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Como a pop salvou os Cure: a história mais completa da banda inglesa e do seu líder, Robert Smith

Foram a banda-sonora de milhares de adolescências e influenciaram os penteados e o vestuário de uma geração. Mas foram as canções pop que salvaram Robert Smith da autodestruição. A dois dias do regresso a Portugal, recuperarmos agora uma longa e detalhada revisitação da história acidentada de um fenómeno de culto que chegou a banda de multidões

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

É fácil pensar em Robert Smith como o único verdadeiro membro dos Cure. Ao longo de 32 anos, a banda formada na pequena cidade de Crawley, no Sudeste de Inglaterra, acolheu com maior ou menor hospitalidade quase 15 músicos, desde o baixista Michael Dempsey e o baterista (mais tarde teclista) Laurence «Lol» Tolhurst, recrutados entre os colegas de escola de Robert Smith, até roadies promovidos a teclistas (Perry Bamonte, convocado em 1990) e antigos fãs da banda, para quem respirar o mesmo ar que Smith era um privilégio irrecusável.

Dir-se-ia que Robert Smith não parece importar-se com quem está no grupo, desde que possa levar as suas ideias avante. Mas o vocalista e guitarrista de uma das mais duradouras bandas pop do mundo contraria, desde sempre, esta ideia feita. «A ilusão de que os Cure são um "entra e sai" de gente é completamente injustificada», declarou numa entrevista à rádio francesa, em 2004. «O facto de termos tido muitas mudanças de pessoal em pouco tempo parece mal, estatisticamente. Mas o Simon [Gallup, baixista e padrinho de casamento de Smith] entrou em todos os discos menos dois. Em 25 anos, esteve connosco 23. E o Jason [Cooper, baterista] já está connosco há quase dez anos. E o Perry, de uma maneira ou outra, acompanha-nos desde meados dos anos 1980. A banda tem tido uma grande estabilidade, por isso acho ridícula a ideia de que estou sempre a mudar a formação».

Nem Robert Smith será capaz de desmentir, no entanto, que os Cure nunca teriam existido sem si e que o seu estilo de liderança sempre pendeu mais para o autocrático. «A banda é uma ditadura democrática», definiu o baterista Boris Williams, numa entrevista de promoção ao álbum Disintegration, de 1989. E o próprio Smith reconheceu, mais do que uma vez, que as poucas vezes em que descurou a «vigilância», as coisas não correram pelo melhor. Afinal, a maior parte das alianças, musicais ou de outra espécie, não funciona na ausência de um líder bem definido. E o dono dos Cure nunca foi outro que não Robert Smith desde os primeiros ensaios da banda, na cozinha da casa dos seus pais.

Psicadelismo e futebol

Nascido a 21 de Abril de 1959, Robert Smith foi, nas suas próprias palavras, «um acidente» no planeamento familiar de Rita e Alex Smith. Catorze anos mais novo que o seu irmão mais próximo, Robert nunca foi, porém, uma criança solitária. Primeiro, porque os pais tiveram a gentileza de lhe dar uma irmã mais nova, Janet, para o acompanhar nas brincadeiras «próprias da idade» (há filmes gravados em Super 8 pelo pai Smith, em que Robert desenterra minhocas na praia para dá-las a comer à mana). Depois, porque Robert sempre se sentiu muito próximo de Richard e Margaret, os irmãos mais velhos. O elo entre os três: a música. Se de Richard o futuro mentor dos Cure herdou a paixão pelo psicadelismo «ele mostrou-me Captain Beefheart e Hendrix quando eu tinha dez anos» de Margaret os ensinamentos foram (ainda) mais clássicos.

«Quando eu tinha cinco anos, a minha irmã punha-se a ouvir o Help!, dos Beatles, e eu sentava-me nas escadas a ouvir, do lado de fora da porta», recordou Robert Smith em entrevista recente, ao jornal inglês The Guardian. «Aquilo fez-me perceber que havia um outro mundo, além daquele que me rodeava de forma imediata. As melodias daquelas músicas são tão fantásticas, e a imaginação que elas [demonstram] é surreal. É tão perfeito que me dá vontade de chorar. Oiço o Help! e fico cheio de esperança de que o mundo possa ser um sítio melhor».

