Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Leonard Cohen não vai sem uma última vitória

Três semanas antes de morrer, o músico canadiano lançou o seu derradeiro álbum. Nas páginas da BLITZ deste mês, Rui Miguel Abreu escreveu sobre o que, afinal, já soava a uma real despedida

Quando a Marianne da canção morreu, Cohen comoveu o mundo que não se distrai com coisas mundanas ao escrever: «Bem, Marianne, chegou o ponto em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a desmoronar-se e eu penso que te seguirei muito em breve. Fica sabendo que te sigo de perto e que se estenderes a tua mão conseguirás tocar a minha, penso eu». Quem sabe, agora que o Nobel aprendeu o caminho das palavras que se enchem de música, ou que enchem a música e que nos enchem a todos, talvez o velho mestre do Canadá, seco como o tempo, duro como as rochas, efémero como tudo, também possa receber a distinção e voltar a abrir a discussão sobre o que não merece discussão.

Como Dylan, Cohen tem sabido envelhecer. Mas ao contrário de Dylan, o homem que também cantou sobre torres, mas de canções, não quer fazer pazes com o passado e prefere encarar a morte de frente. Há um coro de sinagoga, solene, mas também subtilmente irónico, em «You Want It Darker», logo a abrir, e depois Leonard canta em «Treaty» sobre quem mudou a água para vinho «I tried but I couldn't get high with you» e propõe tréguas para apaziguar lutas internas, entre a carne e o espírito. E é tudo nobre, digno e desprovido de tumulto, para lá do estremecer de quem sente que a vida o abandona. Depois de Bowie, o mundo habitua-se a assistir à despedida dos seus símbolos.

Leonard Cohen faz tudo isso num disco de paz cinzenta, de luz negra, produzido pelo seu filho Adam, todo ele erguido sobre acordes menores, com ecos de country Orbisoniana, carregados de sombra, com a voz cansada, mas densa, a cobrir tudo como um negro e estranhamente confortável manto. «If you are the dealer, I'm out the game», declama, com inabalável tranquilidade budista. «I turned my back on the devil, turned my back on the angel too». Mesmo à beira do abismo da imortalidade, Leonard Cohen recusa deixar de nos oferecer as suas lições. Não é como um professor que quer impor, antes como um aprendiz que viu a verdade e sabe que não pode deixar de tentar uma última vez partilhar com todos nós o que ele sabe ser inevitável.

"You Want It Darker", último álbum de Leonard Cohen

"You Want It Darker", último álbum de Leonard Cohen