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Led Zeppelin, a banda sem medo

Depois de reeditar todos os álbuns de estúdio, Jimmy Page revisitou as sessões para a BBC que a sua banda gravou entre 1969 e 1971. Em Londres, o “guardião do templo” guiou-nos através dos túneis do tempo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Londres não está habituada a um calor assim. No metro, escutam-se avisos aos mais sensíveis: quem se sentir mal com as temperaturas superiores a 30° de um setembro atípico deve pedir ajuda e esperar que alguém lhes acuda na respetiva carruagem. Atravessada a ponte de Hammersmith, chegamos à zona sul da cidade e aos Olympic Studios, que visitamos pela quinta vez, novamente «a convite» de Jimmy Page. Depois de remasterizar e reeditar todos os álbuns de estúdio dos Led Zeppelin, o guitarrista decidiu agora desenterrar as BBC Sessions inicialmente lançadas em CD em 1997, aplicando-lhes o mesmo tratamento de luxo que aos discos de originais editados entre 1969 e 1982. Na versão em CD, são três as rodelas em que se aninham seis sessões gravadas entre 1969 e 1971. O destaque vai para uma sessão de três canções, gravada em 1969, que se julgava perdida e que, ironicamente, foi recuperada graças à pirataria que a banda e o seu manager, o implacável Peter Grant, sempre tentaram conter. Mas há também uma interpretação ao vivo de «Stairway To Heaven», gravadas sete meses antes da sua edição no álbum IV, ou os inéditos «Sunshine Woman» e «The Girl I Love She Got Long Black Wavy Hair». Sobre estes dias de criatividade selvagem e os seus planos para 2017 falou Jimmy Page, nos mesmos estúdios em que «Whole Lotta Love» foi gravada e numa conversa conduzida pelo radialista Johnnie Walker, da BBC. Aqui reproduzimos as suas revelações, em discurso direto.

O QUE HÁ DE NOVO

Numa das sessões que os Led Zeppelin fizeram, num programa da BBC World Service chamado Rhythm and Blues, de Alexis Korner, que era um dos grandes embaixadores dos blues, tocámos dois temas blues de Willie Dixon, mais a «You Shook Me», a «Can't Quit You Baby», e ainda criámos uma canção naquele preciso momento, chamada «Sunshine Woman». Há coisa de 20 anos, revisitei as canções da BBC e lançámo-las em CD. Nessa altura, aquela sessão não apareceu; ficámos a pensar que a BBC teria perdido as fitas ou que alguém teria gravado por cima. Isto é completamente inacreditável, mas a história que me contaram é que essas faixas apareceram na internet, e claro que houve logo um grande entusiasmo à volta da «Sunshine Woman», que as pessoas pensaram que era um outtake do Led Zeppelin II. Mas não era foi feita em estúdio. Tocámos o riff, dissemos 1, 2, 3, e vamos lá! Esta gravação que apareceu foi, aparentemente, feita na Europa de Leste por alguém que devia ser nosso fã e que, com um microfone, gravou tape to tape. Acabou por sair em bootleg, nós conseguimos ter acesso a estas três canções que nos faltavam e o John Davis fez um belo trabalho a remasterizá-las. Decidimos colocar a «Sunshine Woman» a abrir [esta sessão], por ser bastante abrasiva. Em relação à qualidade do som, tem de se dar um desconto, mas o tema é pura energia.

RÁDIO À MODA DOS ZEPPELIN

Eu já tinha estado nos Yardbirds e vi como a cena dos singles destruiu a banda. Nos Led Zeppelin, não quis ter nada a ver com singles. A nossa cena eram os álbuns. Nos Estados Unidos, as estações de rádio underground estavam mais estabelecidas, e chegavam a tocar álbuns na íntegra. Foi por isso que, na América, explodimos tão rapidamente ancorados no airplay das rádios e nos concertos também, claro. Em Inglaterra, como não tínhamos singles, não íamos conseguir ter airplay radiofónico. Por isso, as sessões da BBC foram a nossa forma de promoção em rádio. Na altura só havia uma mão cheia de revistas de música e nós queríamos ser ouvidos na rádio estas sessões eram a forma de o fazer.

MAGIA DE ESTÚDIO

As versões que aqui ouvimos de «Since I've Been Loving You» e «Stairway To Heaven» são em estéreo gravadas em 1971, na altura em que a BBC começou a transmitir em estéreo. Foram gravadas em mono, mas nós tínhamos a possibilidade de fazer overdubs, pelo que gravámos por cima da gravação original. Por isso é que ouvimos a voz do Robert [Plant] a entrar mais de uma vez ou o John Paul Jones a tocar teclas e baixo na mesma faixa. Quanto aos efeitos na versão de «Whole Lotta Love»: de vez em quando encontrávamos um super engenheiro, que gostava muito do que estávamos a fazer. A canção tinha acabado de ser gravada, neste mesmo estúdio! Mas o álbum ainda não tinha saído: a sessão da BBC foi em junho de 1969 e o disco [Led Zeppelin II] só saiu em outubro.

