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Jeff Buckley faria hoje 50 anos: o mito nasceu no dia em que o homem desapareceu

No dia em que passam 50 anos do nascimento de Buckley, recordamos o “cometa” que em poucos anos passou de músico talentoso a mito pronto a ser louvado por gerações futuras

O calendário marca o dia 29 de Maio de 1997. O cenário é a cidade de Memphis. Jeff Buckley e Keith Foti, amigo e roadie, caminham em direcção a um estúdio onde têm encontro marcado com a banda (que se encontra precisamente neste momento num avião em direcção à cidade no estado do Tennessee). Ao aperceberem-se que estão perdidos, os dois decidem descansar ao pé do rio. Jeff Buckley, sempre desafiante, entra nas águas do Wolf River com a roupa vestida e as botas calçadas, apesar dos receios e avisos de Keith Foti. Num rádio portátil pode ouvir-se «Whole Lotta Love» dos Led Zeppelin. Jeff Buckley entoa em voz alta as letras e brinca com a forma própria de Robert Plant cantar. Keith Foti tenta afastar o rádio para evitar que seja danificado pelas ondas provocadas pelos barcos que por ali passam.

Quando se vira, já não vê Jeff. Naquela altura só as luzes da cidade iluminam as tristes águas do Wolf River. A natureza tem estranhas formas de mostrar a sua raiva. O corpo de Jeff Buckley é encontrado seis dias depois. O homem que sabia demasiado acerca da vida e do amor havia sucumbido prematuramente e de forma trágica.

NOME: JEFFREY SCOTT BUCKLEY

Jeff Buckley cresceu rodeado de música e de músicos. É filho de Tim Buckley, músico folk que abriu os braços ao jazz, que abandonou Jeff quando este tinha ainda poucos meses. A sua mãe, Mary Guibert, era uma pianista e violencelista com formação clássica. Jeff Buckley começou desde cedo a ouvir Led Zeppelin, Jimi Hendrix e The Who, por influência do seu padrasto, e cantava sozinho e com a sua mãe, pela casa.

«Primeiro foram os seios da minha mãe e depois a música», conta Jeff Buckley numa entrevista à revista Mojo em 1994. «Toda a minha vida cantei a acompanhar o rádio. A minha mãe, que era pianista e violoncelista, costumava cantar para mim também. Íamos de carro para a escola com o rádio ligado, a tocar coisas melodiosas da Califórnia - Joni Mitchell, Crosby Stills & Nash. Comecei a cantar em encontros de família - o meu padrasto adormecia e a minha mãe ficava envergonhada, por isso - para afastar as atenções - eu cantava todas as canções do Elton John que sabia», recordava.

A sua mãe contou que o primeiro disco que Jeff Buckley alguma vez teve foi Physical Graffiti, dos Led Zeppelin. Pouco depois entrava em cena uma guitarra acústica que, supostamente, encontrou no armário da sua avó. Aos 14 anos, Jeff Buckley pediu uma guitarra pelo aniversário e a mãe comprou-lhe uma Gibson Les Paul. A guitarra e a voz passavam a estar no centro das atenções artísticas de Jeff Buckley, mas Mary Guibert contou que a certa altura o filho pensava em ser apenas um guitarrista talentoso, rejeitando a ideia de vir a pegar num microfone, algo que é visto como uma resistência em seguir os passos do pai.

As memórias de Jeff Buckley em relação ao pai eram poucas e, de certa forma, ambíguas. Com oito anos de idade, pouco antes de Tim Buckley morrer, a mãe levou-o a ver um concerto do pai. Jeff acabou por ficar com Tim Buckley durante uma semana e a partir daí passou a querer ser tratado não como Scotty Moorhead, o nome pelo qual era conhecido na altura, mas sim como Jeff Buckley. Apesar de não conhecer profundamente o seu pai, era-lhe impossível não se deixar influenciar por Tim Buckley, até pelas semelhanças físicas, nos gestos, no talento. «As pessoas que o conheceram têm, aparentemente, memórias mágicas dele, mas tem sido uma coisa claustrofóbica toda a minha vida», confessou Jeff Buckley em entrevista à Mojo em 1994.

