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Jeff Buckley: como se fez um milagre chamado Grace

Quando lançou Grace, em 1994, Jeff Buckley tinha 27 anos e era, contra sua vontade, "o filho de Tim Buckley". Em 2010, André Gomes falou com os músicos que gravaram a obra-prima de Buckley-filho e conta como se criou um clássico. Jeff Buckley faria hoje 50 anos se fosse vivo

Como sucedeu com tantos outros álbuns na história da música, Grace só foi vendo o seu valor reconhecido com o passar dos anos, com o definir das memórias, com o chegar da distância necessária. Grace pertence ao grupo razoavelmente restrito de discos que transcendem as décadas, acumulando sempre uma intangibilidade rara e um significado maior. Com o passar dos anos, o mistério foi-se adensando quase apenas pela existência (Grace tem essa qualidade quase incorpórea), mas também por se saber que o seu criador não sobreviveu muito tempo para contar a história. Grace transcendeu-se ao próprio Jeff Buckley, ficando no ar até hoje a dúvida inquietante do que poderia ter sido a sua carreira se alguma vez tivesse chegado a ter uma. Ele, Buckley, que definhou cedo à vontade de viver, pergunta em "Eternal Life", de Grace: "What is love, where is happiness, what is life, where is peace?", mas o mesmo Grace leva-nos a crer que Jeff Buckley tinha as respostas para todas essas questões e um conhecimento privilegiado sobre o que se convencionou chamar amor. Basta percorrer as linhas desse seu disco de estreia para lhe encontrar um espaço eterno e essencial que se reflecte facilmente na vivência de cada qual; é um livro aberto que tem ainda todos os seus sinais vitais perceptíveis. Não abrimos um inquérito para apurar os motivos pelos quais Grace continua a ser para muitos o disco de uma vida, mas fomos atrás de alguns dos mais próximos colaboradores de Jeff Buckley para conseguirmos entrar no disco por outra porta. Passado tanto tempo, Grace continua a despertar nos seus intervenientes mais directos um orgulho e uma paixão inegáveis.

2 da manhã East Village Nova Iorque Gary Lucas, espécie de talismã no disco de estreia de Jeff Buckley, com quem escreveu "Mojo Pin" e "Grace", não tem palavras a medir para descrever a importância sempre crescente do álbum tanto tempo depois do seu lançamento: "Acho que é algo na forma como o Jeff conseguia comunicar toda a dor e a alegria de estar vivo com a sua voz, letras e música naquele álbum em particular que tocou profundamente as pessoas por todo o mundo", confessa. Gary Lucas, que surge nos créditos no disco pela sua "magical guitarness", não tem dúvidas: "Penso que é um dos grandes álbuns em que trabalhei e um dos melhores discos de todos os tempos". Mick Grondahl, baixista da banda que deu à luz Grace, tem poucas certezas mas arrisca várias hipóteses plausíveis. A primeira: "Pode ser que o álbum tenha o seu próprio estilo com um conjunto único de influências como Led Zeppelin, Billie Holiday, Van Morrison, Cocteau Twins e certos cantores do Médio Oriente". A segunda: "Julgo que também fala a muitas pessoas porque cobre um vasto espectro de emoções e percorre toda a escala de experiências do amor nas quais o Jeff estava muito interessado". E depois resume: "Basicamente, acho que é um disco muito honesto com uma imagética única, emoções de desejo, introspecção e a procura de uma identidade espiritual neste mundo sempre crescente de tecnologia e superficialidade. Para mim, Grace fala de e para a alma". "Conheci o Jeff na Universidade de Columbia na cave de uma igreja, no concerto de uns amigos na Primavera de 1993", recorda Grondahl. "Ele era hipnotizante e falámos sobre blues depois do concerto. Voltámos a ver-nos no Verão do mesmo ano. Via-se que ele tinha progredido ainda mais". E foi aí que tudo se deu: "Trocámos os nossos números de telefone e eu mencionei que também era músico. Assim começou uma belíssima amizade que se transformou em "projecto" quando tocámos pela primeira vez às duas da manhã no apartamento dele em East Village [Manhattan]". O trabalho iniciado nessa noite ganhou, mais tarde, o título de Grace. E apesar de Jeff Buckley pensar que Grace era "demasiado produzido" e recear que faltasse ao disco "espaço para respirar, já que é denso", sentia um enorme orgulho e satisfação com o trabalho concretizado pela banda durante esse período.