Para uma criança sensível e imaginativa, que via carantonhas emergir do papel de parede de casa dos pais e chegou a acreditar piamente que a residência da família Smith estava assombrada, a música proporcionava todo um novo escape. «Costumava cantar as letras do Jimi Hendrix na cama, à noite, sem perceber nada do que elas queriam dizer», contou à Les Inrockuptibles em 1996. «Para desgosto dos meus pais, aos sete ou oito anos era um diabinho movido a rock psicadélico!».

O apelo da música era, obviamente, mais físico do que intelectual «nem sabia o que eram os Estados Unidos, como é que podia perceber os discos do Captain Beefheart?», mas esta era uma paixão que Robert Smith não abandonaria em ponto algum da sua vida. O irmão mais velho, que Robert descreveria como «intensamente comunista» e hippie, tirou um curso de bibliotecário «só para provar ao pai que era capaz», mas acabou por dedicar-se à agricultura, comprando uma quinta no País de Gales. A irmã mais nova, Janet, verdadeiro prodígio do piano que Robert tentou, sem sucesso, igualar, viria a casar, muitos anos mais tarde, com um dos guitarristas dos Cure. Mas Robert foi o único a seguir, a todo o custo e até ao fim, o sonho de se tornar uma estrela do rock. Principais culpados: Jimi Hendrix e David Bowie.

Poucos músicos poderão orgulhar-se de um começo tão auspicioso e precoce. O primeiro disco que Robert Smith comprou foi The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, de David Bowie, naquele que seria o primeiro episódio de uma relação apaixonada com o autor de «Life On Mars». A aparição de Bowie no programa da BBC Top of The Pops mudou a vida do pré-adolescente Robert, então com 13 anos. «Ele era descaradamente diferente», lembra o quase cinquentão. «A minha escola ficou dividida entre aqueles que achavam que ele era maluco e aqueles que achavam que ele era um génio. Eu pensei logo: eis o homem por quem eu esperava». Não só a música marcou o jovem Robert: a imagem de Bowie, que naquela histórica actuação surge de fato multicolor e cara tão alva como se um boneco de porcelana se tratasse, iria inspirar o entusiasmado espectador a brincar com o estojo de pinturas da irmã. Robert chegou a ir pintado para a escola, ousadia que os professores acharam inaceitável, mandando-o para casa. Dois anos antes, uma primeira experiência no reino da imagem ir para as aulas com um vestido de veludo preto valeu-lhe uma sova à saída da escola. «Não sei por que razão o fiz, achei que me ficava bem», comentou numa entrevista ao London Times, em 1989.

Curiosamente, Robert Smith garante que a sua infância e adolescência foram felizes. Talvez não tivesse muitos colegas com quem partilhar o amor pelo rock psicadélico ou pela literatura, que tornaria especiais tantas das letras dos Cure, mas era suficientemente inteligente para se misturar com os colegas, quando lhe era conveniente. O futebol, carreira que em criança chegou a sonhar para si, permitiulhe ser aceite em círculos que nunca pronunciariam as palavras «glam-rock». Fã do Queens Park Rangers, clube de Londres actualmente na segunda divisão, Robert Smith equiparava o seu desporto favorito ao mundo da música: «essas minhas duas paixões eram uma só», confessou à Les Inrockuptibles. «[O futebolista] George Best, John Lennon e Mick Jagger eram igualmente sublimes e misteriosos para mim. Estas pessoas não eram como nós: eram super-humanos».

Super-humano, ou extra-terrestre, era também a ideia que Robert Smith fazia de Jimi Hendrix. Em teoria, o famoso concerto do guitarrista americano no festival Isle of Wight, em 1969, foi o primeiro espectáculo musical a que Robert assistiu. Na prática, nem por isso: o irmão mais velho, a quem frequentes vezes se refere como «guru», levou-o com ele para o festival, mas acabou por deixá-lo fechado na tenda quando encontrou companhia feminina disposta a outras aventuras. Então com dez anos, Robert Smith perdeu a única oportunidade de ver o seu herói ao vivo e da experiência só recorda «uma tenda corde-laranja e o fumo de charros».

