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“Achtung Baby” faz 25 anos. E em 1991 os U2 nasciam outra vez

Em 1991, deixavam para trás o “sonho americano” para mergulharem num “pesadelo europeu”: Achtung Baby levou os de Dublin até Berlim no último voo com destino à Alemanha de Leste, na véspera da reunificação. Nascia aí uma “nova” banda

A década de 80 foi intensa para os U2, que se inventaram na face da história do rock, percorrendo o longo caminho que os levou do modesto palco de Vilar de Mouros até aos telhados da baixa de Los Angeles. Como é óbvio, a carreira de Bono Vox, Larry Mullen, Adam Clayton e The Edge não começou na vila minhota em agosto de 1982, mas esse concerto simboliza na perfeição a primeira etapa de uma longa caminhada efetuada pelos labirintos pop da década de 80. Entre Boy (1980) e Rattle and Hum (1988) os U2 não percorreram apenas o caminho que os levou da Irlanda até ao mundo, mas também aquele que os viu transformarem os ecos do punk em poderosa máquina rock personalizada, épica e perfeitamente distinta. A carreira dos U2 na década de 80 assemelha-se a uma peregrinação da porta de casa até à Terra Santa do Rock. A entrada na derradeira década do século XX exigiria dos U2 uma nova atitude, um novo som, enfim, uma nova perspetiva.

Em 1992, nas páginas da revista Details, o jornalista Sean O'Hagan detalhava a transformação dos U2 com Achtung Baby e citava a opinião de Bono: «Uma das coisas mais difíceis que ser parte dos U2 implicava era não pertencer a nenhuma tradição. No passado fomos em busca de uma tradição onde nos pudéssemos encaixar. Quer dizer, sentimo-nos próximos da soul por causa da espiritualidade e do sentido de abandono; sentimo-nos próximos do rock and roll porque é capaz de confrontar qualquer assunto de frente; até sentimos uma empatia com a folk porque lida com ideais intemporais, não com matérias juvenis. Mas, em última análise, os pontos de referência dos U2 nunca fizeram sentido. Agora já não procuramos encaixar em nada. Já nem nos consideramos sequer uma banda de rock and roll».

A BASE DE TODOS OS PROBLEMAS

Esta racionalização do lugar dos U2 no mundo foi uma das fontes de conflito na abordagem a Achtung Baby. A verdade é que este álbum não haveria de representar apenas o olhar dos U2 sobre um mundo à beira do colapso, mas também o reflexo de dramas pessoais o divórcio de The Edge, os abalos matrimoniais de Bono e internos: a primeira fase das gravações de Achtung Baby em Berlim traduziu-se num fosso cavado entre Bono e The Edge, por um lado, e Adam e Larry, por outro.

Conscientes de que a próxima etapa na história da banda precisava de uma nova sonoridade, Bono e The Edge procuraram inspiração fora do eixo clássico que tinha alimentado a fase «americana» do grupo.

Em 1990, a Europa tinha descoberto um novo pulsar com as raves a servirem de combustível a um novo tipo de contracultura e a música de dança a reclamar a urgência que o rock parecia ter perdido. Os U2 acusaram esse novo toque. A versão de «Night and Day» de Cole Porter com que contribuíram para a compilação Red, Hot and Blue, de 1990, apresentava um recorte mais eletrónico, com a bateria a ser «reduzida» a um loop, e o trabalho de The Edge e de Bono na banda sonora da produção teatral de A Laranja Mecânica levou-os a investigar os cruzamentos entre rock industrial e eletrónica levados a cabo por gente como os Young Gods ou Nine Inch Nails.

Em At The End of The World, livro de Bill Flanagan que documenta atentamente esta fase da banda, Larry Mullen abordava as convulsões internas de forma franca e direta: «De repente, tratava-se de desligar aquele mundo diferente de Rattle and Hum para nos ligarmos a outro. E isso é muito complicado de fazer. Quando nos ligámos a Rattle and Hum, perdemos o contacto com as nossas origens que foram sempre uma demanda de novos caminhos. Alguns de nós levaram menos tempo a encontrar a direção do que outros e isso causou imensa tensão dentro da banda. Porque pela primeira vez», sublinhava o baterista, «não havia um consenso musical. Enquanto no passado, mesmo se todos pudessem não concordar, havia sempre um grau de entendimento do que se estava a passar. Mas ninguém sabia do que raio estavam os outros a falar. E essa foi a base de todos os problemas».

Os problemas exteriorizaram até o círculo imediato da banda e alargaram-se à equipa de produção, com Bono e Daniel Lanois a um passo de trocarem agressões durante as gravações. A verdade é que esses conflitos ecoavam as tensões interiores de uma banda a procurar entender as consequências de uma rápida ascensão ao topo do mundo. Brian Eno escreveu sobre este álbum na Rolling Stone e elegeu a atmosfera de Berlim como um dos fatores dominantes da temática do álbum: «A cidade de Berlim tornou-se num cenário conceptual para o álbum. A Berlim dos anos 30, decadente, sensual e sombria, a ressoar contra a Berlim dos anos 90, renascida, caótica e otimista. Tudo isso sugeria uma imagem da cultura numa encruzilhada». Uma imagem que refletia a própria banda, em busca de renovar a sua identidade e de um caminho para o futuro.

