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Freddie Mercury morreu há 25 anos. “Mais, mais, mais! Quanto mais melhor!”: a história completa dos Queen

Venderam mais de 300 milhões de discos e dominaram multidões, mas a imprensa falava da austeridade de quatro frios contabilistas. Percorremos os dois extremos de uma história que envolve música para todos os apetites, mas também strippers, transformistas e cocaína a bordo de um Concorde. O que fazia correr Freddie Mercury, falecido há precisamente 25 anos?

9 de Agosto de 1986, Knebworth Park. Cento e vinte mil pessoas transformam em caos uma aldeia de não mais que 4500 habitantes. O trânsito é infernal, há pessoas à espera desde as nove da manhã pelo grande acontecimento, o remate final da digressão de A Kind of Magic. Quando a noite cai sobre a multidão, Freddie Mercury sobe ao palco e exclama: «este sítio é enorme, até para nós. É assustador». O concerto começaria a todo o gás, com «One Vision» e «Tie Your Mother Down» e, depois de percorridos todos os êxitos, terminaria com Freddie envolto num faustoso traje de Sua Majestade e de coroa bem colada à cabeça. Não o saberíamos prever mas esta era também a última vez que veríamos os Queen em palco com Freddie Mercury a banda entraria em hibernação pouco depois e só voltaria para dois álbuns nos últimos três anos de vida de Freddie, falecido a 24 de Novembro de 1991.

Os números não mentem: os Queen foram uma das bandas mais populares de sempre, a julgar pelos 300 milhões de discos vendidos. Ao longo de 30 anos de carreira (com Freddie ao volante), foram simultaneamente artífices de estúdio e dominadores absolutos de multidões primeiro em libidinoso culminar da era glam (mas, curiosamente, com os Led Zeppelin como matriz), depois nuns anos 80 de novos «territórios», a encher estádios de futebol de Inglaterra ao Brasil, dos Estados Unidos à Hungria. A diversidade musical, os arranjos de voz intrincados e a guitarra multiusos de Brian May (uma mini-orquestra construída em casa com o auxílio do pai) estabeleceram-se como imagem de marca do som Queen, mas Mercury o epítome do «animal de palco», com tanto de bestial como de delicado e sedutor levou tudo mais longe: a forma como, em cima de um palco, interagia com a audiência (e, nos anos 80, falamos de estádios de futebol a rebentar pelas costuras) deve mais ao capítulo da dominação de massas do que ao íntimo e exclusivista «vaudeville» de A Night At The Opera, o álbum que em 1975 lhes abriu a porta do sucesso. «Estás a levar o bailado às massas», ter-lhe-á dito, jocosamente, Johnny Rotten (vocalista dos Sex Pistols) quando o encontrou nos estúdios da EMI, em 1976.

Um tostão e verniz preto

«As pessoas pensam que eu sou um ogre. As raparigas sussurram-me na rua "seu diabo!". Elas pensam que sou mesmo mau. Mas é só em palco». Freddie Mercury: eyeliner preto, unhas pintadas com verniz da mesma cor e um vestido Zandra Rhodes (preto, claro) com tanto de morcego como de borboleta esta não era, apesar dos precedentes «glam», a típica estrela rock britânica. Mas o Melody Maker avisava em Novembro de 1974: «está aqui o primeiro "rock supremo" desde Robert Plant e Rod Stewart». O guitarrista Brian May é mais pragmático: «a primeira vez que o vi, pareceu-me um cigano».

A vida de Freddie Mercury (ou melhor, Farokh Bulsara) começou na ilha de Zanzibar (a Leste da Tanzânia) a 5 de Setembro de 1946. Filho de diplomatas, passou a juventude na Índia e aprendeu a tocar piano aos sete anos foi, de resto, em Bombaim que Freddie formou a sua primeira banda. A família mudar-se-ia para Inglaterra em 1964 e, dois anos depois, Freddie matriculava-se no Ealing College of Arts, em Londres, para estudar Design Gráfico. Foi através do colega Tim Staffell que conheceu o guitarrista Brian May (estudante de Astronomia) e o baterista Roger Taylor (ex-futuro dentista) que, com aquele, faziam parte dos Smile. Freddie e Roger passaram a trabalhar juntos, numa loja de roupas do mercado de Kensington. Staffell, o vocalista, viria a sair; Mercury ocuparia o seu lugar e chamaria a si a missão de mudar o nome da banda.