Os Cure na primeira metade dos anos 80

Os Cure na primeira metade dos anos 80

Quase uma boys-band

The Obelisk, Malice, The Easy Cure foram estes alguns dos nomes que, de 1973 a 1977, a primeira banda de Robert Smith assumiu. Apesar de mostrar mais iniciativa e vocação para líder do que os companheiros de grupo, que iam de colegas da escola a amigos de amigos, o ainda adolescente fazia de tudo para evitar ser o centro das atenções. Mesmo na época de maior popularidade dos Cure, algures entre The Top (1984) e Disintegration (1989), Robert Smith desprezaria os «efeitos secundários» da fama, lamentando não poder sair à rua sem ser reconhecido e criticando as estrelas pop para quem o estatuto de celebridade era mais importante do que fazer boa música.

Nos anos que levariam à formação dos Cure, a postura já era esta Robert Smith escrevia as músicas e as letras, inspirando-se muitas vezes nos clássicos da literatura que devorava, mas recusavase a cantar. «Quando começámos, eu não era o cantor. Era o guitarrista-ritmo bêbado que escrevia aquelas canções esquisitas», explicou ao Baltimore Sun em 1989. A dificuldade em encontrar um vocalista decente ajudou-o a chegar-se à frente. «Acabava sempre por pensar: "até eu fazia melhor que isto". Então comecei a cantar, primeiro uma canção, depois duas... Odiava a minha voz, mas ainda odiava mais a dos outros», reconheceu, comparando a sua forma de cantar à forma como falava ligeiramente gingona.

No mesmo ano em que Robert Smith se estreou como vocalista, a banda ganhou um concurso de jovens talentos, cujo prémio era um contrato com a editora alemã Hansa. Em 1977, Smith (guitarra e voz), Laurence Tolhurst (bateria), Michael Dempsey (baixo) e Porl Thompson (guitarra) entravam em estúdio cheios de esperança, mas depressa compreenderam que a Hansa, editora que representava artistas como os Boney M e vários grupos «teen», não tinha escolhido os Easy Cure pelo seu talento. «Achavam que podiam transformar-nos num grupo "teen". Queriam que fizéssemos versões», garantiu Robert Smith à Creem Magazine.

Quando os alemães não estavam à espreita, os Easy Cure imploravam aos técnicos do estúdio que os deixassem gravar alguns inéditos. Por insatisfação mútua, o contrato com a Hansa seria dissolvido, mas o imberbe vocalista, mostrando algum do instinto que salvaria os Cure repetidas vezes, conseguiu para si os direitos de autor das canções já gravadas. «Killing An Arab» era uma delas.

Criada por Robert Smith aos 16 anos, «Killing An Arab» é, até hoje, uma das canções mais populares dos Cure, e também uma das mais polémicas. Lançado em 1978 como single, depois de o neo-zelandês Chris Parry engraçar com a banda e lhes oferecer aconselhamento e um contrato, o tema deve o seu título ao livro O Estrangeiro, de Albert Camus. Smith leu a obra, uma das principais do movimento existencialista, quando ainda andava no liceu, e quis transpor para canção a cena em que o protagonista Mersault decide, sem razão aparente, assassinar um árabe, sob o tórrido Sol da Argélia. O contexto intelectual de «Killing An Arab» escapou por completo a alguns radialistas americanos que, em 1986, quando os Cure lançaram uma compilação de singles incluindo esse tema, acharam por bem associá-lo aos raides aéreos que os Estados Unidos faziam, então, na Líbia. Perante os protestos da Liga América Árabe, os Cure foram convidados a retirar o tema do disco, acabando por colocar na capa do LP um autocolante em que se demarcavam de «qualquer preconceito e da consequente violência».

Em alguns dos primeiros concertos dos Cure (que entretanto perderiam quer o «Easy» do nome quer o guitarrista Porl Thompson, por ser «demasiado virtuoso»), a presença de grupos de skinheads mostrava que o título do primeiro single da banda se prestava a confusões. Não raras vezes, a noite acabava com confrontos entre músicos e «manifestantes». Nem «Killing An Arab» nem «Boys Don't Cry», outra das primeiras composições dos Cure, seriam incluídas em Three Imaginary Boys, o primeiro longa-duração do grupo, gravado em tempo recorde com a assistência de Chris Parry. Lançado em Novembro de 1979, Three Imaginary Boys deixaria Robert Smith insatisfeito, apesar da boa reacção de algum público e imprensa a canções como «Fire In Cairo» e «10.15 Saturday Night», um curioso relato de uma noite de sábado sem programa à altura, ao qual não faltava sequer o som da torneira da cozinha a pingar, como que sublinhando a neura do protagonista. Apesar do som seco e algo minimalista desta estreia, Robert Smith mostrou sempre algum alheamento da cena punk, pelo menos a nível musical. O seu objectivo, no primeiro disco, era fundir as melodias dos (punks) Buzzcoks e dos Banshees.