Grace antes de Grace Antes de ser, Grace já o era parece quase sempre um disco inevitável. Mas Grace não apareceu por magia: foi fruto de criação de Jeff Buckley com a sua banda, inspirada pelas suas muitas influências e pela decisão consciente de trilhar o seu próprio caminho, longe do nome que herdou do seu pai ou pelo menos sem querer depender dele para conseguir a sua afirmação. A sua relação com Tim Buckley, cantor malogrado dos anos 60 e 70, foi tempestuosa e, talvez por isso, Jeff Buckley quisesse distanciar-se do pai. "Acho que isso é verdade", concorda Gary Lucas, "mas o Jeff também adorava e respeitava muito a música do pai, sabia-a de trás para a frente. Quando ele cantava as canções do pai era incrível, ele tinha uma enorme sensibilidade em relação ao seu trabalho". Mick Grondahl diz não saber muito da relação de Jeff Buckley com o pai mas sabe algo verdadeiramente precioso: "Ele [Jeff Buckley] perdoou-o e fez as pazes com ele". E acrescenta: "Acho que não queria cair nas armadilhas que tramaram o pai, ou seja, cantar demasiado ou descontroladamente; queria ter bons conselheiros ao seu redor e não entrar nas drogas duras que, como sabemos, foram a [razão da] queda do Tim", afirma. Na celebração da independência, Jeff Buckley actuou durante meses em vários bares de Nova Iorque, procurando uma identidade própria, um espaço que pudesse chamar seu. E foi no célebre clube Sin-é, em East Village, que descobriu a sua zona de criação, o seu ADN. O calendário marcava 1992. Ali, só com a sua guitarra, todas as segundas-feiras, apresentava-se ao vivo prestando homenagem a um conjunto de vozes como Robert Plant, Nusrat Fateh Ali Khan, Bob Dylan, Edith Piaf, Morrissey, Leonard Cohen, Robert Johnson, e o seu público foi crescendo de actuação para actuação. Ao ponto de, passados poucos meses, os seus espectáculos serem verdadeiramente invadidos por executivos das grandes editoras, que perceberam logo ali o diamante em bruto, o talento enquanto jovem. Mick Grondahl não guarda dúvidas em relação à importância desses tempos no que toca ao crescimento criativo de Jeff Buckley: "Os concertos que ele deu em Nova Iorque foram o grau zero do seu desenvolvimento como artista solo e como líder de uma banda. No tempo em que ele tocou no Sin-é e na cena "downtown", apercebeu-se da sua capacidade para improvisar na guitarra e com a sua voz. Dizia muitas vezes que os artistas das versões que fazia eram os seus professores e levaramno a ideias que inspiraram as suas próprias interpretações". Merri Cyr, a fotógrafa que captou a imagem que mais tarde se tornaria na capa de Grace, partilha da mesma visão e não hesita em relatar esse momento único: "O Sin-é foi extremamente importante para o Jeff. Era um ambiente caloroso e amigável onde ele podia tocar sempre que lhe apetecesse. Podia experimentar, trabalhar nas suas canções e na entrega das mesmas, fazer sets de três horas se quisesse, tocar simplesmente". Merri Cyr acredita que foi mesmo ali que Jeff Buckley definiu as suas prioridades e começou a construir a sua personalidade musical: "Deu-lhe o sítio para trabalhar naquilo que ele estava a fazer. Assim que ele começou a ficar mais popular no Sin-é alguns dos manda-chuvas, os executivos da música, paravam por lá para o ver tocar. Era também em East Village, perto do apartamento dele e no centro da cena musical de Nova Iorque naquela altura". Numa frase: "O Sin-é foi a plataforma de lançamento de Jeff Buckley". "Conheci o Jeff quanto trabalhava para a Paper Magazine", lembra Cyr. "O editor, David Herskovitz, mandou-me fotografar um jovem músico que andava a tocar no Sin-é. Para a primeira sessão, fui ao apartamento dele e fizemos algumas fotos lá e no telhado. Logo ali senti que tínhamos uma ligação e tirei boas fotografias". Prossegue: "O Jeff gostava de ser fotografado. Naquela altura ainda não o tinha visto actuar mas senti que era um bom artista. Fui vê-lo pela primeira vez a actuar alguns dias depois no Sin-é". Nesse dia, Merri Cyr viu o talento de Jeff Buckley em bruto e a preparar-se para dar frutos a qualquer momento; testemunhou o momento em que tudo aconteceu.

