanto a educação marcadamente britânica que teve na escola primária o influenciou a identificar-se mais tarde com os Sex Pistols, logo na adolescência. Tal como ele, eu, o Raposo, o Luís e o Orlando, todos nós absorvíamos muita informação das bandas punk que ouvíamos, quer fossem britânicas ou americanas como Ramones, Clash, UK Subs, Discharge, Anti-Nowhere League e Dead Kennedys, assim como música das bandas da new wave da época, The Stranglers, B-52’s, Nina Hagen, Joe Jackson, Elvis Costello, Ian Dury, Killing Joke, entre muitas outras. Até bandas de ska e de reggae como Specials, Madness ou The Beat, por exemplo. Estas foram as nossas referências iniciais mas, à medida que fomos evoluindo, os Sex Pistols pela irreverência e os Clash pelo conteúdo e pelo ecletismo musical tornaram-se, seletivamente, as nossas referências de eleição. E seria injusto omitir o quanto as bandas do boom de rock nacional do princípio dos anos 80 nos fizeram sonhar que era possível rockar em Portugal: a par de toda esta música vinda de fora que ouvíamos, o «Chico Fininho» do Rui Veloso, os «Cavalos de Corrida» dos UHF, os Táxi, os Jáfumega, os Trabalhadores do Comércio, os Heróis do Mar, os Salada de Fruta e os Xutos & Pontapés (estes, em particular) foram referências essenciais para que tudo acontecesse.

Os Despe e Siga foram uma boa ideia?
JSP:
Analisando em retrospetiva, penso muito subjetivamente que os Despe e Siga na sua génese, enquanto banda de covers para tocar em bares e salas pequenas, foram uma excelente ideia. Contextualizando com a fase de declínio que os Peste & Sida estavam a começar a atravessar com a saída de elementos da formação inicial, os Despe e Siga incendiaram de puro rock o Marquês da Sé e o BBB na Costa da Caparica, bares de música ao vivo que infelizmente já não existem, com um repertório de covers muito invulgar para a época. Não tocávamos os banalíssimos êxitos de rock FM que todas as bandas de covers tocavam; fizemos noites mágicas a tocar faixas tão diferentes e variadas de bandas como Faith No More, Mucky Pup, Suicidal Tendencies ou Beastie Boys, intercaladas com clássicos que iam desde os Beatles a James Brown, aos Devo ou a B-52’s, por exemplo. Tenho muito boas memórias destes primeiros tempos dos Despe e Siga, mas quando de banda de covers passámos a banda de versões, achei que o projeto se tinha subvertido numa monumental piroseira com enorme potencial comercial – o que se veio a confirmar sem surpresas, verdade seja dita.

Metade destes temas foram gravados no RCA, em Alvalade…
JSP:
O gig de novembro de 2015 no RCA em Alvalade ficou rodeado de uma aura única e muito especial por inúmeras razões: porque foi o concerto comemorativo das reedições dos nossos três primeiros álbuns que há mais de 20 anos eram aguardados, porque foi no bairro de Alvalade, porque todos os músicos que passaram pelos Peste & Sida ao longo destes 30 anos foram convidados a participar. Só um declinou o convite e outro não pode estar presente por razões profissionais; ao todo, participaram uma dúzia de convidados, grande parte do gig com as duas baterias montadas em palco a serem tocadas em simultâneo. Com a formação atual dos Peste & Sida subiram ao palco o João Pedro Almendra e o Fernando Raposo, membros da formação inicial; o Nuno Rafael, que entrou em 1990 como guitarrista e que nesta segunda vida de Peste produziu o álbum Cai no Real em 2007; o Marco Franco, que entrou em 1991 como baterista; o Zé Vilão, que em 1993 deu uns gigs como vocalista, o João Leitão, ambos dos Vómito, de onde vinha o Nuno Rafael e onde fomos buscar a «Orgia Paroquial»; o Luís San Payo, que gravou a bateria do «Bule Bule» para o CD-single comemorativo dos oito anos da banda; o Sérgio Nascimento, que foi o último baterista da primeira fase dos Peste; o Marte Ciro, baterista que reativou comigo e com o João Alves a banda em 2003 e que se manteve até 2009; o Emanuel Ramalho, produtor do mítico Portem-se Bem! e do Não há Crise; as freiras cotonetes Landa e Suzie, que fizeram estrada com os Peste nos gigs de lançamento do Portem-se Bem!.

Quem encontraram nas primeiras filas?
JSP:
Foram logo tomadas de assalto pelos mais acérrimos e fieis seguidores de Peste & Sida, quer fossem os companheiros da velha guarda, caras já conhecidas de há longa data, quer fosse malta nova que se vai juntando a esta família e que, de vez em quando, me surpreende e me deixa sem palavras.

