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GNR, 35 anos: Os homens não se querem rendidos

Em 35 anos foram pós-punk, pop de vanguarda, rock de massas e mais qualquer coisa. Gravaram álbuns seminais do pop/rock em português, encheram dois estádios de futebol, caíram a pique e levantaram-se com orgulho. No dia em que sobem ao palco do Campo Pequeno para um concerto de celebração, recuperamos uma extensa entrevista de 2011. O que é isso de ser um GNR?

Quando se pensa em modernidade pop é obrigatório pensar no Grupo Novo Rock. A edição de Voos Domésticos, álbum de versões atualizadas de repertório próprio, dá agora início a um período de comemorações das três décadas de uma carreira intensa que se mede pelos discos são 11 de originais mas também pelos sucessos e pelos concertos memoráveis dos Coliseus a Alvalade, da Alameda ao Pavilhão Atlântico que deixaram sempre claro que este é um grupo que, talvez como nenhum outro, soube sempre equilibrar favores do público com uma saudável arrogância estética. Trinta anos depois do início, na cidade do Porto, o trio nuclear dos GNR olha com algum desencanto para a sua própria história, continua a apontar o dedo e a revelar o lado incómodo que, volta e meia, lhes valeu alguns dissabores. O futuro, dizem, passa sobretudo pelos palcos. Tóli é o primeiro a apontar outro caminho no que a discos diz respeito, defendendo que, provavelmente, já não faz sentido fazer álbuns. À conversa numa esplanada do Parque das Nações, Tóli, Rui e Jorge exibem a determinação em que, afinal, seapoiam as três décadas que contam atrás de si. Têm orgulho na sua própria história e querem futuro. Mas não a qualquer custo.

Houve um momento na vossa carreira em que se teve a sensação de que Portugal poderia ser pequeno para a vossa música. Poderiam ter sido Voos Internacionais?
Rui Reininho: Essa foi a ideia que nos venderam, que tínhamos entrado num mercado de 240 milhões de potenciais clientes com a tal de CEE. Só que à música aconteceu a mesma coisa que às batatas... Mas nós tentámos, nosanos 80, fomos a festivais lá fora, Printemps de Bourges, Madrid, tocámos no Zénith em Paris. Fomos ao Brasil, Canadá, sempre com os discos às costas. Era difícil editar lá fora e tivemos sempre que jogar à defesa. Estivemos quase, quase a assinar por uma major em Espanha, a EMI...
Tóli César Machado: Mas isto é quase como aquela história dos cruzados que iam para fora lutar e quando retornavam a casa descobriam que a única coisa que tinha sido conquistada era o seu próprio castelo.
RR: É verdade. Nós chegámos e reparámos que o mercado em vez de se expandir estava a contrair-se. Mas eu cheguei a acreditar... Mas nunca se sabe, aqueles tipos velhotes dos blues, aos 70 anos descobrem carreiras internacionais...

Um efeito Buena Vista Social Club?
Jorge Romão: Mas é sempre preciso que apareça alguém a lembrar-se que esses velhotes existem. Nem nesses casos é simples.

Portugal continua a ser suficiente?
TCM: A verdade é que o mercado está cada vez mais pequeno.
RR: Em termos de espetáculos não nos podemos queixar, continuamos aí cheios de genica e vontade. E pegando na ideia dos cruzados, corto o pescoço ao primeiro que diga o contrário. Às vezes dá para perceber uma certa má vontade, mesmo de uma certa crítica que parece pensar «estes gajos nunca mais acabam» e parece desejar um daqueles flops que põe pontos finais nas carreiras. Já tivemos diversos atentados desses...