"Tu vais ser uma estrela" Das ideias reunidas nessas actuações em Nova Iorque até à concretização das mesmas foi um abrir e fechar de olhos. Entre o lançamento do EP Live at Sin-é e Grace passaram-se apenas nove meses, tempos de gestação intensa e prolífica. Quem com Jeff Buckley partilhou a escrita de Grace e os momentos de estúdio que levaram ao seu nascimento descreve o processo como um momento de profunda criatividade. Para Gary Lucas era "puro êxtase": "Ele foi sem dúvida o melhor colaborador com quem trabalhei, sabia que fosse qual fosse a música que compusesse, ele voltaria com melodias absolutamente perfeitas e letras que cabiam na música como uma luva. Era muito fácil colaborar com ele. Em estúdio, deixavame estar sozinho a fazer as minhas coisas. Confiávamos um no outro implicitamente". A parceria entre Gary Lucas e Jeff Buckley rendeu a Grace as duas canções que abrem o disco, "Grace" e "Mojo Pin", reconhecidas até hoje como duas das mais enigmáticas do álbum: "Começaram ambas por ser instrumentais de guitarra solo que eu intitulei "And You Will" e "Rise Up to Be" e que o Jeff transformou em "Mojo Pin" e "Grace", respectivamente. E poucos sabem disso, mas os meus títulos originais foram criados para encorajar o Jeff a vir de Los Angeles para Nova Iorque, para trabalhar comigo e concretizar todo o seu potencial. "And You Will" vir para Nova Iorque e tornares-te a estrela de rock dos teus sonhos. "Rise Up to Be" para cumprires o teu destino e te tornares na estrela que és. Eram expressões positivas de uma certeza que eu senti e que queria comunicar com o Jeff", conta. "Grace" e "Mojo Pin" acabaram por ser também uma forma de unir os dois músicos, em altura de especial indefinição para ambos: funcionaram também como uma forma de animar o próprio Gary Lucas, que tinha visto recentemente a Columbia Records terminar o contrato que os unia. "O Jeff estava numa espécie de encruzilhada naquela altura, ele sentia que não estava a chegar a lado algum em Los Angeles e que ninguém o levava a sério". Para além de Gary Lucas, o triângulo criativo principal de Grace estabeleceu-se entre Jeff Buckley, o baterista Matt Johnson e baixista Mick Grondahl. Para este último, esse período de produção criativa foi verdadeiramente libertador: "Compor com o Jeff era uma colaboração constante e ele estava sempre bastante aberto às minhas ideias no que dizia respeito aos arranjos e partes de baixo. O Jeff acolhia as nossas ideias e estava ansioso para que todos viessem com as suas próprias ideias para cima da mesa". Cada momento em estúdio era uma partilha de sentidos e impulsos: "Gravar música com o Jeff era puro prazer porque ele estava no processo e na procura e não necessariamente no produto em si". Karl Berger, compositor e músico que contribuiu em Grace com arranjos de cordas, sentiu em Jeff Buckley a mesma liberdade criativa, o mesmo impulso livre para imprimir o seu contributo na mais profunda liberdade: "Ele deixou-me simplesmente fazer o que eu quisesse", conta. "Não corrigiu ou alterou nada do que eu trouxe. Gravámos os meus arranjos numa sessão apenas. Mais tarde, os produtores tiraram algumas partes do disco, por exemplo partes de violoncelo solo, que o Jeff adorava, mas que os produtores viram como rivais do foco na sua voz". Todos os colaboradores mais directos de Jeff Buckley alinham pelo mesmo diapasão quando toca a perceber as razões da unidade da obra: a liberdade que deu origem a Grace foi também a fonte do seu sucesso.