Em 1970 nasciam os Queen, aos quais se juntaria o baixista John Deacon (formado em Electrónica), depois de uma audição bem sucedida. Às páginas do Melody Maker, Mercury revela as suas origens: «entrei no Ealing College um ano depois do Pete Townshend sair. A música estava em tudo o que fazíamos. A escola era um viveiro de músicos. Eu ouvia Jimi Hendrix. Consegui o diploma e tentei a sorte como artista freelancer. Mas a música crescia em mim. Então decidi-me: é a música, é por aqui que vou». A auto-confiança era desmedida e Mercury, porta-voz da ambição, não o escondia. «O grupo aspira ao primeiro lugar. Não nos contentaremos com menos. Sei que temos algo na música, somos suficientemente originais e vamos proválo », lançava sem medo. A «persona» estava definitivamente cristalizada: «não é preciso dinheiro para dar um ar. extremo. A cena do "showbiz" é entrar numa sala e assegurar que as pessoas saibam que estás lá». Quase duas décadas depois, Brian May diria: «Freddie pareceu sempre uma estrela mesmo quando não tinha um tostão».

Os primeiros três álbuns da banda, lançados no período de um ano, cimentaram um estatuto «médio» para os padrões britânicos. «Killer Queen», de Sheer Heart Attack, foi o primeiro sintoma de que algo «maior» estaria para acontecer. Com um refrão em que se cantava «She's a Killer Queen / Gunpowder, Gelatine / Dynamite with a laser beam / Guaranteed to blow your mind / Anytime», os Queen soavam simultaneamente extravagantes e sofisticados mas, sobretudo, ambíguos. «Alinho no jogo bissexual porque é uma coisa diferente, é divertido», diria Freddie, «mas a última coisa que desejo é dar às pessoas uma ideia exacta de como sou. Não quero ter um cartão à minha volta a dizer "este sou eu" ou "isto é tudo o que sou"».

Nos primórdios, numa sessão para a BBC

Nos primórdios, numa sessão para a BBC

O fantasma da ópera

1975 é o ano de viragem. Primeiro, uma digressão norte-americana como cabeça de cartaz; depois uma auspiciosa visita ao Japão, onde Sheer Heart Attack lidera as tabelas e a banda é recebida em clima de «Beatlemania»; por fim, a gravação do quarto álbum. A Night At The Opera é o LP de «Bohemian Rhapsody», canção que na editora ninguém queria lançar como single.

Cinco minutos e 55 segundos. A duração de «Bohemian Rhapsody» assusta toda a gente, excepto Freddie. A canção leva três semanas a gravar e a sua história ganha contornos míticos. Vinte anos depois, o produtor Roy Thomas Baker recordava a peripécia aos microfones da BBC: «Freddie estava sentado no seu apartamento e exclamou "tenho uma ideia para uma canção!" e começou a tocá-la ao piano. Estava a ir muito bem, apesar de algumas melodias ainda não estarem completamente trabalhadas, mas era o esqueleto básico da canção. De repente, parou e disse "agora, meus queridos, é aqui que entra a secção de ópera". Na altura era apenas um pequeno interlúdio com uns "Galileos". "Tudo bem, mete aí uns Galileos e vamos passar à parte rock", respondi eu. Quando fomos para estúdio gravámos a coisa por partes. Fizemos a balada, depois a secção rock e voltámos à balada. E deixámos uma porção de fita em branco para a parte da ópera. Mas quando começámos a gravá-la ela estava a tornar-se cada vez mais longa e não parávamos de acrescentar mais fita em branco. Todos os dias pensávamos "Ok, é isto, está feito", mas o Freddie aparecia com mais letras e dizia "Acrescentei mais uns Galileos aqui"».

A Night At The Opera, que vai da ópera ao «vaudeville» («Seaside Rendez-Vous) e ao progressivo («The Prophet's Song»), do rock desbragado («Death In Two Legs») à banda jazz de algibeira («Good Company»), era um coquetel vencedor e Mercury parecia antecipá-lo. A Harry Doherty, jornalista do Melody Maker, o vocalista revelar-se-ia agradado com a componente operática: «digam-me um grupo que tenha gravado um single operático. Eu não me lembro de nenhum». As primeiras críticas começam a chover e Mercury, artilhado com língua viperina, defende-se como pode. «Colocámos sempre os nossos pescoços na guilhotina. Os Queen são isso. Se amanhã o bailado se tornasse a loucura ou o jazz a nova vaga de popularidade, não mudaríamos. Continuávamos a tocar a mesma coisa porque é nisto que acreditamos».