A caminho do fundo do poço

Depois de Three Imaginary Boys, Robert Smith jurou que nunca mais deixaria em mãos alheias a produção dos álbuns dos Cure, pelo que Seventeen Seconds, o segundo álbum dos ingleses, lançado em Abril de 1980, foi co-produzido pelo cantor. Mais atmosférico que o seu antecessor basta dizer que é aqui que se encontra «A Forest», um dos mais reconhecíveis temas dos Cure, Seventeen Seconds marcava também a entrada de Simon Gallup na banda. O baixista estiloso substituía assim Michael Dempsey, rapaz pacato a quem os excessos da vida na estrada não caíram bem. Smith respirava de alívio, até porque a forma de tocar de Gallup, mais simples que a de Dempsey, servia melhor os seus propósitos: despir as canções de artifícios, honrando alguns dos seus heróis. A cassete que o «chefe» dos Cure tocou nas gravações, para inspirar os companheiros, dava o tom: «Madame George» de Van Morrison, «Fruit Tree» de Nick Drake, uma peça de ballet incluída na banda-sonora do filme 2001: Odisseia no Espaço (que Smith viu dezenas de vezes) e a versão de Jimi Hendrix de «All Along The Watchtower», de Bob Dylan. Low, de David Bowie, também rodou com insistência durante as gravações de Seventeen Seconds, um álbum sombrio mas não tão negro como Faith, editado um ano depois, no dia do aniversário de Robert Smith.

Marcado por uma temática quase religiosa, reforçada por títulos como «The Holy Hour» ou o tema-título, Faith era, na realidade, o retrato da primeira grande depressão de Robert Smith. «Tinha 21 anos mas sentia-me muito velho. Não tinha esperança nenhuma no futuro. Sentia que a vida não fazia sentido. Não tinha fé em nada. Não via o propósito de continuar a viver», afirma na biografia dos Cure, Never Enough. A morte da avó de Smith a inspiração de «Funeral Party» -e da mãe de Tolhurst não ajudaram a fazer do terceiro disco dos Cure um álbum festivo. O crescente consumo de cocaína e a sombra de Ian Curtis, que se suicidara há menos de um ano, agravaram o estado mental da banda, que atingiria um mínimo histórico um ano depois, com Pornography.

Então como hoje, tocar ao vivo representava uma boa parcela dos rendimentos de uma banda rock. Por alturas de Faith, os Cure actuavam com regularidade na Europa Central e do Norte e foi precisamente aí que alguns dos episódios mais bizarros do seu historial de palco tiveram lugar. Por convicção e, provavelmente, por incapacidade de sacudir a depressão, os Cure faziam dos concertos cerimoniais intensos e agoniantes. Os pedidos para que a banda tocasse êxitos modestos mas divertidos, como «Boys Don't Cry» ou até «Killing An Arab», davam mau resultado: mais do que uma vez, Robert Smith e Simon Gallup saltaram do palco para bater nos próprios fãs. «É estranho, porque não é nada a minha maneira de ser», reflectia Smith em 2003. «E nem sequer era divertido. Na verdade, foi muito feio, mesmo».

Lydia Lunch, a performer e poetisa que acompanhou os Cure em algumas datas da Picture Tour, confirma que o abuso de drogas, a depressão e o álcool eram os denominadores comuns da digressão. Mas, citada na biografia Never Enough, faz o que pode para ilibar o carácter de Robert Smith: «sempre o achei terrivelmente querido, sensível e tímido». Nesta altura, e apesar de ainda não ter desenvolvido o seu peculiar «penteado», Robert Smith era visto como «o rei dos góticos» ou «o senhor do negrume». Mas a imprensa musical, sobretudo no Reino Unido, tendia a não acreditar na autenticidade dos Cure. Quando começou a preparar o quarto álbum ou seja, logo após a desastrosa digressão de Faith, Smith pensava desta forma: «eu sabia que, comparados [com o suicídio do] Ian Curtis, os Cure eram considerados fajutos. Subitamente ocorreu-me que, para tornar este álbum convincente, ter-me-ia de matar», confessou em 2000 à Uncut. «Se queria que as pessoas respeitassem o que estávamos a fazer, teria de dar o derradeiro passo».

