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rita carmo

Prince: o génio por cá

Veio quatro vezes a Portugal, estreando-se em 1993 no gigante Estádio de Alvalade e despedindo-se há dois anos anos no maior intimismo do Coliseu dos Recreios. Uma história com todos os episódios portugueses em excertos das reportagens BLITZ numa altura em que a compilação “Prince 4Ever” está prestes a chegar às lojas

15 de agosto de 1993, Estádio de Alvalade

GENIAL, SIMPLESMENTE GENIAL

rita carmo

Acima dos tradicionais formatos que regem os atuais concertos pop/rock, Prince construiu um harém de prazer sonoro. O palco, arabesco de conceção visual, era disso um primeiro indício. As músicas, sabiamente alinhadas, ora tocadas na íntegra, ora sugeridas por breves acordes, ora respeitadoras das gravações originais, ora totalmente reescritas (como o magnífico ‘Little Red Corvette’), propunham rituais de prazer. Físico? Espiritual? Talvez mesmo acima destas emoções primárias. Deus encarnava num pequeno génio de palco, excelente dançarino, visível domador do momento.

Perito em controvérsias, surpresas e desafios, o rei da festa enganou muitos, e logo nos primeiros momentos do concerto. Suspensa num baloiço, envergando trajes que poderíamos adivinhar em Prince, Mayté Garcia chamava a atenção de todos. Fingia cantar, dançava, representava o papel de Prince. Afinal o homem estava no fundo do palco, de microfone na mão: ‘My Name Is Prince’.

(…) Prince pretendeu aqui um concerto diferente. A sua música foi a lei. Inteligentemente, soube reunir clássicos indispensáveis e algumas das suas mais significativas composições da sua produção mais recente. Hinos pop (‘Raspberry Beret’, ‘Let's Go Crazy’, ‘7’, ‘The Cross’), delícias funk (‘Girls & Boys’, ‘America’, ‘Simple Man’), excertos do génio minimal (‘Kiss’, ‘Sign o' the Times’), baladas sóbrias e realmente azuis (‘Baby I'm a Star’, ‘Purple Rain’, ‘Scandalous’, ‘Little Red Corvette’, ‘Sometimes It Snows In April’), um breve assédio jazzy (‘Strollin'’), uma investida pelos mundos da ópera-rock (quando, como abertura para uma sequência dominada pelo piano, elabora um épico prelúdio onde se incorporam elementos de ‘Thunder’ (‘Diamonds and Pearls’, ‘When Doves Cry’, ‘Thunder’) e, claro, os indispensáveis agitadores (‘My Name Is Prince’, ‘Sexy MF’, ‘1999’). (.) Em diálogo espiritual contínuo com o seu público, soube responder às solicitações que lhe foram feitas durante ‘Purple Rain’. Mais um solo genial.

(…) Um só encore deixou muitos inesperadamente calados e atónitos. Era aquilo o fim. Só aquilo? Sim, a duração ideal para um concerto, com um fim festivo onde, numa longa versão de ‘1999’ se crescia para outras melodias, entre as quais ‘America’. Inesquecível. Nuno Galopim

15 de dezembro de 1998, Pavilhão Atlântico (Lisboa)

O VERDADEIRO ARTISTA

rita carmo

‘1999’. Ano quase a chegar. Profecia psicadélica de Prince, na década de 80. Mote para o concerto de terça-feira. Final do concerto de terça-feira. Como se tudo na vida fosse um ciclo. Essa foi a sensação, plena. Como se os últimos cinco anos não tivessem passado. Apenas o cenário tinha mudado de Alvalade para o recém-criado espaço de espetáculos da capital. Tal como em agosto de 1993, o Artista brilhou. Desde o primeiro minuto. (.) Em cima de uma caixa, a meio da assistência, eleva-se o Artista, deixando atónitos os milhares que ali se encontravam.

(…) ‘Talking Loud and Sayin' Nothing’ e ‘Delirious’ anteceram o primeiro grande momento do concerto, com um coro de arrepiar a entoar uma das maiores referências de Prince: ‘Purple Rain’, com direito a repetição de solo final e tudo. Mas, se nos primeiros momentos se podia achar que se ia assistir a um desfiar de grandes temas, quase em jeito ‘best of’, a ideia logo caiu por terra. Aquilo que se sentiu foi um músico em pleno, a exibir as suas preferências, muito mais instrumentista do que cantor, intercalando, por vezes de forma exaustiva, o calor da sua voz com os seus dotes musicais, em ‘jam sessions’ perfeita e impecavelmente acompanhadas pelos músicos da New Power Generation.

O Artista fez o que quis. Brincou com o público, não se cansou de gritar ‘Portugal’, ‘Lisboa’. Vestido de vermelho-sedução, sentou-se ao piano. De branco fez, no mesmo ‘Beautiful’ (o nome do piano), um medley de algumas canções, concluído com ‘Nothing Compares 2 U’, esta sim, uma das poucas canções em versão completa, de dentre as quase trinta apresentadas em duas horas de correria desenfreada e muita dança. Feita de gestos sexuais e erotismo. A arma transformada em microfone. O seu símbolo metamorfoseado em guitarra dourada.

(…) Para o final, ficaram guardadas duas pérolas: ‘Kiss’ e ‘Get Off’, onde o Artista fica para trás, e onde se reconhece Prince. Frenético. (...) Fica uma ansiedade pelo próximo. Um desejo. ‘Lisboa, vocês amam-me? Eu também’. Ana Ventura

Horas depois, Prince daria um concerto surpresa (festa privada) na discoteca Lux-Frágil, onde interpretaria versões de Chaka Khan (‘Hair’), Al Green (‘Love and Happiness’) e Sly and the Family Stone (‘I Want To Take You Higher), entre outras, e temas seus como ‘Alphabet St’ e ‘Girls & Boys’.