John Ingham, jornalista do britânico Sounds, lamentava-se: «os Queen são o tipo de grupo que leva um homem a querer abandonar a escrita rock. Colocam questões e nunca apresentam respostas». John Deacon era o baixista silencioso; Roger o rocker primário, «uma espécie de actor secundário num filme de Clint Eastwood»; Brian May o que faz um astrónomo com uma guitarra nas mãos e, ainda por cima, a sacar dela riffs demoníacos? Freddie Mercury, um enigma. Uma figura «pertencente a uma categoria só sua, como Mick Jagger em 64», mas com um carisma em palco que não encontra precedentes (apesar de Robert Plant ter sido, nos primeiros tempos, um termo de comparação conveniente). «Somebody To Love», um gospel caseiro (mas pleno de «overdubs» vocais), trataria de humanizá-lo aos olhos da opinião pública.

Na primeira metade dos anos 70

Na primeira metade dos anos 70

Money, money, money

A capa de super-banda indestrutível assenta bem aos Queen pós-Ópera, mas Freddie Mercury sempre parco em pormenores sobre a sua vida extra-musical vivia um dos seus dilemas mais profundos: mantinha uma relação duradoura com uma mulher (Mary Austin, loura atraente que conhecera nos tempos do mercado de Kensington), mas revelava um apetite crescente por pessoas do mesmo sexo.

A banda festejava a nova condição de estrelas globais com um concerto grátis no Hyde Park, em Londres, para uma audiência estimada entre 150 e 200 mil pessoas. Os Queen eram campeões de vendas (a EMI recebeu 500 mil encomendas de A Day At The Races antes de o disco chegar às lojas), esgotavam digressões e recebiam prémios, mas faltava a auto-consagração.

O single «We Are The Champions» (que continha ainda «We Will Rock You», outra inefável demonstração de grandeza) resolveria a questão. Não restavam dúvidas sobre quem detinha o poder (e os topes de ambos os lados do Atlântico trataram de confirmá-lo). As interpretações dividiram-se e houve ainda há vários grupos a reclamar para si versos como «But it's been no bed of roses / No pleasure cruise / I consider it a challenge before the whole human race / And I ain't gonna lose»: a imprensa viu neles um recado; a comunidade homossexual empolga-se e encontra neles palavras de incentivo; os recintos desportivos passam a entoá-los em momento de vitória. «É a minha versão de "My Way" [de Frank Sinatra]», avança Freddie à Circus, em Janeiro de 1978. May, num raro momento de descontracção, adianta que quando Freddie mostrou a canção à banda «toda a gente se partiu a rir».

O «título mundial» coincide com a ruptura com o manager John Reid (o mesmo que geriu os anos de ouro de Elton John). Ao melhor estilo Queen, a dissolução é assinada no banco traseiro do Rolls Royce de Freddie durante um intervalo na gravação do teledisco de «We Will Rock You». Os Queen precisavam de uma «máquina» exclusiva, uma gestão que não os fizesse depender de terceiros isto é, precisavam de tornar-se uma empresa. A obsessão com o aspecto financeiro era cada vez mais evidente.

Cinco anos antes, quando questionado sobre a importância do dinheiro, Mercury responderia a Caroline Coon, do Melody Maker: «gasto-o todo. Sou o único elemento da banda para quem o dinheiro não é aliciante. Gasto-o logo de seguida. Ele desaparece. Em roupas e em coisas bonitas à minha volta». Em 78, Roger Taylor baterista de uma das bandas do momento ousa afirmar que News Of The World, o álbum de 77, representou um risco porque A Day At The Races não vendeu melhor do que A Night At The Opera. «Não vendeu menos, mas não vendeu melhor e isso não é suposto acontecer» [Creem, Abril 1978]. Freddie, esse, continua na mesma.