Um dom de Deus O lançamento de Grace em 1994 teve impacto considerável na imprensa, na indústria musical e até no imenso grupo de artistas que lhe reconhece hoje a inspiração e que a ele se referiu em inúmeras canções em jeito de homenagem. Mas talvez seja no mais comum e anónimo dos testemunhos que se pode sentir o pulso à influência do único mas marcante álbum de Jeff Buckley. Com o passar dos anos, mais do que no momento em que viu a luz do dia, Grace foi tornando-se património imaterial da humanidade e passou a fazer parte da vida de muitas pessoas. A sua voz tornou-se a voz de uma quantidade indeterminada de anónimos por todo o mundo, tornando-se imortal. Merri Cyr tenta explicar porquê: "O Jeff tinha um dom incrível e era capaz de tocar as pessoas de uma forma muito única e íntima. Vi-o canalizar essa magia em palco um semnúmero de vezes. Ele conseguia relacionar-se individualmente com cada pessoa numa plateia, tocá-los. Não sei se isso pode ser explicado, foi um dom de Deus", remata. Merri Cyr foi, ela própria, ao longo dos anos, receptora de alguns dos testemunhos individuais da marca profunda de Grace: "Recebi muitos e-mails de pessoas que me contavam quão profundamente Grace tinha mudado as suas vidas. Como os ajudou quando se sentiram totalmente sozinhos e isolados. Acho que a música ajuda as pessoas a sentir que, de certa forma, elas não estão sozinhas". Sendo Merri Cyr em parte responsável por aquilo que podemos ver hoje em Jeff Buckley, além da sua música e do que dele contam, perguntamos-lhe que memórias guarda do dia em que conseguiu a fotografia que deu a capa a Jeff Buckley, como desculpa para entrar nesse dia especifico em Nova Iorque: "O Jeff Buckley estava muito nervoso nesse dia. Havia muita pressão sobre ele, muitos executivos da companhia", recorda. "Uma enorme parte do meu trabalho nesse dia foi ajudá-lo a relaxar para que pudéssemos conseguir boas fotos. Algumas das primeiras fotos que tiramos nesse dia foram contra um cenário preto: ele tinha toda a sua energia encerrada e por isso começou a libertar-se e a saltar pelo cenário fora". Merri Cyr faz ainda mais um "zoom in" a esse dia: "Estávamos a fotografar em Williamsburg, Brooklyn, nos estúdios Arcadia. O dono, Billy, tinha um sótão muito bem decorado e construí alguns cenários lá também. Tirámos a foto da capa de Grace a meio caminho andado do dia. O Jeff estava num palco improvisado no sótão. No momento em que a foto da capa do disco foi tirada , estava a ouvir o Horses, de Patti Smith". O processo de escolha da capa do disco é também revelador da personalidade determinada e decidida de Jeff Buckley: "Uma das razões principais pela qual o Jeff escolheu aquela imagem foi o facto de se conseguir notar ao olhar para a foto que ele estava a ouvir música. Isso era muito importante para ele", sublinha. "Jeff escolheu a capa do álbum a partir de uma folha de contacto, não foi sequer uma das minhas selecções. Viu-a na folha de contacto e já tinha decidido que seria a sua capa. Tinha ideias muito específicas acerca daquilo que queria". A capa de Grace ganhou vida própria: "Com o tempo tornou-se icónica, e agora é difícil imaginar que pudesse ser qualquer outra", confessa. Mas nem todas as fotografias que Merri Cyr tirou a Jeff Buckley foram capas de álbuns. Algumas apareceram no livro A Wishedfor Song, Portrait of Jeff Buckley, editado pela própria Merri Cyr em 2002, e outras, imagine-se, nunca chegaram a ver a luz do dia. Mais uma vez, trabalhar com Jeff Buckley era sempre uma questão de independência, de auto-desígnio: "Ele permitiu-me fazer praticamente tudo aquilo que eu quisesse", afirma Cyr. "Nunca me disse para parar de tirar fotos e deu-me imensa confiança. Era fantástico ter a oportunidade de trabalhar de uma forma nada censurada".