U2 em 1991

U2 em 1991

COMEÇAR DE NOVO

As sessões iniciais decorreram em 1990 nos míticos Hansa Studios onde Brian Eno já tinha trabalhado com David Bowie (parte da sua «trilogia de Berlim» foi aí registada, incluindo "Heroes"). Situados em Berlim Ocidental, bem perto do recentemente desmantelado Muro, esses estúdios tinham sido construídos num antigo salão de baile usado pelas altas patentes das tropas SS e simbolizavam eles próprios o poder de transformação e regeneração, tendo atraído ao longo dos anos gente como Iggy Pop, Tangerine Dream, Depeche Mode, Killing Joke ou Nick Cave. Collapse Into Now, o registo final na carreira dos R.E.M., foi igualmente gravado nos estúdios Hansa. Nesse local, os U2 procuraram desconstruirse para se voltarem a erguer de novo.

Daniel Lanois foi o produtor eleito para dirigir os trabalhos, assistido pelo engenheiro Mark «Flood» Ellis. Brian Eno foi igualmente recrutado para servir como uma espécie de «seguro estético» o papel do lendário produtor não era o de intervir nas sessões diárias, mas aparecer no estúdio de vez em quando para, nas suas próprias palavras, «apagar tudo o que soasse demasiado a U2». Tendo em conta o aspeto exploratório das sessões e as novas direções desejadas por Bono e The Edge, as sessões revelaram-se, como já referido, complexas e tensas, mas o aparecimento das bases para «One», durante um improviso coletivo, funcionou como a cola que o grupo necessitava e como a alavanca real que permitiu aos U2 arrancarem literalmente o novo álbum à incerteza, às dúvidas e às tensões. Depois do Natal e do fim de ano, a banda reuniu-se de novo em Dublin, alugando uma mansão que rapidamente foi rebatizada como «Dog Town». O trabalho intensificou-se depois da chegada a Dublin, com alguns acidentes de percurso importantes, como o roubo de fitas que resultaram no mais notório bootleg dos U2 as famosas Salome Sessions, ou a intervenção de Eno, que se viu obrigado a atirar para o lixo muito do trabalho realizado pela banda, insistindo depois que o grupo tirasse duas semanas de férias, mesmo tendo em conta a aproximação inexorável do deadline para a entrega do álbum. Steve Lillywhite foi depois contratado para ajudar nas misturas, que decorreram em Windmill Lane, com o trabalho a estender-se praticamente até ao embarque de The Edge no avião para Los Angeles, para onde levou as fitas do álbum para a masterização.

Com o álbum concluído e uma capa que de certa forma remetia para o mosaico de Exile on Main St, dos Rolling Stones o design era de Steve Averill, colaborador regular dos U2 o grupo ainda teve que lidar com um solavanco chamado Negativland militantes anti-copyright que lançaram no final do verão de 1991 um EP de título U2 que parodiava «I Still Haven't Found What I'm Looking For», numa tentativa de chamarem atenção para o conceito de «fair use» (que permitia a citação de obras alheias) numa indústria prestes a ser tomada de assalto pelo fenómeno do «sampling». A Island processou os Negativland e os U2 mantiveram-se à margem do conflito enquanto preparavam a edição de «The Fly», o single de apresentação escolhido para funcionar como uma espécie de pedrada no charco. Em novembro de 1991 o álbum saiu finalmente para as ruas. A 9 de janeiro de 1992, Elysa Gardner mostrava-se rendida nas páginas da Rolling Stone, ecoando o tom geral das críticas na imprensa musical que por todo o mundo saudou Achtung Baby como um triunfo artístico: «Rattle and Hum o resultado de um vaidoso namoro com as raízes da música americana não foi um desastre completo, mas era suficientemente mal orientado e bombástico para gerar preocupação. Com Achtung Baby, os U2 tentam uma vez mais alargar a sua paleta musical, só que desta vez as suas ambições são realizadas».

O FUTURO DO ROCK

As ambições dos U2 resultaram de uma sede de futuro, de uma vontade de não se conformarem a serem meros performers, integrados numa tradição que começava a dar sinais de falência num planeta prestes a ser transformado pela revolução tecnológica da internet e das comunicações globais. A Zoo TV Tour que se seguiu refletiu esse mundo em transformação, transformando por completo a relação dos U2 com os palcos, debatendo-se sobre o poder da televisão e das comunicações em geral. Adam Clayton resumiu a Sean O'Hagan essa nova determinação dos U2, usando um tom determinista no discurso para deixar claro que a nova etapa na vida da banda era absolutamente incontornável: «Tínhamos que chegar à geração da MTV», confessava então o baixista, referindo-se aos objetivos que animaram o trabalho de Achtung Baby. «E daqui para a frente, os U2 são uma ideia audiovisual». Uma «ideia audiovisual»: os U2 viram aí o futuro do rock and roll. Chamava-se concerto de estádio.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2011