«Acho que o meu pai e eu nascemos com as mesmas partes, como algumas pessoas que têm a mesma estrutura óssea, mas quando eu canto sou eu. A nossa expressão não é a mesma», concluia. Todos queriam ver em Jeff Buckley a continuação do pai Tim, apesar de o filho querer vingar na música por si próprio. Jeff Buckley não queria seguir os passos do pai no que dizia respeito à forma de encarar a vida - Tim Buckley morreu de sobredose de heroína quando o filho tinha oito anos - e tudo fez para evitar comparações. O conceito de «mártir» não o seduzia.

JUKEBOX HUMANA

Apesar de Jeff Buckley querer distanciar--se profissionalmente da memória de Tim Buckley, foi num tributo ao seu falecido pai, na igreja de St. Ann em Brooklyn, que começou a chamar a atenção - já depois de ter gravado uma maqueta. Após vários ensaios com Gary Lucas, conhecido pela sua colaboração com Captain Beefheart, Jeff Buckley actuou acompanhado pelo guitarrista e começou ali uma relação que iria marcar decisivamente o seu futuro como músico - tal como havia sido importante a mudança para Nova Iorque. «Fui convidado para tocar num tributo ao pai dele na igreja de St. Ann em Brooklyn, na Primavera de 1991, pelo produtor Hal Willner», revela-nos Gary Lucas, numa conversa há três anos. «Ele disse-me que o Tim tinha um filho chamado Jeff que, por sua vez, o tinha contactado para prestar tributo ao seu pai, que tinha falecido quando ele era ainda miúdo. Nunca ninguém tinha ouvido falar do Jeff. O Hal pensou que eu seria um parceiro para ele. Vi o Jeff no primeiro ensaio, a cara chapada do pai, mas verdadeiramente eléctrico».

Também Gary Lucas percebeu naqueles momentos que o talento de Jeff Buckley era por demais evidente: «Convidei-o para vir até ao meu apartamento em Greenwich Village, para trabalhar numa das canções do pai ("The King's Chain" do álbum Sefronia), liguei a guitarra e comecei a tocar», lembra.

«O Jeff começou a cantar e o resto é história. Disse-lhe que era uma verdadeira estrela, mas ele não pareceu acreditar em mim era bastante tímido e modesto naquela altura. Pedi-lhe imediatamente que se juntasse à minha banda, os Gods and Monsters, porque procurava um vocalista. Ele adorou a ideia», conta. «Algumas das canções que produzimos juntos, como "Grace" e "Mojo Pin", fizeram estremecer o mundo», afirma. Mas pouco depois da estreia ao vivo dos Gods and Monsters, Jeff Buckley telefona a Gary Lucas e diz-lhe que está de saída da banda. A razão? Jeff Buckley queria começar uma carreira em nome próprio, queria tomar as suas decisões e escrever o seu próprio caminho.

O primeiro passo consistia em agarrar a oportunidade de tocar em clubes e cafés de Nova Iorque - neles ganhariam forma originais seus mas, sobretudo, várias versões de canções de outros artistas. Jeff Buckley era, na altura, uma verdadeira jukebox humana. Foi em bares que aprendeu a conhecer-se, a experimentar com a sua voz. Aprendeu com nomes como Edith Piaf, Nina Simone, Morrissey, Van Morrison, Bob Dylan, Nusrat Fateh Ali Khan e os inevitáveis Led Zeppelin.