«Ele não faz a mínima ideia de quanto vale o dinheiro. Agora tem cartões de crédito, mas penso que só ficará a saber que não tem dinheiro se a máquina lhe engolir os cartões. E, mesmo assim, não perceberá porque razão tal aconteceu». Até Elton John, por esta altura imerso num mundo paralelo de experimentação química (do qual diz não se lembrar), salienta anos mais tarde o desprendimento «mercuriano» face às etiquetas dos preços: «o preço do leite? Não lhe perguntem. Mas saberá dizer o preço do verniz para as unhas».

O desfasamento de Mercury face aos aspectos práticos do quotidiano era gritante. «Uma vez o Freddie perguntou-me "a propósito, como é que se fazem ovos cozidos?". É claro que eu não sabia. Mas disse-lhe que devia ter algo a ver com "água fervida ou qualquer coisa do género"!», contaria Roger Taylor à BBC Radio 1, em 1995. Em casa, Freddie só percebia de decoração. À altura da sua morte, os periódicos ingleses salientaram um investimento de dois milhões de libras numa colecção de quadros impressionistas, mobiliário francês e esculturas japonesas em madeira. «Todo o meu dinheiro vai para a Sotheby's [afamada casa de leilões de antiguidades]». A dois anos da viragem da década, Freddie e comparsas recolhiam dividendos de uma gestão pragmática da carreira (algo que prolongariam, ainda com mais esmero, nos anos 80). «Tornámo-nos todos homens de negócios», referia Mercury à Circus no início de 78. «Ser músico não é apenas gravar discos quem me dera que fosse. Todos nós temos empresas, agora. Algumas ligadas à música, outras não. Eu tenho uma companhia automóvel e os restantes dedos noutras fatias do bolo».

Contudo, para os Queen, as receitas eram também e principalmente o resultado de uma estratégia de domínio global («vocês fazem-no parecer tão pré-concebido!», referia Mercury ao Melody Maker no início de carreira, quando questionado sobre os «grandes planos» para o futuro). Toda a gente era um potencial público-alvo. O isco: o entretenimento. Jazz, o álbum que se seguiria, reflectia estas intenções numa auto-referencial «Let Me Entertain You», onde despontavam os versos «I've come here to sell you my body / I can show you some good merchandise / I'll pull you and pill you / I'll crueladeville you / And to thrill you I'll use any device». Mudar o mundo era algo que caía fora do âmbito de aspirações dos Queen. «As minhas canções são como lâminas de barbear Bic. Para consumo moderno. São para ouvir, descartar e partir para a próxima», diria Freddie (citado na revista Q de Março de 1991).

Com Andy Warhol, no arranque dos anos 80

Com Andy Warhol, no arranque dos anos 80

Cocaína, strippers e um bigode

Para dar a conhecer o novo single, «Bicycle Race», os Queen alugariam o Estádio de Wimbledon e recrutariam 50 raparigas para uma corrida de bicicletas onde a nudez era palavra-passe. A capa original do single apresenta mesmo a «vista traseira» de uma das ciclistas. Jazz, o álbum de 78, oferece um poster desdobrável com uma foto da corrida, algo que os americanos só puderam analisar depois de remetido, via correio, um formulário de requisição. Mas Freddie queria mais ir mais longe.

A festa de lançamento de Jazz decorreu em Nova Orleães e juntou executivos discográficos da EMI e da Elektra (as editoras dos Queen nos dois lados do Atântico) e um sem-número de atracções inusitadas, entre as quais se contava um espectáculo de luta na lama, empregadas que serviam bebidas em topless, strippers hermafroditas e «uma mulher que fumava cigarros por um orifício que, pelo menos, evitará a ameaça do cancro do pulmão» (Q, 1991). Rezam as crónicas, mas sem certezas (e uns tantos desmentidos), que anões se passeavam com uma tigela de cocaína no topo da cabeça, para deleite dos convivas. Freddie faria uma entrada vencedora, no meio de uma dúzia de jograis vestidos de preto. Duzentos mil dólares depois adianta a Rolling Stone em 1992 restam memórias de um deboche sem fim, «uma orgia de Sodoma e Gomorra com transformistas e encantadores de serpentes, champanhe e outras substâncias intoxicantes».