18 de julho de 2010, Super Bock Super Rock (Meco)

OS AMIGOS PORTUGUESES

rita carmo

Do alto dos seus 52 anos bem vividos (e bem conservados), Prince mostrou (e verbalizou várias vezes) o seu amor por Portugal, ao longo de um alinhamento certeiro e equilibrado entre solos de guitarra, baladas que fazem parte de memórias longínquas e um funk bem dançado. À sua frente, 32 mil pessoas na Herdade do Cabeço da Flauta o artista de norte-americano é cabeça de cartaz indisputável do terceiro dia da edição deste ano do festival Super Bock Super Rock.

O início, depois de uma introdução de teclas, fez-se com ‘Delirious’ e o cantor vestido de branco a destilar energia por todos os poros. A loucura, bem acompanhada por uma guitarra poderosa, continuou ao som de ‘Let's Go Crazy’ e ‘1999’, com refrão cantado a plenos pulmões pelos muitos fãs que se encontravam bem pertinho do ídolo.

‘Nothing Compares to U’, canção de Prince que se tornou êxito universal na voz de Sinéad O'Connor, seria depois apresentada em dueto intimista e dramático com Shelby J., uma das suas poderosas vozes de apoio. A dança voltou a fazer levantar pó com ‘Cream’, da era Diamonds and Pearls, e passa depois por ‘U Got the Look’ entre gritos de incentivo ‘Oh, Portugal’. Depois de perguntar se o público, visivelmente a seus pés neste momento, estaria cansado, Prince avisa ‘It's time to get funky’. ‘O meu nome é Prince e sou o vosso DJ esta noite’ gritaria o artista, exigindo que saltem com ele (os pedidos tornam-se ordens para os pés) ainda durante um medley que o levaria à primeira pausa.

O regresso, já com roupa nova (casaco amarelo e calças pretas), aconteceria com dois ‘irmãos’: Renato Neto acompanharia a fadista Ana Moura e o próprio Prince, na guitarra, a deixar o protagonismo para a voz da cantora portuguesa, nos temas ‘A Sós Com a Noite’ e ‘Vou Dar de Beber à Dor’, com o público a bater palmas de orgulho e peito cheio. Logo que Ana Moura sai de palco, o cantor diz ‘não vou baixar o ritmo, sei o que Portugal quer’ e atira-se de corpo, alma e falsete a ‘Kiss’ com direito a rodopios e tudo. A histeria por esta altura já é generalizada e adensa-se ainda mais quando, logo de seguida, se ouve ‘Purple Rain’, cantada em coro e com luzes a condizer.

(.) Depois de mais uma falsa saída, com o símbolo a gerar energia nos ecrãs gigantes, ‘Forever in My Life’ traz o músico de volta, para uma versão de ‘Dance (Disco Heat)’, de Sylvester, que marcaria um final apoteótico com despedidas sentidas, após uma hora e meio de concerto. Mário Rui Vieira

17 de agosto de 2013, Coliseu dos Recreios

LISBOA PARA SEMPRE

Em abril último, ver Prince com as 3rdEyeGirl em Los Angeles, numa sala com capacidade para 800 lugares, custava uns módicos 275 dólares. Na Califórnia, como em Portugal nesta incursão de 2013, Prince é o seu próprio produtor, contornando assim as grandes agências de concertos, em mais um gesto típico da sua atitude maverick perante a indústria da música. Pouco passa das oito da noite e já duas grandes filas se posicionam na Rua das Portas de Santo Antão, rumo ao ‘salão nobre’ da capital.

(…) Cinquenta minutos depois da hora marcada, entra Prince, de afro generoso, que mal se vê num palco às escuras. Os fãs da fila da frente estão apenas a alguns centímetros do seu ídolo e ‘Let's Go Crazy’ explode com um tremendo solo. Prince veste de negro e é mais Jimi Hendrix do que Lenny Kravitz alguma vez podia ousar ser. Explosões de gelo seco e de confetes fazem o resto. Esta noite rocka-se forte e feio no Coliseu.

(…) Mesmo com o alinhamento, pelo menos na primeira parte, deixe os maiores êxitos da sua carreira muito ao largo, a verdade é que o homem de ‘When Doves Cry’ tem argumentos espalhados pela sua discografia para erguer diversas carreiras diferentes: a de mestre de pérolas pop, de feiticeiro funk, de baladeiro e de rocker, pois claro. Ao piano, à guitarra e até, por momentos, ao baixo, Prince deixa claro que é um artista completo, capaz de encher o palco como poucos, provando para lá de qualquer dúvida que é um dos maiores performers vivos.

(…) Uma hora depois do arranque, Prince Rogers Nelson prepara a primeira despedida, confessando o seu amor pela nossa ‘rainha’, Ana Moura. (…) O delírio absoluto do público é recompensado logo na abertura do encore com uma interpretação arrebatada de ‘Diamonds & Pearls’ que permite a Prince exibir de forma mais exuberante o seu incrível falsete. O riff de abertura de ‘When Doves Cry’ é o mote de novo regresso, abrindo caminho para um medley que prossegue com ‘Sign o' the Times’, ‘Hot Thing’, ‘Alphabet St.’ e ‘Time’. Prince pode ter um apetite desmedido por rock neste momento, mas também não nos deixa esquecer o seu génio vintage, ainda que em formato concentrado.

(…) Ninguém quer acreditar que ele se vá embora tão cedo. Ouve-se ‘U Got The Look’, cereja em cima de um bolo cheio de creme, e já passando da meia-noite, ‘Nothing Compares 2 U’ antecipa ‘Purple Rain’, refrão ouvido a uma só voz. Noite para a história. Rui Miguel Abreu