Aprendeu a descobrir na sua voz a liberdade que Robert Plant tanto apreciava, aprendeu a encontrar na guitarra de Jimmy Page uma fonte inesgotável de riffs rock. Não tardou muito até que a palavra dessas actuações - especialmente no famoso Sin-é - saísse dos bares e se espalhasse pelas ruas, chamando a atenção de muitas pessoas e de várias editoras. Avistavam-se limusinas à porta dos bares onde Jeff Buckley actuava. Começava aí, em definitivo, a história de uma ascensão meteórica que havia de levar Jeff Buckley à gravação de Grace.

Michael Tighe, Mick Grondahl, Jeff Buckley, Matt Johnson

Michael Tighe, Mick Grondahl, Jeff Buckley, Matt Johnson

UM DISCO CHAMADO GRACE

Antes de avançar para o disco de estreia, o ambiente mágico daquelas actuações ao vivo foi imortalizado num EP de quatro temas gravado precisamente no Sin-é. Jeff Buckley assinava com a Columbia Records mesmo antes de ter uma banda e sem que os seus responsáveis soubessem muito bem o que dali iria nascer. Todos percebiam que havia talento suficiente para que Jeff Buckley gravasse discos e fosse o sucessor de Dylan e Springsteen - era esse o desejo da editora.

Jeff Buckley não queria ser demasiado grande talvez por ter medo que a fama lhe roubasse a intimidade, mas só podia olhar para a frente. Para gravar o álbum que viria a chamarse Grace, Jeff não queria formar uma banda ao acaso. Queria as pessoas certas, músicos que também pudessem ser seus amigos, almas gémeas. E quando - em Setembro de 1993 - entrou nos Bearsville Studios em Woodstock, no estado de Nova Iorque, depois de várias semanas de ensaios, fê-lo com duas pessoas que já eram mais do que simples músicos: o baixista Mick Grondahl e o baterista Matt Johnson. Porque Jeff Buckley sabia perfeitamente o som que queria e era muito exigente nesse aspecto, recrutou Andy Wallace para a produção, alguém que tinha trabalhado com os Nirvana em Nevermind.

Contou ainda com a participação de Gary Lucas, que toca guitarra em «Grace» e «Mojo Pin», e do músico Karl Berger, que escreveu e conduziu os arranjos de cordas. Quem lá esteve descreve esses momentos como incríveis manifestações de criatividade. O que dali saiu ficaria para a História como um dos melhores discos da década de 1990. Um clássico anunciado.

Jeff Buckley reúne em menos de 45 minutos temas originais e canções de Leonard Cohen («Hallelujah»), Benjamin Britten («Corpus Christi Carol») e James Alan Shelton («Lilac Wine», celebrizada por Nina Simone), canções intimistas e temas explosivos e assumidamente rock. A beleza de tudo talvez resida no balanço entre ambos os registos. A voz de Jeff Buckley tornava-se, nesse preciso momento, uma das vozes maiores do rock dos anos 90.

Grace, apesar de ser uma primeira obra, tem um cunho quase derradeiro - Jeff Buckley vivia a música e a arte de forma obsessiva. O resultado é um disco com uma intensidade tal que muitos vêem nele o retrato perfeito das suas vidas. Numa entrevista à revista Juice, em 1996, Jeff Buckley fala sobre o seu disco de estreia editado em Agosto de 1994 como algo incontrolável, inevitável e necessário. O registo é vago: «Grace é como... muitas destas coisas... Não sei como descrevê-lo... É apenas uma série de coisas acerca da minha vida que eu queria colocar num caixão e enterrar para sempre para conseguir continuar».

Jimmy Page, o guitarrista dos Led Zeppelin (que confessou ter ouvido o disco vezes sem conta), aponta Grace como um dos melhores momentos da década de 90. Foi apenas um dos muitos músicos famosos a render-se às canções de Grace (outros foram Robert Plant, David Bowie ou Bob Dylan). A reacção do histórico guitarrista a um dos concertos de Buckley a que assistiu foi de espanto. Os dois anos seguintes foram de promoção a um disco que, apesar de não ter sido um sucesso de vendas (muitos disseram que não era suficientemente comercial), foi um êxito em termos de crítica e de formação de um culto. Dois dos concertos dessa fase foram lançados posteriormente em CD: Mystery White Boy e Live a l'Olympia (em Paris) registaram a intensidade de um Jeff Buckley com banda e com Grace no pensamento, intimista e explosivo ao mesmo tempo.