Há uma luz que nunca se apaga A Grace seguiu-se a sua existência em palco. Os registos dizem que foram precisos dois anos e meio e 307 concertos para que Grace cumprisse a sua profecia, para que existisse em todas as suas potencialidades. Depois do lançamento do seu disco de estreia, Jeff Buckley quis levá-lo até aos seus limites se algumas vezes os teve e Merri Cyr estava lá nesse momento para registar com a sua objectiva cada movimento: "Via a banda todos os dias, durante a maior parte do dia e da noite". Por um momento estamos todos lá também: "Eu tinha os mesmos horários do que eles e senti na pele aquilo que era a vida na estrada. Tive acesso ao outro lado de uma sessão fotográfica. Deu para sentir como era a vida na família de estrada do Jeff, a dinâmica da banda. Era a única rapariga num autocarro de rapazes malcheirosos. Eles foram muito acolhedores e eu senti durante algum tempo que tinha sido adoptada por uma banda de irmãos", admite. Durante esses momentos de afirmação de Grace nos palcos, registou um Jeff Buckley diferente: "Parecia um pouco mais sujo e cansado nas fotos da digressão. Ele tinha consciência disso e terá gostado da honestidade dessas fotos, para que as pessoas pudessem vê-lo a sério". Mas Merri Cyr viu ainda mais, algo que a sua objectiva não conseguiria nunca captar. E o que Merri Cyr captou foi a indomável forma de ser de Jeff Buckley e a sua criatividade inquieta em constante evolução: "O Jeff nunca tocava uma canção da mesma forma duas vezes. Derrubava sempre as fronteiras de uma canção, experimentando com diferentes tempos, estados de espírito e formas de tocar", conta. Os tempos que se seguiram a Grace foram de grande mudança para Jeff Buckley: "A maior diferença de ele tocar na estrada em 1994 era o facto de ter um novo disco para promover e tocar com a banda o tempo todo. Era mais limitador no sentido em que a banda tinha de conseguir acompanhá-lo sempre que ele quisesse tentar uma nova abordagem. E isso retraiu a experimentação de certa forma". Merri Cyr traça as diferentes entre o antes e o depois de Grace: "Antes, quando ele estava a tocar canções em clubes, podia mudar o alinhamento, adicionar ou retirar canções, tentar canções obscuras de blues ou aquilo que lhe apetecesse. Com a banda, tinha um som maior mas tinha também de lhes dar espaço suficiente para que pudessem ver para onde ele ia. Lembro-me muitas vezes de ver membros da banda do Jeff com um ar perplexo enquanto tentavam perceber o que ele fazia. Por vezes, o Jeff não conseguia conter-se e punha cá para fora uma canção maluca de punk rock e seguia com isso". Dos dias na estrada, Merri recorda como "era fantástico ver o Jeff tocar a mesma canção num programa de rádio e, à noite, fazer com que essa canção tivesse um sentimento e significado totalmente". Terá sido um grau (exagerado?) de perfeccionismo que levou Jeff Buckley a insatisfazer-se com as canções que teriam dado origem ao sucessor de Grace, se este não tivesse rejeitado o disco que se tornou póstumo por decisão alheia ao próprio. Sobre o porquê de Sketches não ter passado literalmente de um esboço, Mick Grondahl tem uma visão privilegiada: "Na altura não sentimos que as versões ou algumas canções representassem aquilo que estávamos à procura. Excepção feita para a "Everybody Here Wants You", pela qual todos nos