Por esta altura, os Queen intensificavam a conquista americana, passando largos meses longe do Reino Unido. Taylor reconhecia, à Creem, que a banda se tinha tornado «muito insular e auto-protectora» e qualquer estímulo para sair de uma Inglaterra onde a imprensa se tornara cada vez menos complacente com o estigma autocelebratório era bem recebido. «Penso que somos hoje menos espalhafatosos do que no início. Éramos, definitivamente, uma banda que procurava fazer tudo em estilo e levámos muito na cabeça por isso. Decidimos acalmar porque era preciso provar que já não dependíamos de bombas de fumo em palco e coisas assim». Taylor admite a existência de «uma barreira Queen de que eu não me apercebia. Muitas das pessoas que me são próximas hoje achavam-me, na altura, um verdadeiro patife. Até a minha actual namorada não me suportava».

Nos primeiros meses de 1980, a banda trabalha num novo álbum. O lançamento de The Game coincide com uma nova digressão americana. «Crazy Little Thing Called Love», composta por Freddie no banho, antecipa a euforia transatlântica. «Another One Bites The Dust» tornar-se-ia o single de maior sucesso da banda, um êxito «crossover» nos Estados Unidos, onde encabeçou as tabelas de rock, soul e disco.

O som dos Queen é actualizado e no visual de Freddie Mercury há uma mudança radical que não deixa de ser notada: o cabelo comprido e os «maillots» de bailado dão lugar a uma postura «macho»: cabedal preto, chapéu de polícia e, pouco depois, bigode. Primeiro em Nova Iorque, depois em Munique (onde The Game foi gravado), Freddie experimentava um sem número de amores de ocasião, propulsionado pela vida nocturna (e pela abertura à comunidade gay) das duas cidades. O clube nova-iorquino Mineshaft, conhecido por práticas bondage e sado-masoquistas, era porto de abrigo de incursões nocturnas. «É a cidade do pecado e aqui transformo-me numa puta», terá dito sobre a Big Apple.

Durante os quatro anos que se seguiriam, Freddie viveria em Munique uma vida desregrada, alimentada pelos prazeres nocturnos (e uma verve sexual que foi descrita como «inesgotável»). Hot Space, editado em 1982, revelaria uns Queen encurralados entre duas realidades distintas: por um lado, o apetite «hard» de Brian May patente nos temas mais roqueiros; por outro, a plasticidade adquirida por Mercury nas suas incursões hedonistas. «Body Language» antecipava a carreira a solo de Freddie, divorciada do rock e próxima da pop electrónica. «Under Pressure», feliz encontro de David Bowie com os Queen, é um mundo inteiro à parte e salvou um disco que se revelou um sinal de tempos de indecisão.

The Works, lançado em 1984, é o derradeiro dos álbuns de Munique. «Freddie está a divertir-se com um travesti espampanante e são só três da tarde», repara o Record Mirror na tarde do dia em que o novo álbum dos Queen é apresentado. Os restantes membros da banda, relata a reportagem, estão quietos no bar. Munique era, segundo o Melody Maker, «um bacanal constante» e a relutância de May, Deacon e Taylor em fazer parte do «circo» de Freddie era cada vez maior. Os figurantes do teledisco de «It's A Hard Life» foram recrutados à comunidade gay da cidade - homens de cabelo curto e bigode, tal como Mercury. Propositadamente ou não, Taylor e Deacon esboçam esgares de tédio. O teledisco de «I Want To Break Free» no qual os elementos da banda se travestem, imitando as personagens femininas da «soap opera» Coronation Street acabou de vez com a caminhada de êxito na América.

Depois da euforia de The Game, a banda não regressou às digressões em terras ianques e foi perdendo, gradualmente, a base de fãs. «A América odiou o vídeo e encarou a coisa como um grande insulto», alega May (citado pela Rolling Stone em 1992). No mesmo ano, Freddie festeja o seu 38º aniversário no clube londrino Xenon, na companhia de 500 amigos. O bolo, de um metro e meio, é uma réplica do Rolls Royce do cantor.