Como escolheram as canções de Voos Domésticos? Houve braço de ferro?
TCM:
Basicamente, tudo isto nasceu de um espetáculo a que chamámos, precisamente, Voos Domésticos, um conceito de espetáculo diferente que nos permitia tocar em auditórios mais pequenos. Não queríamos fazer o concerto acústico do costume: tínhamos percussões, eletrónica, eu a tocar piano acústico, e tínhamos uma violinista convidada, uma amiga nossa, russa, do Remix Ensemble. As quatro ou cinco datas que fizemos correram muito bem e colocou-se a hipótese de gravarmos o espetáculo. Mas a editora achou que era melhor fazermos um disco de estúdio, mais adequado à ideia de assinalar 30 anos de carreira. Acabámos por pegar nalguns dostemas do espetáculo, como o «Reis do Rock», o «Bellevue», e mantivemos a mesma linguagem que tinham em palco, mas depois começámos a abrir e fizemos coisas como o «Piloto Automático», já diferentes. E depois entrou também a visão do produtor, necessária para não se cair nos mesmos erros.

E para isso escolheram o Flak [guitarrista dos Rádio Macau e Micro Audio Waves]...
TCM:
... que também teve responsabilidades na escolha de reportório. Foi ele que sugeriu, por exemplo, o «Homens Temporariamente Sós». E depois pudemos redescobrir outras coisas, fugindo aos hits, a temas como «Dunas», por exemplo. Os únicos hits neste disco são o «Sangue Oculto», que ficou bem resolvido em termos de arranjos, e talvez o «Asas (Eléctricas)».
RR: Mas manteve-se muito a ideia do «ao vivo», mesmo na forma como eu canto. Como nos palcos, também em estúdio surgiram algumas novas palavras nas canções, às vezes apetecia-me meter «pescado» em vez de «pecado» ou...

...acrescentar uma Madonna ao «Vídeo Maria»?
RR:
Exatamente: o tipo de coisas que faço ao vivo e que assumidamente não quisemos corrigir.

Não houve, portanto, uma reverência museológica em relação ao vosso passado?
RR:
Não, até porque há outros grupos que o têm feito. E nesses há versões de coisas dos GNR bastante engraçadas. Dos More República Masónica, por exemplo, ou a versão do «Pós-Modernos» dos Lobo, que é bem engraçada. E depois há o material do Revistados, para mim as melhores versões que se fizeram dos GNR.

Tiveram que reaprender o vosso próprio passado?
RR:
Não pensámos muito, foi mais um exercício de memória: «deixa cá ver se um tipo assim com... 45 anos [pisca o olho] está ou não cheché». «Ao Soldado Desconfiado», por exemplo, comecei a ensaiá-la sem ter ido ouvir o original. Aldrabei um bocado, o que é normal...

Vêm aí também re-edições. Aproveitaram para voltar a ouvir os discos mais antigos?
TCM:
Não fui ouvir, nem quero ouvir. Não faz sentido, já chega ter feito este disco. Não preciso de ir ouvir nada do que fiz no passado.
JR: Não somos nada saudosistas...
RR: Nós tocamos tanto todas aquelas músicas que acabamos por nos desligar das versões de estúdio, os temas evoluem.

Mas às vezes o presente pode lançar nova luz sobre o passado: o vosso «Instrumental Nº 1» [lado B de «Sê Um GNR», de 1981], por exemplo, era punk funk em estado puro...
JR:
E eu ouvi DJs a tocarem esse single. E a soar bem no meio de um set.
RR: Sim, e há coisas dos TV On The Radio que me lembram alguns temas nossos, como o «TV Mural», por exemplo.
TCM: Mas houve outras coisas que ficaram muito datadas, como o «Portugal na CEE»...

Um hino...
TCM:
Talvez, mas não sinto esse tema como muito atual, acho que se datou muito.

Não parecem particularmente entusiasmados em celebrar o passado...
RR:
Para falar verdade, nem fomos nós que reparámos na data. Para nós, saía o disco e pronto, pontapé para a frente.
TCM: Os Xutos é que parece que fazem anos todos os anos e tiram muito bem partido disso. Nós não sabemos. Mas atenção, não renegamos o passado. Tenho orgulho em algumas das nossas canções, coisas que saíram bem, e nem sempre é assim. Mas não é disso que se vive, isto não é «ó tempo volta para trás». Somos mais uma banda que tem que concorrer com as outras e há para aí muitas bandas novas muito boas.