O suicídio, afinal, acabou por ser «apenas» musical. «One Hundred Years», a faixa de abertura de Pornography, é possivelmente o mais deprimente épico dos Cure, arrancando com a frase «it doesn't matter if we all die» e arrastando um riff doentio por mais de seis minutos. «A Short Term Effect», uma canção sobre drogas, «The Hanging Garden» ou «The Figurehead» aprofundavam o imaginário autodestrutivo e seriam veneradas, anos depois, por bandas como os Deftones. «Eu tinha duas escolhas», resumiu Smith em Never Enough. «Ou desistir ou fazer um disco e deitar tudo cá para fora. Ainda bem que fiz o disco; teria sido muito fácil desaparecer». Gravado madrugada fora, depois de um «aquecimento» diário à base de ácidos e álcool, Pornography não fez muito pela amizade entre os membros da banda, com Tolhurst a ser progressivamente marginalizado por Smith, nem pela vida social dos Cure.

«Perdi todos os meus amigos, porque estava incrivelmente insuportável, horrendo, egocêntrico», lamenta o vocalista, que escreveu todas as letras durante um fim-de-semana encafuado num moinho. Nem Tolhurst, então prestes a passar da bateria para as teclas, nem o produtor Phil Thornalley têm tão más memórias das sessões de Pornography, mas em Never Enough confirmam o ambiente pouco jovial das gravações: «queríamos fazer o álbum mais intenso de sempre. Já não sei bem porquê, mas queríamos», conta Tolhurst.

Robert Smith

Robert Smith

A "morte" em palco

A crise existencial de Robert Smith não era atenuada pelos ácidos que começara a consumir depois de se tornar amigo de Steven Severin, dos Banshees, e que o levaram a passar dois dias das sessões de Pornography escondido debaixo do sofá e de um monte de lençóis. Decerto com a melhor das intenções, a editora contemplara, no orçamento do álbum, 1600 libras para cocaína valor que, alegadamente, só chegou para uma semana. Quanto à cerveja, velha amiga dos Cure desde os tempos em que a camioneta de digressão tinha sido comprada a um suinicultor, continuava a marcar presença de tal forma que a banda decidiu empilhar as latas vazias no corredor, proibindo o pessoal da limpeza de destruir a «escultura», que segundo Tolhurst chegou a medir metro e meio.

Pornography título inspirado por um debate sobre pornografia entre a feminista Germaine Greer e Graham Chapman, dos Monty Python, que a banda apanhou por acaso na televisão acabou por surpreender a banda, ao instalar-se no top 10 inglês. Mas o pior estava para vir: se a digressão de Faith fora complicada, a de Pornography testou a resistência e as certezas dos Cure. «Achava que estava tudo a acabar. Odiava o Simon, o meu amigo de sempre, mais do que ninguém», confessou Robert Smith. A banda chegou mesmo a voltar a Inglaterra, depois de uma escaramuça entre vocalista e baixista, mas retomou a digressão, persuadida por um raspanete do pai de Smith. Novamente na Bélgica, o «rei dos góticos» cedeu à tentação de, efectivamente, acabar com tudo. «Senti que era a última oportunidade de acabarmos de forma memorável, da pior maneira possível», explica em Never Enough. Antes de um concerto em Bruxelas, Smith anunciou que, naquela noite, iria tocar bateria (algo que nunca fizera em público). Gallup reagiu dizendo que, nesse caso, ficaria com a guitarra, o que deixou Tolhust, cada vez mais alheado e debilitado pelo alcoolismo, com o baixo nos braços.

No final do insólito concerto, um dos roadies dos Cure, amigo de Gallup, invadiu o palco para insultar Robert Smith ao microfone. Smith atirou-lhe as baquetas à cabeça e a bulha em que a banda se envolveu, nos minutos que se seguiram, deu a todos os presentes a certeza de que os Cure tinham acabado de morrer em palco.