PASSAR NA AUDIÇÃO

Em 1969, tocámos no Playhouse Theatre, em Londres, para o programa de John Peel na BBC. Era um episódio piloto para um programa novo de música ao vivo e ainda bem que o fizemos: primeiro, porque foi muito bom poder dar um concerto inteiro. Depois, porque serviu para estrear algo pioneiro que acabou por ser aceite e deu origem a muitos outros concertos. Na caixa de luxo desta edição, encontra-se uma troca de correspondência que explica que o primeiro concerto que demos será uma audição. O mais engraçado é que fizemos as sessões e fomos chamados para fazer mais, e ao fim de quatro sessões recebemos uma carta da BBC a dizer: «passaram na audição». (risos)

CRIAR NO MOMENTO

Quando fizemos as primeiras sessões, levámos a «Communication Breakdown» e a «Dazed and Confused», porque mostravam bem as duas facetas do que estávamos a fazer. Mas, como geralmente gravávamos três ou quatro canções por sessão, começámos a inventar. E, nesta edição, há umas três canções que foram feitas nas sessões. Uma é a «Sunshine Woman»; outra chama-se «The Girl I Love Has Long Wavy Hair», e a outra é a «Travelling Riverside Blues», que as pessoas deverão conhecer melhor. Todas foram inventadas no estúdio. As pessoas perguntavam-nos porque é que não as gravávamos, mais tarde, mas nós estávamos a criar música livremente: ela jorrava. As coisas existiam naquele momento e depois avançávamos para outra. O etos dos Led Zeppelin era assim.

Led Zeppelin em 1969

Led Zeppelin em 1969

ORQUESTRAS, JAZZ, LED ZEPPELIN

A Warner e a EMI formavam muito bem os seus engenheiros de som. Em duas das sessões, gravámos no estúdio 4 dos Maida Vale Studios, o que significava que o complexo tinha mais três estúdios. Os engenheiros que trabalhavam connosco já tinham feito sessões com orquestras, música clássica, jazz, folk, rock, provavelmente até skiffle. Para eles, fazer algo tão avant gard que era, pois nós, nestas sessões, estávamos completamente destemidos, com aquela energia toda significa que eram grandes profissionais e fizeram um grande trabalho.

O VINIL COMO CONVITE

Quem tem este material todo é a BBC. Por isso, quando preparei esta edição, solicitei que me enviassem o que tinham em analógico, porque prefiro trabalhar em analógico. Enviaram-nos umas fitas e umas cassetes digitais, também. Há quase 20 anos que tinha feito as versões em CD das BBC Sessions, e havia bastante material que tinha ficado de fora. Com o renascimento do vinil, estava reedição tornou-se apetecível. Depois das reedições dos álbuns com companion discs, que nos deram uma imagem sonora panorâmica do que fizemos em estúdio, este docinho da BBC é ótimo, porque sentimos a banda a dar-lhe com força. Sentimos toda a energia, que é inegável.

SIMPLICIDADE DE MEIOS

O equipamento que tínhamos, geralmente, era bastante simples: não havia um ninho de microfones à nossa volta. O John Bonham tinha um equilíbrio tão natural, a tocar, que só precisávamos de dar espaço ao microfone para captar o som da bateria. Eu e o John Paul Jones éramos músicos de sessão, por isso estávamos habituados a ir para a BBC trabalhar neste tipo de condições controladas, em que cada segundo estava, literalmente, a custar dinheiro. Logo, éramos sempre muito eficientes, e o John Bonham era super rápido. Não havia cá tempo para uma cervejinha! (risos) Não se esqueçam que voltámos quatro vezes até nos convidarem para uma audição! Por isso, portávamo-nos bem. Quando éramos chamados enquanto músicos de sessão, fazíamos ali umas duas horas. Com os Led Zeppelin, não era nem mais nem menos tempo. Mas aí não íamos só ler uma pauta, íamos criar, também.

AS BOOTLEGS COMO FONTE

Na altura destas sessões, não me importava que as pessoas gravassem as sessões da rádio. Não via nada errado com gravar os programas em casa. Mas, tal como havia pessoas que trocavam cassetes entre si, havia outras que eram bastante mercenárias e ganhavam dinheiro com os bootlegs. Vias discos à venda e nem sabias o que estava lá dentro: podia ser um concerto gravado com um gravadorzinho minúsculo, em que a velocidade ia mudando porque estava a ficar sem pilhas. Não sabias e pagavas exorbitâncias por essas coisas. Por isso, comecei a ficar muito irritado com o mercado de bootlegs. Quando estava a preparar o último conjunto de edições, andei a ver o que havia por aí, para me certificar que o que íamos lançar nos discos e companion discs era o melhor possível, que eram coisas nunca ouvidas. E, quando já tinham saído todos os discos, fui a uma loja de bootlegs no Japão, onde têm autorização para vender esses discos-pirata, desde que tenham permissão das editoras, e comecei a ficar irritado ao ver que a loja já tinha um DVD do espetáculo que um amigo meu andava a dar, mesmo antes de chegar a Tóquio.

ESTÚDIOS DO CORAÇÃO

Dos estúdios em que gravámos estas sessões, gosto bastante do de Maida Vale e do Playhouse, que era um teatro em Embankment [em Londres] e ainda hoje recebe produções teatrais. Comecei por tocar lá com os Yardbirds, em acústico. Na altura, o Playhouse era um teatro com lugares sentados, usado para gravar programas de humor e onde havia uma pequena banda, por isso tinha equipamento de som. Gravávamos no palco, perante uma casa vazia. Era estranho, mas quando fizemos o piloto para o programa One Night Stand [em junho de 1969], tivemos público a assistir.

E AGORA?

Estas sessões são um documento histórico: aqui, vemos a banda a pleno vapor, sem perdoar, exibindo com todas as suas dinâmicas e o seu improviso. É um registo importante porque não há outra [estação] que tenha material como este. É muito bom haver um registo, porque sei que há pessoas que adoram algumas destas versões. Também é fixe por ser uma cápsula de tempo, na qual ouvimos a banda a evoluir, e apenas entre 1969 e 1971! Sempre em expansão. Venho tratando destas edições há bastante tempo, porque tive de ouvir tudo em tempo real, para escolher o que entrava nos companion discs. Agora que as reedições de estúdio e as sessões da BBC estão arrumadas, talvez seja altura de tirar o pó à guitarra no próximo ano.

Originalmente publicado na BLITZ de outubro de 2016