Quando se é Paul McCartney ou Eric Clapton vive-se sobretudo de uma memória...
RR:
Pensar assim até pode ser perigoso. Isso seria a última coisa que nos perdoariam... Às vezes até chega a ser incómoda, essa memória: «os tipos que encheram Alvalade». E eu penso: «mas não foi culpa minha, as pessoas é que apareceram». Ainda ontem, a passear por aqui, sentei-me ali ao pé do Pavilhão Atlântico e pensei como há coisas que não significam nada: «enchemos esta merda com a Sinfónica».
TCM: Mas já ninguém se lembra.
RR: A memória nacional é muito negativa. Aqui para nós, francamente, podemos não ter em Portugal músicos ou cineastas transcendentes, mas às vezes parece que temos a melhor crítica do mundo. Estou a ser um bocado cínico, mas apetece-me brincar com isto: fomos os primeiros a encher dois Coliseus e o Se7e pouco mais nos deu do que um rodapé, porque, sei lá, achavam mais importantes os Mler Ife Dada. Faz-me lembrar as conquistas do Porto e a atenção dada pelo jornal A Bola. Isso não nos deu nenhuma acidez, mas forçou-nos sempre a fazer mais e mais. Dá-me a ideia que e Deus me conserve a mim e aos meus capangas por muitos anos que só no final é que se vai dizer «ah, estes gajos eram bons».

Começou com o Camões e ainda não parámos...
RR:
Sim, não pára. Sentimo-nos muito injustiçados. Todos os anos, nos Globos de Ouro, é gente a passar para a frente e para trás. E nunca ninguém nos viu lá nomeados. Mas todos os anos nos dizem: «apareçam». E nós dizemos: «mas é para ganhar? Não sabem? Então não vamos».

Falta-vos então o Globo, uma comenda do Presidente...
TCM:
Falta-nos sobretudo um respeito mais sério pelo que fizemos. Se aparecesse uma marca a patrocinar uma digressão nossa com este disco, aí sim é que íamos sentir esse tipo de respeito. Para nós, o importante não são as medalhas, mas poder continuar a trabalhar e a tocar, a ter digressões pela frente. E isso é algo que não conseguimos, as datas não aparecem.
RR: Ainda estamos para aqui a tentar perceber como vai ser a programação de Guimarães, se vai ser demasiado elitista ou se tem espaço para gente como nós, se nos encaixamos ou não. Às vezes até basta uma boca paranão sermos mais chamados. Nós não conseguimos tocar no Porto por causa disso. Houve uma hipótese de um espetáculo para os 100 anos da Universidade do Porto e a Câmara disse «GNR não». Mas, estupidamente, na noite de fogo-de-artifício, no São João, a música que passa sempre é a «Pronúncia do Norte».

Terá Rui Rio um jeito especial para se erguer contra os grandes símbolos da cidade?
RR:
E não é só connosco. Há muita pequenez por aqui. E pensar que as Universidades já foram tão importantes para lutar por liberdades e agora têm que se vergar ao poder, são uma espécie de instituto de emprego para «jotinhas». Mas a verdade é que o rock ainda é revolução, ainda afronta muita gente. Isso magoanos, prejudica-nos porque não nos permite trabalhar, mas também nos dá força.

Sentem-se uma espécie de operários do rock?
TCM:
Sem dúvida, é a música que nos dá o nosso sustento.
RR: Sim, com todo o respeito. Nunca tivemos um subsídio, sempre vivemos do nosso trabalho. Graças às pessoas... graças a esta gente... é subir ao povo, como diria o grande Pedro Homem de Mello.