O próximo álbum dos Cure, The Top, só chegaria dois anos depois. Com o final da digressão de Pornography, a banda voltou a casa e cada músico seguiu o seu caminho. O mais color ido foi, sem dúvida, o de Rober t Smith que retomou o convívio com Steven Severin, num período que ficou conhecido como «as férias químicas» do líder dos Cure. Smith juntou-se à digressão dos Banshees como guitarrista, papel que lhe agradava porque podia evitar toda a burocracia ligada a ser a figura principal da banda. Participou no álbum ao vivo Hyaena e criou um novo grupo com Severin, os Glove, cuja ética de trabalho consistia em tomar LSD e ver filmes de série B a horas impróprias para cardíacos. Ao mesmo tempo, uma r enovação da «marca» Cure tinha lugar.

A digressão de Pornography de título «Fourteen Explicit Moments» foi a primeira em que os Cure mostraram ter uma imagem reconhecível. Em palco, e para sublinhar o tormento que lhes ia na alma, apresentavamse de baton vermelho à volta dos olhos, para que com o suor a tinta derretesse, dando a impressão que os músicos choravam lágrimas de sangue. Foi preciso conhecerem Tim Pope, um excêntrico realizador habituado a ensinar políticos a falar na televisão, para que as pinturas faciais e cabelos tufados se tornassem em imagem de marca. Pope foi chamado pelo manager Chris Parry para «aligeirar» a imagem da banda e realizar um vídeo para «Let's Go To Bed», um single escrito por Smith com o objectivo de perder boa parte da sua base de fãs. «Quis destruir o mito dos Cure e alienar o público que tínhamos ganho», revelou à Uncut. No mesmo comprimento de onda, «The Walk», que Peter Hook, dos New Order, acusaria de ser um plágio de «Blue Monday», e «Lovecats» mostraram ao mundo a face mais leve dos Cure.

Para surpresa de Smith, os três singles, mais tarde reunidos na compilação Japanese Whispers, foram bem recebidos e levaram ao aparecimento dos primeiros «clones» do cantor, e das primeiras fãs apaixonadas também. A direcção mais pop da banda, com a qual Smith nem sempre se mostraria confortável, seria replicada em The Top, praticamente um disco a solo do vocalista, apesar do contributo do novo baterista Andy Anderson, da permanência apática de Tolhusrt na formação, do regresso de Porl Thompson e da repescagem do produtor Phil Thornalley para guitarrista. Para alívio da editora, Smith acabaria por escolher os Cure e abandonar a digressão dos Banshees, apresentando a Siouxsie um atestado médico. «Fui ao meu médico de família. Quando me viu entrar no consultório, só me disse "o que quer que andes a fazer, tens de parar já"», disse à Mojo.

E a salvação é... Vinho do Porto

Por volta de 1985, os Cure estavam a entrar no seu período dourado, no que a vendas diz respeito. The Head On The Door, o álbum que abre com o «hit» «In Between Days», iria escancarar as portas da América à banda, agora reforçada com o retorno de Simon Gallup.

Até o tema «Blood», que pela letra podia ser confundido com uma canção religiosa ou gótica, fora na realidade inspirado pelo Vinho do Porto «Lágrima de Cristo», que Smith emborcara com inspiradores resultados. Vinho foi o que também não faltou durante as sessões de Kiss Me Kiss Me Kiss Me, o álbum duplo que fez da banda gigantes na América.

Gravado no Sul de França, perto de Cannes e St. Tropez, o disco mais solarengo da história dos Cure teve como combustível todas as garrafas de Chateau de Miraval que a banda conseguiu encontrar (a casa tinha vinhas a toda a volta e o aluguer dava acesso à adega). Foram, naturalmente, tempos felizes para os Cure e até Robert Smith optou por abrandar o controlo criativo, convidando todos os músicos a contribuir com canções e dar a sua opinião.

Cada proposta era depois votada pelos demais, num processo que Smith comparou, jocosamente, ao Eurofestival da Canção. Canções como «Just Like Heaven» e «Why Can't I Be You» fizeram dos Cure super-estrelas não só na Europa, como nos Estados Unidos e na América Latina, onde as visitas do grupo eram sinónimo de motins. Arreliado com o estatuto de vedeta e com a proximidade do 30º aniversário, Smith voltou ao fundo do poço, com uma ajuda dos ácidos.