A outra metade dos temas foi gravada em estúdio. Fazendo o balanço de todos estes anos, qual acha que é o habitat mais natural do grupo: o estúdio ou o palco?
JSP:
Somos, sem dúvida, um banda de palco. Gostamos de gravar e registar para a posteridade os temas que vamos compondo e cada álbum fica como um documento datado do que são os Peste & Sida nesse momento. Tem sido assim desde o primeiro, Veneno, até ao sétimo, Não Há Crise. Mas como qualquer banda rock que se preze somos essencialmente uma live band e gostamos de explorar nos limites todo o rendimento possível da interação com as plateias para as quais tocamos.

É possível chegar aos 30 anos e continuar a olhar para a frente?
JSP:
O campo de visão tornou-se muito mais amplo e abrangente, apesar do encurtamento do alcance. Recordando e parafraseando o saudoso companheiro João Ribas, que muito inteligentemente e fugindo a dar uma tanga qualquer, respondia já para lá dos 40 quando lhe perguntavam a idade: «Quê? Gostariam muitos de chegar aos 30 com este aspeto!». Conto isto para ressalvar que nenhum de nós faz futurologia e se nos perguntassem há dez anos se planeávamos chegar com os Peste & Sida onde estamos hoje a resposta teria sido a mesma: não, não planeamos o futuro deste grupo de trabalho.
JA: Sempre escrevi letras ou canções por ter algo para dizer. Enquanto tivermos coisas para dizer e as pessoas nos quiserem ouvir...cá estaremos.
Sandro Oliveira: Enquanto houver recetores para o nosso emissor, vamos continuar a espalhar brasas! Houve alturas em que queríamos descansar ou «passar o testemunho», mas quando saímos à rua e vemos o que se passa no mundo pelos meios de comunicação, achamos que é tudo bom demais (ou mau demais) para deixar passar em branco.

Leia aqui a apresentação faixa-a-faixa de 30 Anos a Rockar!:

1. História de Loucos
JSP:
Dos primeiros tempos pré-Peste & Sida, composto por mim e pelo Luís [Varatojo] quando nos conhecemos a ensaiar com o Zé Leonel (ex-Xutos), que estava a procura de malta para tocar. Não deu em nada mas ficámos eu e o Luís para embrião dos Peste. A versão original veio depois a sair no álbum Veneno, de 1987.

2. Carraspana
JSP:
Os bons velhos tempos no Gingão, no Bairro Alto. Foi lá que adaptei esta letra a partir de uma daquelas orações ao vinho que um amigo tinha consigo. O Fernando Raposo e o João Pedro Almendra surgem como convidados nesta versão.

3. Está Na Tua Mão
JSP:
Uma faixa que me remete para os anos de serviço militar obrigatório que eu e o Orlando [Cohen] vivíamos na altura em que foi composta. Mesmo moídos e cansados, saíamos dos quarteis de Queluz e da Amadora ao fim do dia para irmos ensaiar para Sacavém – era assim a nossa determinação! Esta também conta com o Almendra e com o Raposo. Foi muito especial voltar a dividir o palco com estes amigos.

4. Sol da Caparica
JA:
O [Emanuel] Ramalho ouviu e disse imediatamente: «é um hit radiofónico! Está feito!». Não havia dúvidas. Nesta temos o Almendra como convidado e o Ramalho também toca bateria. Foi um belíssimo concerto e estas músicas são a prova disso mesmo. Havia uma energia muito especial naquele momento que ficou bem presente nestas gravações.

5. Chegou a Tua Hora
JA:
É aquele feeling do tapete a sair-nos debaixo dos pés, baralhas, voltas a dar e segues em frente... Uma das letras que mais gostei de escrever, apesar de não estar muito bem-disposto quando a fiz. Esta já é das que não gravámos no RCA.
JSP: Gosto do lado introspetivo: a culpa é sempre dos outros mas esses outros somos nós. Apontar o dedo é fácil…

6. Estrela da Têvê
JSP:
O triunfo do trivial, a promoção da boçalidade e do acessório, a estupidificação massiva é o prato do dia… A regressão intelectual que nos custará anos de retrocesso civilizacional… mas sempre em festa!
JA: Está lá tudo na letra: só luzes e brilhantes e por dentro soa a oco.

7. Sem Rede
JSP:
Gravar um CD ao vivo num único concerto, por exemplo… Só gente doida arrisca isso – Emanuel Ramalho dixit!
JA: A última faixa do último disco também fala muito por si. Hoje sem rede já ninguém funciona. Por exemplo, tivemos que contar com a captação do Bruno «Sempre em Festa» Antunes e com as misturas do Emanuel Ramalho. Mas tudo saiu como desejávamos. Tal como as duas últimas músicas, saiu originalmente no álbum que editámos em 2011, o Não Há Crise.