Nos anos 80 tinha-se a ideia de que quem abraçava o rock o fazia por pertencer a uma classe algo burguesa...
TCM:
Já não é assim. Eu sou profissional a tempo inteiro com os GNR, vivo disto.
RR: Sim, abracei esta vida, que é maravilhosa e que eu não renego, por opção, mesmo tendo em conta solicitações de uma certa cátedra, de uma certa academia. Às vezes até ouço o discurso do «eu não preciso da música para viver porque sou arquitecto ou advogado ou solicitador».
JR: Nós precisamos.
TCM: Nós nunca parámos um ano, por exemplo. Porque não podemos parar.
RR: E eu que estou mortinho para ir a Machu Picchu.
TCM: Mas não somos os únicos. Os Xutos também não podem parar. Viu-se agora com o que aconteceu ao Zé Pedro, aquilo não parou. Embora eles tenham outro tipo de apoios que nós não temos. Mas também são operários.

Recentemente, houve uma canção que parece ter soado a toque de reunir de uma geração. Não sentem que escreveram igualmente retratos de momentos da nossa história que podiam ter sido aproveitados?
TCM: Mas não foram, nem sequer pela publicidade. É curioso:
parece que fomos sempre antitudo, nunca fomos um grupo do regime, nem nunca nos deixaram vender nada, nem cerveja nem coisa nenhuma. Ninguém nos quer [risos].

Será que isso acontece porque são imprevisíveis?
RR: Talvez. Durante anos não tive direito ao direto televisivo por causa disso. Há estações em que não posso estar em direto: na Rádio Renascença, por exemplo. Essas coisas têm que se saber. Porque me hei de eu esconder? Para vender mais 15 discos? Eu não sou um tipo ordinário ou grosseiro. Mas também não me calo.
TCM: E as pessoas sabem que as coisas são assim. Ainda há pouco vimos aí um beija-mão na gravação de um hino. E nem preciso de dizer mais nada.

Há algum período da vossa história com que vivam menos tranquilos?
TCM:
Não, há já muito tempo que resolvemos todos os assuntos.
RR: Se calhar houve quem tivesse perdido o barco e tenha ficado arrependido, mas isso já passou. Houve alguma gente mais tolinha, embora com o seu talento, que tentou atrapalhar, mas as coisas acabaram por se resolver. E este senhor [aponta para Tóli] foi sempre importante nisso. Mais do que eu, que sou insidioso, ele não dorme descansado se as coisas não forem ditas. E isso é uma vantagem grande.

Um balanço da vossa discografia: quais são os vossos discos favoritos?
TCM:
Defeitos Especiais, pela irreverência. O Rock In Rio Douro, talvez o nosso disco mais popular. E o Popless, pela concepção do disco, pela produção.
JR: Há muita gente que também destaca o Psicopátria.
RR: Eu tenho que nomear o Independança, porque foi o primeiro e porque entrámos logo a matar. O Psicopátria porque é um disco pop e eu gosto muito de música pop. Acho que concordo com a escolha do Popless. E gosto muito do Voos Domésticos: tem coisas que eu conheço, tem surpresas e um lado de futuro.

GNR completos

Tudo o que você queria ouvir... finalmente.

Além de Voos Domésticos, álbum em que apresentam uma visão alternativa da sua própria carreira com regravações de clássicos como «Bellevue», «Sangue Oculto» e «Piloto Automático», os GNR preparam-se para assistir à re-edição de praticamente toda a sua obra pela EMI. Defeitos Especiais (1984) será pela primeira vez disponibilizado em CD, ao lado de Os Homens Não se Querem Bonitos (1985), Psicopátria (1986), Valsa dos Detectives (1989), Rock In Rio Douro (1992), Sob Escuta (1994), Mosquito (1998), Popless (2000) e Do Lado dos Cisnes (2002). Além dos álbuns, haverá ainda uma antologia que coleciona singles editados entre 1981 e 2011, e um DVD que reúne acervo vídeo do grupo telediscos, concertos e entrevistas.

Texto: Rui Miguel Abreu

Originalmente publicado na BLITZ de agosto de 2011