O ÚLTIMO ADEUS

A editora queria que o sucessor de Grace chegasse rapidamente. A pressão aumentava para Jeff Buckley. Após sessões de gravação com Tom Verlaine, guitarrista e vocalista dos Television, o perfeccionismo levou Jeff Buckley, eterno insatisfeito, a rejeitar o que tinha gravado. Aquilo que muitos viam como um excelente sucessor de Grace, era encarado por Jeff Buckley como uma obra menor. Ele, que não queria lançar uma sequela de Grace, muda radicalmente de ares ao decidir mudar-se para Memphis.

Escolheu a cidade do Tennessee para, em recolhimento, compor o seu segundo disco - foi conquistado por uma súbita vontade de estar sozinho. Para se recompor do bloqueio criativo pelo qual dizia estar a passar naquele momento. Na casa que alugou, não tinha mais do que uma cadeira, um gravador de quatro pistas, as suas guitarras e um colchão. Tudo aquilo que, na sua opinião, era necessário para construir a base das canções que integrariam o álbum.

Por esta altura o receio da fama crescia a olhos vistos. «Não quero estar em exposição, porque eu não sou. [hesita] Se a minha música fosse a cura para o cancro, talvez», afirmava o cantor de «Last Goodbye», em entrevista à revista Juice em 1996. «É apenas uma experiência individual. Sinto-me feliz por as pessoas gostarem da música em geral», conclui. O medo de desgaste da sua própria imagem e a vontade de experimentar sem o peso do seu nome terão levado Jeff Buckley a dar uma série de concertos em Dezembro de 1996, em que adoptou alcunhas como The Crackrobats, Possessed by Elves, The Halfspeeds, Topless America, Martha & the Nicotines e A Puppet Show Named Julio. Mas o percurso de Jeff Buckley aproximava-se a passos largos de um final trágico.

Com a morte de Jeff Buckley naquele final de tarde quase noite do dia 29 de Maio de 1997, afogado nas águas do Wolf River, o álbum que Jeff Buckley dizia ser tão bom ou melhor que Grace nunca chegaria a existir. Pelo menos não da forma que ele queria. As gravações com Tom Verlaine que Jeff Buckley renegou e as que fez num quatro pistas em Tennessee em solitário ganharam o epíteto de esboços quando a sua mãe Mary Guibert pegou no projecto (que viria a intitular-se Sketches for My Sweetheart the Drunk) para exibir ao mundo as canções do disco que nunca chegou a existir. Essas canções mostram um Jeff Buckley em aparente paz consigo mesmo e em momento inspirado. Nem a deficiência das últimas gravações retira um pouco que seja do brilhantismo de uma canção como «I Know We Could Be So Happy Baby (If We Wanted To Be)».

Muitos foram aqueles que perante a morte inesperada do artista insistiram na teoria de suicídio, mas a mãe e todos aqueles que o rodeavam negaram desde sempre essa possibilidade. Os seus amigos mais próximos afirmaram que Jeff Buckley estava numa das melhores fases da sua vida, depois de desfeito o bloqueio criativo que o impedia de chegar ao My Sweetheart the Drunk que ele tanto desejava. Jeff Buckley amava a vida e isso era claro para todos aqueles que o rodeavam.

O destino e a morte haviam de ditar que Jeff Buckley se transformasse num mito contra a sua própria vontade. A sua carreira foi brilhante mas curta. A sua estrela viveu pouco mas resplandeceu intensamente. Tal como aconteceu com tantos outros, o mito de Jeff Buckley nasceu no dia em que um homem desapareceu.

Texto: André Gomes

Originalmente publicado na revista BLITZ de junho de 2007.