apaixonámos imediatamente" confessa. "Andávamos a escrever e a fazer "jams" com muita música diferente, depois da digressão ter acabado, e sentimos que as sessões com o Tom Verlaine [guitarrista e vocalista dos Television] deixaram algo a desejar tanto nas partes dele como nas nossas", relembra. Merri explica a rejeição de Sketches: "o Jeff era um perfeccionista. Trabalhava muito para fazer com que as coisas pudessem ser as melhores possíveis. Pensava no disco [Grace] como sendo o seu primeiro álbum, e estava sempre a experimentar e a criar nova música, e a olhar sempre para o futuro". Mas voltando a Sketches, e passado todo este tempo, Mick Grondahl diz ter feito as pazes com o trabalho que Jeff Buckley e a banda produziram para suceder a Grace: "Agora consigo entrar mais nele e cresceu em mim de uma boa forma". A mágoa, porém, está lá. "Deixa-me muito triste pensar que nunca chegámos a tocar aquele material ao vivo. Mas estamos todos felizes que Sketches tenha sido lançado assim, uma vez que permanece como um disco do nosso desenvolvimento na altura e um documento da nossa visão criativa. As canções no segundo disco de Sketches... são aquelas com as quais o Jeff se sentia mais feliz e aquelas em que íamos trabalhar na altura em que ele faleceu".

O último adeus Na noite de 27 de Maio de 1997, a banda de Buckley voou para Memphis para se juntar ao seu mentor. Na mesma noite, Buckley foi nadar para o Wolf River Harbor, um afluente do Mississippi, cumprindo um ritual habitual. De acordo com o depoimento de um roadie, que o acompanhava, Buckley terá desaparecido na água pouco depois de entoar o refrão de "Whole Lotta Love", dos Led Zeppelin. Oito dias depois, o corpo seria encontrado; a autópsia não encontrou quaisquer vestígios de drogas e a causa de morte oficial é "afogamento acidental". Tinha 30 anos. Porque guarda pouco espaço para as más memórias, Mick Grondahl prefere recordar a experiência de trabalhar com alguém como Jeff Buckley do que reter o seu final trágico: "Sentimos todos muito a falta dele mas eu pessoalmente sinto-me muito grato por ter tido a oportunidade de trabalhar e ter conhecido um dos artistas mais talentosos da minha geração". Gary Lucas recorda Jeff Buckley como uma das "almas mais apaixonadas e sensíveis" que já conheceu: "Era uma alegria imensa trabalhar com ele", conta, referindo-se aos momentos que deram lugar ao registo de raridades Songs To No One 1991-1992. "Ele tinha um espírito muito positivo", conclui. Grondahl não tem dúvidas de que Jeff Buckley foi uma pessoa de uma intensidade singular: "O Jeff era a personificação da paixão e pode também ser descrito como maníaco-depressivo, o que fez dos altos dele muito altos e dos baixos dele muito baixos. A música era a paixão dele, assim como as relações amorosas, nas quais ele se envolvia muito. Quando falavas com ele sentias-te a pessoa mais importante e ele ouvia as pessoas muito intensamente. Era um ser muito presente e consciente". Passados 15 anos sobre Grace, resta a obra, mas o que restou não é imóvel. É possível viver-se hoje em paz com a obra de Jeff Buckley? "Eu ouço a música dele de uma forma totalmente diferente hoje em dia", admite Cyr. Porquê?, perguntamos. "Já não me deixa triste".

Texto: André Gomes Fotos cedidas por Merri Cyr
Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2010