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Amy Winehouse, de corpo e alma: Ana Bacalhau, dos Deolinda, escreve sobre “Back to Black”

“Back to Black”, o último e mais emblemático álbum da cantora inglesa foi editado há 10 anos. Em 2013, pedimos a Ana Bacalhau que dedicasse algumas linhas a um dos discos da sua vida. A voz dos Deolinda foi generosa: leia aqui o seu texto

Diz-se que a importância que uma pessoa tem na nossa vida se mede, entre outras coisas, pelo facto de nos lembrarmos da primeira vez que a encontrámos. Não será uma forma de medição de relações cientificamente comprovada, mas estará, pelo menos no meu caso, empiricamente provada. O peso que a vida de outro tem na minha é diretamente proporcional ao baque que sinto quando o vejo pela primeira vez. Não me refiro especificamente a achaques de natureza romântica. Nem tão pouco a encontros que precisem de existência física. Poderá ser que essa pessoa, que importa tanto na nossa vida, nem sequer saiba que existimos. Mas o que ela parece representar conquista-nos a atenção e o coração.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Amy Winehouse. Em 2007, acabadinha de mudar de casa, liguei a televisão para me acompanhar nas arrumações e ouvi aquela voz, cheia de referências, mas livre de todas elas. Sem medo de ser apenas aquilo que era e que já era tanto. O timbre, pesado, mas ágil. Sem floreados excessivos, mas com os ornamentos certos no sítio certo, para enfatizar a palavra ou o momento devidos. A profundidade da interpretação deixava entrever a profundidade da emoção. Era uma cantora da alma, não havia dúvidas.

Depois, ouvi os arranjos. Os sinos, as palmas, os metais, as cordas, o ritmo frenético a comandar os destinos da canção, o wall of sound a enganar os ouvidos e a continuidade espácio-temporal. Mas, ao mesmo tempo, uma contemporaneidade no som, uma urgência nos sentidos e uma pertinência nos escritos que puxava a canção para os dias de agora, recusando-se a ceder a meros passadismos.

Já bem pertinho do ecrã, vi-a. Vi os seus longos cabelos pretos, a nascer de uma enorme e emaranhada beehive, as argolas grandes a enfatizar ainda mais a sua estrutura fina e delicada, o risco preto nos olhos, a carregar aquele olhar meio perdido, meio desafiador. E a avisar-nos desde logo, para que não nos queixássemos depois. «I told you that I was trouble / You know that I’m no good». E que bom que era encontrar tamanha candura num mundo carregado de discursos estudados e estratégias de carreira. Mas a sua inocência não era feita de cor-de-rosa. Era tatuada, era fumada, bem bebida e cheia de má-vida. Era a inocência que nasce da resiliência em ser-se individual num mundo que aprecia mais o seguidismo e o aspeto «certo». Back to Black.

De volta ao mundo dos sons negros, vistos e sentidos por uma rapariga judia de Londres. E tudo a bater tão certo. A bater bem forte, cá no fundo. Aquilo que nós dá a soul, aquilo que nos deu a Motown e a música de expressão afroamericana é, se quisermos reduzir tanto a uma coisa só, a honestidade. A honestidade de expressão, a honestidade de sentimentos. E como a honestidade é sempre intensa, a intensidade com que é cantada faz-nos levantar da cadeira, do sofá, do torpor das tarefas do dia-a-dia e obriga-nos a ouvir com atenção.

Amy, como outra mulher que tanto admiro, Janis Joplin, é um daqueles raros artistas que interessam tanto pela sua música como por si próprios. E assim é porque se puseram por inteiro nas canções que cantavam. No seu segundo álbum de originais, Amy deixa o jazz que tanto amava e que se ouve em Frank, e lança-se no universo sonoro e plástico da soul dos anos 1960, para contar a história da sua malfadada relação com Blake Fielder-Civil e para comandar uma boa parte da tendência musical e estética de finais dos anos 00. Suspeito que a sua influência artística se estenderá pelos anos que virão.

Back to Black é um disco seminal porque inspirou e continua a inspirar outras obras e outros artistas (eu, incluída) e, ao mesmo tempo, um disco clássico, perfeito na composição, letras, arranjos, som e interpretação, que condensa nas suas entranhas a marca do tempo em que foi feito e se liberta da marca temporal para se tornar numa referência musical de sempre. E Amy, lá dentro, em plena forma e a plenos pulmões, a confessarnos as suas verdades inconfessáveis. Será sempre assim que a ouvirei e que a lembrarei. Com o encantamento e assombro da primeira vez que a conheci.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2013