Quando mostrou o novo álbum à editora, Robert Smith ouviu dos executivos a mesma expressão aplicada, anos antes, a Pornography: suicídio comercial. Foi com redobrado contentamento que o músico viu Disintegration um disco longo, denso, quase sinfónico vender mais do que qualquer dos seus antecessores. «Lullaby», inspirada pelas histórias de terror que o pai de Smith lhe contava à noite, tornou-se um dos temas mais conhecidos de sempre dos ingleses, ajudado pelo famoso vídeo em que o vocalista é devorado por uma aranha gigante; «Pictures of You», sobre o dia em que Smith decidiu queimar todas as fotos do seu passado, foi um êxito planetário, e «Lovesong» revelou-se uma bela prenda de casamento de Smith para Mary Poole, a sua cara-metade desde a adolescência. Nos Estados Unidos, a fama dos Cure crescia de forma desmesurada: para tentar dar menos concertos, Smith e Gallup alegaram ter medo de andar de avião e chegaram aos Estados Unidos de barco, mais precisamente a bordo do transatlântico Queen Elizabeth II. «Cheguei à América todo estragado», diz Smith em Never Enough. «Cinco dias num barco com 47 bares e um casino. Parecia uma digressão antes da digressão». O esforço de tocar em estádios de Costa a Costa rendeu à banda cachês milionários e a Smith a construção de uma fortuna que o levaria a ser considerado, anos mais tarde, uma das estrelas pop mais ricas do mundo. Mas nem tudo eram rosas: Laurence «Lol» Tolhurst, que durante anos a fio se manteve na banda sem contribuir para a música, e que todos os membros dos Cure usavam como bode expiatório e alvo de partidas, foi por fim expulso da banda e perseguiria Robert Smith com um processo judicial relativo à autoria de canções e até do próprio nome da banda. Perdeu, mas conseguiu curar-se de um muito grave caso de alcoolismo e, recentemente, fez mesmo as pazes com o antigo colega de escola.

A banda que não sabe dizer adeus

Desde Seventeen Seconds, o segundo disco dos Cure, que Robert Smith ameaçou repetidas vezes acabar com a banda. Alegadamente, a perspectiva de um fim ajudava os músicos a trabalhar com mais afinco. A verdade é que, em 2008, os Cure parecem mais longe de dizer adeus do que nunca. Depois do êxito moderado de Wish, o álbum de 1992 popularizado por «Friday I'm In Love», os Cure tiveram o primeiro contratempo sério em muitos anos, com o pouco apreciado Wild Mood Swings (1996). «Em Inglaterra, a britpop matou-nos», reconheceu Smith, que nessa altura recrutara para a banda um exroadie e um ex-fã de Cure. A improvável ressurreição aconteceu com Bloodflowers, de 2000 o derradeiro disco dos Cure para a editora Fiction, criada 20 anos antes por Chris Parry, satisfez Robert Smith de tal forma que foi promovido a terceira parte da trilogia «negra» da banda, depois de Pornography e Disintegration.

Com um novo ânimo, em parte transmitido pelas numerosas bandas do revivalismo new-wave e pós-punk que, em entrevistas, referiam os Cure como referência, a banda gravou o 12º álbum com o produtor Ross Robinson, conhecido pelo trabalho com bandas como os Korn ou os Slipknot. A digressão americana que se seguiu, na companhia de «novatos» (e devotos dos Cure) como Interpol, Muse ou Mogwai, que Smith adora, restabeleceu alguma da popularidade dos Cure na América, apresentando-os também às novas gerações.

Actualmente, Robert Smith leva uma vida pacata com a mulher, numa casa à beira-mar, perto de Crawley, onde cresceu. Aos 49 anos, continua a achar-se «imaturo» para ter filhos, mas fala com entusiasmo do papel de mega-tio (Robert e Mary têm, ao todo, mais de 20 sobrinhos). Quanto ao estereótipo de artista torturado que o perseguiu durante anos a fio, o veterano tem agora uma posição serena. «Quando um taxista me reconhece, diz-me "ah, você é o gajo do 'Friday I'm In Love!'"», explicou à Rolling Stone. «Nunca nenhum me disse "Você é que é o Padrinho do Gótico!"». O negrume dos Cure, acredita Smith depois de uma série de discos de cortar os pulsos, sempre foi sobrevalorizado. «Quando fizemos o Disintegration, as pessoas disseram que estávamos a voltar às nossas raízes», comentou em 1993, em entrevista à Spin. «Mas, na verdade, as nossas raízes são o "Boys Don't Cry" e esse tipo de pop idiota».

Originalmente publicdo na BLITZ de março de 2008