Em 1985, por alturas do Live Aid

Em 1985, por alturas do Live Aid

Rock In Rio e Live Aid: a coroação

A década de 80 viu os Queen perder o mercado norte-americano, mas a banda não regressou a casa e irrompeu em territórios nunca antes explorados. Argentina e Brasil, então pouco habituados ao circuito das grandes estrelas, receberam a banda de braços abertos. «Em São Paulo, tocámos para 120 mil pessoas numa noite e 130 mil na noite seguinte. Jornalistas de todo o mundo vieram ver-nos tocar em Buenos Aires [em 1982]. O Esquadrão da Morte teve de fazer a segurança», contava Freddie ao Melody Maker em 1984. «Sim, a polícia que mata gente por qualquer motivo. Transportaram-nos nos carros blindados que intervêm em motins. Antes de entrarmos em palco, a polícia militar estava a fazer uma barreira com bastões. Imploraram-nos para não cantarmos "Don't Cry For Me Argentina"». Num dos muitos momentos de descontracção, o grupo conheceu o futebolista Diego Armando Maradona Freddie vestiria, garbosamente, o «jersey» da selecção argentina de futebol.

O verniz estalou quando decidiram tocar em Sun City [um «resort» de luxo], na África do Sul, em tempo de «apartheid». O grupo alegou a sua natureza não política e defendeu-se dizendo que estava preparada para tocar para «pretos e brancos». Mercury ateou mais o lume em entrevista ao Melody Maker: «há muito dinheiro por lá, e também estou neste negócio por causa disso».

Indiferentes à opinião pública, os Queen continuavam a escalada do êxito. Janeiro de 1985 regista o primeiro Rock In Rio, no qual são cabeças-de-cartaz. O Record Mirror regista o acontecimento, impressionado: «300 mil pessoas por noite a ouvir 90 horas de música ao longo de 10 dias numa arena junto à Barra da Tijuca». Rod Stewart é avistado na companhia de uma «ninfa alemã» («está a fazer audição para violinista na minha banda», brincou o escocês), os Duran Duran pavoneiam-se no «backstage». A TV Globo transmite o concerto para uma audiência de 100 milhões de telespectadores. Mercury exulta: «é um mercado fantástico. Se furares, a quantidade de dinheiro que consegues fazer é tremenda. Abrimos a América do Sul ao resto do mundo. Agora gostaria de comprar o continente inteiro e instalar-me como Presidente».

Em constante trânsito pelo mundo, a banda vive o seu segundo Verão, desta vez no Hemisfério Norte. A 13 de Julho, o espectáculo de beneficência Live Aid catapulta-a para uma nova fase de carreira. Em apenas 17 minutos, Freddie e parceiros eclipsam a concorrência com um «set» de êxitos (que pode ser recordado no DVD Queen Rock Montreal & Live Aid). O feito empalideceu até uma reunião episódica dos Led Zeppelin. Pouco tempo antes do evento, ao convite a banda respondera com um rotundo não, através do seu manager, Jim Beach. Geldof ripostou: «Diz à bichona que isto vai ser a maior coisa em que ele já se meteu».

Em êxtase pela resposta do público de Wembley (e pelo facto de o evento ter sido transmitido internacionalmente), os Queen gravam o single «One Vision». Segue-se um novo álbum, A Kind of Magic que contém temas da banda-sonora do filme Highlander, protaganizado por Christophe Lambert e respectiva «Magic Tour», nova volta ao mundo (que exclui, de novo, a América). A 11 e 12 de Julho de 86, a digressão conhece o seu ponto alto em duas noites no Estádio de Wembley, imortalizadas no álbum Live At Wembley, lançado postumamente. A 27 de Julho, os Queen chegam à Hungria, então agrilhoada pelos efeitos do Pacto de Varsóvia.

No Estádio de Wembley, em Londres, 1986

No Estádio de Wembley, em Londres, 1986

Freddie parecia viver para estes momentos: «está a correr de um lado ao outro do palco envolvido na bandeira britânica. Mas vira-a do avesso e ela transforma-se na bandeira húngara!», relatava o NME. Era a primeira vez que uma banda ocidental actuava num estádio da Europa de Leste. A mesma emoção transbordaria 13 dias depois para aquele fim de tarde soalheiro de Knebworth Park. Nos anos seguintes, os Queen voltariam aos discos, mas não aos palcos. Poucos meses depois, Freddie Mercury receberia, via telefone, uma dramática novidade: era seropositivo. Os Queen, artífices da ilusão em cima de um palco, acabariam ali, na noite de Knebworth, ao som do hino britânico. Sua Majestade saía de cena com o povo a seus pés.

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2008